ISSN: 2595-8402
DOI: 10.61411/rsc34163
Publicado em 15 de setembro de 2023
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ANO 2023
ENSINO COLABORATIVO: DA EXCLUSÃO À INCLUSÃO
Milena Viana Medeiros Barbosa do Nascimento1; Maria de Jesus Rodrigues Duarte2; Patricia da Conceição Lima Torres3; Enayde Fernandes Silva Dias4
1,2,3,4Universidade Federal do Piauí, Teresina/PI, Brasil
“Me sinto um estranho no meu próprio ninho; Um frio na barriga, suando frio é como se meus Sentimentos?! Tivessem congelados
Os dias passam... e eu continuo me sentindo
um estranho... no ninho Suando frio, me sentindo frio;
Mais um dia, e amanheço como um estranho...
no ninho.”
(Mario Javmowich)
RESUMO
Durante muitos séculos a concepção de deficiência passou por diversas mudanças, refletindo assim na pessoa com deficiência e a sociedade. O objetivo deste escrito é refletir acerca do papel da escola no processo de desenvolvimento da pessoa com deficiência. A forma como a inclusão vem ocorrendo ao longo dos anos, quando se considera o currículo, é vista por diversos autores como um “modelo tamanho único”, ou seja, o currículo é apresentado de modo engessado e padronizado e, por isso, não atende a todas as especificidades existentes na escola. Diante disso, percebe-se a necessidade de abordagens universais como o Ensino Colaborativo na busca da qualidade do desenvolvimento do processo de escolarização de todos os alunos, visando promover uma educação de qualidade e equitativa.
Palavras-chave: Inclusão, Ensino Colaborativo, Escola.
ABSTRACT
For many centuries, the conception of disability has undergone several changes, thus reflecting on people with disabilities and society. The aim of this paper is to reflect on the role of school in the development process of people with disabilities. The way in which inclusion has been taking place over the years, when considering the curriculum, is seen by several authors as a “one size fits all model”, in other words, the curriculum is presented in a plastered and standardized way and, therefore, it does not meet all the specificities existing at school. In view of this, it is noticed the need for universal approaches such as the Collaborative Teaching in the pursuit of quality in the development of the schooling process for all students, aiming to promote quality and equitable education.
Keywords: Inclusion, Collaborative Teaching, School.
1 INTRODUÇÃO
A sociedade é constituída por seres heterogêneos, e, por conseguinte, é composta de sujeitos com aspectos diferentes, os quais fundamentam seu viver social nas trocas com seus grupos, com a religião, a política, a economia e a cultura, a fim de atender aos interesses dessa padronização estabelecida pelos grupos dominantes, por isso, um dos maiores desafios é o respeito à pluralidade e à diversidade, existente na sociedade em virtude do próprio sistema.
Nessa heterogeneidade, os elementos identitários são mecanismos que diferenciam e classificam os indivíduos nos seus diferentes grupos sociais. Contudo, é necessário salientar que esses elementos, também chamados de padrões, foram criados para estabelecer se o sujeito atende ou não ao esperado em determinado aspecto. Assim, classificações foram criadas para atender o grupo dominante, estabelecendo a relação entre dominante e dominado, sendo o primeiro aquele que atende ao padrão e o segundo aquele que está fora do padrão, surgindo assim o normal e o anormal. Por esta razão, o objetivo deste escrito é refletir acerca do papel da escola no processo de desenvolvimento da pessoa com deficiência, já que é um dos ambientes importâncias no desenvolvimento social, histórico e cultural dessas pessoas, visto que é a partir das relações entre os sujeitos que se possibilita o desenvolvimento dos demais aspectos que envolve os indivíduos.
Pensar no ser humano em sua plenitude é perceber esse sujeito enquanto um ser singular, o contrário disso se constitui em uma das barreiras que está cristalizada na sociedade. Possuir um corpo alterado, um corpo que não possui nem voz e nem vez, é uma das principais barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência desde os primórdios, uma vez que este corpo com limitação, em muitos períodos históricos, foi considerado inútil e, por isso, sem função, o que resulta em preconceito, inferiorização, ridicularização e tantos outros problemas de exclusão existentes na sociedade.
Nessa perspectiva, a educação é o ato de educar entre os indivíduos, transmitida através dos hábitos, costumes e valores repassados de geração em geração. É através dessa educação que as pessoas se socializam, desenvolvem as questões morais e éticas e entendem as regras para viver em grupo. (Cortina1; Canclini2, Bordieu3) Dessa maneira, na sociedade atual, existe a educação formal e a informal, no qual a informal se dá nos espaços não-escolares, como bibliotecas, museus, igrejas, hospitais, organizações não governamentais (ONGs), dentre outros espaços, e ocorrem ao longo da vida, mas não são necessariamente sistematizadas. Já a formal, ocorre nos espaços dos prédios escolares e o processo é sistematizado e organizado.
Assim, neste escrito, destacaremos a escola como espaço formal, o qual influencia diretamente na formação dos sujeitos, portanto, um espaço importante para os grupos sociais, uma vez que é a partir dessa instituição que as regras são incorporadas por meio do currículo, um dos mecanismos que determina o acesso das pessoas neste espaço, sobretudo a permanência, que é uma das grandes problemáticas, especialmente para as pessoas com deficiência, visto que esses indivíduos demandam práticas e recursos diferenciados dos demais alunos.
Os tipos de sociedades resultam em tipos de educação, pois os sujeitos são produtos das suas interações sociais, e é a partir dessa perspectiva que os sujeitos naturalizam aquilo do qual se é produto, e estranham aquilo foge ao seu padrão, portanto, é produzida uma compressão do que desejamos e do que experienciamos. Contudo, é necessário frisar que essa sociedade está em constante modificação e transformação, em um incessante movimento, pois quando é modificado o perfil desses indivíduos, também é modificado a sua necessidade, ponto este que diz respeito às pessoas com e sem deficiência que constituem esses espaços sociais4. As trocas de informações e valores resultam em outro ponto importante, que é a educação.
Embora já se tenha avançado nesse sentido, faz-se necessário refletir acerca da formação e das práticas dos professores frente à inclusão escolar. Dessa maneira, o Ensino Colaborativo, ou Coensino, surge como uma das novas possibilidades de organização do trabalho pedagógico a fim de promover a inclusão, pois é um serviço que visa atender às especificidades de todos os alunos, promovendo a parceria entre professor da sala regular e professor especialista, possibilitando a harmonia e a equidade no atendimento das especificidades dos alunos com deficiência na escola.
O Ensino Colaborativo, também chamado de Coensino, é conceituado, de acordo com Friend e Cook5, como “uma parceria entre os professores do ensino regular e especial, desde que os dois professores se responsabilizem e compartilhem o planejamento, a execução e a avaliação de um grupo heterogêneo de estudantes, os quais alguns possuem necessidades educacionais especiais”. Assim, esse modelo apoia- se no pressuposto de que esses dois profissionais devem desenvolver um trabalho conjunto no contexto da sala comum.
Dessa maneira, o presente artigo é fruto das discussões na disciplina de Educação e Sociedade, no curso de Doutorado em Educação do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a qual trouxe problematizações epistemológicas acerca da educação e da sociedade a partir das diferentes necessidades existentes entre os indivíduos nos aspectos históricos, políticos, econômicos e culturais, bem como a possibilidade de discutir a inclusão das pessoas com deficiência frente a essas questões embasadas em teóricos que dialogam sobre Educação, Sociedade e Educação Inclusiva.
2 METODOLOGIA
Este estudo adotou a abordagem qualitativa, pois visa os valores não quantificados, permitindo assim ao pesquisador a obtenção das informações de modo direto e amplo. Nessa perspectiva a pesquisa ocorre no ambiente de forma natural, de modo que é o meio que propicia a compreensão do que se pretende estudar. Dessa forma, segundo Richardson6, p.90,“a pesquisa qualitativa pode ser caracterizada como a tentativa de uma compreensão detalhada dos significados e características situacionais apresentadas pelos entrevistados, em lugar de produção de medidas quantitativas de características ou comportamentos.”
Reforçando essa ideia, Bogdan e Biklen7, p.11 afirmam que: “envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes”. Nesse sentido, essa abordagem visa os valores, as crenças, os interesses e de acordo com a realidade e o período histórico do lócus pesquisado e seus integrantes. O estudo caracteriza-se como do tipo descritivo. Para Oliveira8, esse tipo de pesquisa requer planejamento criterioso no que diz respeito aos métodos e técnicas que serão adotados na coleta de dados.
Já para Richardson6, o material obtido nessas pesquisas é rico em descrição de pessoas, situações, acontecimentos, inclui transições de entrevistas e de depoimentos, fotografias, desenhos e extrato de vários tipos de documentos. Nesse sentido, Oliveira8 define pesquisa descritiva como sendo aquela que centra-se em observar fenômenos, procurando descrevê-los, classificá-los e interpretá-los. Este tipo de pesquisa possibilita ao pesquisador realizar descobertas nos diversos contextos partindo do interesse do estudo, pois é uma análise mais profunda dos sujeitos e lócus pesquisado.
3 DISCUSSÃO
3.1 EDUCAÇÃO E SOCIEDADE: ALGUMAS REFLEXÕES
Levando em consideração que cada indivíduo tem sua forma de conceituar e pensar o mundo, ressalta-se o questionamento de Beck4: Em que mundo estamos vivendo? Partimos da premissa de que a sociedade está em constante modificação, e, portanto, a educação também. Assim, é importante refletir acerca dos valores e o sistema político vigente, sobretudo o Brasil, lócus da nossa pesquisa e dos nossos estudos.
As crenças e os valores transmitidos entre as pessoas partem do mundo em que elas vivem, portanto, são fatores determinantes para sua constituição enquanto sujeito. A formação do grupo recai e compõe a formação do indivíduo que faz parte desse grupo, todas as suas vivências que formam essa educação, o que determina a condição da própria existência. Assim, a educação funciona como um instrumento para manutenção ou transformação social dos indivíduos. Por esta razão, a educação não é reduzida apenas as instituições formais, mesmo porque outras instituições também cumprem tal função educativa.
Dessa forma, estabelecemos a relação entre o indivíduo, a sociedade e a educação, porque ele faz parte desses espaços concomitantemente. Assim, essa relação entre a sociedade e a educação também se dá através da transmissão de valores, crenças e de conhecimentos. A partir dessas trocas são desenvolvimentos novos conhecimentos. Desse modo, a configuração a qual as pessoas são inseridas, moldam e determinam os seus padrões, por isso afirmamos que se inclui em determinados grupos identitários ao tempo em que se excluí.
Vale ressaltar que mesmo com as contribuições acerca da fisiologia e anatomia das pessoas com deficiência e as mudanças em muitos aspectos de como essas pessoas viviam na sociedade, notamos que ainda ficaram resquícios em todos os períodos históricos, ou seja, o modo como essas pessoas eram vistas e tratadas reverbera no decorrer dos anos. O fato de ainda precisarem lutar para garantir direitos básicos, além de sempre se esforçarem para atender ao padrão na busca de igualdade social e tantas outras demandas ainda existentes, são exemplos dos desafios enfrentados por essas pessoas. Nesse sentido, compreendemos que somente a partir de uma alteração na forma de perceber e pensar esses indivíduos é que pode ocorrer uma real modificação no modo como são tratados pelo conjunto da sociedade.
Para essa transformação, dentro do desenvolvimento de uma determinada cultura, é criada a cosmovisão de mundo, ou seja, sua visão de mundo. Porém, quando isso é universalizada, todas as pessoas que não atendem a esses quesitos vão sendo percebidos como os diferentes, que segundo Beck4 “mesmo pessoas que não saem do lugar são cosmopolizadas”. Além do aspecto cultural, outros aspectos também são determinantes para essa perspectiva, como os aspectos sociais, econômicos e históricos, a fim de atender aos interesses dessa padronização estabelecida pelos grupos dominantes. Todos esses aspectos estão interligados e determinam como a sociedade olha para o que está dentro do padrão e para o que está fora dele, no julgamento do que é ou não aceitável.
A escola é considerada uma das instituições que promovem a mudança social dos indivíduos. É a partir das oportunidades propiciadas neste espaço e na busca de, por exemplo, um diploma de curso superior, que esse ponto de solidifica, corroborando ao que apontam Masschelein e Simons9 quando evidenciam que esse espaço é visto como sinônimo de progresso e de futuro, isso porque é na escola que as pessoas desenvolvem uma série de habilidades e competências durante seu processo de escolarização, visando adentrar nas instituições de ensino superior, sobretudo as classes médias brasileiras, que objetivam manter ou aumentar seu poder aquisitivo, ponto este que não é levado em consideração quando se trata de pessoas com deficiência, por ainda não terem direito ao mínimo que seria a educação básica.
Pensando nessa perspectiva, por ser uma instituição social, a escola, hoje, tem dois caminhos: a inclusão e a exclusão dos indivíduos e parte da premissa do que está ou não dentro dos padrões estabelecidos. Ainda existem inúmeras dificuldades para aquelas pessoas que não correspondem ao esperado dentro dessas normas, o que reforça o fato de que, o que não são considerados aceitáveis são excluídos. Em vez disso, deveria se pensar na perspectiva de uma ética do cuidado, da independência e da participação equitativa de todos nesse espaço, pois como afirmam Lypovetsky e Serroy10, p.150: “tudo passa pela educação”.
Os setores econômico e político influenciam diretamente as instituições escolares, por esta razão a escola passa a ser também objeto do mercado. Por conta da necessidade de mão de obra qualificada e dos altos índices de analfabetismo, especificamente no Brasil, começa um forte movimento para otimizar os processos de escolarização, sobretudo, por meio da consolidação do capitalismo como sistema econômico, a partir da Revolução Industrial, que visa à busca pelo lucro e ao acúmulo de capital, influenciando diretamente as escolas. Isso reitera o que afirma Reay11, p.428, que se usa “a escola como meios de alcançar a igualdade na sociedade”.
O capitalismo deu um novo direcionamento às instituições educativas. A busca pelo conhecimento rápido, às inúmeras intervenções de agentes externos, à objetificação e à banalização do ensino são fatores que dificultam os processos educativos, quando se tratando de ensino de modo geral, o que complica ainda mais o processo de escolarização das pessoas com deficiência, as quais não acompanham a rapidez exigida no mundo em que a instituição escolar também se tornou uma mercadoria.
Lypovetsky e Serroy10, p.150 afirmam que “a escola era uma instância supereminente e continua a sê-lo nos países pobres, e que o acesso à educação, não é garantido a todos”. Esse é um dos maiores desafios na sociedade atual, especificamente no Brasil, onde, apesar de existir um arsenal significativo de leis, o processo de escolarização ainda é muito falho, especialmente para os alunos com deficiência, que necessitam depreender muito mais esforços para que esse direito, de fato, seja posto em prática, sobretudo por conta do sistema econômico vigente, o qual visa a produção intelectual do alunado, fator este que, muitas vezes, não é correspondido pelo alunado alvo da educação especial, na visão dos professores e da própria instituição.
No século XXI, o que predomina é a “sociedade do desempenho”, por isso, muitas metodologias dos séculos passados não cabem mais atualmente, visto que a sociedade mudou e com ela suas demandas também mudaram, apesar do foco ainda ser a repetição e a memorização. Existe hoje uma exigência diferenciada focada na produção de capital, portanto, exige-se também alunos e profissionais mais qualificados e proativos para darem conta das demandas do mercado atual, o que reverbera diretamente nas pessoas com deficiência, causando pontos de tensões e dificuldades no processo de escolarização desses sujeitos. O resultado disso é a criação de novas tendências, a fim de suprir e/ou minorar essas lacunas, sobretudo na educação básica.
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3.2 INCLUSÃO X EXCLUSÃO
Como já mencionado, a sociedade é feita por diferenças, e essas diferenças reverberam em todos os setores, destacando-se, neste escrito, a educação. Dessa forma, segundo Beck4, p.23 “as diferenças fazem a diferença! As diferenças entre as tradições culturais, as diferenças entre as populações ricas e pobres, as diferenças entre sistemas legais e as diferenças na geografia constituem a nossa estrutura cosmopolizada das oportunidades”. É a partir dessas diferenças que a sociedade se movimenta, assim, quando as pessoas não correspondem a um padrão, constituí um forte motivo para que sejam excluídas. No que diz respeito às diferenças, Canclini2, p.59 afirma que:
as práticas dos povos originários revelam quantas vezes as diferenças culturais, em vez de afirmarem como absolutas, inserem-se em sistemas nacionais e transnacionais de trocas, para corrigir as desigualdades sociais.
O processo de colonização repercutiu principalmente na produção de conhecimento, que ainda tem muitos dos aspectos, hábitos e costumes dos povos que colonizaram. No entanto, mesmo depois da independência dos povos colonizados, ainda se perpetua aspectos, sobretudo de subalternização aos eurodescendentes, especialmente na delimitação das normas e padrões que são impostos aos indivíduos por essas sociedades através dos aspectos históricos, sociais, econômicos e culturais, que determinam o modo que cada indivíduo se constitui enquanto ser social.
Portanto, é necessário refletir acerca das desigualdades na sociedade. Dubet12, p.549 destaca que “a escola cria suas próprias desigualdades, a economia cria suas próprias desigualdades, a política cria suas próprias desigualdades”, até porque as diferenças fazem parte da condição humana, e essas diferenças viram desigualdades humanas, passando a ser uma das grandes barreiras e desafios da sociedade, porque isso se dá pelas competições existentes nas relações sociais, uma vez que os espaços são hierarquizados e essas desigualdades precisam ser combatidas. Refletindo acerca dos conceitos inclusão e exclusão, Canclini2, p.92 traz que:
a sociedade, antes concebida em termos de estratos e níveis, ou distinguindo-se segundo identidades étnicas ou nacionais, agora é pensada com a metáfora da rede. Os incluídos são os que estão conectados, os outros são excluídos, os que veem rompidos os seus vínculos ao ficar sem trabalho, sem casa, sem conexão.
Evidenciamos, diante disso, que todos os sujeitos que compõem a sociedade estão diretamente envolvidos nesse processo relacional, pois podemos estar incluídos em um determinado grupo e estar excluídos em outro que não condizem com os nossos vínculos e realidades.
No Brasil, existe um forte movimento à exclusão das pessoas devido à raça, à etnia, à orientação sexual, à crença religiosa, ao gênero e aqueles que sofrem de algum tipo de transtorno ou deficiência por indivíduos que interpretam serem superiores a essas condições. Apesar de a luta por políticas públicas que favoreçam esses grupos também ser bem forte, Cortina1, p.13 acredita que, “para produzir mudanças na direção de ideias igualitários é necessário contar com a educação na família, na mídia e no conjunto da vida pública”, bem como a escola deveria ser uma instituição de combate e não de reforço de práticas de exclusão.
Sawaia13, p.8 evidencia a reflexão de que “a sociedade exclui para incluir e esta transmutação é condição da ordem social desigual, o que implica o caráter ilusório da inclusão”. Esse fator está diretamente ligado nas escolas, pois a exclusão é um processo que envolve o ser humano como um todo, é complexo e multifacetado, ocorrendo nas dimensões materiais, políticas, relacionais e subjetivas. Além disso, na sociedade atual um dos fatores que determina as desigualdades é o mecanismo de competividade, por conta do regime de meritocracia. Portanto, o combate a esse processo é a luta pelo direito à diversidade.
No que diz respeito a discussão acerca do significado de inclusão, Àlvarez14 aponta que este conceito extrapola a dualidade com o conceito de exclusão, por ser mais amplo e complexo. O autor indica que, de um lado, cresce cada vez mais a distância entre incluídos e excluídos, e, por outro lado, essa distância está pequena, tendo em vista que os incluídos estão cada dia mais ameaçados de perderem seus direitos, um sujeito pode sentir-se incluído em um aspecto e excluído em outro, ninguém é totalmente incluído e/ou excluído. Dessa maneira, Sawaia13, p.25 ressalta que:
a perspectiva de trabalho de combate à exclusão tem, ainda que prover níveis de proteção que garantam o exercício da cidadania, possibilitando a autonomia da vida dos cidadãos. Neste sentido, romper a relação entre a subordinação, a discriminação e a subalternidade, brutais em nosso país, é um dos desafios colocados.
A importância do sujeito enquanto sujeito é primordial, já que assim que ele consegue se perceber no mundo e encontrar ferramentas para romper com as subserviências impostas na sociedade, sobretudo no que diz respeito as questões de raça, gênero, etnia e deficiência. Dessa maneira, Valle e Connor15, p.98 chamam atenção para o fato de que “é importante mencionar que uma deficiência é apenas uma das características que um indivíduo pode ter”.
De acordo com Àlvarez14, p.2 além da exclusão social, a inclusão aborda outros aspectos como a “falta de participação e poder político, desemprego juvenil, desemprego e precariedade no trabalho, racismo, intolerância cultural, exploração econômica”, por isso, a importância de diversas políticas de inclusão social, a fim de atender essas questões. Além disso, o conceito de inclusão, muitas vezes é mantido de forma implícita ou é dado de fato, ademais, existem diferentes problemas nesse conceito e pluralidade de concepções por parte dos estudiosos dessa temática.
A escola é constituída por pessoas, as mesmas que compõem a sociedade, repercutindo nesta instituição as questões de inclusão e de exclusão dos indivíduos a partir de dois vieses: o libertador e o reprodutor. O viés libertador trata-se de que através da educação que as pessoas alcançam melhores condições sociais, e, portanto, são incluídas. Já o viés reprodutor diz respeito as reproduções de comportamentos e discursos, como, por exemplo, a exigência de se obter as melhores notas e está em posição de destaque, excluindo assim aqueles que não correspondem a esses aspectos supracitados, como a maioria dos alunos Público-alvo da Educação Especial (PAEE).
No que diz respeito à exclusão que ocorre nas escolas, Bordieu3, p.485 aponta que “o sistema de ensino é aberto a todos, e ao mesmo tempo estritamente reservado para poucos”, como é o caso das pessoas com deficiências, que, mesmo quando existe o acesso ao sistema educacional, a permanência desses indivíduos é cheia de desafios, desrespeitos e preconceitos, ocasionando na maioria das vezes a sua própria evasão e a desistência pela luta desse direito, que é interpretado muitas vezes como “um favor”.
Contudo, é importante ressaltarmos que a sociedade não é mera estatística, por isso, necessidades mudam à medida que as evoluções acontecem. No Brasil, muito já se modificou, nas escolas, a fim de atender a esse público heterogêneo. A inclusão das pessoas nesse espaço, como, por exemplo, as que possuem diferentes etnias, gêneros, classes sociais, raças e que são ou não deficientes, ainda se trata de um desafio diário, pelo fato de pertencerem ao grupo das “minorias”, assim é necessário desprender-se de esforços maiores para se adequarem ao aceitável.
Os séculos XIX e XX são marcados pela exclusão das pessoas com deficiência, em virtude da forma alterada de seus corpos, pois, o fato de não corresponderem a um padrão era o suficiente para serem indignos de pertencerem à sociedade, por isso muitos viviam presos, escondidos e reclusos do convívio social16. Com as diversas mudanças na sociedade, o século XXI é demarcado pelas diversas mudanças de paradigmas no campo da educação especial, com isso passam a pensadas diversas estratégias a fim de atender às necessidades dessas pessoas. Por esta razão, a partir da vigência do paradigma da Inclusão, destacamos o Ensino Colaborativo como uma dessas estratégias que tem o intuito de promover a inclusão das pessoas com e sem deficiências nas escolas, a partir da parceria entre dois profissionais e dos diversos arranjos que emergem dessa prática.
Valle e Connor15, p.95 acreditam “que uma professora é como capitã de um navio que precisa partir de um porto rumo ao seu destino muito distante e como uma capitã ela é responsável pelo bem-estar de todos”, reforçando as pautas também defendidas pelo Ensino Colaborativo. É função do professor criar condições a bordo, garantindo que todos estejam confortáveis e sintam-se seguros na jornada que é a aprendizagem.
3.2 QUAL ESCOLA É JUSTA PARA AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA?
Partindo da premissa de que a sociedade é heterogênea e, portanto, plural e diversa, cabe refletir sobre o seguinte questionamento: Qual escola é justa para as pessoas com deficiência? Destacando-se esse grupo identitário especificamente, buscamos compreender e apresentar uma tendência em específico, que é o Ensino Colaborativo, com o intuito de apresentar uma das formas, com o objetivo de atender às pessoas, visando promover uma educação de qualidade e equitativa para todos os alunos.
A escola tem o papel primordial de propiciar a esse alunado, na construção de suas identidades enquanto cidadãos, mecanismos que possibilitem condições igualitárias de acesso ao ensino e à aprendizagem para que consigam superar e/ou minorar suas limitações, bem como potencializar suas habilidades, fatores estes que são possibilitados pelo professor, mas que também dizem respeito a todos que compõem o sistema escolar. Contudo, no Brasil, o que predomina é meritocracia, em que o mérito determina o poder, ou seja, quem se destaca e está dentro dos padrões aceitáveis é respeitado e privilegiado.
Com intuito de romper com o sistema meritocrata, que reforça as desigualdades existentes na sociedade e por conseguinte nas escolas, Dubet12, p.544 chama atenção de que é preciso construir um sistema que promova igualdades, sobretudo na oferta escolar, “evitando as várias maneiras de ‘trapacear’, pelas parcialidades dos encaminhamentos às trajetórias implícitas, pelas múltiplas exceções”. Além disso, este autor destaca que é importante assegurar a oferta educacional, fator este que também é um dos princípios defendidos pelo Ensino Colaborativo.
Além da oferta de condições igualitárias nas escolas, ressalta-se que uma escola justa para as pessoas com deficiência é aquela que é pautada nos direitos humanos, ou seja, os homens são livres e iguais em direito, sendo a educação um dos principais direitos que deve ser garantido para todas as pessoas. No entanto, Hunt17 ressalta que, para os direitos humanos sejam efetivados, é necessário que exista a empatia, ou seja, imaginar que alguma outra pessoa é como você. Como no caso do Brasil, onde apesar de existir um arsenal de políticas públicas, muitos dos direitos requerem desse aspecto afetivo, para que de fato seja efetivado como deveria.
Outro fator importante dentro dos direitos humanos é a subjetividade. Segundo Chochik18, p.24 “o sujeito, dotado de subjetividade, o é pela incorporação da cultura, é ela que permite a compreensão de si mesmo e do mundo”. Este é um dos aspectos mais importantes para as pessoas com deficiência atualmente, uma vez que foi a partir desse pensar acerca das subjetividades que essas pessoas deixaram de ter que se adequarem ao mundo e, portanto, de serem heróis quando se aproximavam do esperado, mesmo com as limitações, e o mundo foi que passou a se adequar a essas pessoas.
Assim que passam a valorizar suas identidades, as pessoas com deficiência conseguem reconhecer-se com limitações, mas também com inúmeras capacidades, passando, dessa forma, a exigirem as oportunidades que as outras pessoas têm, assim como outros grupos, como os de etnia e de gênero, lutam diariamente pelos seus direitos. Ao serem valorizados e respeitados, cria-se um mundo melhor para todos, dando-lhes autonomia, liberdade e equidade em suas vidas, sem considerá-los inferior ou superior, mas apenas seres humanos.
O respeito à pessoa com deficiência enquanto sujeito sempre foi uma das grandes lutas enfrentadas no âmbito social: primeiro quando não eram consideradas pessoas com alma, continuando mesmo depois que passaram a serem consideradas (Lepri19; Xiberras20). Muito disso vem da posição de coitado, de pecador, de castigado que foi impregnada pela igreja, mas que também foi tomada pela sociedade como uma forma de resposta. Ver o “sujeito enquanto sujeito”, sem resumi-lo às limitações e às impossibilidades, é o desejo de toda pessoa, seja ela com ou sem deficiência.
É com base nessa valorização do subjetivo e em atender à igualdade de direitos que o Ensino Colaborativo é pensado, sobretudo no intuito de promover recursos, planejamentos, materiais e oportunidades para todos os alunos, portanto é destinado para alunos com e sem deficiência, portanto, universal. É de suma importância que os profissionais que atuam nesses espaços respeitem que cada caso é um caso, e que cada sujeito tem o seu tempo e maneira de aprendizado. Por isso, devem utilizar estratégias e técnicas apropriadas no auxílio do processo de escolarização desses alunos.
De acordo com Friend e Cook5 o Ensino Colaborativo envolve um trabalho de parceria entre o professor de Educação Especial e o professor de ensino comum. Assim, esse modelo é primordial no processo de escolarização dos alunos público-alvo da Educação Especial (PAEE), que estão incluídos nas salas regulares, pois garante a mudança nas práticas docentes, a utilização de materiais que respeitem suas singularidades e o envolvimento direto desses profissionais no processo educacional dos alunos com deficiência.
Embora haja muitas diretrizes em prol da “inclusão”, percebemos que, principalmente nas escolas públicas, ainda acontece um trabalho de integração com que esses alunos, pois ainda é muito forte o discurso do professor da sala comum de que tem muitos alunos na sala e que esta não é uma demanda para ele e sim para o professor do Atendimento Educacional Especializado, por exemplo, a fim de atender às novas demandas da escola que busca ser “inclusiva”.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os estudos supracitados apontam que a escola, na perspectiva inclusiva, necessita adaptar-se, a fim de atender às demandas dos alunos PAEE com o intuito de propiciar possibilidades que minorem as limitações desse público e, para isso, deve dispor de ações pedagógicas, autonomia e proporcionar a interação, assim como romper com as barreiras físicas e atitudinais.
Dessa maneira, para que políticas de inclusão no Brasil sejam efetivadas, conforme previsto nos dispositivos legais, e assim garantir o acesso e a permanência desses educandos, é de fundamental importância o comprometimento da escola no que tange à formação, ao investimento em recursos e aos serviços, o envolvimento de todos os profissionais que compõem a escola, bem como a participação das famílias nesse processo.
O contexto escolar necessita de alternativas que objetivem promover a inclusão nas salas comuns. Assim, o Ensino Colaborativo tem sido uma das mais promissoras alternativas, pois tem como foco o processo de escolarização nas salas de aula comum, com o uso de recursos e ferramentas que propiciem ao estudante PAEE a equidade no processo de ensino e aprendizagem.
Consideramos que, em parte, já se superou a ideia, vigente até pouco tempo atrás, de que as pessoas do PAEE eram incapazes de aprender, assim como, também em função disso, é que foi possível destiná-las à escola regular. Por outro lado, reconhece- se que essa questão diz respeito também ao aspecto econômico, essencial no projeto neoliberal. Além disso, ressalta-se que há de haver interesse e disposição para que a colaboração se desenvolva entre professor da classe comum e professor especialista, pois esta não é espontânea, mas resultado de um longo processo que envolve respeito e aceitação das características de cada um, além de desejo de colaborar efetivamente.
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