ISSN: 2595-8402
DOI: 10.61411/rsc49689
Publicado em 15 de setembro de 2023
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ANO 2023
A PÓS-GRADUAÇÃO NO BRASIL: ENTRELAÇANDO CONEXÕES NA CONSTRUÇÃO DA PESQUISA CIENTÍFICA EM EDUCAÇÃO
Patrícia da Conceição Lima Torres1; Enayde Fernandes Silva Dias2; Maria de Jesus Rodrigues Duarte3; Milena Viana Medeiros Barbosa do Nascimento4
1,2,3,4 Universidade Federal do Piauí, Teresina/PI, Brasil
RESUMO
Este artigo procura discutir o percurso histórico da pós-graduação no Brasil, com enfoque específico na área da educação, e analisar as perspectivas que emergem para a pesquisa científica nesse contexto. Além disso, busca investigar os desafios atuais vivenciados pelos programas de pós-graduação em educação, incluindo questões de financiamento, formação de recursos humanos e internacionalização, e como esses desafios impactam as possibilidades de desenvolvimento da pesquisa no campo educacional. Este estudo adota uma abordagem qualitativa de natureza descritiva e bibliográfica, que utiliza as contribuições teóricas de Sánchez Gamboa1, Ramalho e Madeira2, Lessa3, Nobre e Freitas4, Gatti5,6, dentre outros autores que discutem a temática. Os resultados desta pesquisa reafirmam a pós-graduação como um espaço privilegiado para a construção do conhecimento e apontam para avanços significativos nas pesquisas em educação, assim como a consolidação de grupos de pesquisa e o fortalecimento de linhas de investigação dentro dos programas.
Palavras-chave: Pós-graduação, Pesquisa Científica, Educação.
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ABSTRACT
This article seeks to discuss the history of graduate studies in Brazil, with a specific focus on the field of education, and to analyze the perspectives that emerge for scientific research in this context. In addition, it seeks to investigate the current challenges experienced by postgraduate programmes in education, including issues of funding, human resources training and internationalization, and how these challenges impact on the possibilities for developing research in the field of education. This study adopts a qualitative approach of a descriptive and bibliographical nature, using the theoretical contributions of Sánchez Gamboa1, Ramalho and Madeira2, Lessa3, Nobre and Freitas4, Gatti5,6, among other authors who discuss the subject. The results of this research reaffirm graduate studies as a privileged environment for the construction of knowledge and point to significant advances in education research, as well as the consolidation of research groups and the strengthening of lines of investigation within the programs.
Keywords: Postgraduate studies, Scientific research, Education.
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1 INTRODUÇÃO
A trajetória da pós-graduação no Brasil apresenta um percurso histórico relevante para empreendermos um estudo. Suas origens remontam ao ano de 1931, quando a Reforma Francisco Campos foi promulgada, estabelecendo os fundamentos para a criação de um sistema de doutoramento, inspirado no modelo europeu. A consolidação da pós-graduação no Brasil não foi uma progressão linear, mas sim uma série de etapas interligadas.
Entre os marcos notáveis, destacamos a emergência de programas de mestrado e doutorado, que ampliaram o horizonte educacional e incentivaram a busca pelo conhecimento em níveis mais profundos. Simultaneamente, a expansão das bolsas de estudo para pesquisadores nacionais incentivou a participação ativa na produção científica, impulsionando a qualidade e diversidade das investigações. Nesse processo, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) surgiram como alicerces essenciais para fomentar a pesquisa, proporcionando recursos financeiros e estruturais indispensáveis para a realização dos estudos.
A pós-graduação stricto sensu não somente aprimora a formação docente, mas também possui um compromisso essencial na promoção da investigação científica. Sua trajetória entrelaça-se com as perspectivas da pesquisa em educação, impulsionando um avanço intelectual e um progresso científico que continuam a influenciar o cenário acadêmico do nosso país.
As reflexões levantadas nesse estudo objetivam analisar o percurso histórico da pós-graduação no Brasil, com enfoque específico na área da educação, e investigar as perspectivas que emergem para a pesquisa científica nesse contexto. Também procuramos elencar os desafios atuais dos programas de pós-graduação e seus impactos no desenvolvimento da pesquisa no campo educacional.
Neste sentido, a investigação partiu dos seguintes questionamentos: Qual é o percurso histórico da pós-graduação no Brasil? Quais são as perspectivas emergentes para a pesquisa científica na área da educação, considerando o cenário atual da pós-graduação no Brasil? Quais são os principais desafios enfrentados pelos programas de pós-graduação em educação no Brasil? De que maneira esses desafios impactam as oportunidades de desenvolvimento da pesquisa no campo educacional?
Com base nas problematizações mencionadas, conduzimos uma pesquisa qualitativa de natureza descritiva e bibliográfica. O artigo segue uma estrutura composta por introdução, metodologia, dois segmentos distintos e considerações finais. Inicialmente, abordamos o percurso da pós-graduação no Brasil, embasados em fontes como os trabalhos de Sánchez Gamboa1, Ramalho e Madeira2, Lessa3, Nobre e Freitas4. Posteriormente, analisamos as perspectivas da pesquisa científica em educação, referenciando os estudos de Gatti5,6.
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2 METODOLOGIA
A abordagem metodológica empreendida nesse estudo será a pesquisa qualitativa, uma vez que essa perspectiva de investigação se revela pertinente para explorar e compreender as nuances inerentes às complexidades do objeto em análise. De acordo com Gil7, p.26, o principal objetivo da pesquisa qualitativa é descobrir respostas para os problemas mediante o emprego do procedimento científico. Nesse sentido, conforme observado por Richardson7, p.80,
Os estudos que empregam uma metodologia qualitativa podem descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais, contribuir no processo de mudança de determinado grupo e possibilitar, em maior nível de profundidade, o entendimento das particularidades do comportamento dos indivíduos.
A pesquisa contou com o suporte da abordagem descritiva e da análise bibliográfica, fornecendo subsídios sólidos para a investigação. A vertente descritiva busca apresentar uma análise minuciosa do fenômeno em estudo, enquanto a pesquisa bibliográfica proporciona um embasamento teórico consistente. A pesquisa de natureza bibliográfica, conforme apontada por Fonseca8, é conduzida a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web sites. De acordo com Fonseca8, p.32,
Qualquer trabalho científico inicia-se com uma pesquisa bibliográfica, que permite ao pesquisador conhecer o que já se estudou sobre o assunto. Existem, porém, pesquisas científicas que se baseiam unicamente na pesquisa bibliográfica, procurando referências teóricas publicadas com o objetivo de recolher informações ou conhecimentos prévios sobre o problema a respeito do qual se procura a resposta.
Conforme Santos9, p.197 assinala, a pesquisa bibliográfica percorre as seguintes etapas: “escolha e delimitação do tema, coleta de dados, localização das informações e documentação dos dados (anotação e fichamento).” A convergência dessas abordagens oferece possibilidades para uma exploração abrangente e aprofundada da temática em estudo, partindo da contextualização adequada e a formulação de conclusões fundamentadas.
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3 TRAJETÓRIA DA PÓS-GRADUAÇÃO NO BRASIL
A trajetória da pós-graduação no Brasil foi influenciada por uma série de eventos históricos significativos, com destaque para a década de 1930, que se configura como um marco importante na implementação desse sistema no país. Nesse contexto, devido à ausência de um corpo docente qualificado, as universidades brasileiras dependiam da contribuição de professores estrangeiros. Esses profissionais introduziam modelos institucionais provenientes de seus países, como o sistema de cátedra, de origem europeia. Esse sistema conferia ao professor a responsabilidade permanente pelas atividades de sua disciplina, apoiado por assistentes que ele designava.
É importante destacar que as origens da pós-graduação, materializada através dos cursos de mestrado e doutorado, remontam ao ano de 1931, com a promulgação da Reforma Francisco Campos por meio do Decreto 19.815/31. De acordo com Sánchez Gamboa1, essa reforma estabeleceu os alicerces para a implementação de um sistema de doutoramento inspirado no modelo europeu, com ênfase na apresentação e defesa de teses nas áreas do Direito e das Ciências Exatas e Naturais. A partir dessa perspectiva histórica, tornou-se possível a consolidação das bases legais que, mais tarde, permitiram à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, instituída em 1934, estruturar um programa de doutorado alinhado com os padrões das universidades europeias.
Segundo Nobre e Freitas4, o processo de industrialização e modernização conservadora que permeou o Brasil entre as décadas de 1930 e 1960 teve como consequência a expansão de universidades públicas com um foco direcionado à pesquisa. Exemplificadas pela fundação da Universidade de São Paulo, em 1934, e a Universidade Brasília, em 1961, essas instituições trouxeram contribuições significativas para o surgimento dos primeiros cursos de pós-graduação. Entretanto, foi somente durante a década de 1940 que o termo “pós-graduação” obteve seu primeiro reconhecimento legal, sendo oficialmente empregado no Artigo 71 do Estatuto da Universidade do Brasil.
Em 1951 foi fundada a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), entidade vinculada ao Ministério da Educação, cuja atribuição consistia em avaliar e viabilizar os programas de pós-graduação no Brasil. A criação da CAPES foi formalizada mediante o Decreto nº 29.741, datado de 11 de julho de 1951, com o propósito de garantir a disponibilidade de profissionais especializados em quantidade e qualidade adequadas para atender às exigências dos projetos tanto no setor público quanto privado, que visam impulsionar o desenvolvimento do país.
No ano de 1953 foram estabelecidos acordos entre os Estados Unidos e o Brasil com objetivo primordial de fomentar intercâmbios e colaborações institucionais entre estudantes, professores e pesquisadores no âmbito universitário. Nessa perspectiva, a década 1960 marcou um período de notável expansão dos cursos de pós-graduação no Brasil, porém a consolidação formal desses programas ocorreu em 1965, por meio do Parecer n° 977 do Conselho Federal de Educação, conhecido pelo nome do seu relator Newton Sucupira, que desempenhou um papel fundamental nesse processo de institucionalização.
No ano de 1966, um marco relevante ocorreu com a aprovação do primeiro Mestrado em Educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Conforme Ramalho e Madeira2, a partir desse ponto, desencadeou-se um notável processo de implementação e normatização de diversos cursos e programas de pós-graduação, que culminou no estágio atual de desenvolvimento. De acordo com as observações de Lessa3, a efetiva regulamentação da pós-graduação emergiu somente após a realização da Reforma Universitária, em 1968. Nesse período, situado no apogeu do regime militar, o governo se viu compelido a promover uma profunda reforma no sistema de Ensino Superior, respondendo às pressões advindas dos movimentos sociais e estudantis. Segundo a assertiva de Lessa3, p.94, reitera-se que:
Essa importante reforma apoiou-se no modelo norte-americano substituindo o modelo de cátedras pela organização departamental, instituiu a contratação de professores em tempo integral e substituiu o sistema tradicional de cursos sequênciais pelo sistema de créditos.
Com a implementação dessas mudanças, houve um aumento no número de pós-graduação no Brasil. Essa expansão, por sua vez, trouxe consigo a exigência aprimorar a formação dos professores a fim de suprir essa demanda crescente. Nesse sentido, durante a década de 1970, a Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES) instituiu um sistema de avaliação voltado para estabelecer um padrão mínimo de excelência acadêmica.
A Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES) assumiu a responsabilidade de formular o Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG), delineando as diretrizes, estratégias e objetivos a serem seguidos no âmbito da pós-graduação. Dessa maneira, é de suma importância resgatarmos tais documentos, pois eles nos conferem um panorama abrangente da política de pesquisa e pós-graduação no Brasil.
Idealizado no ápice da Ditadura Militar, o primeiro Plano Nacional de Pós-Graduação (1975-1979), tinha como sua principal ênfase a formação de pesquisadores, docentes e profissionais em âmbito federal. As principais diretrizes que sustentaram o pioneiro PNPG foram:
Institucionalizar o sistema nacional de pós-graduação, consolidando-o como atividade regular no âmbito das universidades, com financiamento estável; elevar os padrões de desempenho e racionalizar a utilização de recursos; planejar a expansão do SNPG, tendo em vista uma estrutura mais equilibrada entre áreas e regiões10, p.25.
O segundo Plano Nacional de Pós-Graduação (1982-1985), elaborado em meio a uma crise política que apontava para o enfraquecimento dos regimes militares, preserva a preocupação com a formação de recursos humanos. Contudo, suas principais diretrizes convergem para aprimorar o desempenho e a excelência dos programas de pós-graduação. Além disso, o segundo PNPG buscou alinhar o sistema de pós-graduação às necessidades do país em termos de avanços científicos e tecnológicos; racionalizar os investimentos na área da pós-graduação; fortalecer os mecanismos de monitoramento e avaliação, com o objetivo de aprimorar a excelência dos programas de mestrado e doutorado. Isso implicou em um esforço concreto para expandir e aperfeiçoar os cursos de pós-graduação, especialmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. O intuito era diminuir a dependência dessas regiões em relação a outras partes do país, promovendo a disseminação do conhecimento e da formação acadêmica de alto nível em áreas geograficamente mais abrangentes. Conforme descrito por Ramalho e Madeira2, p.73:
Não se pode negar, no entanto, que o 2º PNPG tenha dado ênfase à qualidade do ensino superior e da pós-graduação, e buscado adequar o sistema pós-graduado às necessidades do país em termos de produção de ciência e tecnologia, tornando bastante evidente sua vinculação com o setor produtivo. As prioridades estabelecidas deram passo à racionalização dos investimentos, ao reforço dos mecanismos de acompanhamento e avaliação, com vista à melhoria da qualidade dos mestrados e doutorados. Em sua vigência, foram feitos esforços no sentido de dotar as regiões Norte e Nordeste de uma rede de cursos que reduzisse a dependência regional, no contexto da pós-graduação nacional.
Durante o primeiro governo civil da Nova República, marcado pela retomada da redemocratização política, emergiu o terceiro Plano Nacional de Pós-Graduação (1986-1989). Uma das suas diretrizes centrais destacava a necessidade de promover a integração entre a pesquisa acadêmica universitária e o setor produtivo, com vistas ao desenvolvimento nacional. Nesse contexto, Ramalho e Madeira2, p.73 enfatizam que:
[...] fruto do contexto de crise econômica, o 3º PNPG novamente procurou estreitar o relacionamento entre a universidade, a pós-graduação e o setor produtivo, dando maior força à necessidade de institucionalização da pesquisa como elemento indissociável do ensino de pós-graduação, e sua integração no Sistema Nacional de Tecnologia. A universidade pública foi considerada locus privilegiado para a produção de conhecimento, enfatizando-se seu papel no desenvolvimento nacional.
Embora debatido junto à comunidade científica, o quarto Plano Nacional de Pós-Graduação não chegou a ser formalizado. Entretanto, suas orientações foram postas em prática pela CAPES, estabelecendo medidas como “expansão do Sistema Nacional de Pós-graduação, diversificação do modelo de pós-graduação, mudanças no processo de avaliação e inserção institucional dos cursões de pós-graduação.”10, p.28
O período abrangido pelo quinto Plano Nacional de Pós-Graduação (2005-2010) estabelece a Educação como “referência institucional indispensável à formação de recursos humanos altamente qualificados e ao potencial científico-tecnológico nacional.”2, p.74 Nessa abordagem, o quinto PNPG caracterizou-se pela:
Introdução do princípio de indução estratégica nas atividades de Pós-graduação em associação com as fundações estaduais e os fundos setoriais; o aprimoramento do processo de avaliação qualitativa da pós-graduação, a preocupação com a solidariedade entre os cursos e seu impacto social, a expansão da cooperação internacional, o combate às assimetrias, a formação de recursos humanos para a inovação tecnológica no mundo globalizado e competitivo, e a ênfase na formação de docentes para todos os níveis de ensino, bem como de quadros técnicos via mestrado profissional para os setores público e privado.10, p. 15-16
O sexto Plano Nacional de Pós-Graduação (2011-2020), surge com a missão de integrar o ensino de Pós-graduação com o setor empresarial e a sociedade. Além disso, visa instaurar uma iniciativa de pesquisa nacional, focalizada em temáticas relevantes para o cenário interno, com o intuito de abordar as desigualdades, e investir na formação de recursos humanos tanto para as empresas quanto os programas de alcance nacional.10
Nesse contexto, a internacionalização emerge como um elemento proeminente no âmbito do sexto Plano Nacional de Pós-Graduação (2011-2020), promovendo iniciativas tais como: ampliar a presença de estudantes estrangeiros nas instituições de ensino brasileiras, respaldar os estágios de pós-graduação no exterior (conhecidos como “doutorado sanduíche”), fomentar a participação mais ativa dos pesquisadores brasileiros em congressos e eventos internacionais, além de viabilizar a realização de doutorado completo no exterior.10
Embora com alguns desafios, a pós-graduação nos oferece um horizonte de possiblidades. Conforme apontado por Ramalho e Madeira2 a pós-graduação no Brasil, especialmente na área da educação, se consolida como uma experiência bem-sucedida, evidenciando conquistas significativas que abrangem a formação de profissionais altamente qualificados, a produção científica e a criação da identidade de diferentes áreas.
3.1 PERSPECTIVAS DA PESQUISA CIENTÍFICA EM EDUCAÇÃO
A pós-graduação stricto sensu tem como seu principal objetivo a realização de investigações científicas. No âmbito da educação, a temática da pesquisa científica ganha destaque ao abranger diversas dimensões ao longo do seu percurso. Desde a sua gênese com a criação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), em 1937, a trajetória das investigações nesse campo tem sido marcada por uma evolução constante, refletindo a busca contínua por aprimorar os processos educacionais.
No Brasil, o estabelecimento do INEP representou um marco importante ao fomentar os primeiros estudos sistemáticos voltados para a educação. Com o intuito de compreender os desafios e necessidades do sistema educacional, pesquisas pioneiras foram realizadas, lançando as bases para uma abordagem mais científica e embasada no campo educativo. Ao longo das décadas subsequentes, as pesquisas em educação ampliaram seus horizontes, abrangendo uma diversidade de temas e metodologias. A partir de análises estatísticas até estudos qualitativos profundos, os pesquisadores buscaram entender não apenas os aspectos pedagógicos, mas também as questões sociais, econômicas e psicológicas que permeiam o processo educacional.
No entanto, é importante ressaltar que as pesquisas em educação não se limitam apenas à sala de aula. Elas também contemplam o uso de tecnologias avançadas, a investigação de modelos educacionais inovadores e a análise de políticas públicas. Nesse sentido, a pesquisa científica desempenha um papel primordial ao fornecer subsídios para a tomada de decisões informadas, promovendo melhorias concretas na qualidade do ensino e na formação dos indivíduos.
Nessa discussão, é fundamental destacarmos as contribuições apresentadas por Gatti6 ao afirmar que, anteriormente à criação do INEP, os trabalhos sobre a questão educacional eram incipientes. De acordo com a mencionada autora, tanto o INEP quanto os Centros de Pesquisa Brasileiros e Regionais emergiram como centros geradores e difusores de pesquisa, bem como de formação em métodos e técnicas de investigação científica voltados para a educação. Dessa forma, tais entidades se estabeleceram como verdadeiros pilares na promoção da qualidade e da profundidade das investigações no campo da educação no Brasil. Contudo, contrastando essa perspectiva, temos a notável ausência de investimento na pesquisa educacional dentro das universidades.
No final da década de 1960, as Universidades começaram a assumir gradualmente o lugar dos Centros de Pesquisa. De maneira complementar, Gatti6, p.18 sustenta que “com a implementação de programas sistemáticos de pós-graduação de mestrado e doutorado, a intensificação dos programas de formação no exterior e reabsorção do pessoal formado, acelerou o desenvolvimento da pesquisa no país”. No contexto dessa trajetória, a investigação no campo da educação no Brasil percorreu uma série de convergências temáticas e metodológicas. Segundo a autora, essas pesquisas “tinham, inicialmente, um enfoque psicopedagógico e temáticas relacionadas ao desenvolvimento psicológico de crianças e adolescentes, processos de ensino e instrumentos de medida de aprendizagem.” 6, p.19
Nesta representação cronológica, apresentada por Gatti6, merecem destaque os anos de 1950, quando as investigações passaram a se voltar de forma proeminente para as condições culturais e as tendências de desenvolvimento da sociedade brasileira:
[...] vive-se um momento de uma certa efervescência social e cultural, inclusive com grande expansão da escolaridade da população nas primeiras séries do nível fundamental, em razão da ampliação de oportunidades em escolas públicas, comparativamente ao período anterior.6, p.19
Sob essa perspectiva analítica, o enfoque das pesquisas educacionais direciona-se para a conexão entre o sistema escolar e os elementos intrínsecos à sociedade. Logo em seguida, nos anos 1960, as pesquisas destacam “os estudos de natureza econômica, com trabalhos sobre a educação como investimento, demandas profissionais, formação de recursos humanos, técnicas programadas, ensino etc.” 5, p.67
Conforme mencionado por Gatti5, em meados da década de 1970, à medida em que as instituições de ensino superior se expandiam e os cursos de mestrado e doutorado começavam a se firmar, observava-se uma ampliação nas temáticas de estudo, acompanhada do aprimoramento metodológico em diversas subáreas.
Os estudos começam a focalizar mais equitativamente diferentes problemáticas: currículos, caracterizações de redes e recursos educativos, avaliação de programas, relação entre educação e profissionalização, características de alunos, famílias e ambiente de que provêm, nutrição e aprendizagem, validação e crítica de instrumentos de diagnósticos e avaliação, estratégias de ensino, entre outros.5, p. 67
Ao logo do tempo, os estudos educacionais passaram por mudanças de foco. Inicialmente voltado para questões específicas, eles evoluíram para abordar uma variedade de problemas de maneira mais equilibrada. As áreas de interesse se ampliaram para englobar tópicos como currículo, análise de redes e recursos educacionais, avaliação de programas, relação entre educação e profissionalização, características de alunos e seu ambiente, impacto da nutrição na aprendizagem, validação e crítica de instrumentos de avaliação, além de estratégias de ensino. Essa mudança reflete uma maior diversificação e abrangência nas pesquisas em educação, considerando diversos fatores e elementos que afetam o processo educativo.
No início da década de 1980, com a emergência de movimentos sociais diversos, a pesquisa educacional passou a se entrelaçar com a crítica social, abordando questões educacionais à luz das teorias marxistas. Entretanto, como observado por Gatti5, essa fase é caracterizada por certos desafios metodológicos que afetam a estruturação das próprias investigações.
A partir da segunda metade dos anos 1980 e ao longo do início dos anos 1990, percebemos uma notável expansão nos cursos de pós-graduação e a consolidação de grupos de pesquisas substanciais, abordando diversas temáticas tais como políticas educacionais, formação docente, metodologias de ensino e desenvolvimento curricular, história da educação, alfabetização e linguagem, entre outras. Nesse contexto, Gatti5 destaca que esse movimento e discernível por meio das reuniões anuais da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Educação (ANPEd).
De maneira sucinta, Gatti5 aborda diversas implicações que estão intrinsicamente ligadas à conjuntura histórico-social que envolve a pesquisa educacional. A referida autora questiona a solidez metodológica das investigações, bem como seu impacto social, ao mesmo tempo em que aponta perspectivas de possíveis interconexões entre pesquisa e a formação de professores nos programas de pós-graduação.
Na atualidade, a pesquisa educacional confronta-se com desafios constantes e transformadores. A tecnologia em avanço constante e a diversidade cultural demandam abordagens inclusivas e sensíveis no ensino, enquanto a pesquisa acadêmica deve-se adaptar-se, valendo-se de enfoques multidisciplinares para compreender as diferentes realidades dos estudantes.
A complexidade das questões socioeconômicas e políticas de alcance globais exige que a pesquisa educacional contemporânea vá além das fronteiras convencionais, objetivando compreender a influência dos fatores externos sobre as dinâmicas escolares e as vivências dos educandos. Nesse contexto, a formação de professores emerge como um elemento indispensável para lidar com as mudanças na educação, demandado abordagens inovadoras no desenvolvimento profissional.
Assim, os programas de pós-graduação desempenham uma função importante no aprimoramento da pesquisa no campo educacional, ao mesmo tempo em que contribuem na formação dos educadores. Desse modo, torna-se essencial que a pesquisa em educação avance com novas perspectivas, fomentando a colaboração entre pesquisadores e profissionais, com o objetivo de melhorar a qualidade da educação para todos, independentemente das circunstâncias, a fim de enfrentar os complexos desafios do século XXI.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das reflexões desenvolvidas ao longo desse estudo, podemos destacar um horizonte vasto de possibilidades que a pós-graduação nos proporciona, por constituir-se como um lugar privilegiado de produção do conhecimento. A pós-graduação stricto sensu faz parte do itinerário formativo do docente universitário, conforme estabelece o artigo 66 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/1996. Ao analisarmos a trajetória da Pós-graduação stricto sensu no Brasil, resgatamos os elementos históricos e os princípios delineados nos Planos Nacionais de Pós-Graduação, os quais evidenciam que os programas de mestrado e doutorado emergiram para suprir uma necessidade formativa exigida pela sociedade.
Nas sucessivas edições do Plano Nacional de Pós-graduação (PNPG), foram traçadas diretrizes específicas para a pesquisa educacional no país. Desde o primeiro PNPG, na década de 1970, com ênfase na formação de pesquisadores e na melhoria da qualidade dos programas, até o sexto PNPG na década de 2010 - que priorizou a integração com o setor empresarial e a sociedade - as perspectivas da pesquisa científica em educação se expandiram abrangendo uma diversidade de temas e metodologias. De questões pedagógicas até fatores socioeconômicos e políticos que influenciam a educação, as pesquisas têm buscado compreender e abordar as complexidades do sistema educacional brasileiro.
Embora seja uma experiência consolidada, a Pós-graduação em Educação no Brasil encontra-se diante de desafios como à colaboração interinstitucional dos programas, as disparidades regionais e as questões que dizem respeito à conformidade com os critérios de avaliação estabelecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), cujos parâmetros de qualidade se refletem em uma escala de notas atribuídas a cada programa. Entre essas restrições é importante ressaltarmos a produção científica e obstáculos inerentes à internacionalização.
As reflexões abordadas nesse estudo encaminham-nos para um avanço nas pesquisas educacionais, ao passo que se consolidam grupos e fortalecem linhas de pesquisa no interior dos programas de pós-graduação. O horizonte se delineia promissor, indicando um avanço de qualidade que fortalece de maneira significativa o papel desempenhado pela pós-graduação na construção do conhecimento e no aprimoramento da educação em nossa sociedade.
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