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Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 9, NÚMERO 1, ANO 2026
ARTIGO ORIGINAL
Perfil sociodemográfico e clínico de pacientes hospitalizados em unidade psiquiátrica de hospital filantrópico do interior paulista
Leonardo Felipe Ferreira de Carvalho1; Gisele Coscrato2; Adriana Inocenti Miasso3; Jean Filipe de Medeiros Vieira4
Como Citar:
DE CARVALHO, Leonardo Felipe Ferreira; COSCRATO, Gisele; MIASSO, Adriana Inocenti; VIEIRA, Jean Filipe de Medeiros. Perfil sociodemográfico e clínico de pacientes hospitalizados em unidade psiquiátrica de hospital filantrópico do interior paulista. Revista Sociedade Científica, vol. 9, n. 1, p. 1983-1996, 2026. https://doi.org/10.61411/rsc2026129419
DOI: 10.61411/rsc2026129419
Área do conhecimento:
Ciências da Saúde
Sub-área:
Enfermagem
Palavras-chave: Saúde Mental; Internação Psiquiátrica; Hospital Geral; Enfermagem Psiquiátrica; Perfil Sociodemográfico.
Publicado: 14 de julho de 2026.
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Resumo
A internação psiquiátrica em hospital geral é estratégica no manejo de crises agudas, quando recursos extra-hospitalares são insuficientes, devendo ocorrer de forma humanizada e articulada à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Este estudo teve como objetivo descrever o perfil sociodemográfico e clínico de pacientes hospitalizados em unidade psiquiátrica de um hospital filantrópico do interior paulista. Trata-se de um estudo transversal, descritivo e retrospectivo, com revisão de 262 prontuários de pacientes internados entre julho e dezembro de 2016. Coletaram-se variáveis sociodemográficas e clínicas (diagnóstico CID-10, motivo e tempo de internação, uso de psicofármacos e histórico de internações anteriores). Realizou-se estatística descritiva com frequências absolutas e percentuais. Observou-se predomínio de mulheres (54,2%), adultos de 30–49 anos (54,2%) e solteiros (71,3%), com ensino fundamental incompleto (44,3%). Os diagnósticos principais foram transtornos do humor (27,4%), transtornos psicóticos (26,0%) e relacionados ao uso de substâncias (21,0%). Surto psicótico (39,7%), agitação psicomotora (29,8%) e tentativa de suicídio (29,0%) foram os principais motivos de internação. Tempo de internação predominante de 6–14 dias (59,9%) e 65,2% apresentavam reinternações. Benzodiazepínicos (93,9%) e antipsicóticos (82,8%) foram os psicofármacos mais utilizados. Os achados evidenciam adultos em idade produtiva e vulnerabilidade psicossocial, com crises agudas e elevada exposição a psicofármacos, indicando necessidade de protocolos estruturados de alta e fortalecimento da articulação com CAPS e atenção básica para prevenção de reinternações.
Sociodemographic and clinical profile of patients hospitalized in a psychiatric unit of a philanthropic hospital in the interior of the state of São Paulo, Brazil
Abstract
Psychiatric hospitalization in general hospitals is a strategic approach for managing acute crises when extra-hospital resources are insufficient, and it must occur in a humanized manner and be integrated with the Psychosocial Care Network (RAPS). This study aimed to describe the sociodemographic and clinical profile of patients hospitalized in the psychiatric unit of a philanthropic hospital in the interior of São Paulo state. This was a cross-sectional, descriptive, and retrospective study involving a review of 262 medical records of patients admitted between July and December 2016. Sociodemographic and clinical variables were collected (ICD-10 diagnosis, reason for and length of hospitalization, use of psychotropic drugs, and history of previous hospitalizations). Descriptive statistics were performed using absolute and percentage frequencies. The results showed a predominance of women (54.2%), adults aged 30–49 years (54.2%), and single individuals (71.3%), with incomplete primary education (44.3%). The main diagnoses were mood disorders (27.4%), psychotic disorders (26.0%), and substance use-related disorders (21.0%). Psychotic episodes (39.7%), psychomotor agitation (29.8%), and suicide attempts (29.0%) were the primary reasons for admission. The predominant length of stay was 6–14 days (59.9%), and 65.2% had readmissions. Benzodiazepines (93.9%) and antipsychotics (82.8%) were the most commonly used psychotropic drugs. The findings reveal adults in their productive years and psychosocial vulnerability, characterized by acute crises and high exposure to psychotropic drugs. This indicates the need for structured discharge protocols and strengthened coordination with CAPS (Psychosocial Care Centers) and primary care to prevent readmissions.
Keywords: Mental Health; Psychiatric Hospitalization; General Hospital; Psychiatric Nursing; Sociodemographic Profile.
Introdução
Os transtornos mentais e comportamentais configuram-se como um dos principais desafios contemporâneos da saúde pública, em razão de sua elevada prevalência, impacto funcional e expressivas repercussões sociais, familiares e econômicas. Evidências recentes apontam crescimento significativo da carga global dos transtornos mentais, com destaque para depressão, transtornos de ansiedade e transtornos psicóticos, ampliando a demanda por serviços especializados e pressionando os sistemas de saúde em diferentes países [6,7].
No Brasil, a organização da atenção à saúde mental é orientada pelos princípios da Reforma Psiquiátrica, consolidada a partir da Lei nº 10.216/2001, que assegura direitos às pessoas com transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial, priorizando o cuidado em liberdade e a superação do modelo hospitalocêntrico [1,2]. Nesse contexto, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) foi instituída como estratégia para garantir atenção integral às pessoas em sofrimento psíquico, articulando serviços comunitários, atenção básica, dispositivos de urgência e emergência e leitos psiquiátricos em hospitais gerais [3,4].
Embora o cuidado territorial e comunitário constitua o eixo central da política de saúde mental, reconhece-se que a internação psiquiátrica permanece necessária em situações de crise aguda, risco iminente e/ou insuficiência dos recursos extra-hospitalares. Documentos orientadores do Ministério da Saúde reforçam que, quando indicada, a internação deve ser breve, humanizada e articulada ao projeto terapêutico e ao seguimento na rede, de modo a favorecer continuidade do cuidado e reduzir desfechos negativos, como reinternações [4,5].
As unidades psiquiátricas inseridas em hospitais gerais assumem papel relevante nesse cenário, por possibilitarem o manejo de quadros graves em ambiente menos segregador, favorecendo a redução do estigma e a integração com outras especialidades clínicas. Estudos nacionais indicam que esses serviços são fundamentais no atendimento de emergências psiquiátricas, como surtos psicóticos, agitação psicomotora e comportamento suicida, contribuindo para estabilização clínica e planejamento do cuidado após a alta [8,13,16].
A caracterização do perfil sociodemográfico e clínico dos pacientes internados em unidades psiquiátricas constitui ferramenta essencial para o planejamento da assistência, a organização dos serviços e a qualificação das práticas em saúde mental. Evidências nacionais mostram que descrições de perfil em hospitais gerais permitem identificar demandas assistenciais, direcionar recursos, qualificar fluxos de crise e subsidiar estratégias para prevenção de reinternações [9,14,15]. Além disso, a compreensão do padrão de uso de psicofármacos e dos motivos de internação pode apoiar ações de segurança do paciente e de transição do cuidado [5,10,14].
No âmbito da enfermagem psiquiátrica, a compreensão do perfil dos pacientes internados subsidia intervenções mais resolutivas, favorece o cuidado centrado na pessoa e contribui para a promoção da segurança durante a hospitalização. A equipe de enfermagem é elemento central no monitoramento clínico, na administração segura de psicofármacos, na escuta qualificada e na articulação com os serviços da rede no momento da alta, especialmente em casos de risco de autoagressão e necessidade de seguimento longitudinal [8,10,14].
Apesar da relevância do tema, observa-se escassez de estudos sobre o perfil de pacientes em unidades psiquiátricas de hospitais filantrópicos do interior, que frequentemente atuam como referência regional para múltiplos municípios. Esta lacuna científica limita o planejamento assistencial, a organização de fluxos de crise e o desenvolvimento de estratégias específicas para esse contexto assistencial. Diante dessa lacuna, o objetivo deste estudo foi descrever o perfil sociodemográfico e clínico de pacientes hospitalizados em unidade psiquiátrica de hospital filantrópico do interior paulista.
Metodologia
Delineamento e local do estudo: Estudo transversal, descritivo, retrospectivo e de análise documental, conduzido em unidade psiquiátrica de 20 leitos de um hospital filantrópico localizado no interior do estado de São Paulo, que atende como referência regional para 19 municípios. A pesquisa foi realizada por meio da análise de prontuários dos pacientes internados na unidade.
População e período: A população foi composta por todas as internações ocorridas entre julho e dezembro de 2016, totalizando 262 internações no período (censo do semestre).
Critérios de elegibilidade: Foram incluídos todos os prontuários de pacientes internados no período do estudo com dados completos nas variáveis de interesse. Foram excluídos prontuários com informações incompletas nas variáveis sociodemográficas principais (idade, sexo) ou ausência de diagnóstico psiquiátrico registrado.
Variáveis sociodemográficas: sexo, idade (categorizada em: 13-29, 30-49, 50-59, ≥60 anos), estado civil (solteiro, casado, viúvo), etnia/cor autodeclarada (branco, pardo, negro), escolaridade (analfabeto, fundamental incompleto, médio incompleto, médio completo, superior completo) e religião
Variáveis clínicas: diagnóstico psiquiátrico principal conforme CID-10 (F10-F19, F20-F29, F30-F39, F60-F69, múltiplos diagnósticos, outros), motivo da internação (surto psicótico, agitação psicomotora, tentativa de suicídio, outros), tempo de permanência hospitalar (1-5, 6-14, 15-29, ≥30 dias), classes de psicofármacos utilizados durante a internação (antipsicóticos, benzodiazepínicos, antidepressivos, estabilizadores de humor) e histórico de internações psiquiátricas anteriores (sim/não)
Coleta e organização dos dados: Os dados foram coletados através de formulário estruturado pelos pesquisadores e transcritos para planilha eletrônica, com codificação padronizada das categorias e dupla checagem de consistência por dois pesquisadores independentes.
Análise estatística: Realizou-se análise descritiva com cálculo de frequências absolutas e percentuais para todas as variáveis categóricas. Os dados foram processados no software Microsoft Excel 2016.
Aspectos éticos: O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob parecer nº 2.286.837, em conformidade com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O relato do estudo seguiu as recomendações do STROBE para estudos observacionais [11,12].
Desenvolvimento e Discussão
Foram analisadas 262 internações psiquiátricas ocorridas no segundo semestre de 2016. A distribuição sociodemográfica demonstrou predomínio de mulheres (54,2%), com concentração etária entre 30-49 anos (54,2%) e estado civil solteiro (71,3%). Quanto à escolaridade, observou-se baixo nível educacional, com maior frequência de ensino fundamental incompleto (44,3%). A etnia parda foi predominante (63,7%) e a maioria declarou religião cristã (91,6%) (Tabela 1). O perfil sociodemográfico identificado, com concentração em adultos de 30-49 anos, corrobora achados de estudos nacionais em unidades psiquiátricas de hospitais gerais [8,9,15], evidenciando o impacto dos transtornos mentais na população em idade produtiva. A predominância de indivíduos solteiros (71,3%) e com baixa escolaridade (44,3% com ensino fundamental incompleto) sugere vulnerabilidade psicossocial, consistente com evidências que associam menor suporte social e limitações educacionais a maior risco de internação psiquiátrica [14,15]. Os dados estão apresentados na Tabela 1.
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Tabela 1: Perfil sociodemográfico dos pacientes hospitalizados em unidade psiquiátrica, Barretos, SP, 2016
Variáveis | Masculino n (%) | Feminino n (%) | Total n (%) |
Sexo | 120 (45,8) | 142 (54,2) | 262 (100) |
Idade (anos) |
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13–29 | 31 (25,8) | 31 (21,8) | 62 (23,7) |
30–49 | 65 (54,2) | 77 (54,2) | 142 (54,2) |
50–59 | 10 (8,3) | 20 (14,1) | 30 (11,4) |
≥60 | 14 (11,7) | 14 (9,9) | 28 (10,7) |
Estado civil |
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Solteiro | 92 (76,7) | 95 (66,9) | 187 (71,3) |
Casado | 22 (18,3) | 34 (24,0) | 56 (21,4) |
Viúvo | 6 (5,0) | 13 (9,1) | 19 (7,3) |
Etnia |
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Branco | 34 (28,3) | 40 (28,2) | 74 (28,2) |
Pardo | 79 (65,8) | 88 (62,0) | 167 (63,7) |
Negro | 7 (5,8) | 14 (9,8) | 21 (8,0) |
Escolaridade |
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Analfabeto | 15 (12,5) | 7 (5,0) | 22 (8,4) |
Fundamental incompleto | 50 (41,7) | 66 (46,5) | 116 (44,3) |
Médio incompleto | 28 (23,3) | 31 (21,8) | 59 (22,5) |
Médio completo | 13 (10,8) | 15 (10,6) | 28 (10,7) |
Superior completo | 2 (1,7) | 9 (6,3) | 11 (4,1) |
Religião |
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Cristã | 110 (91,7) | 130 (91,6) | 240 (91,6) |
Fonte: Elaborado pelos autores (2016).
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O perfil diagnóstico revelou maior frequência de transtornos do humor (27,4%), seguidos por transtornos psicóticos (26,0%) e transtornos relacionados ao uso de substâncias (21,0%). Observaram-se diferenças importantes entre os sexos: mulheres apresentaram maior frequência de transtornos do humor (41,0% vs 11,7%) e transtornos de personalidade (13,4% vs 1,7%), enquanto homens concentraram-se em transtornos psicóticos (34,2% vs 19,0%) e relacionados ao uso de substâncias (26,6% vs 16,1%) (Tabela 2). As diferenças de gênero nos diagnósticos refletem padrões epidemiológicos bem estabelecidos na literatura internacional. A maior frequência de transtornos do humor entre mulheres (41,0%) alinha-se com dados da Organização Mundial da Saúde, que apontam prevalência duas vezes maior de depressão em mulheres [6,7]. Conversamente, a concentração de transtornos psicóticos (34,2%) e relacionados ao uso de substâncias (26,6%) entre homens corrobora evidências nacionais e internacionais sobre diferenças de gênero na apresentação de transtornos mentais graves [13,16]. Esses achados são consistentes com estudos em serviços de emergência psiquiátrica que demonstram padrões similares de distribuição diagnóstica por gênero [13,16]. Os dados estão apresentados na Tabela 2.
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Tabela 2: Diagnósticos psiquiátricos segundo a CID-10, Barretos, SP, 2016
Diagnóstico (CID-10) | Masculino n (%) | Feminino n (%) | Total n (%) |
F10–F19 | 32 (26,6) | 23 (16,1) | 55 (21,0) |
F20–F29 | 41 (34,2) | 27 (19,0) | 68 (26,0) |
F30–F39 | 14 (11,7) | 58 (41,0) | 72 (27,4) |
F60–F69 | 2 (1,7) | 19 (13,4) | 21 (8,0) |
Dois ou mais diagnósticos | 16 (13,3) | 5 (3,5) | 21 (8,0) |
Outros | 15 (12,5) | 10 (7,0) | 25 (9,5) |
Fonte: Elaborado pelos autores (2016).
Legenda: CID-10 – Classificação Internacional de Doenças
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Quanto ao uso de psicofármacos, verificou-se elevada frequência de benzodiazepínicos (93,9%) e antipsicóticos (82,8%). Diferenças de gênero foram evidentes no uso de antidepressivos (62,7% mulheres vs 11,7% homens) e estabilizadores de humor (81,7% mulheres vs 34,1% homens) (Tabela 3). O padrão de uso de psicofármacos, com ampla utilização de benzodiazepínicos (93,9%) e antipsicóticos (82,8%), reflete as necessidades terapêuticas do contexto hospitalar agudo. Estudos brasileiros em unidades similares reportam frequências comparáveis, evidenciando o papel desses medicamentos no controle sintomatológico de crises [8,14,15]. A elevada frequência de benzodiazepínicos está relacionada ao manejo da agitação psicomotora e ansiedade severa, enquanto o uso extensivo de antipsicóticos reflete o tratamento de surtos psicóticos e estados de agitação [10]. Entretanto, essa elevada frequência suscita preocupações sobre dependência e efeitos adversos, reforçando a importância do monitoramento rigoroso e da transição cuidadosa para o cuidado ambulatorial [5,10]. Os dados estão apresentados na Tabela 3.
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Tabela 3: Psicofármacos utilizados durante a internação psiquiátrica, Barretos, SP, 2016
Medicamentos | Masculino n (%) | Feminino n (%) | Total n (%) |
Antipsicóticos | 98 (81,7) | 119 (83,8) | 217 (82,8) |
Benzodiazepínicos | 118 (98,3) | 128 (90,1) | 246 (93,9) |
Antidepressivos | 14 (11,7) | 89 (62,7) | 103 (39,3) |
Estabilizadores de humor | 41 (34,1) | 98 (81,7) | 139 (53,1) |
Fonte: Elaborado pelos autores (2016).
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Os principais motivos de internação foram surto psicótico (39,7%), agitação psicomotora (29,8%) e tentativa de suicídio (29,0%). Tentativas de suicídio foram mais frequentes entre mulheres (35,2% vs 21,7%), enquanto agitação psicomotora predominou entre homens (35,0% vs 25,4%) (Tabela 4). O tempo de internação concentrou-se entre 6-14 dias (59,9%), com baixa frequência de internações prolongadas (≥30 dias: 1,1%). Destaca-se que 65,2% dos pacientes apresentavam histórico de internações psiquiátricas anteriores (Tabela 5). A predominância de internações por surto psicótico (39,7%), agitação psicomotora (29,8%) e tentativas de suicídio (29,0%) caracteriza o papel da unidade no manejo de emergências psiquiátricas, consistente com a função das internações breves preconizadas pela Reforma Psiquiátrica [1,2,5] e com achados de outros estudos nacionais em serviços similares [13,16]. O tempo de permanência predominante entre 6-14 dias (59,9%) sugere adequação aos princípios de internação breve, comparável a estudos nacionais que reportam médias entre 10-15 dias em unidades similares [9,15].
O elevado percentual de pacientes com histórico de reinternações (65,2%) representa achado preocupante, superior à média nacional de 40-50% reportada em estudos recentes [9,14]. Este dado sugere fragilidades na continuidade do cuidado e na articulação com a RAPS, indicando necessidade de fortalecimento dos mecanismos de transição do cuidado e seguimento pós-alta [3,4,5]. Estudos demonstram que a elevada taxa de reinternação está frequentemente associada à descontinuidade do tratamento ambulatorial, dificuldades de acesso aos serviços da RAPS e ausência de protocolos estruturados de alta [14,15].
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Tabela 4: Motivos de internação psiquiátrica, Barretos, SP, 2016
Motivo | Masculino n (%) | Feminino n (%) | Total n (%) |
Tentativa de suicídio | 26 (21,7) | 50 (35,2) | 76 (29,0) |
Agitação psicomotora | 42 (35,0) | 36 (25,4) | 78 (29,8) |
Surto psicótico | 51 (42,5) | 53 (37,3) | 104 (39,7) |
Outros | 1 (0,8) | 3 (2,1) | 4 (1,5) |
Fonte: Elaborado pelos autores (2016).
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Tabela 5: Tempo de internação e histórico de reinternações psiquiátricas, Barretos, SP, 2016
Variáveis | Masculino n (%) | Feminino n (%) | Total n (%) |
Tempo de internação (dias) |
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1–5 | 22 (18,3) | 26 (18,3) | 48 (18,0) |
6–14 | 77 (64,1) | 80 (56,3) | 157 (59,9) |
15–29 | 21 (17,5) | 34 (24,0) | 55 (20,9) |
≥30 | 1 (0,8) | 2 (1,4) | 3 (1,1) |
Internações anteriores |
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Sim | 84 (70,0) | 87 (61,3) | 171 (65,2) |
Não | 36 (30,0) | 55 (38,7) | 91 (34,8) |
Fonte: Elaborado pelos autores (2016).
Considerações finais
O estudo permitiu caracterizar o perfil de pacientes internados em unidade psiquiátrica de hospital filantrópico do interior paulista, evidenciando concentração em adultos de 30-49 anos (54,2%), predominantemente solteiros (71,3%) e com baixa escolaridade, configurando população em vulnerabilidade psicossocial.
Os achados clínicos revelaram predomínio de transtornos do humor (27,4%), transtornos psicóticos (26,0%) e relacionados ao uso de substâncias (21,0%), com diferenças importantes entre os sexos que refletem padrões epidemiológicos estabelecidos na literatura. A elevada frequência de internações por surto psicótico (39,7%), agitação psicomotora (29,8%) e tentativas de suicídio (29,0%) caracteriza o papel estratégico da unidade no manejo de emergências psiquiátricas.
O tempo de internação predominante entre 6-14 dias (59,9%) sugere adequação aos princípios da Reforma Psiquiátrica de internações breves focalizadas na estabilização clínica. Entretanto, a elevada taxa de reinternação (65,2%) representa achado preocupante, superior à média nacional, sugerindo fragilidades na continuidade do cuidado e articulação com a RAPS. O padrão de uso de psicofármacos, com ampla utilização de benzodiazepínicos (93,9%) e antipsicóticos (82,8%), reflete as necessidades terapêuticas do contexto hospitalar agudo, mas suscita preocupações sobre dependência e efeitos adversos, reforçando a importância do monitoramento rigoroso e transição cuidadosa para o cuidado ambulatorial.
Os resultados evidenciam a relevância das unidades psiquiátricas em hospitais gerais como componentes estratégicos da RAPS, proporcionando cuidado especializado em ambiente menos segregador. Esta configuração contribui para a redução do estigma e possibilita abordagem mais integral das necessidades de saúde.
Os achados indicam necessidade específica de: desenvolvimento de protocolos estruturados de alta hospitalar com foco na articulação com CAPS e atenção básica; implementação de estratégias de seguimento pós-alta nas primeiras 30 dias; fortalecimento de ações intersetoriais direcionadas ao perfil populacional identificado; e aprimoramento dos mecanismos de transição do cuidado para prevenção de reinternações.
Esses elementos são essenciais para consolidação de um modelo assistencial humanizado, territorializado e orientado pela lógica da atenção psicossocial, em consonância com os princípios da Reforma Psiquiátrica nacional e as diretrizes da política de saúde mental brasileira.
Limitações do estudo
Este estudo apresenta limitações inerentes ao delineamento transversal e ao uso de dados secundários. O viés de seleção decorrente da análise de hospital único pode limitar a representatividade regional dos achados. Possível viés de informação devido à qualidade variável dos registros em prontuários pode ter influenciado a completude dos dados. Adicionalmente, os dados de 2016 podem não refletir mudanças recentes na organização da RAPS e nos fluxos assistenciais. A ausência de seguimento longitudinal impede análises sobre desfechos pós-alta e efetividade das intervenções. Apesar dessas limitações, os achados contribuem para a compreensão do perfil assistencial em unidades psiquiátricas de hospitais filantrópicos e subsidiam o planejamento de ações em saúde mental no contexto regional.
Indicação de trabalhos futuros
Sugere-se a realização de estudos multicêntricos com delineamentos analíticos para identificação de fatores associados às reinternações, estudos de coorte para avaliação de desfechos pós-alta, e pesquisas com abordagens mistas para compreensão das barreiras na continuidade do cuidado na RAPS.
Declaração de direitos
Os autores declaram ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declaram que as imagens e textos publicados são de responsabilidade dos autores, e não possuem direitos autorais reservados a terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declaram respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou autoplágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.
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