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Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
Journal DOI: 10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO ORIGINAL
A relação entre os biomarcadores cardíacos, o diagnóstico e o prognóstico da lesão cardíaca causada pela infecção do SARS-CoV-2: uma revisão integrativa
Júlia Tonetto Didonet1; Stephanie Gonçalves Picinin2 ;Álvaro César Cattani 3
Como Citar:
DIDONET, Júlia Tonetto; PICININ, Stephanie Gonçalves; CATTANI, Álvaro Cesar. A relação entre os biomarcadores cardíacos, o diagnóstico e o prognóstico da lesão cardíaca causada pela infecção do SARS-CoV-2: uma revisão integrativa. Revista Sociedade Científica, vol.7, n. 1, p.4632-4658, 2024.
https://doi.org/10.61411/rsc202477617
Área do conhecimento: Ciências da Saúde.
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Sub-área: Cardiologia.
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Palavras-chaves: Biomarcador cardíaco; COVID-19; prognóstico; diagnóstico.
Publicado: 03 de outubro de 2024.
Resumo
A COVID-19 é uma doença viral que causou grandes repercussões mundiais devido às suas complicações. Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar o uso dos biomarcadores cardíacos no diagnóstico da lesão cardíaca, bem como o uso dessas moléculas para a determinação do prognóstico dos pacientes. Para a elaboração da revisão integrativa de literatura, realizada entre janeiro e agosto de 2024, foram utilizadas as bases eletrônicas SciELO e PUBMED, considerando artigos de 2020 a 2023. Os descritores utilizados foram: “covid”, “cardiac biomarker”, “prognosis”, “cardiac injury”, “covid-19”, “lesão cardíaca”, “,miocárdio”, “troponin”, “cardiovascular disease”, “troponina”, e “bnp”. Como resultado, foram encontrados 4.776 estudos na busca, com 1.592 repetidos, porém apenas 21 obedeceram aos critérios de inclusão e foram selecionados para a revisão. Desses, 16 artigos abordam o uso dos biomarcadores como diagnóstico e/ou prognóstico na infecção, 3 estabelecem descrição dos biomarcadores e 2 explicam a fisiopatologia da doença. Com este estudo, conclui-se que a infecção pelo SARS-CoV-2 acomete o tecido cardíaco, principalmente nos pacientes com doença cardiovascular prévia. Esse acometimento é percebido pela elevação dos biomarcadores cardíacos. Além disso, o aumento pode predizer acerca do prognóstico da infecção. Sendo assim, é de suma importância o entendimento sobre o uso dos biomarcadores para uma intervenção precoce e melhor manejo dos pacientes.
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1. Introdução
Os biomarcadores são moléculas capazes de serem mensuradas no sangue, na urina e nos demais fluídos corporais, são utilizadas para a realização do diagnóstico e para a monitorização da evolução de determinada doença. Nesse sentido, as complicações cardiovasculares causadas pela infecção pelo SARS-CoV-2, como miocardite, insuficiência cardíaca e arritmias, podem ser mensuradas quanto à gravidade por meio do uso desses biomarcadores cardiovasculares.
Dentre os biomarcadores supracitados, os mais utilizados na prática clínica incluem creatina quinase-banda miocárdica (CK-MB), troponina, peptídeo natriurético cerebral N-terminal (NT-PRObnp) e dímero-D. Os três primeiros elevam-se nos indivíduos com a presença da lesão cardíaca causada pela infecção viral em questão, enquanto o dímero D está relacionado a um estado de hipercoagulação, o que aumenta o risco desses indivíduos desenvolverem eventos trombóticos.
Além dos biomarcadores citados acima, que são considerados tradicionais, os microRNAs (miRNAs) estão sendo estudados como uma nova classe de marcadores biológicos para o acompanhamento das complicações causadas pela COVID-19 (1).
A galectina-3 é um biomarcador da família galectina, sendo liberado pelas células de defesa, tais como macrófagos, células epiteliais e endoteliais. Além do mais, há a indução da liberação das interleucinas 1 e 6, e do fator de necrose tumoral alfa. A galectina-3 está relacionada com a gravidade da infecção da COVID-19, ou seja, os pacientes em estágios graves apresentam níveis mais elevados desse biomarcador (2).
Os biomarcadores cardíacos, como a troponina, o peptídeo natriurético tipo B (BNP) e a creatina quinase fração MB, estão associados com a gravidade da infecção causada pelo vírus da COVID-19 (3).
Outros biomarcadores também podem auxiliar nesse processo, mesmo que sejam inespecíficos, indicando um processo inflamatório vigente, tendo como exemplo o LDH, a IL-6 e a PCR (4).
A lesão cardíaca causada pelo SARS-CoV-2 ocorre por três vias: a) hipercoagulabilidade, que se inicia por meio da lesão endotelial, provocando a liberação de IL 6 e do fator de Von Willebrand (vWF). A liberação das moléculas citadas causa a ativação das plaquetas e, consequentemente, promove a ativação da agregação plaquetária. Ademais, ocorre a liberação de fibrinogênio, sendo este transformado em fibrina por meio da ação da trombina. A IL 6 e o vWF também promovem uma maior liberação dos neutrófilos, tendo como resultado o aumento na expressão da citocina H3, sendo o conjunto dos eventos responsáveis pela formação do trombo, seja arterial ou venoso; b) tempestade de citocinas, uma via indireta da lesão cardíaca, derivada do aumento da liberação das células CD4+ e da ativação dos macrófagos. A partir desse momento, inicia-se a cascata da via complemento, sendo um dos componentes da tempestade de citocinas; c) lesão direta, que ocorre quando o vírus, por meio da proteína Spike, se liga aos receptores da enzima conversora de angiotensina 2 presentes nas células cardíacas, causando danos diretos aos cardiomiócitos (5).
Sendo assim, a análise dos níveis dos biomarcadores direcionam para o entendimento e para a previsibilidade das complicações e mortalidade da infecção, sendo essencial para a redução desses eventos (3).
Devido a gravidade da infecção causada pelo vírus SARS-CoV-2, a possibilidade de prever o desfecho clínico do paciente permite evitar complicações, bem como a deterioração do estado clínico ao possibilitar uma terapia precoce (6).
Sendo assim, os biomarcadores cardíacos, principalmente a hs-cTn ou o NT-proBNP, são os principais biomarcadores cardíacos para a determinação do prognóstico dos pacientes com lesão cardíaca. Entretanto, a dosagem dessas moléculas não deve ser realizada em pacientes assintomáticos, tendo em vista que pode gerar um diagnóstico desnecessário, gerando malefícios para o paciente e para a equipe de saúde (7). Sabendo disso, este estudo se predispôs a realizar uma análise comparativa sobre o uso dos biomarcadores cardíacos a partir de levantamentos bibliográficos, com a finalidade de estabelecer diagnósticos de lesão cardíaca, bem como o prognóstico do paciente.
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2. Metodologia
O presente estudo se trata de uma revisão integrativa de cunho qualitativo a respeito do tema biomarcadores cardíacos e sua relação com o diagnóstico e prognóstico da lesão cardíaca causada pelo SARS-CoV-2.
A revisão integrativa de literatura tem como finalidade agregar estudos que cercam uma temática específica por meio de métodos controlados de pesquisa. É constituída a partir de uma pergunta norteadora e tem como objetivo contribuir de maneira significativa para discussões e reflexões que permeiam a prática assistencial, contribuindo para a solidificação da prática baseada em evidências (8).
Essa revisão integrativa seguiu seis fases necessárias para a construção da pesquisa: a) definição do tema e elaboração da pergunta norteadora; b) busca na literatura; c) coleta de dados; d) análise dos estudos incluídos; e) discussão dos resultados; f) síntese da revisão (9).
A pesquisa foi realizada a partir da coleta de dados nas bases eletrônicas Scientific Electronic Library Online (SciElo) e PubMed, incluindo, inclusive, artigos citados por outros trabalhos que não necessariamente foram citados nesse estudo. A coleta dos dados ocorreu entre janeiro e agosto de 2024.
Sendo assim, foram estabelecidos operadores booleanos em inglês e português, a fim de compor uma estratégia de busca nas plataformas na opção “busca avançada”, sendo os operadores: covid AND cardiac biomarker AND prognosis; covid-19 AND cardiac injury; covid-19 AND lesão cardíaca; covid AND miocárdio; covid AND troponin AND prognosis; covid AND cardiovascular disease AND cardiac biomarkers; covid AND troponina; covid AND bnp AND prognosis.
Os critérios de inclusão estabelecidos foram: artigos gratuitos, em português e inglês, publicados entre os anos de 2020 e 2024, que contivesse no título ou no resumo palavras relacionadas ao uso de biomarcadores cardíacos na COVID-19 e seu valor diagnóstico e prognóstico. Já os critérios de exclusão incluíram: artigos pagos, artigos de opinião, teses e estudos randomizados, devido à metodologia de estudo que não compreende a amostra como um todo; além de artigos cujo título e/ou o resumo não atendam às perguntas iniciais do trabalho. Estudos com mais de 5 mil pacientes não foram prioridade para leitura na íntegra devido à heterogeneidade da amostra, bem como revisões com muitos estudos incluídos, pelo maior risco de falhas na metodologia.
Os estudos selecionados para realização da presente pesquisa foram escolhidos com base no título, no ano de publicação (dando preferência a trabalhos mais recentes, com resultados mais diretos e linguagem de fácil compreensão) e na heterogeneidade geográfica, a fim de obter melhores resultados globais. Esses artigos estão compilados na Tabela 1, contendo o nome do autor, título, metodologia e resultado.
Figura 1 – Fluxograma de seleção dos artigos para revisão integrativa
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3. Desenvolvimento e discussão
Somando a análise em ambas as bases de dados, isto é, SciElo e PubMed, e utilizando-se os descritores e critérios de inclusão previamente estabelecidos, foram encontrados um total de 4.776 artigos, sendo que 61 pertencem a plataforma SciElo e 4.715 a PubMed. Após a exclusão de estudos repetidos, restaram 3.184 artigos, os quais foram submetidos à análise do título e resumo. Com isso, 158 foram selecionados para posterior leitura na íntegra. Para a seleção final, foram delimitados 21 artigos, 3 da SciElo e 18 da PubMed. O idioma em inglês foi o mais predominante e o ano com maior número de artigos selecionados foi o de 2022, com 8 artigos.
A grande quantidade selecionada de artigos pela plataforma PubMed se justifica por ter sido a primeira a passar pelo processo de análise. Dessa forma, quando apareceram artigos repetidos nas duas bases, optou-se pelo descarte dos estudos da plataforma PubMed ao invés da SciElo.
Posterior a leitura na íntegra de cada artigo selecionado, foi realizada a análise com os principais dados obtidos nos estudos em relação à temática proposta no presente trabalho, englobando a relação entre os biomarcadores cardíacos, o diagnóstico da lesão cardíaca e o prognóstico do paciente pela infecção do SARS-CoV-2. Ademais, os artigos incompatíveis com os objetivos desta pesquisa e que foram abordados nos artigos selecionados para a revisão não foram analisados
Tabela 1 – Análise dos resultados da pesquisa bibliográfica
ID | Título | Autores | Ano | Metodologia | Resultados |
1 | Cardiac Biomarkers and Their Role in Identifying Increased Risk of Cardiovascular Complications in COVID-19 Patientes | Yaluri, N. et al. (1) | 2023 | Artigo de revisão | A elevação dos biomarcadores NT-pro-BNP, CK-MB e troponinas está presente nos pacientes com infecções graves, e também são associados à maior mortalidade. O biomarcador microRNAs também deve ser utilizado para prever o dano cardíaco ao decorrer da infecção do SARS-CoV-2 |
2 | Galectin-3 as an important prognostic marker for COVID-19 severity | Gajovic, N. et. al. (2) | 2023 | Estudo transversal e observacional com 280 pacientes separados em grupos conforme a gravidade (leve, moderado, grave e crítico) | Os níveis de Gal-3 são maiores nos pacientes em estado grave. Nos pacientes com infecção leve, os níveis de galectina-3 ficaram em torno de 5000 pg/ml, enquanto nos pacientes graves, esses níveis foram cerca de quatro vezes maiores |
3 | Use and Prognostic Implications of Cardiac Troponin in COVID-19 | Michieli, L. et al. (10) | 2022 | Artigo de revisão | O ponto de corte da troponina, para o diagnóstico de lesão cardíaca nos pacientes infectados com o COVID-19, deve ser superior ao percentil 99 do limite superior da normalidade. Além disso, o aumento da troponina é utilizado como prognóstico. Sendo importante, pois a presença da lesão cardíaca, independente de qual for a etiologia, aumenta o risco de evolução à óbito nos pacientes com COVID-19 |
4 | Meta-analysis of cardiac markers for predictive factors on severity and mortality of COVID-19 | Wungu, C.D.K. et al. (3) | 2021 | Meta-análise com 29 estudos clínicos. Os estudos analisados foram pesquisados nas seguintes plataformas: PubMed, Proquest e EBSCO/CINAHL | O aumento dos biomarcadores cardíacos estão associados com a mortalidade e com a complicação da infecção pelo SARS-CoV-2. Os marcadores analisados foram: D-dímero, troponina, CK-MB, BNP, NT-pro-BNP e procalcitonina; em todos os biomarcadores houve uma diferença significativa em relação aos seus níveis e a gravidade dos pacientes com COVID-19 |
5 | Prognostic value of cardiac biomarkers in COVID-19 infection | Sheth, A. et al. (4) | 2021 | Meta-análise com 16 estudos incluídos | Os níveis de troponina e BNP foram mais elevados em pacientes que evoluíram ao óbito ou estavam com infecção grave, quando comparados aos demais pacientes. A CK-MB foi maior em relação aos pacientes que morreram, em relação aos que sobreviveram. A elevação do D-dímero foi observada nos pacientes que morreram e nos pacientes com evolução grave da doença |
6 | Prognostic Value of Cardiovascular Biomarkers in COVID-19: A review | Aboughdir, M. et al. (6) | 2020 | Artigo de revisão | Níveis elevados de cTnI e cTnT estão relacionados com um risco elevado de complicações nos desfechos, bem como aumento da mortalidade. O BNP e a CK-MB estão relacionados com o dano cardíaco, o prognóstico, e, em menor escala, com a mortalidade dos pacientes |
7 | Characterization of COVID-19 associated cardiaca injury: evidence for a multifactorial disease in an autopsy cohort | Hanson, P.J. et al. (5) | 2022 | Estudo de coorte utilizando autópsia de 21 pacientes infectados, com amostras coletadas em uma universidade do Nebraska | O SARS-CoV-2 causa lesão cardíaca por meio de três mecanismos: lesão direta; hipercoagulação; e tempestade de citocinas. Em 19 dos 21 pacientes foi encontrado miocardite limítrofe; em 90% visualizou-se edema miocárdico intersticial e 71% dos pacientes evoluíram com hipertrofia celular. A trombose foi percebida em 4 pacientes. Em 16 pacientes foram encontrados vírus, bem como diminuição das proteínas estruturais dos cardiomiócitos no tecido cardíaco, indicando a lesão cardíaca direta como principal mecanismo de injúria |
8 | Biomarker based biosensors: An opportunity for diagnosis of COVID-19 | Khaksarinejad, R. et al. (11) | 2022 | Artigo de revisão | O aumento da troponina se relaciona com o aumento da gravidade da infecção e com o aumento da mortalidade. A mensuração da gravidade da infecção pode ser feita por meio da análise dos níveis da troponina e do BNP. O aumento da CK-MB, da troponina e o BNP indicam a presença da lesão cardíaca. A relação neutrófilo/linfócito reflete a inflamação e a gravidade da infecção. Além disso, é possível perceber um aumento das citocinas pró inflamatórias nos pacientes com infecção grave
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9 | Biomarkers Associated with Cardiovascular Disease in COVID-19 | Kaufmann, C.C. et al. (7) | 2022 | Artigo de revisão | A hs–cTnI e a hs-cTnT são os principais biomarcadores cardíacos na pesquisa de lesão cardíaca, porém seu aumento pode ser inespecífico. É importante a pesquisa de troponina em conjunto com o NT-proBNP, com a finalidade de estabelecer informações clínicas e prognósticas dos pacientes com COVID-19 |
10 | Doença do Coronavírus-19 e o Miocárdio | Figueiredo Neto, J. A.F. et al. (12) | 2020 | Artigo de revisão | Na forma grave da COVID-19, é comum que o músculo cardíaco, bem como o pericárdio sejam acometidos. Alterações clínicas, morfofuncionais e elevação da troponina devem direcionar para o acometimento cardíaco durante a infecção estudada |
11 | Emerging biomarkers for the detection of cardiovascular diseases | Thupakula, S. et al. (13) | 2022 | Artigo de revisão
| Biomarcadores cardíacos podem fornecer informações acerca do diagnóstico, complicações e prognóstico da condição em questão |
12 | Lesão Miocárdica e Prognóstico em Pacientes Hospitalizados com COVID-19 no Brasil: Resultados do Registro Nacional de COVID-19 | Barbosa, H.C. et al. (14) | 2023 | Estudo de coorte, utilizando dados de 31 hospitais, de 17 estados brasileiros, totalizando 2925 pacientes | Quase um terço dos pacientes analisados evoluíram com lesão cardíaca, sendo maior naqueles com comorbidades. Os pacientes com níveis de troponina aumentados apresentavam maior risco de evolução à óbito e necessidade de ventilação mecânica. Altos níveis de BNP e CK estavam relacionados à lesão miocárdica |
13 | Association Between COVID-19 Infection and Cardiac Biomarkers in Hospitalized Patients at a Tertiary Care Center | Bader, M.W. et al. (15) | 2023 | Estudo de coorte retrospectivo, realizado em um centro terciário na Arábia Saudita. A troponina positiva para o acometimento cardíaco foi definida como níveis acima do percentil 99 e níveis de BNP superiores a 100 pg/ml foi classificado como anormal | Dos 2.421 pacientes internados, cerca de um quinto apresentou algum tipo de envolvimento cardíaco, desses, quase 80% tinham lesão cardíaca aguda. Nos pacientes com lesão cardíaca, os níveis de Hs-cTnI foram um pouco mais de quatro vezes maiores quando comparados com os pacientes sem acometimento cardíaco. A diferença entre as dosagens do NT-proBNP entre esses dois grupos não apresentou uma diferença significativa |
14 | Valor Prognóstico da Troponina T e do Peptídeo Natriurético Tipo B em Pacientes Internados por COVID-19 | Almeida Junior, G.L.G.A. et al. (16) | 2020 | Estudo realizado por meio de análise de banco de dados de 183 pacientes, em um hospital do Rio de Janeiro. O nível de corte da Hs-cTnT foi de 0,014 ng/mL. O nível de corte do BNP foi de 100 pg/mL | Pacientes com níveis de TnT classificados no quartil 4 apresentavam mais de 50% de risco para a evolução à VM ou ao óbito. Esse estudo demonstrou que pacientes com lesão cardíaca apresentavam piores desfechos. Com base nessa amostra, a troponina pode ser utilizada como preditor para a evolução do paciente. Nesse estudo, o BNP não se mostrou como um marcador independente de risco |
15 | Assessment of the Relationship between Mortality and Troponin I Levels in Hospitalized Pacients with the Novel Coronavirus (COVID-19) | Özyılmaz, S. et al. (17) | 2020 | Estudo observacional de centro único e retrospectivo com 105 pacientes internados no Hospital da Faculdade de Medicina da Universidade Aydin (Istambul) | A relação entre a troponina I e o aumento do risco de mortalidade foi positiva. O ponto de corte efetivo, da troponina I foi de 7,8 pg/ml. Valores acima desse ponto possuem uma sensibilidade de 78% e especificidade de 86%. A troponina I se caracteriza como um fator de risco independente de mortalidade |
16 | Coronavirus disease 2019 in patients with cardiovascular disease: clinical features and implications on cardiac biomarkers assessment | Arcari, L. et al. (18) | 2021 | Estudo multicêntrico, com seleção de dados de 252 pacientes internados em dois hospitais de Roma, em 2020. O valor de corte do Nt-pro BNP é de 300 pg/ml ou 100 pg/ml, a depender do hospital. O valor normal da Hs-Troponina T é de 14 pg/ml e da Hs-Troponina I é de 35 pg/ml | As troponinas ultrassensíveis, BNP e o dímero-D foram mais elevados em pacientes com história de doença cardiovascular. Os pacientes que apresentaram esses aumentos foram, principalmente, os idosos, com DCV e que evoluíram para óbito intra-hospitalar. Pacientes com biomarcador dentro da normalidade tinham taxas de mortalidade intra-hospitalar de 4%, enquanto aqueles com o aumento dos marcadores cardíacos a taxa ficou em torno de 31%. |
17 | Association of Cardiac Injury With Mortality in Hospitalized Patients With COVIS19 in Wuhan, China | Shi, S. et al. (19) | 2020 | Estudo de coorte retrospectivo, realizado em um hospital na China, no ano de 2020. Foram selecionados 1004 pacientes, e após as filtragens (com base nos exames, sem informações médicas completas ou casos duplicados) restaram a análise final de 416 pacientes | Com base nesse estudo, há uma relação estatisticamente significativa entre o aumento dos biomarcadores cardíacos (lesão cardíaca) e a mortalidade. A lesão cardíaca aconteceu em cerca de 20% dos pacientes infectados. Pacientes com lesão cardíaca necessitam mais de ventilação não invasiva quando comparados com os que não tinham lesão cardíaca (38x13) e também de ventilação invasiva (18x14). A mortalidade também foi maior nos pacientes com lesão cardíaca, quando comparados com os demais (42x15) |
18 | Evolution of D-dimer level as biomarker of disease severity and mortality in patients with covid-19 | Kolotylo, T.R. et al. (20) | 2023 | Estudo de coorte retrospectivo com 2377 pacientes, realizado em um hospital de Nova Iorque. Também foi realizada a análise de dados de 247 pacientes para a observação de mortalidade. O valor do limite superior do dímero-D é estabelecido como 0,23 mg/L | A elevação do dímero-D possui relação com a gravidade e mortalidade da infecção. Mais de três quartos dos pacientes apresentam valores elevados de biomarcador na admissão hospitalar, enquanto um décimo apresentou valores maiores que 2 mg/L |
19 | What is the impact and efficacy of routine immunological, biochemical and hematological biomarkers as predictors of COVID-19 mortality? | Huyut, M.T. et al. (21) | 2022 | Estudo retrospectivo de centro único, a partir de coletas de dados de um hospital na Turquia. A pesquisa abrangeu 4597 pacientes, separados em dois grupos, os que sobreviveram (n=4364) e os que evoluíram para o óbito (n=233) | Esse estudo demonstrou uma diferença significativa dos grupos no que tange os níveis dos marcadores cardíacos e demais marcadores, entre eles: o dímero -D, CK-MB, troponina e procalcitonina |
20 | Inflammatory and Cardiac Biomarkers in Relation with Post-Acute COVID-19 and Mortality: What We Know after Successive Pandemic Waves | Lionte, C. et al. (22) | 2022 | Estudo de coorte prospectivo. Dados coletados de 978 pacientes no departamento de emergência, na Romênia, entre os anos de 2020-2021 | Foram analisados 509 pacientes infectados pela variante Alfa, 120 pacientes infectados pela variante Beta e 349 com a variante Delta. Segundo os resultados, as variantes Beta e Delta apresentaram maior risco de hospitalização e mortalidade. A troponina ultrassensível foi preditor de mortalidade em 30 dias apenas nas variantes Alfa e Delta |
21 | Laboratory Biomarkers for Diagnosis and Prognosis in COVID-19 | Battaglini, D. et al. (23) | 2022 | Estudo de revisão | A elevação dos biomarcadores cardíacos é consequência da lesão cardíaca, bem como da inflamação envolvida na infecção. Sendo assim, estão associados com o prognóstico e com a mortalidade. A mioglobina parece estar relacionada com uma maior precisão para a elaboração do prognóstico |
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Após a análise dos resultados dos artigos selecionados para a revisão, foi possível identificar que 16 artigos abordam o uso dos biomarcadores como diagnóstico e/ou prognóstico na infecção, 3 estabelecem descrição dos biomarcadores e 2 explicam a fisiopatologia da doença.
A infecção e o mecanismo de agressão celular direta causada pelo SARS-CoV-2 são desencadeados pela ligação da proteína Spike da superfície viral ao receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2). Sendo assim, quando o vírus se liga à ECA-2, ocorre o downregulation dessa enzima, que determina o aumento dos níveis de angiotensina II, levando aos efeitos deletérios da ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), como vasoconstrição, alteração de permeabilidade vascular, remodelamento miocárdico e injúria pulmonar aguda, justificando, assim, alguns dos sintomas pulmonares frequentes na síndrome.
Ademais, a ECA-2 também se expressa significativamente no coração, causando a neutralização dos efeitos da angiotensina II em estados com ativação excessiva do SRAA, como hipertensão arterial sistêmica (HAS), insuficiência cardíaca (IC) e aterosclerose, por converter angiotensina II em angiotensina I-VII, que tem efeito cardioprotetor. Dessa forma, quando ocorre a ligação da proteína Spike à enzima, esse efeito protetor não ocorre de forma adequada, podendo desencadear uma miocardite viral.
A segunda forma de mecanismo da lesão decorre da formação de microtrombos na vascularização do miocárdio na presença de um estado de hipercoagulabilidade como na coagulação intravascular disseminada (CIVD). Ocorre alterações nos sistemas de coagulação e fibrinolítico pelo aumento das citocinas inflamatórias, como IL-6, do fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α) e da lesão endotelial, desencadeando o aumento da expressão do fator tecidual e acarretando um estado de hipercoagulabilidade descontrolada. Ademais, a ativação e o aumento do complemento (CD4) contribuem para a alteração no funcionamento das células endoteliais e a exocitose do FvW e das proteínas plaquetárias, causando, por consequência, a atividade protrombinase e micro trombogênese, que desencadeiam as disfunções cardíacas.
Além disso, pode ocorrer também microtrombos nos capilares alveolares, que é desencadeado pela lesão endotelial grave, devido à presença intracelular de vírus do SARS-CoV-2 e a ruptura das membranas do endotélio vascular.
A presença de respostas imunes inflamatórias, responsáveis pela tempestade de citocinas, incluindo IL-6, IL-2R, TNF-α, proteína C-reativa e ferritina, contribui para o desenvolvimento da lesão miocárdica, que conduz a expressão mais grave da COVID-19 e os piores desfechos.
Os biomarcadores cardíacos, quando presentes na circulação, indicam a presença de lesão miocárdica ou estresse muscular cardíaco. Com isso, alguns dos biomarcadores que são utilizados para a avaliação cardíaca são a troponina I e T e a CK-MB. Já os marcadores inflamatórios possuem baixo valor de diagnóstico de doenças cardíacas, mas são mais utilizados como marcadores para necrose do miocárdio e o aumento do apoptose das células cardíacas, além disso, possuem um papel importante no monitoramento de pacientes infectados pelo vírus da Covid-19 (12, 5).
Sobre a troponina, diversos estudos relacionam o seu aumento com um pior prognóstico no curso da doença, sendo que seus níveis elevados estão associados com um risco aumentado do desenvolvimento da lesão cardíaca, bem como com um aumento na taxa de mortalidade. Pacientes internados devido à infecção do SARS-CoV-2 e com altos valores de troponina possuem um risco elevado de evoluírem para complicações, como a síndrome do desconforto respiratório aguda, ventilação mecânica e óbito.
O D-dímero, apesar de não ser um biomarcador cardíaco, foi encontrado acima dos limites naqueles pacientes que desenvolveram eventos trombóticos decorrentes da infecção pela COVID-19. Alguns biomarcadores de inflamação também têm sido utilizados no contexto de prognóstico clínico da infecção viral. Além disso, a interleucina 6, a proteína C reativa e a ferritina estão sendo associadas a uma resposta inflamatória exacerbada, refletindo na infecção grave pela COVID-19 (1).
O marcador BNP se eleva em situações em que ocorre o estiramento ventricular, portanto, são liberados do ventrículo para a corrente sanguínea de forma contínua. A CK, especialmente a fração MB, é encontrada no músculo cardíaco, sendo o seu uso útil para diferenciar lesão causada no músculo cardíaco ou no músculo esquelético (13).
Os peptídeos natriuréticos cerebrais são secretados em situações de estresse da parede ventricular. Esse estresse pode ser resultado da sobrecarga tanto de volume como de pressão. A partir de enzimas proteolíticas, como a furina, ocorre a quebra das ligações peptídicas do proBNP, originando o BNP e o peptídeo natriurético pró-tipo N-terminal (NT-proBNP). Esse último possui um tempo de meia vida maior quando comparado com o BNP. Com isso, o NT-pro BNP é utilizado como o principal marcador de prognóstico nos casos de insuficiência cardíaca e doenças infecciosas, como a COVID-19 (7).
Acerca dos miRNAs, os novos biomarcadores cardíacos estão relacionados com a regulação dos mediadores envolvidos na resposta imune, incluindo aqueles relacionados à inflamação causada pelo vírus em questão, particularmente nos eventos cardiovasculares. A desregulação dessa molécula se relaciona com diversas alterações cardiovasculares, sendo importante o seu uso como preditores do prognóstico na COVID-19.
A galectina é dita como um biomarcador em potencial para a avaliação da gravidade da lesão cardíaca causada pela COVID-19. A molécula é encontrada em diversos órgãos, como no coração e no pulmão, porém sua maior expressão ocorre por meio da liberação desse biomarcador pelos macrófagos, ou seja, acontece de forma mais significativa em processos inflamatórios. Ainda, pode estar relacionada com o processo de agregação plaquetária, uma das vias fisiopatológicas da lesão cardíaca (1).
De modo comparativo, a cTnI e a cTnT são marcadores cardíacos específicos que refletem a necrose do músculo cardíaco, independente do mecanismo da injúria. Esses marcadores estão relacionados ao ingresso do paciente na unidade de terapia intensiva (UTI), ou seja, à morte intra-hospitalar e à gravidade da infecção, possuindo, portanto, um alto valor prognóstico. No que tange ao BNP, seus níveis se elevam de forma imediata após o dano ao miocárdio e está relacionado com a intensidade da lesão, mas não com a gravidade da infecção, assim como a troponina se relaciona com os mesmos desfechos, porém com um valor prognóstico menor. Por fim, a CK-MB se relaciona tanto com o dano cardíaco como com o fluxo sanguíneo. Em contraste, os outros dois biomarcadores estão relacionados à gravidade da lesão, com seus níveis elevados associados à admissão na UTI e ao óbito intra-hospitalar. A CK-MB possui baixo valor prognóstico (11).
Em um estudo de coorte retrospectivo utilizando dados de 31 hospitais em cinco estados brasileiros, foram analisados os dados de 2.925 pacientes. Esse total de pacientes foi separado em dois grupos: a) o grupo controle, que não apresentaram elevação nos valores de troponina (n=2093); e b) o grupo do estudo, que evoluíram com aumento da troponina. Alguns indivíduos apresentaram maior risco de desenvolver lesão cardíaca, tendo em vista que aqueles com esse desfecho apresentavam, em média, 10 anos a mais em relação ao grupo que evoluiu sem o aumento do biomarcador em questão. Além disso, esses pacientes apresentavam um histórico de comorbidade associadas. Entre as patologias encontradas, as mais frequentes foram as vasculares, como acidente vascular encefálico prévio e doença arterial coronariana, arritmias (principalmente a fibrilação atrial), doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal crônica, câncer e diabetes (14).
Em uma meta-análise com 16 estudos realizada por Sheth et al. (4), foi demonstrado que cada biomarcador, seja de inflamação ou cardíaco, se eleva em situações diferentes, sendo que alguns deles são evidenciados em pacientes críticos ou naqueles que evoluíram para óbito, enquanto alguns desses biomarcadores se elevam nas duas situações. Dentre aqueles que se elevam em situações críticas, é possível citar cinco marcadores, sendo eles: a) o BNP, que tem o seu aumento em casos de estresse da parede ventricular; b) o DÍMERO-D, que se eleva em casos de trombose, uma das vias fisiopatológicas da lesão cardíaca causada pela infecção em questão; c) o LDH, que possui aumento em seus níveis nos casos de dano muscular, hepático e dos eritrócitos; d) a IL-6, que por ser um biomarcador de inflamação, se eleva nessas condições; e) a PCR, também sendo considerada como um marcador de inflamação.
No que diz respeito aos biomarcadores presentes em altos níveis nos casos de evolução à óbito, tem-se: a) a troponina, estando a sua elevação relacionada com a injúria do miocárdio; b) a creatina quinase total, sendo que seu aumento se relaciona com estresse muscular cardíaco e estriado; c) o LDH; d) o DÍMERO-D; e) a IL-6; e f) a PCR. Por fim, aqueles que se elevam nas duas situações são: a) a troponina; b) o BNP; c) o DÍMERO-D; d) a IL-6; e) a PCR; f) o LDH (4).
Em um estudo elaborado por Gajovic et al. (2) na Sérvia, foram incluídos 280 pacientes diagnosticados pelo SARS-CoV-2. Eles foram divididos em quatro estágios conforme a gravidade da doença, sendo o estágio I o curso da doença mais branda (n=61), enquanto o estágio IV representa a população com infecção grave (n=48). No primeiro grupo, os níveis da galectina-3 foram inferiores a 5000 pg/ml, enquanto, no último grupo, esses níveis alcançaram valores quatro vezes maior (p<0,05) (2).
Acerca do acometimento cardíaco, foi realizado um estudo com 2.421 pacientes admitidos em um serviço terciário de saúde em um hospital da Arabia Saudita, sendo que cerca de 20% desses indivíduos (n=501) tiveram o acometimento cardíaco ao longo da hospitalização. Com base nesse estudo, foi demonstrado que aqueles que tinham alguma doença cardíaca prévia desenvolveram mais casos de lesão cardíaca. Dentre os 501 pacientes hospitalizados, aproximadamente 46% (n=230) tinham alguma DCV prévia, sendo que 39 pacientes não desenvolveram lesão cardíaca, contra 191 que evoluíram para o acometimento do órgão em questão. Nesse tópico, a significância estatística foi menor que 0,05, sendo considerado um valor confiável.
Nesse mesmo estudo, foram analisadas diversas variáveis laboratoriais, dentre elas, os biomarcadores cardíacos. A troponina ultrassensível foi o marcador com maior significância estatística (p<0,001), seguida da creatina quinase. A média da Hs-cTnI foi de 25,8 pg/mL, sendo que, nos pacientes sem a lesão cardíaca, esse número foi de 8,2 pg/mL; em contrapartida, nos pacientes com lesão cardíaca, o nível de troponina residiu em torno de 35,7 pg/mL. O NT-pro BNP foi outro biomarcador cardíaco analisado, os valores médios em todos os pacientes foram de 131,5 pg/mL, tendo em vista que, nos pacientes sem injúria cardíaca aguda, os níveis médios ficaram em torno de 132 pg/mL, sendo que o valor máximo foi de 256 pg/mL; enquanto, nos pacientes com injúria cardíaca aguda, o valor médio foi de 128 pg/mL com valor máximo de 515 pg/mL. O valor de significância estabelecido foi 0,365.
Sobre a elevação da creatina quinase, o seu valor médio em UI/L ficou em torno de 97; nos pacientes sem injúria cardíaca, o valor foi de 76, já nos indivíduos que evoluíram com acometimento do coração, esse número foi de 101 UI/L, nos pacientes sem a lesão cardíaca, os níveis ficaram entre 32-187 UI/L, enquanto, nos pacientes com a lesão cardíaca, o intervalo dos valores foi de 51-221 UI/L (p=0,043) (15).
Um estudo, realizado por meio da revisão de prontuários médicos de 183 pacientes internados em um hospital brasileiro, no Rio de Janeiro, em indivíduos com o diagnóstico de COVID-19 confirmado por meio de exames moleculares, teve como objetivo a análise dos níveis de biomarcadores cardíacos e o prognóstico clínico.
Segundo Almeida Junior (16), há diferenças entre os níveis dos biomarcadores cardíacos, a mortalidade e a necessidade de ventilação mecânica. Os níveis de troponina T ficaram entre 0,006 ng/dL e 0,017 ng/dL nos pacientes que não necessitaram de ventilação mecânica e sobreviveram à infecção (n=139); entretanto, nos pacientes que precisaram de suporte ventilatório e evoluíram para o óbito, os níveis de troponina ficaram entre 0,012 ng/dL e 0,072 ng/dL (n=44). Nesses mesmos pacientes, também foram analisados os níveis do BNP, sendo que, nos indivíduos com desfecho positivo, os níveis séricos ficaram entre 16,75 ng/dL e 138 ng/dL; e, nos pacientes com desfecho negativo, os valores residiram entre 45 ng/dL e 619 ng/dL. Nas duas análises, tanto nos níveis de troponina como nos níveis de BNP, o valor foi de p<0,001.
Sobre a pertinência dos quartis de troponina T e a probabilidade de evolução para a necessidade de ventilação mecânica (VM), esse mesmo estudo relacionou essas duas variáveis, sendo que a elevação do biomarcador no primeiro quartil (> 0,006 ng/dl) representou a probabilidade de 6,4 % de óbito ou VM; para o segundo quartil (0,007 - 0,01 ng/dl), esse risco foi de 15,2%; elevações residentes no quartil 3 (0,01 - 0,029 ng/dl) a evolução para a VM, ou óbito, foi de aproximadamente 25%; por fim, o quartil 4 (>0,03 ng/dl) obteve 57,1% de probabilidade para tal evolução (16).
Segundo Özyılmaz (17), em um estudo realizado com 105 pacientes hospitalizados, a razão da mortalidade foi de 8,5% (n=9). Em relação a troponina I, o valor de corte estabelecido, com base em análises estatísticas, foi de 7,8 pg/ml, para o risco de evolução à óbito, esse valor obteve uma sensibilidade de 78% e uma especificidade de 86% (p<0,001) (17).
Em estudos realizados em pacientes que necessitam de internação na unidade de terapia intensiva, nota-se que mais de 50% dos pacientes foram acometidos com lesões miocárdicas.
Concentrações muito baixas de troponina auxiliam na identificação de pacientes com melhor prognóstico e menor risco de complicações, esses níveis foram de 6 ng/L troponina T e 5 ng/L para a troponina I (10).
Em outro estudo, realizado na cidade de Roma, com base nos dados de 252 pacientes, foi analisada a relação entre a infecção viral e a presença de doenças cardiovasculares (DCV) prévias, sendo que essa última é uma variável importante no que tange a elevação de biomarcadores cardíacos e o pior prognósticos dos pacientes internados. Nessa análise, foi possível perceber que os níveis de troponina ultrassensível foram maiores nos pacientes com DCV previamente diagnosticadas quando comparados com aqueles sem DCV, sendo que, no primeiro grupo, o nível desse biomarcador foi em média de 29 pg/ml, em contrapartida, nos pacientes previamente sadios, o nível dessa molécula foi de 10 pg/ml (p>0,001).
Outro biomarcador analisado nesse estudo foi o peptídeo natriurético, cuja diferença entre os valores obtidos foi a mais significativa, sendo que, em pacientes com doenças cardiovasculares prévias, os níveis foram 5 vezes maiores em relação ao limite superior da normalidade (LSN), enquanto, nos indivíduos sem doenças cardiovasculares prévias, esse nível foi 0,5 vezes maior em comparação com o LSN (p>0,001).
Por fim, em relação à mortalidade intra-hospitalar, nos pacientes com doença cardiovascular prévia, a mortalidade fica em torno de 30%, e, naqueles previamente sadios, a mortalidade fica em torno de 12%, ou seja, a presença de uma DCV estabelece um risco de evolução a óbito em mais de duas vezes entre um grupo e outro (18).
Outro estudo, realizado por Shi et al. (19), de cunho retrospectivo de coorte realizado em Wuhan no ano de 2020, analisou a taxa de mortalidade nos pacientes com e sem lesão cardíaca, utilizando uma amostra de 416 pacientes. Dentre esses pacientes, 19,7% apresentaram lesão cardíaca (n=82) e 80,3% não apresentaram lesão cardíaca (n=334). A taxa de mortalidade foi maior nos pacientes com a injúria cardíaca, sendo que 51,2% (n=42) evoluíram para o óbito, enquanto entre os que não apresentaram lesão cardíaca, apenas 4,5% (n=15) evoluíram para tal desfecho, com p< 0,001.
Esse estudo relacionou ainda o aumento na taxa de mortalidade com os níveis da troponina I ultrassensível. Os pacientes sem a lesão cardíaca apresentaram níveis de hs-TnI inferiores a 0,006 ug/L, enquanto, nos pacientes com lesões nesse órgão, o nível do biomarcador mencionado residiu entre 0,08-1,12 ug/L (p<0,001). Outro biomarcador analisado nesse estudo foi o NT-proBNP, sendo que, nos pacientes acometidos por esse desfecho negativo, os níveis do peptídeo natriurético foram mais de 10 vezes maiores em relação aos pacientes sem lesão cardíaca (1689 pg/ml x 139 pg/ml).
Além desses dados, Shi et al. (19) observaram a relação entre o tratamento e as complicações entre esses dois grupos. Entre os pacientes com lesão cardíaca, n =18 (22%) necessitaram de ventilação mecânica, enquanto 4,2% (n=14) dos que não evoluíram com lesão cardíaca precisaram de VM, p<0,01 (19).
A troponina está relacionada com o risco do desenvolvimento de infecções, como pneumonia, sepse e demais complicações, entre elas, doença pulmonar obstrutiva crônica e desconforto respiratório agudo, além de estar relacionada, de forma proporcional, com a mortalidade.
Além de ser um marcador de hipercoagulação, o dímero D também representa a fisiopatologia da doença, tendo em vista que os produtos de degradação da fibrina podem ocasionar disfunção pulmonar aguda.
Segundo Kolotylo et al. (20), que realizaram um estudo analítico em um hospital de Nova Iorque, por meio da análise do prontuário de 2.377 pacientes, foi demonstrado a relação entre os níveis de dímero D e a gravidade, estando essas duas variáveis relacionadas, e, como consequência, o nível desse biomarcador e a sobrevivência são inversamente proporcionais. Em diversos casos, 85% dos pacientes que evoluíram ao óbito possuíam níveis de dímero D acima de 3 mg/L, e, em pacientes com níveis maiores que 1 mg/L, foi obtido uma mortalidade de 81%. Além do mais, menos de um quarto dos pacientes sobreviventes possuíam um dímero D maior que 1 mg/L (20).
Nos pacientes direcionados para a UTI, os níveis do dímero D ultrapassaram os 2 mg/L, enquanto, nos demais pacientes, esses níveis não ficaram além de 0,5 mg/L. Dos pacientes que não sobreviveram, mais de 80% possuíam níveis superiores a 1 mcg/ml. O aumento desse biomarcador é inespecífico e pode estar relacionado com eventos venosos, como o tromboembolismo (6).
Há, ainda, um estudo elaborado por Lionte et al. (22) que relaciona o aumento dos biomarcadores cardíacos conforme a cepa infectante da COVID-19. As variantes existentes atualmente são a Alpha, a Beta, a Gamma e a Delta, sendo que a segunda e a última apresentam um maior risco de complicações, bem como de gravidade em relação às demais. Esse estudo traz a comparação entre a variante Alpha, Beta e Delta e diversos exames laboratoriais, entre eles os biomarcadores cardíacos. Em relação à troponina ultrassensível, os pacientes infectados com a variante Alpha (n=509) apresentaram um nível médio desse marcador de 8,3 ng/L em sobreviventes sem sequelas (n=279), e de 17,4 ng/L naqueles que evoluíram para óbito em 30 dias (n=126), com valor de p<0,017. Nos pacientes infectados pela variante Beta (n=120), os níveis da hs-TnI foram de 2,8 ng/L nos sobreviventes sem sequelas (n=49) e 16,4 ng/L naqueles que evoluíram para o óbito em 30 dias (n=42), sendo o valor de p igual a 0,134. Por fim, a variante Delta (n=349) apresentou níveis de troponina ultrassensível em torno de 13,4 ng/L nos sobreviventes sem sequelas (n=108) e 20,7 ng/L nos que evoluíram para o óbito em 30 dias (n=175), com p<0,003.
Os níveis de NT-proBNP também foram analisados nesse mesmo estudo nos mesmos pacientes. Sendo assim, em relação à infecção pela variante Alpha, o nível do biomarcador ficou na média de 691 pg/L nos sobreviventes sem sequelas e em torno de 2001 pg/L nos pacientes que morreram após 30 dias, p<0,001. Em relação à infecção pela variante Beta, o valor desse marcador nos pacientes sem sequelas foi cerca de 582 pg/L, enquanto, nos pacientes que evoluíram para o óbito em um mês, foi de 2182 pg/L, p=0,185. Por fim, nos pacientes infectados pela variante Delta, o NT-proBNP nos pacientes que sobreviveram sem sequelas foi aproximadamente 850 pg/L e, nos pacientes com evolução para o óbito, o valor foi de 1394 pg/L, p<0,003. Os valores são uma média entre os níveis medidos de todos os pacientes selecionados (22).
A partir da elevação dos biomarcadores séricos, é possível prever e, consequentemente, evitar desfechos negativos para os pacientes infectados. O aumento da troponina e dos peptídeos natriuréticos reflete um maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e mortalidade, enquanto o aumento da CK-MB, mioglobina, D-dímero, BNP e células leucocitárias estão relacionadas com o prognóstico (23).
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4. Considerações finais
De acordo com diversos estudos realizados, é possível perceber a relação entre o aumento dos níveis de troponina e um pior prognóstico para os pacientes afetados pela infecção do SARS-CoV-2, sendo que os pacientes com história médica pregressa para doença cardíaca são os mais atingidos. Ou seja, a monitorização dos biomarcadores cardíacos auxiliam na estratificação do risco do indivíduo, direcionando, portanto, as decisões do tratamento. Porém, ainda são necessários mais estudos em relação às intervenções eficazes para o manejo das complicações (1).
A taxa de mortalidade naqueles pacientes que desenvolvem a forma crítica da doença pode superar os 60%. Sendo assim, é possível perceber a importância do fornecimento do tratamento adequado para a redução da taxa de mortalidade secundária a doenças graves causadas pela infecção. Os resultados dos marcadores biológicos são importantes para a revisão do diagnóstico e do esquema de tratamento a ser estabelecido (21).
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5. Declaração de direitos
Os autores declaram ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declaram que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do(s) autor(s), e não possuem direitos autorais reservados a terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara(m) respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou autoplágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.
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