ISSN: 2595-8402
DOI: 10.61411/rsc90476
Publicado em 19 de setembro de 2023
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ANO 2023
UM OLHAR SOBRE INSEGURANÇA E MEDO EM PEQUENAS E MÉDIAS CIDADES
Gustavo Gabriel Garcia¹; Henrique Manoel da Silva²
1,2Universidade Estadual de Maringá, Maringá, Brasil.
RESUMO
Nos últimos anos, tem sido evidente um substancial aumento da criminalidade em cidades de porte médio e pequeno no Brasil. O que uma vez foi uma realidade mais prevalente em áreas urbanas de grande escala, agora se expandiu para atingir comunidades de diversos tamanhos. O presente estudo tem como propósito oferecer contribuições teóricas que lançam luz sobre esse fenômeno preocupante. A intenção subjacente é estimular futuras pesquisas nessa temática particularmente sensível, promovendo assim uma compreensão mais profunda e uma abordagem mais eficaz para enfrentar esse desafio crescente.
Palavras-chave: Criminalidade, Cidades, Teoria.
1 INTRODUÇÃO
As pequenas cidades por muito tempo foram conhecidas como lugar de tranquilidade, calmaria e serenidade, uma vida bucólica e feliz, o qual dormir com as janelas abertas sentindo o frescor da noite iluminada pela lua era comum, os vizinhos e amigos sempre próximos. Entretanto, esse cenário tem mudado rapidamente, e as janelas que antes ficavam abertas se fecham, os vizinhos tornaram-se estranhos e as ruas sinal de perigo e insegurança, tomadas por transeuntes céleres.
Esse fenômeno deve ser analisado focando as transformações culturais, econômicas, políticas e sociais do mundo globalizado, pois apesar das pequenas cidades parecerem oásis estanques em um copioso sistema de produção e distribuição global, estão também inseridas nesse sistema global. Desse modo, as mudanças que ocorrem em escalas, mundial, nacional e estadual afetam sua dinâmica. Em síntese, o mundo globalizado insere precariamente todos os espaços. Esse é o modo de inserção possível numa sociedade crítica como a moderna sociedade capitalista ([4], p.137). Podemos compreender esse processo como Guy Debord, enquanto “uma maré de destruições, poluições, falsificações, que se estende por toda a superfície do planeta”: “em um mundo unificado, não é possível exilar-se” ([6], p.49). De acordo com Pedrazzini ([11], p.99):
Os fenômenos de violência das grandes cidades e o sentimento de insegurança dos seus habitantes são indicadores e fatores de uma transformação radical do espaço urbano. A “reconquista” da segurança individual e coletiva nas cidades no Norte e do Sul realiza-se por meio de uma luta contra os atores da violência urbana e os responsáveis pela “insegurança”, favorecendo a criação de um mercado atrativo. O problema não se restringe às grandes cidades e não parece fundado em situações reais, pois observamos o sentimento de insegurança invadir igualmente cidades médias e pequenas, inclusive aquelas onde não foram constatados incidentes violentos recentes, mas que se encontram expostas à globalização desse sentimento urbano, hoje também perceptível em meio rural.
Pedrazzini [11] entende o fenômeno da violência urbana como desenvolvimento de uma nova forma de apropriação do território pelo mercado, assa apropriação se impõem violentamente pelos espaços, transformado e segregando os mesmos. Contudo, esse fenômeno é naturalizado pelo sistema capitalista, o qual objetivo último é o lucro. As pessoas como agentes e sujeitos estão transpassadas por essa lógica diariamente dentro e fora do circuito urbano.
[...] a hegemonia da metrópole, o processo de ultra- urbanização não pode seguir seu curso sem exercer uma violência “contra o território” - contra sua “natureza, sua topografia, seu caráter – e contra seus habitantes. Seria, portanto, correto pensar a violência de alguns habitantes apenas (para uma grande maioria) como uma resposta à violência da urbanização, da sociedade urbana, do território fragmentado, da economia da desigualdade e da segregação. ([11], p. 54).
De acordo com Sposito (2005, p. 10), as cidades são, em parte, “o resultado cumulativo de todas as outras cidades de antes, transformadas, destruídas, reconstruídas, enfim produzidas pelas transformações sociais”. É preciso também levantar informações sobre a formação das cidades, suas especificidades locais, dentro do contexto das narrativas históricas, objetivando compreender sua gênese e evolução.
2 CRESCIMENTO URBANO EM FOCO
Atualmente o tema urbanização tornou-se imprescindível inclusive para o Brasil, sendo que 85% da população vivem em áreas consideradas urbanas segundo o IBGE [9]. A população brasileira é majoritariamente urbana, entretanto isso não significa uma homogeneização ou padronização, pois as cidades têm suas particularidades dentro de suas escalas espaciais e temporais, apesar de estar inseridas na lógica de produção capitalista atualmente.
É imprescindível ressaltar que o processo de urbanização no Brasil começou através das políticas de Getúlio Vargas na década de 30, adotando medidas de fomento a industrialização, visando o mercado interno e substituição de importação, mas foi no início de 1960 e 1980, que “o êxodo rural brasileiro alcançou um total de 27 milhões de pessoas. Poucos países conheceram movimentos migratórios tão intensos, quer se considere a proporção ou a quantidade absoluta da população rural atingida” ([2], p.1) Nesse momento as cidades brasileiras cresceram rapidamente devido aumento da população de origem rural, além dos imigrantes. Esse aumento repentino da população urbana está atrelado também as transformações que ocorreram no campo, como avanço das técnicas de produção, mecanização e concentração fundaria. Esse processo ocorreu de modo atrelado ao urbano, resultando em um modelo de relações mais complexas entre campo – cidade.
A busca pela cidade significava melhores condições de vidas comparadas a realidade rural naquele momento, marcada pela precariedade do trabalho, dificuldade de acesso a serviços básicos, como, por exemplo, educação, saúde, lazer, saneamento básico, etc. A vida na cidade emergia mais iluminada e pulsante, onde era possível viver livre do mandonismo das velhas oligarquias, inclusive do café na região sudeste e sul. Talvez uma das muitas músicas que retrate esse momento é a canção “Sampa” de Caetano Veloso de 1978 [13].
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mas possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa.
(Caetano Veloso [13]).
Na letra da música é possível imergir na condição de um personagem que deixa sua vida no campo e segue em direção a São Paulo, em busca de melhores condições de vida, onde possa realizar seus sonhos. No início da música a Avenida Ipiranga e São João, são referências, pois representa o centro da grande cidade, movimentada por carros, motocicletas e transeunte. Seus grandes edifícios e comercio. No período da composição da música essas duas avenidas era referência por aqueles que procuravam trabalho. Entretanto, aquele imigrante do campo que chagava ali nada intendia de início, da “dura poesia concreta de tuas esquinas” era como um lugar estranho, desconhecido. Ou seria um Não-Lugar?
No segundo momento da canção é possível identificar que o Eu lírico não se reconhece naquele espaço, “quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto”, pois aquela espacialidade não refletia a imagem de cidade presente no imaginário do imigrante, “e foste um difícil começo afasto o que não conheço e quem vem de outro sonho feliz de cidade a prende depressa a chamar-te de realidade porque és o avesso do avesso do avesso do avesso” [13].
No terceiro momento o Eu lírico constata que a cidade do seu imaginário, como sonho, utopia, estava distante da realidade presenciada, “do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas da força da grana que ergue e destrói coisas belas da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas” [13]. Assim essa composição abarca o imaginário e a realidade de milhares de pessoas que deixaram o campo em direção à cidade, no caso específico da música - São Paulo. Como na composição, muitos não se reconheceram nesse lugar, e passaram a aspirar voltar para o campo ou em direção a uma cidade menor. O conceito de Não lugar do antropólogo Marc Augè subsidia essa leitura. De acordo com autor, espaço do não lugar não cultiva identidade singular nem relação, mas sim solidão:
[...] na realidade concreta do mundo de hoje, os lugares e os espaços, misturam-se, interpenetram-se. A possibilidade do não lugar nunca está ausente de qualquer lugar que seja. A volta ao lugar é o recurso de quem frequenta os não lugares. Lugares e não lugares se opõem (ou se atraem), como as palavras e as noções que permitem descrevê-las. ([1], p.98).
Geralmente o espaço do Não lugar é constituído com objetivos como: comércios, fast-food, lazer, transportes. A relação que os indivíduos mantêm com esses espaços intercambiáveis, são geralmente marcados exclusivamente pelo consumo ou circulação, que não possibilita as relações interpessoais, afetivas e identitária. “É no anonimato do não lugar que se experimenta solitariamente a comunhão dos destinos. Haverá, portanto, espaço amanhã, talvez já haja espaço hoje, apesar da aparente contradição dos termos, para uma etnologia da solidão” ([1], p.110). A solidão que permeia o espirito de muitos citadinos está relacionada à forma de vida na cidade, que no caso busca atender principalmente ao mercado de produção capitalista e seus objetivos mercadológicos como citado anteriormente. A cidade do neoliberalismo é a cidade do “Não lugar” voltada aos fluxos e movimentos constantes que assegure a liquidez do capital.
Assim a cidade em seu movimento não acolhe a todos os seus moradores, é mais como o filme Metrópolis de 1927 do diretor Fritz Lang, o qual a mesma se encontra dividida em duas partes, na superfície formada por belas paisagens idílicas, os ricos e políticos vivem tranquilamente desfrutando dos prazeres, enquanto que os trabalhadores vivem no subsolo, de modo precário, trabalhando exaustivamente, sem o mínimo de dignidade, sofrendo todo tipo de violência. Essa Metrópolis de 1927 continua sendo a imagem do mundo contemporâneo, cidades dentro de cidades, uma sobrepondo a outra e ordenando a violência das relações econômica e sua maquinaria antropofágica que consome as vidas dos proletariados, metáfora empregada engenhosamente pelo diretor Fritz Lang ao longo do filme, inclusive em uma cena que expõem alegoricamente alguns proletariados sendo devorados por uma máquina em forma de sacrifício. A cidade contemporânea é produtora de “Não lugar” refletindo na condição da existência humana, inclusive na produção da solidão, sentimento esse relacionado a insegurança e medo.
Refletindo sobre a condição humana e sua existência sôfrega na cidade, não poderia deixar de citar o romance Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski, publicado pela primeira vez em 1866 na revista literária O Mensageiro Russo durante doze edições mensais, posteriormente, foi publicado em volume único. O protagonista do romance é um jovem chamado Raskólnikov o qual vive na cidade portuária russa de São Petersburgo, apesar de ser uma cidade movimentada e com número elevado de moradores esse jovem vive de modo solitário e enfrenta imensas dificuldades financeira, sua condição social é precária, vivendo em um quarto alugado e trabalhando esporadicamente, seus rendimentos são insuficientes até mesmo para as necessidades mais básicas. “Andava tão absorto e isolado de todos que temia qualquer tipo de encontro, não só com a senhoria. Estava esmagado pela pobreza, a até mesmo o aperto em que vivia deixara de oprimi-lo ultimamente. Abandonara de vez as atividades essenciais e se negava a estudar.” ([7], p.9).
Ao longo do romance esse jovem planeja conscientemente o assassinato de Aliena Ivánovna, uma velha agiota, mas, por força das circunstâncias, acaba assassinando também a sua irmã, Lisavieta. Após o crime o mesmo passa a conviver com a culpa. A partir do crime, Fiódor dostoiévski desenvolve em seu romance uma reflexão sobre a culpa e o pecado do assassino levando em consideração seu estado social. Assim evidencia como a solidão e as desigualdades sociais estão atreladas as ações e pensamentos humanos, que se manifestam diariamente. Em síntese, o romance Crime e Castigo é uma obra notável e sensível sobre as misérias humanas na modernidade em uma sociedade desigual e com poucas oportunidades. Como expôs Friedman ([8], p.165,) “o crime de Raskólnikov poderia muito bem ser visto como uma tentativa desesperada de romper o subterrâneo e fazer contato com a existência”, assim como os operários do filme Metrópolis.
Após 49 anos do filme Metrópolis o cantor e compositor brasileiro Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, gravava em 1976 a canção “O mundo é um moinho” esse mesmo moinho que tritura o sonho de milhares de crianças e jovens que não encontram na cidade a possibilidade de uma vida melhor. Essa canção tornou-se uma das metáforas mais belas para nos aconselhar sobre a vida na cidade subterrânea em referência ao filme, em que vivem desalentados e vulneráveis.
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó.
(CARTOLA [3], s/p).
Nessa estrofe o compositor e cantor Angenor de Oliveira realça as dificuldades encontradas no mundo por aqueles que não possuem oportunidades, e vivem sonhando com uma vida melhor apesar das condições impostas, contudo esse sonho comumente torna-se frustração e as ilusões na maior parte dos casos é reduzida a pó. Assim a música como a arte de modo geral retrata e representa a realidade de milhares de pessoas que vivem a beira do abismo, que teve seus direitos escamoteados e negados, inclusive o direito de sonhar, desse modo a arte é o ato de questionar e resistir ante o atual cenário.
Lefebvre [10] entende que o direito a cidade e a vida urbana são basilares na construção de um mundo democrático e justo, é importante superar os resquícios “de uma sociedade milenar na qual o campo dominou a cidade, cujas ideias e ‘valores’, tabus e prescrições eram em grande parte de origem agrária” ([10], p. 108).
Diante do exposto, seria a cidade imagem e semelhança da sociedade? É possível contemplar a cidade como espaço de liberdade, inclusive para os menos favorecidos economicamente? A violência na cidade é endêmica ou pandêmica? Como pensar a cidade para o futuro, e quais critérios estabelecer? As respostas devem considerar o modo (produção) de vida que nos trouxeram até o atual momento, e a partir desse ponto pensar um novo modo de construção que atenda de fato os anseios da sociedade, pensar de modo coletivo e inclusivo. Segundo David Harvey ([5], p. 28):
[...] a cidade que queremos não pode ser separada da questão do tipo de pessoas que queremos ser, que tipos de relações sociais buscamos, que relações com a natureza nos satisfazem mais, que estilo de vida desejamos levar, quais são nossos valores estéticos. O direito à cidade é, portanto, muito mais do que um direito de acesso individual ou grupal aos recursos que a cidade incorpora: é um direito de mudar e reinventar a cidade mais de acordo com nossos mais profundos desejos. Além disso, é um direito mais coletivo do que individual, uma vez que reinventar a cidade depende inevitavelmente do exercício de um poder coletivo sobre processo de urbanização.
Ainda segundo Harvey [5] é preciso reinventar a cidade, pensar coletivamente, inclusive fortalecendo os movimentos sociais e estimulando o diálogo. Para Lefebvre [10], a sociedade contemporânea, vive atualmente conectada, por intermédio de aparelhos digitais, redes sociais, essas interações podem potencializar tanto o diálogo como o constrangimento, opressão e a violência, refletindo em sentimentos de medo, angustia, incerteza. Esses sentimentos passam a repercutir nas tomadas de decisões da população, que optam pela individualidade e espaços privados, dificultando apropriação da vida urbana de modo positivo e construtivo. De acordo com PEDRAZZINI, ([11], p. 63).
Embora as novas tecnologias tenham acelerado as transformações sociais e modificado suficientemente a relação entre o homem e a cidade, elas não trouxeram melhorias no cotidiano de muitos trabalhadores nem de suas famílias numerosas. (...) a economia de mercado destrói as sociabilidades operárias para criar o individualismo dos consumidores, portando vítimas de uma dupla exploração.
Lefebvre [10] ressalta que a sociedade atual tem a possibilidade de construir novas relações ante o avanço dos aparelhos de comunicação e informação que teoricamente facilita diálogo entre cidadãos, contudo muitos daqueles que dispõem do acesso não estão aproveitando a funcionalidade com esse objetivo, inclusive parte considerável é apropriado pelo mercado para vender seus produtos, inclusive estilos de vida. É preciso ressaltar que nem todos têm acesso aos meios de comunicação, inclusive os mais vulneráveis, que não conseguem arca com o ônus devido os valores exorbitantes dos aparelhos e dos sistemas tecnológicas, assim ficam do lado de fora, e como a tecnologia é parte substancial da atualidade os mesmos encontram-se distante tanto do consumo como da oportunidade da construção democráticas e defesa de seus direitos.
Harvey ([5], p.47) cita que “O modo como vemos o mundo e definimos possibilidades depende do lado da pista em que nos encontramos e a que tipo de consumismo temos acesso”. Assim, autor ressalta a importância emergente de construir e solidificar o direito a cidade. É preciso que a classe popular busque constantemente lutar pelos seus direitos, assumindo a responsabilidade do projeto de mudança, o qual a mesma “deve se tornar o agente, o portador ou o suporte social dessa realização” ([10], p. 118).
O direito à cidade se manifesta como forma superior dos direitos: direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitat e ao habitar. O direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direito à propriedade) estão implicados no direito à cidade ([10], p. 134).
Para o autor o direito a cidade é basilar e imprescindível, uma vez que é o espaço da habitação, trabalho, instrução, saúde, etc. Desse modo é preciso zelar pelo direito a cidade, deixando de lado práticas nocivas ao espaço público, discursos individualistas e preconceituosos, que desvalorizam e menosprezam a sociedade urbana, a fim de construir uma nova concepção sobre a vida urbana. David Harvey ([5], p.49.) assinala que há todo tipo de movimentos sociais urbanos em evidência buscando superar o isolamento e reconfigurar a cidade de modo que ela passe a apresentar uma imagem social diferente daquela que lhe foi dada pelos poderes dos empreiteiros apoiado pelas finanças [...].
Para Lefebvre ([10], p.79) a cidade deve ser um espaço de encontros, diálogos, que estimulem o lúdico e a construção democrática dos espaços, “a forma do urbano, sua razão suprema, a saber, simultaneidade e o encontro, não podem desaparecer” pois o direito a cidade é também direito a vida.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenrolar do processo de urbanização no Brasil, com mais de 85% da população vivendo em áreas urbanas, revela uma realidade complexa e multifacetada. Enquanto a migração do campo para a cidade buscava melhores condições, essa transição frequentemente trouxe consigo uma realidade de solidão e desafios, ressaltando a dificuldade de adaptação e a precariedade das condições de vida para muitos.
A cidade, inicialmente vista como um lugar de promessas e oportunidades, muitas vezes se torna uma fonte de não-lugares, onde indivíduos podem sentir-se anônimos, desconectados e até mesmo oprimidos. A exploração capitalista molda relações urbanas, contribuindo para a construção dessa paisagem de não-pertencimento e isolamento.
No entanto, resistências emergem no tecido urbano. Movimentos sociais, o clamor pelo direito à cidade e a busca por transformações mais inclusivas e justas refletem a insatisfação com essa realidade. A cidade não deve ser somente uma projeção das forças do mercado; ela deve ser moldada por aspirações coletivas e valores humanos, fomentando a igualdade, a diversidade e o senso de pertencimento.
O desafio atual é transformar o espaço urbano em um ambiente onde todas as camadas da sociedade encontrem igualdade de oportunidades e qualidade de vida. Ao promover a interação, o diálogo e a cooperação, podemos redesenhar a cidade para que ela se torne um lugar de acolhimento, colaboração e realização de aspirações individuais e coletivas. Em última análise, a urbanização deve transcender as limitações impostas pela lógica capitalista e se tornar um processo de construção de comunidades vibrantes e inclusivas.
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