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ISSN: 2595-8402

DOI: 10.5281/zenodo.8169662

Publicado em 20 de julho de 2023

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ​​ ANO 2023

 

OCORRÊNCIA DA ESPOROTRICOSE: UM REGISTRO DA DISSEMINAÇÃO DO COMPLEXO SPOROTHRIX SCHENCKII NA POPULAÇÃO DE GATOS DOMÉSTICOS NAS REGIÕES BRASILEIRAS

 

Raissa Coutinho de Lucena1; Leonardo Borges de Lima2; Ciel Silva de Oliveira Veras Lima3; Esdras Cabral de Melo Júnior4; Paulo Henrique da Fonseca Belo5; Katharina Medeiros Costa Gomes6; Diana Guiomar Ferreira de Sena7; Francine Maria de França Silva8; Roseana Tereza Diniz de Moura9; Evilda Rodrigues de Lima10

 

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, Brasil ​​ 

1[email protected]

2[email protected]

3[email protected]

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RESUMO

O perfil epidemiológico da distribuição da doença no país é uma ferramenta na promoção da saúde e vigilância, uma vez que a esporotricose é uma zoonose emergente no país e o gato participa do seu ciclo de transmissão. Dessa maneira, buscou-se delinear uma revisão bibliográfica com enfoque no levantamento de estudos observacionais retrospectivos sobre a ocorrência de animais positivos para a doença nas diferentes regiões do país. A obtenção dos dados de distribuição e/ou prevalência foram análises de 68 artigos dispostos nas plataformas Scientific Eletronic Library Online (SciELO) e Medline/Pubmed.e através do Ministério da Saúde. O Norte possui uma ausência imensa de dados, onde Amapá, Acre, Roraima e Tocantins não possuem nenhuma forma de registro de ocorrência publicada; Centro-Oeste é marcado pelos dados notificados da forma humana da infecção, porém, registros em gatos são esporádicos; Sudeste é marcado pela presença alta da prevalência da doença no RJ; no Sul, sul do RS vêm destacando-se pela presença progressiva no mapa de vigilância epidemiológica, mesmo não ocorrendo relatos em Santa Catarina até 2009. Em relação ao aumento progressivo, PE e RS precisam ficar sob vigilância e desenvolver métodos de controle efetivos.

Palavras-chave:Epidemiologia, Clínica de Felinos, Saúde Pública, Zoonose.

 

1 INTRODUÇÃO

Em função da progressiva descoberta de diversos agentes etiológicos responsáveis pela esporotricose desde a sua descoberta como patógeno isolado, a denominação Complexo Sporothrix schenckii. Tal Complexo abriga as espécies S. schenckii, S. brasiliensis, S. globosa, S. mexicana, S. luriae e S. albicans, diferenciadas pela análise genética individual da amostra [1]. O uso da análise de sequenciamento de bases de DNA revelou que os mesmos isolados de S. schenckii e S. brasiliensis estão presentes nos estados do Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, constituindo as principais espécies do complexo envolvidas no desenvolvimento da afecção nas formas humanas e felinas [2].

Schenck descreveu a doença pela primeira vez no Estados Unidos em 1898, entretanto, apenas em 1907 foram descritos os primeiros casos da infecção no Brasil por Lutz e Splendore [3], [4]. Descrita como uma doença de baixa incidência local, durante muito tempo, a esporotricose alterou seu cenário epidemiológico. Relatos mostram que vem ocorrendo com maior frequência o aumento do número de casos descritos, principalmente as formas clínicas mais graves ou atípicas da doença [5].

Uma das características mais marcantes do gênero é o dimorfismo, apresentando duas fases de crescimento distintas: filamentosa e leveduriforme [6]. A associação de fatores abióticos ideais, temperatura média (entre 20 e 25°C), presença de matéria orgânica e alta umidade, define o desenvolvimento da fase filamentosa dos agentes etiológicos e é responsável pela via de transmissão sapronótica.

O contato direto por meio de arranhaduras e mordidas são responsáveis pelo acesso do fungo ao organismo através da lesão tecidual. As leveduras encontram-se distribuídas nas garras, cavidade oral e diretamente no exsudato das lesões cutâneas múltiplas dos gatos domésticos [7]. Foi observado que gatos jovem-adultos apresentam uma chance maior de contrair a afecção, quando comparados a animais fora da idade reprodutiva [8].

Em humanos, a infecção fúngica é marcada por uma terapêutica simples e, na maioria dos casos, pela ausência de complicações no decorrer do tratamento. Seu prognóstico é majoritariamente favorável. Contrariamente, nos gatos, a esporotricose tem um curso de tratamento superior, frequentemente ocorre o acometimento sistêmico, desencadeando as formas mais graves da doença e evolução ao óbito [9].

É preciso pensar na promoção da saúde como uma ferramenta importante para originar novos modos de atenção e melhoria da qualidade da vida e dos indivíduos [10]. Nesse contexto, torna-se importante o estudo sobre a ocorrência da infecção nas diferentes regiões do Brasil. Sendo assim, objetivou-se traçar o perfil epidemiológico de distribuição da doença acometida em felinos domésticos no Brasil. ​​ 

 

    2  METODOLOGIA

Revisão sistemática com enfoque no levantamento de estudos observacionais retrospectivos sobre a ocorrência de animais positivos para a afecção dentro do território nacional. Para o levantamento bibliográfico, foram utilizados descritores “esporotricose” “relatos de caso em felinos” e “Brasil”. Para a pesquisa na base de dados bibliográficos, foram utilizadas 68 produções científicas publicadas entre os anos de 1955 a 2023. As buscas foram realizadas na base de dados bibliográficos Scientific Eletronic Library Online (SciELO) e Medline/Pubmed.

 

    3 DISCUSSÃO E DESENVOLVIMENTO

    3.1 DISTRIBUIÇÃO DA ESPOROTRICOSE AO LONGO DAS REGIÕES BRASILEIRAS

O primeiro relato espontâneo da afecção no Brasil descreveu um caso de um gato oriundo da zona rural de Minas Gerais em 1954, em que, conforme os autores, o animal foi infectado por contato traumático com vegetais [11]. Com o passar do tempo o perfil epidemiológico da doença sofreu alterações quanto a sua ocorrência, sendo hoje uma doença presente em todas as regiões brasileiras e com número crescente de casos (Tabela 1), caracterizando-se como uma epizootia de caráter nacional.

 

3.2 NORTE

A partir do estudo retrospectivo dos resultados citopatológicos obtidos de 174 amostras de felinos distribuídos ao longo da região metropolitana de Belém-PA, foram identificados 18 animais positivos para o fungo, representando uma prevalência de 10 ,34% (18/174). Do total, 73 amostras foram oriundas de machos e 101 de fêmeas. Dentre os machos, 11 foram positivos para esporotricose, representando 6,32% dos portadores da afecção [12].

Em Manaus-AM, entre 2020 e 2021, foram notificados 213 felinos com suspeita de esporotricose a partir do quadro sintomático. Em 2022, o registro foi de 18 animais positivos, incluindo cães [12]. Rondônia teve uma notificação registrada entre 2012 e 2016 e um registro de atendimento clínico positivo em 2020 [13], [14]. Acre e Pará tiveram casos da infecção relatados em 2017 [15]. Ressalta-se que até 2020, não havia registros da afecção em Roraima [16].

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3.3 NORDESTE

Existem casos confirmados nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Pernambuco [17], [18], [19], [20]. O início da descrição de casos com sintomatologia sugestiva no Nordeste iniciou-se na Bahia e Pernambuco [21]. No RN, a partir de dados da Unidade de Vigilância em Zoonoses (UVZ), localizado na cidade de Parnamirim–RN, entre 2020 e 2021, 83 animais com diagnóstico presuntivo de esporotricose foram analisados, dos quais 79 gatos foram positivos para a doença [22].

Há um registro de atendimento positivo para esporotricose em um gato oriundo de Itaporanga-PB, cujo atendimento ocorreu em Patos–PB, em 2009, no Hospital Veterinário da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) [18]. Entre 2017 e 2021, foram atendidos 2.316 gatos no Hospital Veterinário da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), situado em Areia-PB. Dentre as afecções acometidas no cotidiano do ambulatório, as doenças infecciosas sem agente definido somaram 33.9% (554/2.316) atendimentos, onde a esporotricose apareceu em 12,8% dos casos, seguindo como uma das mais importantes zoonoses da região [23].

Um questionário realizado com os tutores que foram à procura de auxílio do CCZ-JP, localizado na Paraíba, para diagnóstico da esporotricose foi aplicado em 2019. Dos 59 entrevistados, majoritariamente possuíam mais de um animal de companhia dividindo o mesmo espaço. 88 felinos foram diagnosticados com esporotricose e 59,1% (52/88) vieram a óbito [24]. Juntamente ao Centro de Vigilância Ambiental em Zoonoses (CVAZ) da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de João Pessoa-PB, um levantamento de casos foi realizado entre 2020 e 2021, principalmente depois do crescimento de ocorrência desde o seu aparecimento em 2016. Das 789 notificações de suspeita de animais, 40,68% (321/789) ocorreram em 2020 e 51,32% (468/789) foram em 2021, representando um aumento representativo no número de registros [25].

O crescimento do número de casos notificados da infecção em gatos foi o responsável pela Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco decidir incluir a doença na lista de Doenças de Notificação Compulsória (DNC) em 2016, através da Portaria SES/PE nº390/2016 [26]. Entre 2014 e 2016, 115 amostras foram encaminhadas ao

Laboratório de Doenças Infecciosas dos Animais Domésticos do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Desse total, 51,3% (59/115) do material coletado a partir da realização da coleta citopatológica foram positivos para Sporothrix sp [27].

No Laboratório de Endemias de Pernambuco (LABEND-PE), entre 2016 e 2018, foram confirmados 52 casos da doença, sendo Olinda a cidade com maior incidência (65,4%) [28]. Entre 2016 e 2017, Olinda-PE ocupava 34,72% dos casos registrados no estado. Nesse período, houve o aumento do número de registro de casos de animais com esporotricose confirmada, passado de 35 (2016) para 57(2017). Em Camaragibe-PE, 23 animais foram notificados com lesões características, porém, apenas 18 obtiveram confirmação após cultura biológica [29]. Em Bezerros-PE, foi notificado um atendimento com diagnóstico positivo em um gato precedido Caruaru-PE [30].

Alagoas teve seu primeiro estudo observacional de esporotricose em felino com consequente contágio para humano ocorrida em 2014 [19]. Em Salvador-BA, entre 2018 e 2019, foram notificados 1.286 animais com lesões compatíveis com a morfologia esperada para o Sporothrix sp. Do total, 87,7% (1.067/1.286) foram casos de notificação com diagnóstico presuntivo para a afecção, constituindo 23,6% (252/1.067) diagnosticados em 2018 e 76,4% (815/1.067) em 2019 [8].

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3.4 CENTRO-OESTE

No Centro-Oeste, as informações são escassas devido à ausência de obrigatoriedade de notificação dos casos. Os registros são, em geral, isolados e referente à esporotricose humana em razão da quantificação das internações ocorridas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) [13].

No Hospital Veterinário da Universidade de Cuiabá, foi atendido um felino que, após a confirmação do diagnóstico presuntivo para esporotricose, o relato tornou-se a primeira detecção da doença na região [31]. No Distrito Federal, foram registrados quatro relatos de caso com confirmação positiva, porém, todos os atendimentos ocorreram em locais distintos, representando casos pontuais nos locais onde foram relatados [32].

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3.5 SUDESTE

Com uma alta incidência anual e um baixo resultado entre as medidas de controle, a situação epidemiológica da infecção no estado do Rio de Janeiro é alarmante [33]. Entre 1998 e 2004, a Fundação Oswaldo Cruz-FIOCRUZ diagnosticou 1.503 gatos [5]. Até 2015, o número de animais diagnosticados subiu exponencialmente até 4.703 gatos positivos para esporotricose [34]. Entre 1998 e 2009, foram registrados 3.244 casos de felinos com diagnóstico positivo para a doença. Notadamente, o surto, iniciado na capital, continua em expansão por outras regiões como Duque de Caxias e São João de Meriti [35].

Em Campos dos Goytacazes-RJ, foi observado que, a partir das 100 amostras obtidas, 66% (66/100) apresentaram cultivo biológico positivo para a levedura [36]. Em Teresópolis, cidade do Rio de Janeiro, foi identificado 166 gatos acometidos pela doença no ano de 2019 [37]. Em Vassouras-RJ, 107 felinos com diagnóstico confirmado para esporotricose, através da confirmação morfológica do patógeno, foram atendidos no Hospital Veterinário da Universidade de Vassouras, entre os anos de 2016 e 2018 Ao fim, pode-se observar uma regressão no número de animais positivos atendidos ao longo dos anos: 51,41% (55/107) em 2016; 28,03% (30/107) em 2017 e 14,03% (15/107) em 2018 [38].

De 1956 a 2001, foram registrados 51 casos [39]. No Hospital Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP-SP), entre 1986 e 2002, 25 gatos foram diagnosticados com esporotricose e, entre 1993 a 2011, 29 felinos obtiveram o mesmo diagnóstico [40]. Até 2010, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ-SP), órgão da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA) vinculado à Secretaria Municipal de Saúde, não possuía confirmação de nenhum caso confirmado de esporotricose animal no município [41]. Então, durante esse período, os relatos de caso divulgados representavam notificações esporádicas [42], [43].

O CCZ-SP realizou uma análise em 1.463 residências e foi constatada a presença de 149 gatos domésticos positivos para esporotricose ao longo de 2011 a 2015: “62 em 2011; 37 em 2012; 15 em 2013; 20 em 2014 e 15 em 2015, entre novos casos e recidivas” [44]. Da mesma forma, em Itaquera, zona leste de São Paulo-SP, em 2011, inspecionou 865 domicílios, onde foram identificados 198 gatos, convivendo de maneira compartilhada com outros animais e membros da família. Destes, 12,12% (24/198) obtiveram o diagnóstico positivo para a doença por meio de exame citopatológico [46].

Na capital do estado, de 2011 a 2018, foram registrados 955 gatos diagnosticados com esporotricose. O processo de dispersão para outras áreas da cidade e para além dos limites municipais começou a ocorrer com o aumento significativo dos casos em 2018, unicamente representando 49,5% do total de registros [47]. Em 2021, o número total registrado foi de 560 na zona norte da capital de São Paulo [48]. Guarulhos-SP teve o seu primeiro registro de caso no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ-G) em 2011 [41]. De 2011 a 2017, 1.359 casos da doença fúngica foram registrados no Laboratório de Zoonoses e Doenças Transmitidas por Vetores do CCZ-SP [41]. Até 2019, Guarulhos-SP acumularia aproximadamente 2.950 casos notificados [49].

No Espírito Santo, um relato de caso foi descrito caracterizando a identificação de cepas do Complexo Sporothrix sp. obtidas de um gato doméstico [50]. Em Vitória-ES, um estudo a partir da coleta de 100 amostras de felinos com lesões morfológicas compatíveis com esporotricose foi conduzido entre 2018 e 2019. As amostras foram encaminhadas ao Laboratório de Microbiologia da Universidade Vila Velha (UVV). Dos 100 inoculados, 54% (54/100) obtiveram resultados positivos [51].

Em Minas Gerais, até 2013, a descrição epidemiológica da esporotricose era baseada em relatos ocasionais que, haviam sido reunidos em 10 casos e uma notificação de desenvolvimento em humanos [2]. Em 2020, três gatos domésticos foram atendidos no Hospital Veterinário Joaquim Rossi, oriundos de Aimorés-MG, obtiveram achados clínicos compatíveis com Sporothrix schenckii [52].

 

3.6 SUL

Entre 2014 e 2016, Curitiba-PR obteve 89 notificações de gatos com suspeita de esporotricose. Os atendimentos aos animais foram realizados na Clínica Veterinária Escola da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Das 89 notificações, 74 % (66/89) foram positivos diante dos exames citológicos [53]. Relatos esporádicos de casos confirmados para esporotricose no Paraná, porém, Curitiba e Palotina são localizações de caráter alarmante [45], [54], [55].

Ponta Grossa-PR possuía um histórico ausente de registros até 2020. Em 2021 foi realizado o levantamento dos casos registrados e, dentre os 10 casos de suspeita notificados, 60% (6/10) foram confirmados [56]. Durante 2017 e 2021, foi obtido registros de 31 casos de pacientes com diagnóstico confirmatório para esporotricose em Piraquara-PR [57].

Até 2009, não havia relatos de caso da afecção em Santa Catarina. Os primeiros registros foram descritos a partir do atendimento de três felinos no Hospital Veterinário Lauro Ribas Zimmer da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), localizada em Lages-SC. Não foi documentado contágio para humanos oriundos do contato direto com esses animais [58].

Os primeiros relatos de esporotricose no Rio Grande do Sul foram descritos em 1964 [59]. Em 1955, foi sugerida a possibilidade de contágio através do contato direto com gato doméstico [60]. Em Rio Grande-RS, um gato atendido na zona urbana do município obteve o diagnóstico presuntivo de esporotricose, porém, não foi realizado o exame confirmatório [39].

Em 2001, Porto Alegre-RS teve dois casos registrados e 40 casos em Rio Grande-RS, 77,5% (31/40) machos e 22,5% (9/40) fêmeas, corroborando que a maior prevalência da doença ocorre em machos pelo temperamento intrínseco ao sexo durante o período reprodutivo e devido ao comportamento de maior permissibilidade aos animais machos de possuírem vida outdoor [64], [27]. A maior casuística ocorre mais frequentemente em machos jovens em idade reprodutiva [61]. Esse achado pode estar relacionado ao fato de os machos jovens apresentarem maiores episódios de confrontos por disputa territoriais e por fêmeas, aumentando a chance de inoculação do agente e favorecendo a infecção e a disseminação do fungo [62], [63].

Registros provenientes do Setor de Patologia Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apontaram que foram enviados 1.274 gatos para o setor de necropsia, entre 2005 e 2015, com 17 casos de doenças fúngicas presentes. Sob formato de material biológico proveniente de biopsias, recebeu-se 2.615 amostras, destes, 59 representavam doenças infecciosas com fungo como agente etiológico. Dentre os 76 gatos com infecções micóticas, esporotricose representou o diagnóstico de 57,63% (34/76) coletadas a partir de necropsia e 29,41% (5/76) fontes de material enviado via biópsia [64].

O sul do Rio Grande do Sul vem destacando-se pela presença progressiva no mapa de incidência de esporotricose, com relatos nos municípios de Pelotas-RS e Rio Grande-RS [7]. Em 2016, no Hospital de Clínicas Veterinário da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), 34 gatos domésticos foram encaminhados para o ambulatório com quadro sintomático sugestivo. Dentre os animais, 88,23% (30/34) foram positivos para isolamento fúngico [65]. Entre 1978 e 2018, o Laboratório Regional de Diagnóstico da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) recebeu 1.633 amostras de felinos, destes, 13 % (212/1.633) possuíram diagnóstico confirmatório para esporotricose e 17 felinos com esporotricose sistêmica [66].

Um levantamento na Faculdade de Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), entre 2012 e 2022, 28 gatos domésticos foram diagnosticados com esporotricose após resultado da cultura biológica dos isolados [67]. A região central do Rio Grande do Sul encontra-se com um registro de um gato doméstico com esporotricose [68].

Tabela 1 – Distribuição de casos de esporotricose felina nas diferentes regiões do país.

NORTE

OCORRÊNCIA

 

Bélem (PA)

10,34% (18/174)

Machado e Macedo (2022)

Manaus (AM)

213 (2020-2021)

5,56% (1/18) (2022)

Machado et al. (2022)

Machado e Macedo (2022)

Rondônia

1 (2012-2016)

1 (2020)

Millington (2018)

Bison et al. (2020)

NORDESTE

 

 

Parnamirim (RN)

95,18% (79/83) (2020-2021)

Vicente (2021)

Itaporanga (PB)

1 (2009)

Nunes et al. (2011)

Areia (PB)

12,8% (296/2.316) (2017-2021)

Santos (2022)

Recife (PE)

51,3% (59/115) (2014-2016)

Silva et al. (2018)

Olinda (PE)

35 (2016)

57(2017)

65,4% (2021)

Lima (2018)

 

Valeriano (2021)

Camaragibe (PE)

78,26% (18/23) (2017)

Lima (2018)

Bezerros (PE)

1 (2015)

Araújo e De Santana Leal (2016)

Alagoas

1(2014)

Marques-Melo et al. (2014)

Salvador (BA)

87,7% (1.067/1.286) (2018-2019)

Sales (2021)

CENTRO-OESTE

 

 

Cuiabá (MT)

1

Fernandes et al. (2004)

Distrito Federal

4 (2007; 2012; 2014; 2016)

Barreto (2018)

SUDESTE

 

 

Rio de Janeiro (RJ)

1.503 (1998-2004)

3.244 (1998-1999)

4.703 (2015)

Lopes-Bezerra et al. (2006)

Barros et al. (2010)

Alzuguir (2019)

Campos dos Goyatazes (RJ)

66% (66/100)

Almeida et al. (2018)

Teresópolis (RJ)

166 (2019)

Souza et al. (2021)

Vassouras (RJ)

51,41% (55/107) (2016)

28,03% (30/107) (2017)

14,03% (15/107) (2018)

Carvalho (2019)

 

 

São Paulo (SP)

51 (1956 a 2001)

25 (1986-2002)

29 (1993-2011)

12,12% (24/198) (2011)

37 (2012)

15 (2013)

20 (2014)

15 (2015)

955 (2011-2018)

560 (2021

Silva et al. (2015)

Rossi et al. (2013)

 

Nobre et al. (2002)

Silva et al. (2015)

 

 

 

Silva et al. (2019)

Rosa (2022)

Guarulhos (SP)

1.359 (2011-2017)

2.950 (2019)

Silva et al. (2019)

Scuarcialupi et al. (2021)

Vitória (ES)

54% (54/100) (2018-2019)

Intra (2020)

Aimorés (MG)

3 (2020)

Cota et al. (2020)

SUL

 

 

Curitiba (PR)

74% (66/89) (2014-2016)

Rüncos et al. (2017)

Ponta Grossa (PR)

60% (6/10) (2021)

Lech et al. (2022)

Piraquara (PR)

31 (2017-2021)

Silva et al. (2022)

Lages (SC)

3 (2009)

Colodel et al. (2009)

Porto Alegre (RS)

40,6% (104/256) (2005-2019)

1,95% (76/3.889) (2005-2017)

Driemeier (2021)

Castro et al. (2017)

Rio Grande (RS)

1(1996)

Nobre et al. (2002)

Pelotas (RS)

14% (229/1.633) (1978-2018)

28 (2012-2022)

Scheid (2019)

Zamboni et al. (2022)

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A limitação de registros de ocorrência de casos da esporotricose encontra-se nas duas esferas: municipal e estadual, onde ambas possuem autonomia em relação à regulamentação da notificação obrigatória da doença junto às suas respectivas secretarias da saúde. O Norte do país é a região que possui menos relatos de casos da doença, possuindo inúmeros dados ausentes sobre a notificação da doença. Estados como Amapá, Acre, Roraima e Tocantins precisam receber incentivo à pesquisa epidemiológica da doença na região.

A região Nordeste foi a segunda com maior quantidade de relatos da infecção com cerca de 1.614 casos de 2009 a 2021, sendo a cidade de Salvador no estado da Bahia onde ocorreu a maior incidência 66,11% (1.067/1.614) relatados durante os anos de 2018 a 2019. Seguida pela cidade de Areia, na Paraíba, em que foram relatados 296 casos distribuídos entre os anos de 2017 a 2021 representando 18 ,34% (296/1.614) relatados de 2017-2021.

Como citado anteriormente no presente estudo, na região Centro-Oeste as informações são escassas, pois a esporotricose não é uma doença de notificação compulsória e, caso haja casos confirmados, podem passar despercebidos por não serem notificados. Dos cinco relatos em felinos encontrados durante o levantamento bibliográfico nos anos de 2007, 2012, 2014 e 2016, quatro foram localizados no Distrito Federal, portanto é considerado o estado com maior incidência da doença para essa região.

Por meio de exames citológicos, biópsias e necropsias, foram confirmados 546 casos na região Sul entre os anos de 1978 e 2021, configurando-a como a terceira com a maior quantidade de casos relatados. A cidade de Pelotas apresentou a maior incidência desses casos (259/546) seguida pela cidade de Porto Alegre (180/546), que, juntamente com a cidade de Rio Grande (1/546) configuraram o estado do Rio Grande do Sul o que detém a maior incidência (440/546). Enquanto o estado do Paraná (103/546) e de Santa Catarina (3/546) são o segundo e o terceiro com maior incidência respectivamente.

O Sudeste é a região que possui maior quantidade de casos de esporotricose relatado na literatura, onde o Rio de Janeiro exerce um importante papel nesse somatório, visto que é onde se encontra a maior incidência dos casos. Por ser considerada uma área com proporções epidêmicas importantes para a doença desde a década de 90, é notório a baixa aplicação de medidas preventivas e de controle, visto que esse número vem crescendo significativamente desde então.

Por meio deste levantamento foi possível observar que poucas cidades brasileiras dentre as 5570 existentes (incluindo o Distrito Federal e Fernando de Noronha) possuem casos de esporotricose relatados, evidenciando assim a necessidade da aplicação de medidas públicas governamentais como o fornecimento de subsídios para aumentar o número de diagnosticados e de tratados, assim como a promoção de ações socioeducativas preventivas com os tutores de felinos, são meios para a diminuição tanto da incidência, como da prevalência dos casos. A aplicação de tais medidas se faz necessária em todas as cidades que possuem altos índices descritos da esporotricose, visto que a mesma devida sua ocorrência tem se tornado um problema de saúde pública.

Tanto os homens, como os animais podem ser infectados com a forma leveduriforme ou filamentosa. No entanto, devido à domesticação dos felinos, estes se encontram cada vez mais próximos dos humanos, sendo atualmente até considerados membros da família. Desse modo, a forma leveduriforme acaba ganhando destaque na forma de transmissão. Apesar da maioria dos humanos possuírem uma boa resposta terapêutica à infecção, as maiores preocupações se dão com as pessoas imunossuprimidas e crianças. Além disso, nos animais, sua evolução se não tratado, pode culminar em morte.

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