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ISSN: 2595-8402

Journal DOI: 10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO ORIGINAL

As lutas educam? Uma reflexão de história de vida pessoal e profissional

Leonardo Perovano-Camargo1

 

Como Citar:

PEROVANO-CAMARGO, Leonardo. As lutas educam? Uma reflexão de história de vida pessoal e profissional. Revista Sociedade Científica, vol.7, n. 1, p.4150-4156, 2024.

https://doi.org/10.61411/rsc202474917

 

DOI: 10.61411/rsc202474917

 

Área do conhecimento: Educação.

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Palavras-chaves: Lutas, Educação vida, História de vida.

 

Publicado: 09 de setembro de 2024.

Resumo

Este artigo explora a trajetória pessoal e profissional de um professor de Educação Física para refletir sobre o papel educativo das lutas, alinhando a experiência vivida com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Iniciando com a prática de judô no Sesi, o autor relata a introdução a valores como disciplina e respeito em um ambiente orientado por um professor de Educação Física. Em contraste, experiências com karatê, full contact e boxe destacam a influência negativa de abordagens desprovidas de formação pedagógica, evidenciando a necessidade de práticas educacionais fundamentadas. A experiência com jiu-jitsu em um contexto mais voltado ao mercado e a atuação como Personal Trainer ressaltam a importância da adaptação das práticas para respeitar a diversidade e promover um ambiente inclusivo. A reflexão final reafirma que, para que as lutas cumpram um papel educativo eficaz, é essencial uma abordagem pedagógica bem estruturada, que integre aspectos técnicos, éticos e culturais. O artigo defende que um ensino qualificado das lutas contribui para a formação integral do aluno e promove uma visão mais enriquecedora e respeitosa das artes marciais.

 

 

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1.Introdução

Historicamente, as lutas tiveram um espaço limitado nas escolas, frequentemente incluídas nas aulas de Educação Física apenas quando o professor tinha um interesse pessoal ou experiência na modalidade. Muitas vezes, o ensino das lutas se concentrava exclusivamente na técnica, ignorando aspectos pedagógicos e sociais, e estava sujeito às pressões capitalistas que as transformavam em produtos de consumo, ou até mesmo a visões segregacionistas e excessos de violência.

A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trouxe uma mudança significativa ao estabelecer as lutas como parte formal e relevante do currículo escolar. A BNCC define as lutas como práticas corporais onde técnicas e estratégias são usadas para imobilizar, desequilibrar ou excluir o oponente, e recomenda sua introdução a partir do terceiro ano do ensino fundamental, com possibilidade de ampliação até o ensino médio. Além de seu valor esportivo, as lutas são reconhecidas como patrimônio cultural e devem ser ensinadas como veículos de valores culturais e sociais. A BNCC sugere que os alunos experimentem e recriem diferentes lutas, respeitando as normas de segurança e os colegas como oponentes3.

Essa mudança representa uma evolução significativa do ensino das lutas, que historicamente se concentrou na técnica e competição. A BNCC propõe uma abordagem mais abrangente, incluindo habilidades motoras diversas e valores educacionais. Alguns desses valores podem ser encontrados em algumas reflexões do movimento olímpico, e seu discurso dentro de modalidades de esportes de combate: como o respeito, o jogo limpo e a busca pela excelência1. O artigo de Binder, "Olympic Values Education: Evolution of a Pedagogy", discute como esses valores podem ser integrados na educação formal, promovendo uma prática pedagógica que transcende o desempenho técnico4. Já esse artigo visa refletir sobre como minha trajetória pessoal e profissional se alinha com o papel educativo das lutas à luz dessas novas diretrizes.

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2.Primeiro contato com as lutas

Meu primeiro contato com as lutas ocorreu por meio do judô, uma prática oferecida no Sesi, onde a modalidade era tratada como uma atividade de lazer sob a orientação de um professor de Educação Física. Essa experiência foi fundamental para minha formação inicial, pois o judô, além de ser uma atividade física, apresentou-me conceitos essenciais como disciplina, respeito e autocontrole. Esses valores foram incorporados de maneira natural através da prática do judô. A influência de teóricos como Joffre Dumazedier, que defendia o lazer como um elemento vital para o desenvolvimento humano5, possivelmente permeou a estrutura pedagógica adotada pelo Sesi, onde o judô não apenas exercita o corpo, mas também moldava o caráter, respeitando o indivíduo e promovendo um ambiente de crescimento pessoal.

No entanto, essa experiência contrastou fortemente com meu contato subsequente com o karatê na infância. Na nova modalidade, o professor não possuía formação acadêmica e adotava uma abordagem muito mais ríspida. Embora o karatê tenha lemas que pregam a "formação do caráter", "fidelidade ao verdadeiro caminho da razão", "criação do espírito de esforço", "respeito acima de tudo" e "contenção do espírito de agressão", na prática, esses valores se tornaram meras repetições automáticas. Sem uma formação pedagógica sólida, o professor utilizava esses lemas como ferramentas para exercer autoridade, criando um ambiente marcado por visões de mundo dúbias e pouco reflexivas.

Uma lembrança marcante desse período foi o ambiente hostil encontrado no vestiário da escolinha de karatê, onde um pôster de uma apresentadora infantil despida estava exposto. Para mim, enquanto criança, essa imagem era uma afronta, além de demarcar um espaço onde mulheres e meninas não seriam bem-vindas. A presença de tal material não apenas contradizia os princípios de respeito e ética que deveriam guiar as práticas educativas, mas também reforçava uma visão de mundo distorcida e desrespeitosa, criando um ambiente inadequado para o desenvolvimento de valores verdadeiramente educativos. Esse contraste entre o judô, onde os valores do respeito e autocontrole eram vividos, e o karatê, onde a falta de formação do professor gerava uma prática desconectada de seus princípios, revela a importância crucial de uma formação pedagógica sólida para que as lutas cumpram seu papel educacional.

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3.Adolescência e lutas: boxe e full contact

Durante a adolescência, minha experiência com lutas incluiu o Full Contact e o boxe, ambos marcados por uma falta de orientação pedagógica estruturada. O Full Contact, com seu foco na força bruta e proteção intensa, me fez questionar o propósito educativo das lutas, que muitas vezes eram reduzidas a uma expressão de agressividade sem promover valores construtivos. O boxe, por sua vez, praticado em academias de bairro, oferecia uma saída para emoções intensas, mas também não incorporava uma abordagem educativa que pudesse integrar aspectos formativos e pedagógicos.

Essas experiências destacam como a ausência de uma base pedagógica nas lutas pode limitar seu potencial educativo, transformando a prática em uma simples demonstração de força e agressividade2. Para que as lutas cumpram um papel formativo, é crucial que o ensino vá além da técnica e da competição, integrando valores como respeito, disciplina e autocontrole, e promovendo o desenvolvimento pessoal e social dos praticantes.

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4.Vida adulta, jiu jitsu e esportes de combate como produto

Na fase adulta, minha prática de jiu-jitsu ocorreu em um ambiente mais moderno e voltado para o mercado, com um professor formado em Educação Física. O jiu-jitsu, popularizado no Brasil pela família Gracie, destacou-se pela ênfase em técnicas de submissão e controle, oferecendo uma perspectiva técnica e estratégica das lutas. No entanto, a academia onde pratiquei adaptava suas ofertas para atrair um público diversificado, refletindo as tendências do mercado e as necessidades dos consumidores, transformando o jiu-jitsu em uma experiência alinhada ao consumo capitalista.

Além do jiu-jitsu, também participei de sessões de boxe com um professor sem formação pedagógica formal, mas com profundo conhecimento técnico em várias artes marciais. Ele mostrou como a prática das lutas pode ser adaptada para atender às demandas de uma clientela diversificada, destacando a importância de ajustar os métodos de ensino para garantir um ambiente inclusivo e respeitoso. Essas experiências revelam que, mesmo em um contexto capitalista, as artes marciais precisam evoluir para promover inclusão e respeito à diversidade (mesmo que sejam um discurso visando aumento dos lucros), ao mesmo tempo em que atendem às expectativas do mercado6.

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5.Vida acadêmica e profissional

Durante a Graduação: Na minha graduação, as disciplinas de fundamentos das lutas e capoeira, ministradas por um doutor em Educação Física, foram fundamentais para ampliar minha compreensão das lutas. Essas disciplinas não se limitaram à técnica, mas exploraram as dimensões socioculturais e históricas das artes marciais. O estudo da capoeira, por exemplo, destacou sua origem nas tradições africanas e adaptação no Brasil, abordando questões de resistência, identidade cultural e valorização da herança afro-brasileira. Esse enfoque multidimensional está em linha com a BNCC, que defende a importância de contextualizar as lutas além da técnica, integrando suas raízes culturais e sociais. Assim, a abordagem pedagógica aplicada contribuiu para uma compreensão mais ampla das artes marciais, enfatizando a diversidade cultural e o respeito pelas tradições.

Personal Trainer e MMA: Como Personal Trainer de atletas de boxe, foquei no desenvolvimento de habilidades técnicas e na preparação física, mas sem integrar uma abordagem pedagógica mais ampla. Embora essa experiência tenha sido enriquecedora em termos de habilidades específicas, ela revelou a dicotomia entre a prática profissional das lutas e o ensino educativo. No treino de MMA, essa diferença ficou ainda mais evidente, pois, embora a modalidade exija uma abordagem técnica detalhada, o ensino das lutas em contextos educativos deve incorporar uma perspectiva holística, incluindo a reflexão sobre o contexto cultural e social das práticas. A BNCC reforça que o ensino das lutas deve ir além da técnica, promovendo também a reflexão sobre o significado e o impacto dessas práticas na formação integral dos alunos.

Atuação na Educação Formal: Minha experiência na educação formal destacou contrastes significativos no ensino das lutas. Ao começar a ensinar capoeira, enfrentei resistência e preconceitos culturais, com membros da equipe escolar expressando visões depreciativas. Com o tempo e a crescente valorização da cultura africana no Brasil, essas percepções mudaram, especialmente próximo ao Dia Nacional da Consciência Negra. Esse dia, celebrado em 20 de novembro, homenageia Zumbi dos Palmares e reforça a importância da memória e da cultura negra. No mesmo espaço onde inicialmente a capoeira era marginalizada, essa prática passou a ser valorizada e solicitada, mostrando a importância de uma educação que respeite e promova a diversidade cultural, em consonância com as diretrizes da BNCC e as leis que valorizam a cultura afro-brasileira. Essas experiências evidenciam a necessidade de uma abordagem culturalmente sensível no ensino das lutas, refletindo as diretrizes da BNCC que promovem o respeito pelas tradições culturais e históricas das práticas corporais.

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6.Considerações finais

Minha trajetória nas lutas ilustra a importância de um ensino qualificado que transcenda a técnica e a agressividade, integrando aspectos éticos, sociais e culturais, conforme orienta a BNCC. Desde o judô no Sesi, onde aprendi valores como disciplina e respeito, até a prática de karatê, que revelou os perigos de uma abordagem ríspida e desprovida de formação pedagógica, observei como as lutas podem ser interpretadas de maneiras variadas. A prática do full contact e do boxe durante a adolescência, focada mais na performance técnica que em valores educativos, ressaltou a necessidade de uma abordagem mais reflexiva e inclusiva.

O jiu-jitsu, em um ambiente voltado ao mercado, exemplificou a necessidade de adaptar as práticas de ensino para respeitar a diversidade e promover inclusão. Esse contraste entre a abordagem comercial e a pedagógica evidencia a importância de alinhar as lutas com uma visão que considere seu impacto na formação dos indivíduos. A BNCC reforça que o ensino das lutas deve incluir essas dimensões, garantindo um desenvolvimento integral que respeite a diversidade cultural e promova valores éticos. Somente através de uma prática pedagógica reflexiva e inclusiva7, é possível garantir que as lutas cumpram efetivamente seu papel educativo e contribuam para a formação integral dos alunos.

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7.Declaração de direitos

O(s)/A(s) autor(s)/autora(s) declara(m) ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara(m) que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do(s) autor(s), e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara(m) respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara(m) não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

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8.Referências

 

  • BINDER, DL. Olympic values education: evolution of a pedagogy. Educational Review, p. 275-302, 2012.

  • BOURDIEU, Pierre. O sentimento da honra na sociedade cabília. In: PERISTIANY, J. G. Honra e vergonha: valores das sociedades mediterrânicas. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, p. 159-195, 1988.

  • BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018.

  • COMITÊ OLÍMPICO INTERNACIONAL. Os Fundamentos da Educação aos Valores Olímpicos: Um programa baseado no desporto. Lausanne: COI, 2017.

  • DUMAZEDIER, Joffre. Lazer e cultura popular. São Paulo: Perspectiva, 1976.

  • GADAMER, HG. Truth and method, second revised edition. New York: The Crossroad Publishing Corporation, 1989.

  • PEROVANO-CAMARGO, Leonardo. Significados semióticos percebidos e indícios estatísticos de inclusões sociais de egressos de projeto esportivo de caráter social de educação olímpica. Tese (Doutorado em Educação Física) - Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Educação Física e Desportos: 2022. 213f.:il.

     

1

Universidade Federal do Espírito Santo - UFES, Vitória - ES, Brasil.


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