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Scientific Society Journal  ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​​​ 

ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

Análise de mortalidade relacionada ao tratamento e à doença infantojuvenil por Leucemia Linfoblástica Aguda em um hospital do Brasil ​​ 

Jully Faria Monteiro1; Maria Gabryella Balthazar Curi2; Luan Almeida Japiassu de Freitas Queiroz3; Mariana Hamida Casale4; Natalia Leite Nascimento5; Giulia Martini6; Victor Filipi Lemes Fernandes7; Hoctávio Pereira de Sá8; Patricia Curi9; João Paulo Ávila Fernandes10;Arthur Andrade Brandão11 ; Waléria Kalistenys Bento Silva12; Vanuza Maria Rosa13; Carolina Iracema de Oliveira Rego14; Paulo Vittor Oliveira Peres15

 

MONTEIRO, Jully Faria et al. Análise de mortalidade relacionada ao tratamento e à doença infantojuvenil por Leucemia Linfoblástica Aguda em um hospital do BrasilRevista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 943-967, 2025.

https://doi.org/10.61411/rsc202582818

 

DOI: 10.61411/rsc202582818

 

Área do conhecimento:

Ciências da Saúde

Sub-área:

Medicina

Palavras-chaves: leucemia aguda; mortalidade; pediatria.

 

Resumo

O câncer abrange mais de 100 diferentes tipos de doenças malignas que têm em comum o crescimento desordenado de células, que podem invadir tecidos adjacentes ou órgãos à distância. A leucemia é um câncer comum na faixa etária pediátrica, sua particularidade envolve a proliferação das células doentes que acumulam na medula óssea, ocupando o lugar das células sanguíneas saudáveis. Até hoje, foram descobertos mais de 12 tipos de leucemia, sendo as mais comuns na infância a Leucemia Linfoblástica Aguda e a Leucemia Mieloblástica Aguda. O objetivo do trabalho foi de analisar a mortalidade relacionada ao tratamento da LLA, para melhores estudos e formulações de planos terapêuticos no Brasil. Foi utilizada a Pesquisa observacional, descritiva, longitudinal e retrospectiva

baseada em dados dos prontuários de pacientes pediátricos, entre 2 e 19 anos, atendidos em um hospital terciário do Brasil com diagnóstico de Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA) no período de janeiro de 2018 a junho de 2023. Foram avaliadas variáveis qualitativas e quantitativas com ênfase na taxa de mortalidade relacionada a doença e mortalidade relacionada ao tratamento. Para a realização do trabalho foram analisados 204 prontuários eletrônicos que constavam na planilha do hospital terciário do Brasil. Após análise e estudos, nota-se que a taxa de incidência e mortalidade obteram um aumento no decorrer dos anos, com maior pico em 2020. Ademais, em relação ao sexo do paciente, a maior parte da amostra foi do sexo masculino, sendo também a taxa de óbito maior. Dentro dos parâmetros estudados de linhagem B ou T, sua correlação com óbito relata que os pacientes de linhagem T, apresentam uma probabilidade de sobrevivência com queda mais acentuada durante o tratamento que os pacientes com linhagem B. Além disso, as principais etiologias encontradas foram, em ordem de prevalência: choque séptico pós quimioterapia de resgate, atividade da doença e complicações pós transplante de medula óssea. O conhecimento das causas da mortalidade e seu momento em relação ao tratamento, constitui uma ferramenta útil para medir o impacto do tratamento e poderá evidenciar oportunidades de melhoria nos protocolos clínicos e gerenciamento de possíveis planos terapêuticos para o serviço de oncologia de âmbito nacional.

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Analysis of Mortality Related to Treatment and Disease in Childhood Acute Lymphoblastic Leukemia in a Brazilian Hospital

 

Abstract/Resumen

Introduction: Cancer comprises more than 100 distinct malignant diseases characterized by the uncontrolled growth of cells, which can invade adjacent tissues or spread to distant organs. Leukemia is one of the most common cancers in the pediatric population, distinguished by the proliferation of abnormal cells that accumulate in the bone marrow, displacing healthy blood cells. To date, more than 12 types of leukemia have been identified, with Acute Lymphoblastic Leukemia (ALL) and Acute Myeloid Leukemia (AML) being the most prevalent in children. To analyze mortality associated with ALL treatment to improve future research and guide the development of therapeutic protocols in Brazil. This is an observational, descriptive, longitudinal, and retrospective study based on medical record data from pediatric patients aged 2 to 19 years diagnosed with Acute Lymphoblastic Leukemia (ALL) and treated at a tertiary hospital in Brazil between January 2018 and June 2023. Both qualitative and quantitative variables were assessed, with a particular focus on disease-related and treatment-related mortality rates. A total of 204 electronic medical records from the hospital’s database were analyzed. Following data review and analysis, an increase in incidence and mortality rates was observed over the years, with the highest peak recorded in 2020. Regarding patient sex, the majority of the sample consisted of male patients, who also exhibited a higher mortality rate. Among the B- or T-cell lineages, the data suggest that patients with T-cell lineage ALL demonstrated a steeper decline in survival probability during treatment compared to those with B-cell lineage ALL. Additionally, the leading causes of mortality, in order of prevalence, were: septic shock following salvage chemotherapy, disease activity, and post–bone marrow transplant complications. Understanding the causes of mortality and their timing in relation to treatment serves as a valuable tool for assessing the impact of therapeutic approaches. These findings may highlight opportunities for improving clinical protocols and managing potential therapeutic strategies at a national level within pediatric oncology services.

Keywords: Acute Lymphoblastic Leukemia; Mortality; Pediatrics.

    • Introdução

 O câncer abrange mais de 100 diferentes tipos de doenças malignas que têm em comum o crescimento desordenado de células, que podem invadir tecidos adjacentes ou órgãos à distância.1 A leucemia é um câncer que tem início nas células-tronco da medula óssea e, sobretudo, na faixa etária pediátrica, não tem etiologia conhecida na maioria dos casos. Sua particularidade envolve a proliferação das células doentes que acumulam na medula óssea, ocupando o lugar das células sanguíneas saudáveis, levando geralmente a redução do número de células normais. Até hoje, foram descobertos mais de 12 tipos de leucemia, sendo as mais comuns na infância a Leucemia Linfoblástica Aguda e a Leucemia Mieloblástica Aguda.2 O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que, entre 2023 e 2025, a cada ano ocorrerão 704 mil cenários atuais de câncer no Brasil, sendo o Sul e Sudeste as regiões de maior impacto, com 70% da incidência. Além disso, foram presumidos 11.540 casos novos de leucemia, no Brasil, a cada ano desse triênio. O risco previsto é de 5,33 a cada 100 mil habitantes, resultando em um número aproximado de 5.290 mulheres e 6.250 homens afetados. Se desconsiderados os tumores de pele não melanoma, a leucemia ocupa o décimo lugar dos cânceres mais comuns entre adultos, já em crianças e adolescentes entre 1 a 19 anos, o câncer ocupa o primeiro lugar como causa de morte relacionada a doença, sendo a leucemia o tumor mais frequente.1 As LLA são a causa de 26,8% dos casos de câncer infantil e 78,6% das leucemias em geral. Ocorre com maior frequência entre as crianças de 2 a 9 anos de idade, com destaque para o sexo masculino, sendo a razão (masculino/feminino) de 1.3.3 A LLA ocorre quando um linfócito imaturo e danificado é criado na medula óssea, em razão de algum defeito em seu material genético (DNA). A partir desse erro genético, podem originar-se células blásticas leucêmicas, também nomeadas linfoblastos, as quais surgem pelo interrompimento dos primeiros estágios da sua maturação, e por apresentarem um DNA mutante, vão se multiplicando sem qualquer controle. Quando os blastos leucêmicos aumentam quantitativamente ao ponto de acumular na medula óssea, esse tecido hematopoiético é suprimido e as células antes produzidas de forma normal e saudável, passam a ser não funcionantes e poucas chegam ao final da sua maturação, aumentando cada vez mais as células sanguíneas imaturas na circulação.4 Os fatores prognósticos existem para classificar a criança segundo o risco e assim diminuir a toxicidade em grupos considerados baixo risco. Na leucemia linfoblástica aguda, os fatores prognósticos variam segundo o protocolo, entretanto os clássicos incluem: idade, leucometria inicial, resposta ao tratamento e avaliação genético molecular. Os prognósticos favoráveis encontrados nessa pesquisa são: crianças entre 3 e 9 anos de idade, alta hiperdiploidia (51 a 65 cromossomos) do cariótipo de célula leucêmica e ausência de infiltração em nervoso central. Já os fatores desfavoráveis incluem leucócitos acima de 100.000, idade maior que 10 anos, hipodiploidia (colocar o conceito). Em relação ao cariótipo e a análise molecular, a t (v;11q23) MLL (KMT2A) rearranjado, contendo (4;11) /KMT2A-AF4, cariótipo de célula leucêmica t (5;14) /IL3- IG, cariótipo de célula leucêmica t (8; 14), t (8; 22), t (2; 8) C-MYC rearranjado, existência do cromossomo Philadelphia (Ph) t (9;22) BCR-ABL1, é assinatura molecular semelhante a BCR/ABL conferem pior prognóstico a doença.5 Notou-se um importante aumento da sobrevida em 5 anos dos pacientes com LLA, de menos de 10% na década de 60 para 77% no período entre 1980 a 1990. Ressalta-se que tal aumento ocorreu de forma mais lenta e menos pronunciada nos países em desenvolvimento.6 A chance de remissão no início da doença é maior que 95% em crianças e está presente em 70 a 90% dos adultos. A sobrevida nos casos infantis dura aproximadamente 5 anos, ficando aparentemente curadas, durante esse intervalo de tempo, em 80% dos casos. Diferentemente dos adultos, pois menos de 50% deles têm sobrevida por um longo prazo. Os principais fatores causadores dessa situação em que os desfechos clínicos em adultos são piores do que em crianças são: a menor tolerância na quimioterapia intensiva, resistência a quimioterapia originada pela genética da leucemia linfoblástica aguda de alto risco, má adesão à terapia farmacológica recomendada para LLA, à quimioterapia ambulatorial e às consultas médicas.2 Em países de elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), nota-se que as medidas usadas no combate, prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, repercutem nas taxas de incidência e mortalidade de forma importante. Diante disso, é notável que a mortalidade pode ocorrer em decorrência tanto da evolução da doença, como por reação indesejada do tratamento. Por isso, a maioria dos protocolos que selecionam os pacientes com melhor chance de cura ao tratamento, elegem os pacientes com menos fatores de risco para fazer uma terapia mais intensa, porque assim o risco de mortalidade pela doença não tratada é maior que o risco de insucesso do tratamento levar à morte. Ou seja, os casos que recebem tratamento, apesar de ele gerar grandes riscos à vida do paciente, ainda devem ser menores que os riscos de mortalidade por não adesão a esse tratamento.1 Diante disso, é importante entender sobre a diferença entre as causas de óbito, sendo classificadas conforme o momento do tratamento que ocorreram. A mortalidade indutora se caracteriza pelo óbito que ocorre entre o início do tratamento e a sua consolidação, ou seja, até 60 dias de tratamento. A mortalidade relacionada ao tratamento é definida quando esta ocorre fora do período industrio e não relacionada à recidiva ou a malignidade secundária. Por fim, a mortalidade relacionada à doença são os casos em que o óbito ocorreu por falha indutora ou recaída. Sendo assim, o entendimento da dinâmica na mortalidade da leucemia e suas variáveis tornam-se ferramentas extremamente importantes no desenho do plano de assistência à saúde desses pacientes e suas famílias para que essa taxa siga melhorando ao longo das décadas. Portanto o presente estudo tem o objetivo de analisar a mortalidade relacionada ao tratamento da LLA, para melhores estudos e formulações de planos terapêuticos no Brasil.

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    • Metodologia

Trata-se de um estudo observacional, descritivo, longitudinal e retrospectivo. O estudo respeita as diretrizes e critérios estabelecidos na Resolução n ° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), com preceitos éticos estabelecidos que foram respeitados e tangem zelar pela legitimidade das informações, privacidade e sigilo das informações. Foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Terciário no qual foi desenvolvido sob o número ° CAAE 68453423.8.0000.0031. Foram analisados, retrospectivamente, prontuários de 204 pacientes com leucemia linfoblástica aguda, de janeiro de 2018 a junho de 2023, disponibilizados no serviço de onco-pediatria de um hospital terciário do Brasil. Os dados coletados foram disponíveis no prontuário eletrônico dos pacientes e descritos em números absolutos na planilha do Excel. Dentro das variáveis coletadas nos prontuários foram utilizadas: sexo, idade, idade do diagnóstico, linhagem de linfócitos B ou T, ano do diagnóstico, classificação de risco, desfecho, recidiva, óbito, causa do óbito (indutório ou tratamento), ano do óbito, causa especificada do óbito e observação atual do âmbito de tratamento dos pacientes com LLA. No presente estudo, foram usados como critérios de inclusão pacientes de 2-19 anos com diagnóstico de leucemia linfoblástica aguda que realizaram todo o tratamento no hospital terciário do Brasil. Como critérios de exclusão foram utilizados: pacientes acima de 19 anos na data do diagnóstico definido de LLA, outros diagnósticos que não sejam LLA, pacientes que foram transferidos do serviço antes do término do tratamento ou que perderam seguimento. Por isso, após reavaliação dos casos, foram excluídos 84 pacientes, restando 120, usados na pesquisa. Pacientes abaixo de 2 anos não são admitidos no serviço por limitações de infra-estrutura no suporte intensivo. As causas de mortalidade foram analisadas em relação ao momento do tratamento no qual o paciente se encontrava. Foram consideradas mortes indutórias, as mortes ocorridas do início do tratamento ao fim da indução (definida pela literatura como aquela que ocorreu em até 60 dias do início do tratamento), mortalidade relacionada ao tratamento aquelas que ocorreram após a indução com a doença em controle e mortalidade relacionada a doença, os óbitos que ocorreram por doença refratária ou em atividade no momento que o evento ocorreu. Para o presente trabalho foi enfatizado a mortalidade relacionada ao tratamento e a mortalidade relacionada à doença, sendo tais dados comparados a literatura mundial disponível.

 

    • Desenvolvimento e discussão

Para a realização do presente trabalho foram analisados 204 prontuários eletrônicos que constavam na planilha do hospital terciário do Brasil, disponibilizados dos anos de 2018 a 2023, sendo excluídos 84 prontuários pelos seguintes motivos: dados incompletos, outros diagnósticos, abandono do tratamento, transferência de serviço e dados duplicados. Portanto, o respectivo trabalho analisou um total de 120 pacientes.

A respectiva tabela 1, ressalva dados estatísticos básicos coletados, com as variáveis de sexo, faixa etária, classificação de risco, linhagem e a presença de recidiva dos pacientes pediátricos com LLA.

 

Tabela 1 - Estatísticas básicas para pacientes com leucemia linfóide aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, 2018 - 2023

Variável

Categoria

Quantidade

Percentual

Taxa de Óbito

Sexo

Masculino

76

63%

20%

Feminino

44

37%

16%

Faixa Etária

(2,4]

7

6%

14%

(4,9]

51

43%

18%

(9,19]

62

52%

19%

Classificação de Risco

Baixo

14

12%

0%

Intermediário

28

23%

4%

Alto

78

65%

27%

Linhagem

B

111

93%

17%

T

9

7%

33%

Houve Recidiva

Sim

19

16%

63%

Não

101

84%

10%

Nota-se que em relação ao sexo do paciente, a maior parte da amostra foi do sexo masculino, sendo também a taxa de óbito maior, com valores de 20% masculino contra 16% do sexo feminino. ​​ 

Diferentemente do estudo de Children´s Oncology Group (COG), a maior taxa de mortalidade foi encontrada no sexo feminino.6 Entretanto, no estudo realizado pela Revista Brasileira de Inovação Tecnológica em Saúde, feito com crianças de 0 a 14 anos, no Brasil, em todas as regiões, o gênero masculino predominou com um total de 800 casos a mais que os casos no sexo feminino, mostrando semelhança com o atual estudo, apresentando um percentual de 63% de casos de meninos e 37% de meninas.7

Já em relação à faixa etária, a maior parte da amostra está entre 9 e 19 anos (52%), com taxa de óbito que não se diferem tanto, sendo 14% para até 4 anos, 18% para os pacientes entre 4 e 9 anos e 19% para os de 9 até 19 anos. Como refere o estudo supracitado, no Brasil a faixa etária que possui mais casos de óbito foi de 5 a 9 anos, com um total de 790 falecimentos.7

Outro parâmetro estudado foi a linhagem linfocítica, sendo LLA-B mutações em células linfoides imaturas de linhagem B, com a ocorrência em 93% dos casos, e LLA-T, apresentando apenas 7% dos casos. Diante da amostra menor de linhagem T, sua taxa de óbito foi 33% superior à da B, que chegou a 17%. Como mostrado no estudo de 2015 em Recife, assim como evidenciado nesse trabalho, houve um predomínio de linhagem B em relação ao tipo T, com 15,4% contra 4,6%, respectivamente.8

A taxa de incidência foi obtida com base na quantidade de casos diagnosticados por ano por determinada faixa etária. Já a taxa de mortalidade foi obtida através da relação dos casos de óbitos pela mesma doença, a qual teve uma padronização para um milhão de crianças na mesma faixa etária para que fosse comparável. Na tabela 2, pode-se notar como a taxa de incidência e mortalidade se comportou nessa população e nesse período:

 

Tabela 2 - Taxa de Incidência e Mortalidades ajustadas por idade e leucemia linfóide aguda em crianças de 2 a 19 anos de idade, 2018 - 2023

Ano do

Diagnóstico

Casos

Óbitos

Taxa de Incidência (por um milhão)

Taxa de Mortalidade (por um milhão)

2018

15

2

14.4

1.9

2019

21

5

20.1

4.8

2020

23

9

22.0

8.6

2021

22

3

21.0

2.8

2022

20

0

19.0

0

2023

19

3

18.0

2.8

 

Nota-se que a taxa de incidência teve um aumento no decorrer dos anos. Em 2018 a incidência da leucemia linfóide aguda era de 14.4 casos por milhão de habitantes. Esse número atingiu seu máximo em 2020, com 22 casos por milhão, entretanto, de forma estável durante os anos, mantendo de 2019 até 2023 entre 18 e 22 casos por milhão de habitantes. Choudhry e Khazaei demonstraram uma taxa de incidência entre 37,6 e 50,9 na população pediátrica asiática, apresentando-se maior que a taxa desse estudo.9;10 Taxa essa semelhante a pesquisa feita em 2020 pelo Cadernos de Saúde Pública, com 49,8 casos para um milhão de crianças no período de 1997 e 2003 em São Paulo.3

Essa diferença em relação aos estudos descritos pode estar correlacionada a densidade populacional do estado em que o estudo foi desenvolvido, a necessidade de políticas públicas que conscientizem para o diagnóstico precoce, aumentando o diagnóstico precoce e também pela limitação do suporte de terapia intensiva pediátrica do serviço estudado, que consegue receber apenas crianças maiores que quinze quilogramas.

Já em relação a taxa de mortalidade, notou-se que os casos de óbito de pacientes com diagnóstico em 2020 foram superiores a todos os anos, com a taxa em 8.6 óbitos a cada um milhão de habitantes, esse número é evidenciado por representar quase o dobro em relação a taxa do ano de 2019 e mais 4 vezes a taxa do ano de 2018, não estando necessariamente relacionado ao COVID e não havendo uma explicação óbvia para o fenômeno observado.

Figura 1 - Taxa de Incidência e Mortalidades ajustadas por idade e leucemia linfoblástica aguda em crianças de 2 a 19 anos de idade, 2018 – 2023

 

Diferentemente do trabalho de Feliciano, pela Revista Brasileira de Cancerologia em 2019, que relatou que, no período de 1997 e 2003, ocorreu uma taxa de mortalidade de 15,7 por 1.000.000 de crianças e um percentual de 29,5 em relação total ao número de pacientes, em comparação ao proposto no presente trabalho, as taxas de mortalidade no geral se mostram bem inferiores, com máxima de 8.6 em 2020.11 ​​ Já em outro estudo brasileiro feito com uma população de 0 a 14 anos, durante os anos de 2000 a 2013, apresentaram uma taxa de mortalidade no Centro-Oeste com 7,2 mortes por ano, apresentando-se também maior que a taxa do respectivo trabalho, exceto pelo ano de 2020.7 Tal fato pode ser relacionado à menor incidência da doença descrita acima, porém reitera a importância do uso de protocolos adaptados à realidade Brasileira, que se iniciaram no serviço a partir de 2019. Torna-se fundamental um estudo anterior para avaliar a mortalidade em cinco a dez anos anteriores ao presente trabalho.1

A análise do tempo em que o paciente fica em tratamento até que ocorra o óbito, conhecida como sobrevivência, foi baseada no modelo de Kaplan-Meier e mostra como se comporta o tempo de sobrevivência dado o diagnóstico de Leucemia Linfoblástica Aguda.16

 

Figura 2 - Gráfico de Sobrevivência para pacientes com leucemia Linfoblástica aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, 2018 – 2023

 

 

 

Tabela 3 - Tabela de Sobrevivência para pacientes com leucemia Linfoblástica aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, 2018 – 2023

Mês desde

Diagnóstico

Pacientes em

Risco

Óbitos

Probabilidade de

Sobrevivência

1

120

1

0.99

4

113

2

0.97

5

108

1

0.97

8

101

1

0.96

10

98

2

0.94

12

92

3

0.91

13

85

1

0.90

18

74

2

0.87

19

70

1

0.86

22

64

1

0.85

26

57

1

0.83

31

47

1

0.81

32

45

1

0.79

35

43

2

0.76

37

36

1

0.74

56

9

1

0.66

 

A probabilidade de sobrevivência se mantém acima de 90% até os 13 meses de tratamento, logo o risco de óbito no primeiro ano de tratamento é inferior a 10%, mantendo-se acima de 80% mesmo após 2 anos. Tendo um decaimento após 32 meses de tratamento. Essa queda correlaciona-se com as recidivas precoces vistas durante o tratamento. Como retratado em estudo secundário, a recidiva precoce foi a mais frequente com um total dos casos de 74%.12

Não houve registro no estudo de nenhum caso de mortalidade relacionada ao tratamento (TRM) no trabalho no Brasil. Porém, em um estudo americano de 2014 há dados contemporâneos de LLA que a incidência de mortalidade relacionada ao tratamento está entre 2% e 4%. Além disso, o estudo sobre o grupo britânico UKALL (United Kingdom Acute Lymphoblastic Leukemia) analisou 3.126 pacientes entre 1 - 20 anos de idade com LLA e encontrou um total de 249 óbitos dos quais 117 eram relacionados ao tratamento sendo representado percentualmente com 47%.13

As mortes relacionadas à doença levam a uma redução na probabilidade de sobrevivência gradual:

 

Figura 3 - Gráfico de Sobrevivência para pacientes com leucemia linfoblástica aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, 2018 - 2023, por causa do óbito

 

No presente estudo, dos 22 óbitos, 19 foram relacionados à doença (86,36%), com um tempo médio de tratamento de 18 meses. Dentre esses óbitos, as principais etiologias encontradas foram em ordem de prevalência: choque séptico pós quimioterapia de resgate, seguido por atividade da doença, e complicações pós transplante de medula óssea. A exemplo do estudo americano já mencionado, a infecção foi a principal causa de morte nesse grupo. Essa alta prevalência encontra-se respaldada por dados literários que mostram uma queda de 90% para valores inferiores a 30% na sobrevida das leucemias linfoblásticas agudas recidivadas / refratárias como proposto em estudo do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais.12

Dentro do abordado nesse estudo, a taxa de óbito relacionada a doença mostra-se em nosso estudo um aumento gradual nos anos entre 2019 e 2020, quando comparados com o ano de 2018, saindo de 1.9 óbitos por milhão de habitantes para 8.6 óbitos, seguido de redução expressiva . Essa mudança se pauta na obtenção de novos tratamentos e no fato de vários pacientes ainda se encontrarem em tratamento.

 

Tabela 4 - Taxa de Mortalidades relacionada ao tratamento ajustada por idade e leucemia linfoblástica aguda em crianças de 2 a 19 anos de idade, 2018 – 2023

Ano do Diagnóstico

Óbitos relacionados à doença

Taxa de Mortalidade relacionada à doença (por um milhão)

2018

2

1.9

2019

5

4.8

2020

9

8.6

2021

3

2.8

2022

0

0

2023

0

0

 

Figura 4 - Taxa de Mortalidade relacionada à doença ajustadas por idade e leucemia linfoblástica aguda em crianças de 2 a 19 anos de idade por ano

 

A sobrevivência foi correlacionada com parâmetros como sexo, faixa etária, classificação de risco, linhagem linfocitária e os casos que houve ou não recidiva.

Inicialmente pelo sexo, podemos notar na figura 5 abaixo, que as curvas apresentam queda na probabilidade de sobrevivência semelhante. Mesmo que o sexo masculino tenha um aumento de risco mais intenso nos primeiros meses, vale ressaltar que entre os 40 e 60 meses de tratamento, a probabilidade de sobrevivência é bem próxima para ambos os sexos. No proposto pelo estudo do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, ressaltava que a sobrevivência global em relação aos sexos não apresentou diferentes dados estatísticos ao longo dos anos, semelhante ao encontrado na atual pesquisa. 15

Figura 5 - Gráfico de Sobrevivência para pacientes com leucemia linfoblástica aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, 2018 - 2023, por Sexo

 

Dentro do parâmetro de faixa etária na sobrevivência o observado na curva nota se que a probabilidade de sobrevivência decai de forma semelhante para as faixas de óbito, ocorrendo até um cruzamento entre as curvas. Esse comportamento reforça a ausência da relação da idade e o risco de óbito nesses pacientes estudados conforme a figura 10 e podem ser interpretados como um benefício da intensificação do tratamento ao se colocar todos pacientes com mais de anos em alto risco com uso de quimioterapia mais intensiva para se alcançar e manter a cura, minimizando o impacto desse fator. Esse dado difere da literatura realizada em 2023, pelo Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, em que os grupos de idade dentro dos valores de 1 a 9 anos possuíam melhores taxas de sobrevida, diferentes dos maiores de 9 anos, que se mostraram com alto risco de recaída.15

Figura 6 - Gráfico de Sobrevivência para pacientes com leucemia linfoblástica aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, 2018 - 2023, por Faixa Etária

 

Outro fator relevante é a classificação de risco e sua probabilidade de sobrevivência. Mostra-se que baixo risco possui 100% de probabilidade de sobrevivência, pois dentro de nossa amostra não houve nenhum óbito nessa classificação. Os pacientes de risco intermediário até os 20 meses de tratamento se mantiveram no mesmo patamar, reduzido nos meses seguintes para 90%. ​​ Para os pacientes de alto risco, temos uma queda gradual da sobrevivência para 50% com 55 meses de tratamento, indicando que esta classificação retém um risco superior aos demais.

 

Figura 7 - Gráfico de Sobrevivência para pacientes com leucemia linfoblástica aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, 2018 - 2023, por Classificação de Risco

 

Dentro dos parâmetros estudados de linhagem B ou T, sua correlação com óbito relata que os pacientes de linhagem T, apresentam uma probabilidade de sobrevivência com queda mais acentuada no decorrer do tratamento que os pacientes com linhagem B.17 Dentre do total de pacientes tivemos 111 em linhagem B com taxa de óbito de 17% e da linhagem T, um total de 9 pacientes, com taxa de óbito de 33%.

 

Figura 8- Gráfico de Sobrevivência para pacientes com leucemia linfoblástica aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, 2018 - 2023, por Linhagem

 

Na figura 9 é apontada as curvas de sobrevivência comparando os casos em que houve ou não recidiva e conforme já apontado nas análises descritivas, a diferença na taxa de óbito se faz presente, sendo a probabilidade de sobrevivência para os pacientes sem recidiva mantida acima de 80% durante todo o período de tratamento.18 Por outro lado, para os casos em que houve recidiva, a probabilidade de sobrevivência decai rapidamente, tendo antes de 20 meses de tratamento, probabilidade inferior à 75%, aos 35 meses de tratamento, 50% e aos 55 meses a probabilidade de sobrevivência cai para menos de 25%, enfatizando o risco apresentado por esses pacientes, devido a recidiva está totalmente interligada com a mortalidade nas leucemias agudas relacionada a doença, por uma falha na indução ou recaída.

 

Figura 9 - Gráfico de Sobrevivência para pacientes com leucemia linfoblástica aguda em pacientes de 2 a 19 anos de idade, Goiás, 2018 - 2023, por ocorrência de recidiva

 

Percebe-se que mesmo frente a tantos avanços, a taxa de mortalidade relacionada à doença, ainda segue consideravelmente alta19. Assim, a melhora da taxa de mortalidade das leucemias deve avaliar os pontos de melhorias possíveis dentro da mortalidade relacionada a doença, como por exemplo uso de novos protocolos de tratamento, melhoria do suporte intensivo pediátrico nos países em desenvolvimento, a identificação de fatores prognósticos biológico e terapias-alvo.

 

    • Considerações finais

Foi possível determinar a taxa de mortalidade relacionada ao tratamento e a doença na Leucemia Linfoblástica Aguda, que foi ausente para mortalidade relacionada ao tratamento e variou 1.9 a 8.6 por 1.000.000 de crianças no período de 2018 a 2023 com um pico em 2020 e consequentemente tendendo a queda nos seguintes anos para a mortalidade relacionada ao tratamento. As distribuições entre as causas de mortalidade relacionada à doença foram semelhantes às descritas na literatura, com predomínio de processos infecciosos como a sepse. O último óbito relacionado a doença ocorreu em 2021, tal fato pode ser encarado como uma melhoria dos protocolos assistenciais e de tratamento. No entanto, reitera-se uma necessidade de observação em um período maior para que se eliminem possíveis vieses dessa análise. Tais dados mostram a importância da criação e manutenção de políticas públicas de melhor acesso a serviços de saúde, para um diagnóstico precoce e tratamento correto e oportuno, o acesso a novos tratamentos para que essas taxas se mantenham e melhorem ainda com o passar do tempo. Ressaltamos também a importância da elaboração de estudos periódicos semelhantes a este para que o aperfeiçoamento seja constante.

 

    • Declaração de direitos

Os autores declaram ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declaram que as imagens e textos publicados são de responsabilidade dos autores, e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declaram respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

 

    • Referências

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1

UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

2

UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

3UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

4UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

5UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

6UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

7UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

8UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

9UNIATENAS, Centro Universitário Atenas Paracatu, Brasil, Goiânia. ​​ 

10UNIFIMES, Centro Universitário de Mineiros, Brasil, Goiânia. ​​ 

11UFG, Universidade Federal de Goiás, Brasil, Goiânia. ​​ 

12ESCS - Escola Superior de Ciências da Saúde, Brasil, Brasília. ​​ 

3

3Associação de Combate ao Câncer de Goiás, Brasil, Goiânia. ​​ 

4

5 UNICAMP, Universidade Estadual de Campinas, Brasil, Goiânia.

5

4 UNICAMP, Universidade Estadual de Campinas, Brasil, Goiânia. ​​ 

 

 

 

 


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