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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

Enfermagem e prevenção do câncer do colo de útero: uma análise integrativa da atuação na atenção primária à saúde

Eduarda da Cunha1; Jayane de Lima Serafim2; Gilson Jean Amaral de Melo3; Mayara da Costa Rodrigues4; Thainara Carolina Sant’anna5; Ana Karoline Heinz6, Karine Mattos7

 

Como Citar:

DA CUNHA, Eduarda; SERAFIM, Jayane de Lima; DE MELO, Gilson Jean Amaral; RODRIGUES, Mayara da Costa; SANT’ANNA, Thainara Carolina; HEINZ, Ana Karoline; MATTOS, Karine. Enfermagem e prevenção do câncer do colo de útero: uma análise integrativa da atuação na atenção primária à saúde. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 2264-2281, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025116918

 

DOI: 10.61411/rsc2025116918

 

Área do conhecimento:

Ciências da Saúde

Sub-área:

Enfermagem

 

Palavras-chaves: Enfermagem, atenção primária a saúde; câncer do colo do útero; prevenção; educação em saúde.

 

Publicado: 13 de novembro de 2025

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Resumo

O câncer do colo do útero (CCU) constitui um relevante problema de saúde pública, especialmente em países em desenvolvimento, onde apresenta alta incidência e mortalidade. Apesar de ser uma doença evitável e de detecção precoce, ainda persistem desafios relacionados ao rastreamento, à adesão das mulheres ao exame citopatológico e à efetividade das ações preventivas. Nesse contexto, o enfermeiro exerce papel essencial na Atenção Primária à Saúde (APS), atuando na promoção da saúde, na educação preventiva e no acompanhamento das usuárias. Assim, este estudo teve como objetivo analisar a atuação do enfermeiro na prevenção do câncer do colo do útero na Atenção Básica, destacando sua contribuição para o rastreamento, diagnóstico precoce e fortalecimento das práticas de cuidado integral. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases de dados SciELO, LILACS e BVS, com foco em estudos publicados que abordam o papel do enfermeiro nas ações de prevenção, rastreamento e controle do CCU. ​​ Os achados evidenciam que o enfermeiro desempenha função central na prevenção do CCU, atuando na coleta do exame citopatológico, aconselhamento das mulheres, encaminhamento de casos suspeitos e realização de ações educativas. Sua atuação contribui para o fortalecimento do vínculo com a comunidade, adesão ao rastreamento e acompanhamento contínuo das pacientes. No entanto, persistem desafios estruturais e organizacionais, como a escassez de recursos, falhas logísticas, sobrecarga de trabalho e carência de capacitação profissional contínua. Esses fatores comprometem a integralidade do cuidado e a efetividade das ações preventivas. A atuação do enfermeiro na APS é determinante para o enfrentamento do CCU, pois alia competência técnica e sensibilidade humanizada. Para consolidar práticas mais resolutivas, faz-se necessária a valorização profissional, o fortalecimento das políticas públicas e a melhoria das condições de trabalho. A efetividade das ações preventivas depende da integração entre educação em saúde, busca ativa e acompanhamento
longitudinal das mulheres, assegurando cuidado integral, equitativo e contínuo.

 

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Nursing and cervical cancer prevention: an integrative review of practice in primary health care

 

Abstract

Cervical cancer (CC) represents a significant public health concern, particularly in developing countries, where incidence and mortality rates remain high. Despite being largely preventable and detectable at early stages, challenges persist regarding screening, women's adherence to cytological exams, and the effectiveness of preventive actions. In this context, nurses play a crucial role in Primary Health Care (PHC), contributing to health promotion, preventive education, and patient follow-up. This study aimed to analyze the role of nurses in the prevention of cervical cancer in primary care, emphasizing their contribution to screening, early diagnosis, and the strengthening of comprehensive care practices. An integrative literature review was conducted using the SciELO, LILACS, and BVS databases, focusing on studies addressing the role of nurses in cervical cancer prevention, screening, and control. Findings indicate that nurses are central to cervical cancer prevention, performing cytological examinations, providing counseling, referring suspected cases, and implementing educational activities. Their involvement strengthens community engagement, promotes adherence to screening programs, and ensures continuous patient follow-up. However, structural and organizational challenges persist, including resource limitations, logistical issues, work overload, and insufficient ongoing professional training, which compromise care comprehensiveness and the effectiveness of preventive actions. Nurses' participation in PHC is pivotal in addressing cervical cancer, combining technical competence with humanized care. To enhance the resolution of preventive practices, professional recognition, strengthened public policies, and improved working conditions are essential. The effectiveness of preventive interventions depends on integrating health education, active case-finding, and longitudinal follow-up, ensuring comprehensive, equitable, and continuous care.

Keywords: Nursing; Primary Health Care; Cervical Cancer; Prevention; Health Education.

 

    • Introdução

O câncer do colo do útero (CCU), também conhecido como câncer cervical, constitui uma neoplasia de evolução geralmente lenta, com um longo período pré-clínico que permite amplas possibilidades de prevenção, detecção precoce e tratamento eficaz. Apesar desses fatores, a doença ainda se mantém como um grave problema de saúde pública, especialmente em países de baixa e média renda, onde o acesso a programas de rastreamento e acompanhamento contínuo é limitado. De acordo com a American Cancer Society, o câncer cervical apresenta altas taxas de incidência e mortalidade, refletindo desigualdades estruturais no sistema de saúde e deficiências nas políticas públicas voltadas à saúde da mulher. A persistência dessas elevadas taxas está intimamente associada a falta de cobertura efetiva dos programas de rastreamento citopatológico, baixa adesão das mulheres as consultas ginecológicas regulares e insuficiência de campanhas educativas que abordem a importância da prevenção. Soma- se a isso o impacto de determinantes sociais e culturais, como o estigma, vergonha e desconhecimento sobre o exame preventivo, que contribuem para o diagnóstico tardio e, consequentemente, para a piora do prognóstico [2.].

Conforme Pereira et al. [5.], a Atenção Primária à Saúde (APS) tem assumido um papel cada vez mais dinâmico e estratégico no fortalecimento das políticas públicas voltadas à promoção, proteção e recuperação da saúde, especialmente no que tange as ações de prevenção e controle do câncer. A expansão do acesso aos serviços e a descentralização das ações assistenciais têm permitido maior proximidade entre os profissionais de saúde e a comunidade, favorecendo o estabelecimento de vínculos ​​ terapêuticos e continuidade do cuidado. Nesse cenário, a APS consolida-se como o nível de atenção mais resolutivo e acessível do sistema de saúde, possibilitando uma abordagem integral e humanizada das necessidades da população.

Ainda segundo o autor supracitado [5.], no âmbito da Estratégia de Saúde da Família (ESF), o enfermeiro desponta como um agente fundamental no desenvolvimento de práticas assistenciais e educativas voltadas a prevenção do CCU e promoção da saúde da mulher. O espaço de autonomia conquistado por esse profissional, sustentado por sua atuação interdisciplinar e confiança estabelecida com a comunidade, permite o fortalecimento das ações de rastreamento, educação em saúde, acompanhamento de casos e gestão do cuidado. A atuação do enfermeiro na ESF, portanto, ultrapassa o caráter técnico-procedimental, abrangendo dimensões educativas, gerenciais e sociais que contribuem para a efetividade das políticas de controle do CCU e de outras neoplasias prevalentes. Essa atuação integrada reforça a importância da APS como porta de entrada e coordenadora do cuidado, sustentando práticas baseadas na integralidade, equidade e participação comunitária, princípios estruturantes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Neste sentido, o presente estudo teve como objetivo analisar e refletir criticamente sobre a atuação do enfermeiro na prevenção do CCU no contexto da APS, reconhecendo a amplitude e complexidade das atribuições desse profissional no enfrentamento de uma das neoplasias de maior impacto na saúde pública feminina. Considerando que o enfermeiro exerce papel central na promoção da saúde, prevenção de agravos e detecção precoce de doenças, buscou-se compreender de que forma suas práticas assistenciais, competências técnico-científicas e estratégias educativas contribuem para a efetividade das ações de rastreamento e controle do CCU.

A relevância deste estudo fundamenta-se na constatação de que a prevenção desta neoplasia exige mais do que a execução de procedimentos clínicos, demandando uma atuação integrada, pautada na educação em saúde e na construção de vínculos com as usuárias do sistema. Assim, a atuação do enfermeiro na APS configura-se como elemento essencial para a integralidade da assistência, ao articular ações que vão desde o acolhimento e orientação sobre o exame citopatológico até a implementação de estratégias comunitárias voltadas à ampliação do acesso e a conscientização sobre a importância da prevenção.

Dessa forma, o estudo propõe uma análise aprofundada e reflexiva sobre as práticas de enfermagem no controle do CCU, com vistas a fortalecer o embasamento teórico e científico que sustenta a tomada de decisão clínica e formulação de intervenções educativas mais eficazes. Pretende-se, assim, contribuir para o avanço do conhecimento na área da saúde coletiva, oferecendo subsídios para a consolidação de políticas públicas e estratégias assistenciais que valorizem a autonomia do profissional enfermeiro, promovam o cuidado integral e assegurem uma assistência de qualidade, resolutiva e equitativa no âmbito da atenção primária..

    • Metodologia

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura a respeito da atuação do enfermeiro na atenção básica voltada à prevenção do CCU. A coleta de dados foi realizada nas bases SciELO, LILACS e BVS. Para garantir maior abrangência, a busca contemplou artigos publicados nos idiomas português, inglês e espanhol, utilizando descritores combinados por operadores booleanos (AND, OR), técnica que aumenta a sensibilidade da busca e minimiza a exclusão de estudos pertinentes. Os descritores selecionados englobam, em português, os termos “enfermagem”, “enfermeiro”, “câncer de colo de útero”, “atenção primária à saúde”, “Estratégia Saúde da Família” e “serviços de saúde”; em inglês, “nurse”, “cervical cancer”, “primary health care”, “family health strategy” e “health services”; e em espanhol, “enfermero/enfermera”, “cáncer de cuello uterino”, “atención primaria de salud”, “estrategia de salud de la familia” e “servicios de salud”.

A fim de assegurar a qualidade do estudo, foram incluídos artigos publicados nos últimos 10 anos, disponíveis na íntegra e nos idiomas selecionados, que abordassem especificamente a atuação do enfermeiro na prevenção do CCU no contexto da atenção básica. Além disso, foram excluídos estudos duplicados, resumos, editoriais, trabalhos sem fundamentação científica consistente, artigos que não apresentassem relação direta com a enfermagem ou que não oferecessem evidências confiáveis para análise.

Os artigos selecionados foram lidos na íntegra, assegurando que a análise considerasse não apenas o tema central, mas também a qualidade da metodologia e das discussões apresentadas. Para garantir a consistência e a comparabilidade das informações extraídas, foi desenvolvido um instrumento padronizado de coleta de dados, contemplando informações como título do artigo, autores, ano de publicação, periódico, tipo de estudo, base de dados e metodologia utilizada.

Por fim, a análise dos dados extraídos seguiu uma abordagem qualitativa e interpretativa, com foco na identificação de padrões de atuação, barreiras, estratégias de intervenção e práticas de educação em saúde voltadas à prevenção do CCU. Foram realizados cruzamentos entre os achados dos diferentes artigos, permitindo uma interpretação integrativa e crítica que considerou a diversidade de contextos, populações e métodos empregados nas pesquisas incluídas.

 

    • Desenvolvimento e discussão

A etapa inicial do processo de seleção resultou na identificação de 39 artigos, dos quais 33 foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão previamente estabelecidos, seja por inadequação temática, ausência de rigor metodológico ou duplicidade entre as bases consultadas. Após a triagem, procedeu-se à leitura integral dos estudos elegíveis. Ao término dessa etapa, sete artigos foram considerados aptos para compor o corpus analítico da presente revisão integrativa.

Para garantir a padronização da extração de dados, foi elaborado um instrumento estruturado de coleta, contemplando variáveis como título, autores, ano de publicação, periódico, objetivos, delineamento metodológico e principais resultados. Essa padronização metodológica permitiu não apenas a organização coerente das informações, mas também a comparabilidade entre os estudos, favorecendo uma análise crítica e integrativa dos achados. A aplicação desse procedimento possibilitou a construção de uma base sólida para a discussão dos resultados, assegurando transparência, rastreabilidade e rigor científico ao processo de revisão. A Tabela 1​​ apresenta o perfil metodológico e bibliográfico dos estudos incluídos.

 

Tabela 1: Perfil metodológico e bibliográfico dos estudos incluídos na revisão integrativa.

Artigo

Título

Autor

Ano

Tipo de Estudo

Base de Dados

1

Educação popular como instrumento participativo para a prevenção do câncer ginecológico: percepção de mulheres

Souza, K. R.; Paixão, G. P. N.; Almeida, E. S.; Souza, A. R.; Lírio, J. G. S.; Campos, L. M. [8.]

2015

Pesquisa-ação com abordagem qualitativa

LILACS

2

Autopreenchimento da ficha clínica no rastreamento do câncer de colo de útero: percepções da mulher

Nepomuceno, C. C.; Fernandes, B. M.; Almeida, M. I. G.; Freitas, S. C.; Bertocchi, F. M. [6.]

2015

Pesquisa descritiva, com

abordagem qualitativa

LILACS

3

Percepções das mulheres com alterações no Papanicolau a propósito de amparo do sistema de saúde

Carvalho, V. F. de; Costa, K. N. P.; Danilo, L. F. W.; Vidales, B. B. M.; SILVA, V. J. [3.]

2018

Pesquisa qualitativa exploratória e descritiva

LILACS

4

Monitoramento das ações de controle do câncer cervicouterino e fatores associados.

Anjos, E. F; Martins, P. C; Prado, N. M. B. L.; Bezerra, V. M.; Almeida, P. F.; Santos, A. M. [1.]

2021

Estudo transversal

SCIELO

5

Desafios para prevenção e tratamento do câncer cervicouterino no interior do Nordeste

Fernandes, N. F. S.; Almeida, P. F.; Prado, N. M. B. L.; Carneiro, A. O.; Anjos, E. F.; Paiva, J. A. C.; Santos, A. M. [4.]

2021

Estudo qualitativo

SCIELO

6

Rastreamento do câncer de colo do útero: perspectiva dos enfermeiros na atenção primária à saúde.

Santos, J. S. B.; Santos, M. V.; Vigário, P. S. [7.]

2022

Estudo qualitativo

LILACS

7

Valor vital na consulta de Enfermagem ginecológica: Prevenção do câncer de colo de útero

Barbosa, S. C. H.; Alves, V. H.; Vieira, B. D. G.; Santos, M. V.; Calandrini, T. S. S. [2.]

2025

Estudo qualitativo fenomenológico, descritivo.

SCIELO

Fonte: Os Autores (2025).

 

A relevância da atuação do enfermeiro na prevenção do CCU também é evidenciada por Souza e colaboradores [8.], que discute a importância das práticas educativas e do acolhimento como instrumentos de fortalecimento do vínculo entre profissional e usuária. Os autores destacam que a escuta qualificada e o diálogo horizontal são recursos imprescindíveis para reduzir resistências e medos associados ao exame citopatológico, favorecendo a adesão das mulheres às ações preventivas. Esse enfoque humanizado amplia o alcance das intervenções e consolida a APS como espaço de cuidado integral e contínuo.

No estudo dos autores supracitados [8.], o foco recai sobre a compreensão que as mulheres possuem a respeito do CCU e sobre o grau de consciência quanto à relevância da prevenção, tomando a educação popular como ferramenta essencial para a promoção da saúde e o fortalecimento da cidadania. Os autores partem do pressuposto de que o conhecimento, quando construído de forma participativa e dialógica, favorece o empoderamento das usuárias e transforma o modo como elas se relacionam com o autocuidado e com os serviços de saúde. Os achados do estudo demonstram que, embora as participantes reconheçam a importância do acesso aos serviços de saúde e compreendam o valor do exame preventivo para a identificação precoce de alterações ginecológicas, persistem barreiras de natureza emocional e sociocultural que dificultam a adesão às práticas preventivas. Entre os principais obstáculos, destacam-se sentimentos de vergonha, constrangimento e insegurança diante do exame, além da limitada disseminação de informações qualificadas sobre o tema e da carência de práticas educativas sistemáticas conduzidas pelos profissionais da Atenção Básica. Tais fragilidades acabam por restringir o protagonismo das mulheres no cuidado de si e enfraquecem o vínculo com os serviços de saúde.

Nesse contexto, evidencia-se que as ações de educação popular em saúde, embora presentes em algumas iniciativas locais, ainda se mostram incipientes e necessitam ser fortalecidas enquanto instrumentos pedagógicos transformadores. A adoção de metodologias participativas, pautadas na escuta ativa e na construção coletiva do saber, é vista como caminho promissor para romper com o modelo verticalizado de transmissão de conhecimento e promover uma prática emancipadora, centrada na realidade e nas necessidades das usuárias.

O estudo enfatiza que o enfermeiro, por sua inserção privilegiada na APS, desempenha papel fundamental na mediação desse processo educativo, sendo responsável por criar espaços de diálogo e acolhimento que estimulem a reflexão crítica sobre o autocuidado, a sexualidade e a importância da prevenção. Ao incorporar de forma contínua as práticas educativas fundamentadas na educação popular, o enfermeiro contribui para reduzir os impactos das barreiras emocionais e culturais, fortalecer a autonomia feminina e ampliar a efetividade das ações de rastreamento do CCU. Desse modo, a pesquisa reafirma que a educação em saúde, quando conduzida sob uma perspectiva crítica, humanizada e participativa, constitui um eixo estruturante para a consolidação da integralidade do cuidado e para a promoção de uma atenção mais equitativa e transformadora [8.]. Ainda, a perspectiva apresentada pelos autores complementa a de Barbosa [2.] ao enfatizar que o conhecimento técnico, embora indispensável, deve ser acompanhado de habilidades comunicacionais e empáticas, uma vez que a efetividade das estratégias de prevenção depende diretamente do modo como o enfermeiro se relaciona com a população assistida.

A saúde sexual e reprodutiva ainda permanece cercada por tabus socioculturais, o que compromete a adesão das mulheres às consultas ginecológicas. Nesse contexto, Nepomuceno e colaboradores [6.] apresentam uma abordagem inovadora adotada pela equipe de enfermagem na APS, voltada à prevenção do câncer do colo do útero (CCU). O estudo, conduzido de forma qualitativa, estruturou seus resultados em três categorias analíticas, que refletem de maneira expressiva os desafios subjetivos enfrentados por muitas mulheres no contexto da consulta ginecológica, sendo: a) “a facilidade para escrever e dificuldade para falar”; b) “redução do constrangimento e nervosismo”; e c) “preservação da mulher e garantia da maior confiabilidade das informações”. Esses achados elucidam barreiras emocionais e comportamentais enfrentadas pelas pacientes, revelando que a necessidade de expor aspectos íntimos frente ao profissional gera sentimentos de vergonha, que podem levar à omissão de informações relevantes, impactando a integralidade do cuidado. Assim, o autopreenchimento da ficha clínica por parte das pacientes emerge como uma estratégia eficaz para reduzir o desconforto, favorecer o vínculo com o serviço de saúde e aumentar a fidelidade das informações coletadas. Essa prática contribui diretamente para o fortalecimento da adesão às consultas ginecológicas, promovendo a detecção precoce de alterações cervicais e reforçando a eficácia das ações preventivas no âmbito da APS.

De maneira complementar, Carvalho et al. [3.] evidencia que, mesmo diante da disponibilidade de serviços, barreiras estruturais e organizacionais impactam negativamente o acesso e a continuidade do cuidado. Problemas como demora no agendamento de consultas, indisponibilidade de exames, atrasos na liberação de medicamentos e falta de referência adequada comprometem a adesão das mulheres às medidas preventivas. Além disso, a percepção negativa das usuárias em relação ao serviço, quando há ausência de acompanhamento integral e comunicação clara, reforça a necessidade de atenção humanizada e organizada em todas as etapas do cuidado. A articulação entre estratégias de empoderamento da paciente, como o autopreenchimento da ficha clínica, e a melhoria da infraestrutura e do acompanhamento pelo SUS evidencia a importância de práticas integradas que considerem tanto os aspectos emocionais quanto os estruturais, promovendo adesão efetiva, prevenção precoce e fortalecimento da integralidade na APS.

Em consonância com essa perspectiva, Anjos et al. [1.] ressaltam que o monitoramento das ações voltadas ao controle do CCU ainda apresenta baixa prevalência na região analisada, o que evidencia fragilidades estruturais e organizacionais no processo de trabalho das equipes da APS. O monitoramento sistemático e efetivo constitui um dos pilares de um programa de prevenção bem-sucedido, sendo indispensável para assegurar ampla cobertura populacional, rastreamento contínuo e adesão ao tratamento. A ausência desse acompanhamento reduz a capacidade de resposta dos serviços de saúde, dificultando o alcance da integralidade no cuidado e comprometendo os resultados das políticas públicas de controle do câncer cervical. Assim, observa-se que a atuação dos profissionais da APS, em especial dos enfermeiros, desempenha papel decisivo na articulação entre a promoção da saúde e a vigilância contínua. A presença do enfermeiro, dotado de competência técnico-científica e de uma visão ampliada do processo saúde-doença, contribui significativamente para o fortalecimento das ações de rastreamento, acompanhamento e educação em saúde, favorecendo o empoderamento feminino e o engajamento comunitário. Essa atuação se ancora na capacidade do enfermeiro de integrar o conhecimento teórico às práticas humanizadas, estabelecendo vínculos de confiança com as usuárias e promovendo acesso equitativo e qualificado às medidas preventivas.

Os achados de Anjos et al. [1.] também apontam que o tempo de atuação e a estabilidade do vínculo profissional estão diretamente relacionados a qualidade do monitoramento das ações. Profissionais com maior permanência no território desenvolvem uma compreensão mais profunda das necessidades da população e fortalecem a relação de confiança com as mulheres, o que é determinante para a adesão ao exame citopatológico e à continuidade do cuidado. Em contrapartida, a rotatividade de profissionais compromete a longitudinalidade e a coordenação das ações, dificultando a consolidação de uma linha de cuidado contínua e resolutiva dentro da atenção básica. Ademais, estratégias comunicacionais, como divulgação dos resultados, mobilização comunitária e uso de ações educativas participativas, mostraram-se associadas a um melhor desempenho das equipes, pois ampliam o alcance das informações e reforçam o compromisso coletivo com a prevenção. Essas estratégias, quando articuladas a uma rede de atenção ágil, na qual biópsias e laudos laboratoriais são processados com celeridade, resultam em respostas mais rápidas e qualificadas às demandas da população. Nesse sentido, a integração entre o trabalho técnico-científico, o vínculo comunitário e a eficiência organizacional configuram-se como um alicerce indispensável para o fortalecimento da APS e para o sucesso das políticas de prevenção e controle do câncer do colo do útero.

Os achados de Fernandes et al. [4.] reforçam de maneira contundente o papel central do enfermeiro da APS na prevenção e controle do CCU, evidenciando sua contribuição tanto na dimensão técnica quanto na educativa e gerencial do cuidado. Durante a coleta do exame citopatológico, os enfermeiros demonstraram não apenas  ​​​​ domínio técnico, mas também resolutividade clínica, ao realizarem orientações adequadas, conduzirem o tratamento de alterações simples e efetuarem encaminhamentos a ginecologistas quando necessário. Essa atuação expressa a consolidação de uma prática profissional baseada em evidências, em conformidade com as diretrizes do Ministério da Saúde, e revela a capacidade do enfermeiro de integrar competências assistenciais e educativas em um mesmo processo de cuidado, garantindo uma atenção contínua, equitativa e resolutiva às mulheres.

Entretanto, o estudo supracitado também identificou desafios estruturais e logísticos que comprometem a integralidade do cuidado, entre eles se destacam: falhas no transporte e na conservação das lâminas citológicas, bem como dificuldades de acesso a especialistas, sobretudo em regiões rurais e periféricas. Essas limitações expõem desigualdades persistentes entre os territórios, repercutindo diretamente na eficiência do rastreamento e no tempo de resposta diagnóstica. Nesses contextos de vulnerabilidade estrutural, a atuação do enfermeiro adquire um caráter de protagonismo e adaptabilidade, visto que esse profissional frequentemente assume a responsabilidade de buscar soluções criativas e estratégias alternativas para garantir o acompanhamento das pacientes e a continuidade do cuidado. Tal protagonismo é sustentado pela autonomia técnico-científica e pela capacidade de gestão do cuidado, que permitem ao enfermeiro superar limitações do sistema e promover práticas de saúde mais próximas das necessidades reais da comunidade.

Outro ponto relevante destacado por Fernandes et al. [4.] refere-se as desigualdades no acesso ao diagnóstico e ao tratamento, especialmente em municípios de pequeno porte e áreas rurais, onde as barreiras financeiras, logísticas e geográficas dificultam o deslocamento das mulheres e o seguimento clínico após o exame preventivo. Essas disparidades reforçam a importância de políticas públicas que promovam equidade territorial e fortalecimento da rede de referência e contrarreferência, assegurando o fluxo contínuo entre a atenção básica e os serviços especializados. Desse modo, o estudo reafirma que a atuação do enfermeiro na APS ultrapassa a mera execução de procedimentos técnicos, abrangendo dimensões educativas, gerenciais e sociais que são fundamentais para a efetividade das ações de prevenção do câncer do colo do útero. O enfermeiro, ao integrar saberes técnicos e práticas humanizadas, consolida-se como agente de transformação social e sanitária, fortalecendo o vínculo entre o serviço e a comunidade, promovendo o empoderamento feminino e contribuindo de maneira decisiva para a redução das iniquidades em saúde e para a consolidação de um modelo assistencial pautado na integralidade e na equidade.

De igual forma, os resultados apresentados por Santos e colaboradores [7.] demonstram que o acompanhamento contínuo das pacientes constitui elemento essencial para a efetividade das ações de prevenção do CCU, especialmente no contexto da APS. A captação das mulheres para o rastreamento foi identificada como um processo multifatorial, sustentado por diferentes estratégias de mobilização, dentre as quais se destacam a busca ativa realizada pelos agentes comunitários de saúde, o atendimento por livre demanda, o agendamento programado, as campanhas de saúde, as ações em sala de espera e o acolhimento humanizado nas UBS. Essas práticas se mostraram determinantes para o aumento da cobertura do exame citopatológico e para o fortalecimento do vínculo entre as usuárias e os serviços de saúde. No entanto, o estudo revelou que, apesar da relevância dessas estratégias, diversos obstáculos persistem, comprometendo a qualidade e a continuidade da assistência. Entre as principais dificuldades relatadas pelos profissionais, destacam-se a insuficiência de infraestrutura física, a carência de salas adequadas para a coleta do exame, o número reduzido de médicos para o seguimento dos casos e a sobrecarga das equipes de enfermagem, fatores que limitam a organização do cuidado e dificultam a consolidação de um fluxo assistencial resolutivo. Ainda, de acordo com os mesmos autores [7.], os enfermeiros que atuam nas UBS desempenham papel crucial no acompanhamento dessas mulheres, adotando condutas alinhadas às diretrizes preconizadas pelo Ministério da Saúde e às resoluções do Conselho Regional de Enfermagem (COREN). Esses profissionais se destacam na execução de práticas de prevenção e na detecção precoce de alterações ginecológicas, sendo responsáveis pela realização da consulta de enfermagem, pela coleta do exame citopatológico e pela orientação educativa. Contudo, o estudo aponta que ainda existem discrepâncias entre as condutas adotadas por diferentes profissionais, reflexo da ausência de protocolos clínicos padronizados e da falta de uniformidade nos fluxos assistenciais. Essa heterogeneidade nas práticas clínicas compromete a continuidade do cuidado e pode impactar negativamente a qualidade da assistência prestada. Assim, os autores reforçam a necessidade urgente de elaboração e implementação de protocolos assistenciais que orientem a prática clínica e promovam maior coerência e segurança nas ações de enfermagem.

Além das limitações estruturais e organizacionais, Santos et al. [7.] destacam a persistência de barreiras subjetivas e culturais que dificultam a adesão das mulheres ao exame preventivo, como sentimentos de vergonha, medo, desconforto e desconhecimento sobre a importância do rastreamento. Tais fatores revelam a complexidade do fenômeno da não adesão, que ultrapassa as dimensões técnicas e exige abordagens educativas sensíveis e contextualizadas. Nesse sentido, o estudo enfatiza a relevância de se ampliar as estratégias de educação em saúde e de sensibilização comunitária, com foco na construção de confiança e na desmistificação do exame citopatológico. Os autores sugerem, ainda, a necessidade de reorganização dos serviços, com ampliação dos horários de coleta, inclusive nos finais de semana, e intensificação das ações de busca ativa e campanhas locais, de modo a garantir maior acesso e equidade na atenção. Ainda, reafirmam que a efetividade da atuação do enfermeiro no rastreamento e na educação em saúde não depende exclusivamente da competência técnica, mas também das condições estruturais, gerenciais e políticas que sustentam a atenção básica. As dificuldades relatadas pelos profissionais, quando analisadas criticamente, oferecem subsídios valiosos para o aprimoramento da gestão em saúde, indicando a necessidade de políticas públicas voltadas à melhoria das condições de trabalho, à adequação de infraestrutura e ao fortalecimento de programas de capacitação profissional contínua. O estudo conclui que, ao investir na valorização do enfermeiro e na consolidação de equipes multiprofissionais integradas, é possível ampliar a resolutividade da APS e promover um cuidado mais acessível, humanizado e efetivo na prevenção do CCU.

Os resultados obtidos neste estudo demonstram que o enfermeiro, enquanto agente central da APS, exerce um papel decisivo na prevenção do CCU, sobretudo no contexto da consulta de enfermagem, que se configura como um espaço privilegiado de promoção da saúde e de educação preventiva. De acordo com Barbosa [2.], o conhecimento técnico-científico apreendido pelos enfermeiros é compreendido como um valor vital que sustenta a prática profissional, possibilitando intervenções seguras, resolutivas e pautadas em evidências. Essa internalização do saber científico é fundamental para consolidar a autonomia do enfermeiro nas ações de rastreamento e prevenção, permitindo que suas condutas estejam alinhadas às diretrizes do SUS e às políticas públicas voltadas à saúde da mulher. Ademais, a autora ressalta que a formação continuada e o fortalecimento da educação permanente são estratégias essenciais para qualificar o cuidado, potencializando a capacidade crítica e reflexiva do profissional frente às demandas da comunidade feminina. Assim, o estudo reforça que a competência técnica e científica do enfermeiro não se restringe ao domínio de protocolos, mas estende-se à capacidade de integrar o conhecimento teórico à prática humanizada e integral.

 

    • Considerações finais

Em suma, a análise dos estudos incluídos nesta revisão integrativa ratifica, de forma inequívoca, que o enfermeiro desempenha um papel central e estratégico na prevenção e controle do CCU no âmbito da APS. Sua atuação ultrapassa o domínio técnico e clínico, abrangendo dimensões educativas, comunicacionais e socioculturais que são determinantes para a efetividade das ações preventivas. As evidências reunidas demonstram que a consulta de enfermagem constitui um espaço privilegiado de escuta, acolhimento e construção de saberes compartilhados, no qual se consolidam práticas que estimulam o autocuidado e fortalecem o protagonismo feminino no processo de promoção da saúde. Entretanto, a persistência de barreiras estruturais, como a insuficiência de recursos humanos e materiais, a falta de padronização de protocolos e a fragmentação da rede de atenção, ainda compromete a integralidade do cuidado. Soma-se a isso a necessidade de maior investimento em formação e educação permanente, de modo a aprimorar as competências técnicas e relacionais do enfermeiro frente às demandas complexas da saúde da mulher.

Dessa forma, conclui-se que o enfrentamento efetivo do câncer do colo do útero requer uma abordagem integrada que articula práticas educativas humanizadas, estratégias de busca ativa e acompanhamento contínuo, associadas ao fortalecimento da gestão e à valorização profissional da enfermagem. A ampliação do acesso aos serviços e a consolidação de um vínculo de confiança entre profissionais e usuárias configuram pilares indispensáveis para o sucesso das ações de rastreamento e prevenção. Assim, este estudo reafirma a necessidade de políticas públicas sustentadas em evidências científicas e orientadas pela perspectiva da integralidade, equidade e humanização do cuidado. Ao reconhecer o enfermeiro como agente transformador dentro do SUS, é possível vislumbrar avanços significativos na promoção da saúde feminina, na redução das desigualdades de acesso e na efetiva diminuição da morbimortalidade associada ao câncer do colo do útero no Brasil.

 

    • Declaração de direitos

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    • Referências

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