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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

Valorização territorial e visibilidade da cultura negra no curso técnico em Automação do IFRS

Maria Alice Machado Rodrigues1; Igor Alves Silveira2; Maurício Soares Ortiz 3

 

Como Citar:

RODRIGUES, Maria Alice Machado; SILVEIRA, Igor Alves; ORTIZ, Maurício Soares. Valorização territorial e visibilidade da cultura negra no curso técnico em Automação do IFRS. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 26812690, 2025.

https://doi.org/10.61411/rsc2025117218

 

DOI: 10.61411/rsc2025117218

 

Área do conhecimento:

Educação

Sub-área:

Educação e Relações Étnico-Raciais

 

Palavras-chaves: Educação Antirracista; Permanência Estudantil; Equidade Racial; Automação; IFRS.

 

Publicado: 16 de dezembro de 2025.

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Resumo

O presente artigo apresenta uma análise quantitativa e reflexiva sobre a permanência e a formação de estudantes negros e pardos no curso técnico em Automação Industrial do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Campus Rio Grande, ingressantes entre os anos de 2015 e 2020. O estudo integra o projeto Valorização territorial e visibilidade da cultura negra no espaço escolar para a promoção da equidade racial, desenvolvido em parceria com o bairro Getúlio Vargas – território historicamente marcado pela presença da população negra na cidade do Rio Grande (RS). Mesmo após a implantação da Lei de Cotas (2013), os dados revelam uma desigualdade expressiva: enquanto o número de estudantes não negros manteve-se elevado, com médias anuais entre 32 e 36 ingressantes, o de negros e pardos variou apenas entre 3 e 7. Essa diferença se amplia quando analisadas as taxas de conclusão, que entre negros e pardos ficaram entre 14% e 33%, ao passo que entre não negros superaram 47% em todos os anos. Esses resultados evidenciam que, embora o acesso tenha avançado, a permanência e a conclusão dos estudantes negros seguem comprometidas por barreiras estruturais. O artigo discute essas desigualdades e aponta a necessidade de políticas de permanência, valorização da cultura negra e fortalecimento de práticas pedagógicas antirracistas no ambiente escolar.

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Territorial appreciation and visibility of black culture in the technical course in Automation at IFRS

 

Abstract

This article presents a quantitative and reflective analysis of the enrollment and graduation of Black and Brown students in the Industrial Automation Technical Course at the Federal Institute of Rio Grande do Sul (IFRS), Rio Grande Campus, who entered between 2015 and 2020. The study is part of the project Territorial Appreciation and Visibility of Black Culture in the School Environment for the Promotion of Racial Equity, developed in partnership with the Getúlio Vargas neighborhood — a territory historically marked by the presence of the Black population in the city of Rio Grande (RS). Even after the implementation of the Quota Law (2013), the data reveal significant inequality: while the number of non-Black students remained high, with annual averages between 32 and 36 entrants, the number of Black and Brown students ranged only from 3 to 7. This gap widens when analyzing completion rates, which ranged from 14% to 33% among Black and Brown students, compared to over 47% among non-Black students in all years. These results demonstrate that, although access has improved, the permanence and graduation of Black students remain hindered by structural barriers. The article discusses these inequalities and highlights the need for policies that promote student retention, the appreciation of Black culture, and the strengthening of anti-racist pedagogical practices within the school environment.

Keywords: Anti-Racist Education; Student Retention; Racial Equity; Automation; IFRS.

 

  • Introdução

O Instituto Federal do Rio Grande do Sul - Campus Rio Grande está localizado em uma região de grande relevância histórica para a população negra, próxima ao bairro Getúlio Vargas, território marcado pela presença e resistência da cultura afro-brasileira. Apesar dessa proximidade, o campus ainda reflete desigualdades raciais na composição do seu corpo discente. O curso técnico em Automação, em particular, apresenta número reduzido de estudantes negros e pardos em relação aos não negros, e taxas de conclusão ainda menores.

O contexto socioeducacional e histórico de desigualdades raciais no Brasil motivou o desenvolvimento do projeto “Valorização territorial e visibilidade da cultura negra no espaço escolar para a promoção da equidade racial”, concebido como uma iniciativa integrante do Projeto Redes Antirracistas de Ensino, Pesquisa e Extensão, estabelecido em cooperação com o Ministério da Igualdade Racial (MIR) e o Instituto Federal de Brasília (IFB), sob a gestão técnico-administrativa da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec). Essa articulação interinstitucional visa consolidar uma política de enfrentamento ao racismo estrutural e institucional no campo educacional, promovendo ações que transversalizem os princípios da Lei nº 10.639/2003, a qual torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica [1].

O projeto fundamenta-se na compreensão de que a escola é um espaço estratégico de produção e reprodução de saberes, valores e identidades [2,3]. Assim, as ações propostas buscaram fortalecer o diálogo entre a instituição educacional e o território do bairro Getúlio Vargas, reconhecendo-o como locus de resistência e de memória coletiva da população negra. Nesse sentido, a valorização da história e identidade da comunidade local constitui um eixo central, concretizado por meio de práticas pedagógicas emancipatórias, atividades culturais interativas e processos participativos de pesquisa-ação voltados à construção de uma educação antirracista [4].

Entre as estratégias adotadas, destaca-se o uso de metodologias de mapeamento socioterritorial e análise de dados educacionais, com foco na identificação de desigualdades no acesso, permanência e êxito escolar de estudantes negros e negras. Tais práticas, sustentadas em uma abordagem interseccional [5], permitiram compreender como fatores de raça, gênero e território se articulam na produção das vulnerabilidades sociais. O uso integrado de indicadores quantitativos e qualitativos possibilitou a construção de diagnósticos situados e o planejamento de intervenções pedagógicas contextualizadas, em consonância com as diretrizes da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) [6].

Em síntese, o projeto assume um caráter epistemologicamente comprometido com a justiça social, promovendo a visibilidade das trajetórias históricas da população negra e o reconhecimento da pluralidade cultural brasileira. Ao valorizar o território como dimensão educativa e identitária, reafirma-se o papel da escola como agente transformador e promotor de uma sociedade mais equânime e inclusiva [7,8].

 

  • Metodologia

A presente pesquisa adota uma abordagem mista, combinando métodos quantitativos e qualitativos com o objetivo de analisar o ingresso e a conclusão de estudantes no curso Técnico em Automação Industrial do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus Rio Grande, entre os anos de 2015 e 2019. O estudo possui caráter descritivo e explicativo, buscando compreender, a partir de dados empíricos e contextuais, como as desigualdades raciais se manifestam no acesso e na permanência estudantil no ensino técnico federal.

Os dados quantitativos foram obtidos por meio de registros institucionais fornecidos pelo IFRS, contendo informações referentes ao número de alunos ingressantes e formados, desagregados por grupo racial (negros/pardos e não negros). O ano de 2020 foi mantido apenas como referência de impacto do período pandêmico, não compondo o escopo principal da análise longitudinal. Os dados foram organizados em séries temporais e representados em gráficos comparativos, permitindo a observação de tendências, variações e discrepâncias ao longo dos anos.

A coleta envolve a organização dos dados conforme os seguintes eixos ilustrados:

 

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Figura 1: Fluxograma do esquema de cotas.

Fonte: Autores (2025).

 

Complementarmente, a pesquisa foi enriquecida com procedimentos qualitativos de caráter extensionista, articulados ao CRAS Zona Portuária, localizado no bairro Getúlio Vargas, território marcado pela expressiva presença da população negra. As atividades realizadas incluíram:

reuniões com lideranças comunitárias e equipe técnica do CRAS;

palestras sobre equidade racial e pertencimento;

produção de materiais educativos e audiovisuais (vídeos, folders e cartilhas).

Essas ações integradas visaram aproximar o espaço escolar do território, promovendo o protagonismo negro e fortalecendo o diálogo entre instituição e comunidade, conforme as diretrizes da Educação das Relações Étnico-Raciais [6].

O cruzamento entre os dados estatísticos e as práticas extensionistas permitiu uma análise, capaz de articular números e narrativas, revelando não apenas as lacunas quantitativas na formação de estudantes negros, mas também os condicionantes sociais, simbólicos e institucionais que as produzem. Assim, a metodologia adotada assume um viés socioeducacional e interseccional [5], reconhecendo que raça, classe e território interagem de modo complexo na estruturação das trajetórias escolares.

 

  • Desenvolvimento e discussão

Os gráficos que comparam o número de alunos ingressantes e formados no curso Técnico em Automação Industrial entre 2015 e 2019 evidenciam um padrão consistente de desigualdade racial. Observa-se que, durante todo o período analisado, o número de ingressantes negros/pardos manteve-se significativamente inferior ao de não negros, variando entre 3 e 7 estudantes por ano, enquanto o grupo de não negros oscilou entre 32 e 36.

Essa disparidade inicial indica uma sub-representação da população negra já nos processos de ingresso, o que reflete não apenas desigualdades de acesso, mas também possíveis barreiras de origem socioeconômica, educacional e simbólica. Tais padrões se alinham a diagnósticos apresentados por autores como [3] e [9], que destacam que as políticas de cotas, embora fundamentais, não têm sido suficientes para garantir plena equidade no ensino técnico e superior. A Figura 3​​ e a Figura 3​​ evidenciam isso.

Figura 2: Número de ingressantes e formados por grupo racial (2015–2020).

Fonte: Autores (2025).

 

Ao analisar as taxas de conclusão Figura 3, o cenário torna-se ainda mais preocupante. Enquanto o percentual de formatura entre estudantes negros/pardos permaneceu entre 14% e 33%, o de não negros superou 47% em todos os anos observados. Essa diferença evidencia a existência de barreiras estruturais à permanência e ao êxito escolar, incluindo fatores a serem futuramente analisados, como:

condições socioeconômicas desiguais;

ausência de redes de apoio institucional;

práticas pedagógicas pouco inclusivas;

racismo institucional e simbólico no ambiente escolar.

Figura 3: Taxa de conclusão (%) de alunos negros e não negros (2015–2019).

Fonte: Autores (2025).

 

A literatura educacional aponta que tais obstáculos não se limitam ao acesso, mas permeiam toda a trajetória estudantil [10] [7]. No contexto do IFRS – Campus Rio Grande, esses resultados sugerem a necessidade de ações afirmativas complementares, voltadas não apenas ao ingresso, mas à permanência qualificada, como monitorias específicas, políticas de acompanhamento psicopedagógico e fortalecimento de grupos de pertencimento.

Adicionalmente, ao se considerar o curso de Automação Industrial em relação aos demais cursos técnicos integrados oferecidos pela instituição, há indícios de que esse padrão possa ser estrutural e não isolado, refletindo desigualdades mais amplas no acesso à educação profissional e tecnológica.

Portanto, os dados analisados reforçam a importância de políticas educacionais intersetoriais, articulando ensino, extensão e políticas públicas de igualdade racial. A atuação junto ao CRAS Zona Portuária mostra-se estratégica nesse sentido, ao reconhecer o território como espaço educativo e promover a visibilidade e valorização das trajetórias negras na comunidade local.

 

  • Considerações finais

Os resultados obtidos confirmam que estudantes negros e pardos enfrentam muitas dificuldades em permanecer e concluir o curso técnico em Automação Industrial no IFRS – Campus Rio Grande. O presente projeto aqui apresentado surge como uma resposta a essa realidade, propondo o diálogo entre escola e comunidade. As ações culturais, educativas e principalmente a pesquisa, vêm fortalecendo a discussão sobre o papel da cultura negra na construção de uma educação mais justa e inclusiva.

O Projeto Redes Antirracistas – IFB/MIR mostra-se como um suporte de formação humana e cidadã (principalmente em uma instituição voltada para uma educação mais tecnológica) para a realização dessa pesquisa. A continuidade dessas ações é fundamental para consolidar práticas pedagógicas antirracistas e promover uma educação mais justa e plural.

É urgente que políticas institucionais ampliem o foco para além do acesso, garantindo permanência e conclusão aos estudantes negros. A educação antirracista deve se consolidar como uma prática cotidiana e transformadora, capaz de romper com as desigualdades que ainda persistem na educação técnica.

 

  • Declaração de direitos

Os autores declaram ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declaram que as imagens e textos publicados são de responsabilidade dos autores, e não possuem direitos autorais reservados a terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declaram respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou autoplágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

 

  • Referências

  • BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394/1996 para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Diário Oficial da União, Brasília, 2003.

  • SILVA, T. T. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2010.

  • GOMES, N. L. Educação, identidade negra e formação de professores. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

  • FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

  • CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 171–188, 2002.

  • BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília: MEC/SECAD, 2004.

  • HOOKS, B. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Elefante, 2019.

  • GOMES, N. L. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2021.

  • PEREIRA, A. S. Políticas de acesso e permanência no ensino técnico: desafios da equidade racial. Revista Brasileira de Educação Técnica, v. 16, n. 2, p. 55–72, 2020.

  • CANDAU, V. M. Educação Intercultural: entre o universalismo e o relativismo cultural. Educação & Sociedade, v. 33, n. 120, p. 635–650, 2012.

1

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS, Campus Rio Grande, Rio Grande, Brasil. E-mail:

2

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS, Campus Rio Grande, Rio Grande Brasil. E-mail:

3

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS, Campus Rio Grande, Rio Grande, Brasil. E-mail:


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