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ISSN: 2595-8402

Journal DOI: 10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO CURTO ORIGINAL

O papel do gestor escolar na mediação de conflitos: o caso da escola municipal Friedenreich

Guilherme Santos Gomes1

 

Como Citar:

GOMES, Guilherme Santos. O papel do gestor escolar na mediação de conflitos: o caso da Escola Municipal Friedenreich. Revista Sociedade Científica, vol.7, n. 1, p.886-891, 2024.

https://doi.org/10.61411/rsc202427117

 

DOI: 10.61411/rsc202427117

 

Área do conhecimento: Ciências Humanas

 

Sub-área: Educação

 

Palavras-chaves: ​​ Escola Municipal Friedenreich; Gestão escolar democrática; resistência escolar.

 

Publicado: 17 de fevereiro de 2024

 

Resumo

Este trabalho reflete sobre o papel da equipe de direção da Escola Municipal Friedenreich acerca da mediação entre os desejos de sua comunidade escolar e as orientações da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Buscou-se problematizar o quanto a articulação política na escola é fonte de empoderamento dos sujeitos escolares, tendo uma relação, inclusive, com a identidade desses sujeitos. Como metodologia realizou-se, num primeiro momento, uma análise bibliográfica, com o intuito de compreender como uma instituição de ensino, gerida coletivamente, resistiu à remoção no entorno do Complexo do Maracanã - RJ, no contexto da Copa do Mundo e Olimpíadas. Inaugurada em 1965, a Escola Municipal Friedenreich está localizada na Avenida Maracanã, 350, deveria ser demolida a fim de satisfazer determinações de órgãos internacionais visando a construção de equipamentos de apoio aos megaeventos. Para abordar os conceitos de memória e identidade, optou-se por realizar consultas aos fundos documentais produzidos e acumulados sobre a escola, artigos e notícias que estavam relacionados à tentativa de demolição. Levando em consideração as múltiplas relações existentes no ambiente escolar, refletimos a importância da equipe de direção em representar sua comunidade escolar frente às imposições e interesses que prejudicavam a permanência do prédio escolar em seu local de origem. .

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1. Introdução

O presente artigo é um recorte da apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso na especialização em Gestão Escolar realizado pelo autor e pretende refletir sobre o papel da equipe de direção da Escola Municipal Friedenreich acerca da mediação entre os desejos de sua comunidade escolar e as orientações da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro – SME. A escola está localizada no bairro do Maracanã, no entorno Complexo Esportivo do Estádio do Maracanã, na cidade do Rio de Janeiro-RJ.

A investigação deste trabalho se dará entre os anos de 2009 e 2013, processo em que houve tentativas de demolições do prédio escolar para a construção de quadras de esportes que atenderiam às exigências dos megaeventos esportivos – Copa do Mundo de Futebol 2014 e Olimpíadas e Paraolimpíadas de 2016. Assim, neste período a comunidade escolar, representada por responsáveis, alunos, professores e demais funcionários, se posicionou contra as propostas de transferência e demolição, alegando que não houve nenhuma consulta prévia aos sujeitos escolares, cerceando um diálogo democrático amplo acerca do futuro daquela unidade escolar. Enquanto isso, representantes do governo estadual e da prefeitura do Rio de Janeiro afirmavam que não existiam outras opções, sendo necessária a remoção da escola.

A pesquisa se justifica pela necessidade em compreender como os gestores, no papel de representantes de uma comunidade escolar, devem representá-la mediante suas insatisfações e necessidades, proporcionando uma singularidade na formação da identidade e na cultura da instituição educativa. A metodologia está respaldada na pesquisa bibliográfica com consultas a publicações acadêmicas e notícias relacionadas ao processo de demolição da E. M. Friedenreich.

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2.Discussão

Desde já, é importante salientar que o diretor escolar é antes de tudo um educador, um trabalhador da educação e, no caso do Município do Rio de Janeiro, é um professor eleito democraticamente pela comunidade escolar para um mandato, até aquela ocasião, de três anos. A escola está inserida em uma sociedade que está pautada em um sistema hierárquico e burocrático que é formado por pessoas com ideias e propostas distintas para seu meio. O conflito de poderes é inegável, tornando o processo político inevitável “[...] pois a política somente existe onde há poder em questão” [5] (p. 125).

Nesse sentido, o diretor escolar é a autoridade máxima da instituição, eleito com uma proposta de trabalho que viabilize um progresso pedagógico efetivo. Todavia, está sujeito às hierarquias estabelecidas em diversos escalões [4]. Paro [3] coloca que o diretor, muitas vezes, pode exercer um papel de autoridade, contudo, sem uma autonomia efetiva e carência de recursos para verdadeiramente aplicar suas técnicas e métodos adquiridos em sua formação como administrador escolar.

Para não se tornar uma figura meramente representativa do Estado, o gestor escolar deve construir um vínculo em que seja, de fato, um representante das aspirações surgidas em uma comunidade estabelecida democraticamente por meio de uma relação próxima entre seus membros. Estes, também necessitam defender a autonomia da direção da escola em relação às interferências descabidas em assuntos que deveriam estar no âmbito da própria instituição.

As notícias sobre a possível demolição da E. M. Friedenreich surgiram através da imprensa, sem nenhuma comunicação oficial pelos órgãos responsáveis pela unidade escolar. Em 04 de novembro de 2009, o Jornal Folha de São Paulo [1] noticiou que a escola seria demolida naquele ano. Obviamente, as informações advindas dos meios de comunicação assustaram todos da unidade escolar que não esperavam ser surpreendidos dessa maneira. A direção também não havia sido informada previamente e não sabia como proceder diante das incertezas surgidas.

Diante disso, compreendendo as inseguranças surgidas e a iminência na demolição do prédio, a diretora adjunta Sheyla Vivório concedeu uma entrevista [2] informando que é o desejo da comunidade em permanecer em seu lugar de origem, além de reafirmar a falta de um posicionamento oficial da Secretaria Municipal de Educação sobre o assunto. Esta posição de alguém que compõe a direção da escola foi de suma importância, pois deixou claro para a sociedade que todos os segmentos, inclusive os gestores, não estavam de acordo com as imposições. A publicação da reportagem mostrou que a direção daquela escola estava respaldada pelos anseios de sua comunidade, fornecendo significados à sua representatividade conquistada a partir de sua eleição.

É importante salientar que a presença da direção ao acompanhar o movimento não trouxe nenhum tipo de desconforto para os responsáveis dos alunos, de forma contrária, a entrevista concedida pela diretora ajunta sinalizou que ninguém da escola fora comunicado pela possível demolição. A aproximação da gestão com os demais sujeitos que compõem o espaço representa uma não concentração de poder e decisões naquele âmbito. O diretor precisa articular sua comunidade politicamente, fazendo-a participar de uma gestão coletiva e democrática, fornecendo respaldo às decisões tomadas, necessárias para o bom desenvolvimento da escola [3]. Assim, a intenção em concentrar poder apenas no gestor é um erro, pois é simplesmente uma falsa sensação de autonomia, já que nada vale pensar uma escola sem uma construção coletiva.

A comunidade utilizou o próprio espaço institucional como aliado, a partir de oficinas e rodas de conversa que visavam divulgar a história de sua escola e o iminente risco de demolição. É importante salientar que se não houvesse a anuência da direção para a construção destes movimentos, sua realização seria praticamente impossibilitada, já que a própria estrutura do prédio foi utilizada como apoio. A luta por uma instituição pública é coletiva, portanto, não deve ser de responsabilidade de poucos. Se a direção da escola não levasse as decisões para sua própria comunidade e deixasse que apenas instâncias burocráticas superiores definissem todos os destinos do espaço, negaria o direito de uma construção aos seus pares que lhe confiaram essa posição. “E isso só se garante pelo controle democrático da escola, já que, por todas as evidências, conclui-se que o Estado não se tem interessado pela universalização de um ensino de boa qualidade.” [3] (p. 23).”

Se a ideia de “pública” é ser de todos, é necessário que a escola também produza seus saberes que proporcionem uma singularidade na formação daquele espaço. A comunidade precisa estar inserida na produção de sua própria identidade. O lugar que inicialmente foi pensado pelo Estado como um espaço de (re)produção de sujeitos, agora adquire autonomia em seus projetos a partir de uma coletividade que não segue uma lógica estatal predefinida.

Após anos de luta, no ano de 2013 o então governador Sérgio Cabral, que hoje está condenado, recuou e desistiu de demolir a Escola Municipal Friedenreich. Já na escola, a direção permaneceu ao lado de sua comunidade e pôde presenciar de perto todas os passos do movimento, tornando-se uma figura de suma importância para o seu sucesso.

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3.Considerações finais

A experiência da Escola Municipal Friedenreich em sua luta pela permanência no Complexo do Maracanã - RJ mostra como é importante a introdução da comunidade escolar nos assuntos pertinentes ao seu espaço, não somente em temas específicos, mas em fatos que demandam grandes consequências, como a extinção ou não do espaço. O gestor escolar possui a função de garantir essa parceria, inclusive reconhecendo a participação coletiva como papel democrático e essencial nas tomadas de decisão. Infelizmente essa não é a realidade percebida em muitas escolas públicas.

 

4.Declaração de direitos

O autor declara ser detentor dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra Revista/Journal. Declara que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do autor, e não possui direitos autorais reservados a terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

 

5.Referências

  • GOMIDE, Raphael. Projeto do Maracanã para a Copa prevê destruição de escola-modelo. Folha de São Paulo, 04 nov. 2009. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0411200928.htm>. Acesso em 30 nov. 2023.

  • MEROLA, Ediane. Pais e alunos protestam contra a demolição de colégio no Maracanã. Extra Digital, 06 nov. 2009. Disponível em: <https://extra.globo.com/noticias/rio/pais-alunos-protestam-contra-demolicao-de-colegio-no-maracana-194282.html>. Acesso em: 30 nov. 2023.

  • PARO, Henrique. Gestão democrática da educação pública. 4 ed. São Paulo: Cortez, 2016.

  • SICI (Sistema Integrado de Codificação Institucional). Disponível em: <http://sici.rio.rj.gov.br/PAG/principal.aspx>. Acesso em 29 nov. 2023.

  • SOUZA, Ângelo Ricardo De. Explorando e construindo um conceito de gestão escolar democrática. Educação em Revista (UFMG. Impresso), v. 25, p. 123-140, 2009.

 

1

Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, Brasil.


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