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ISSN: 2595-8402

DOI: 10.61411/rsc79070

Publicado em 20 de dezembro de 2023

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ANO 2023

 

A FORMULAÇÃO DE UMA TEORIA GERAL DOS SIGNOS LINGUÍSTICOS E NÃO LINGUÍSTICOS NA PROTO-SEMIÓTICA DE ST. AGOSTINHO

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Rafael Ferreira Martins

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Universidad Alberto Hurtado, Santiago, Chile

[email protected]

 

RESUMO CONDENSADO

Este trabalho introduz sinteticamente o pensamento do filósofo Santo Agostinho, no que tange seus raciocínios e conclusões sobre os signos (sinais) linguísticos e não linguísticos, especialmente nas obras Da Ordem, Do Mestre e Da Doutrina Cristã. Partindo da importância da obra de Agostinho para o desenvolvimento daquilo que viria a ser a semiótica, este artigo visa apresentar uma espécie de breve Teoria Geral dos Signos agostiniana, recortada de obras mais abrangentes do filósofo e interpretada com cautela. Ao longo do trabalho, reflete-se sobre as posições de Agostinho e, concluindo, propõe-se a natureza de sua teoria dos signos (sinais).

Palavras-chave: Semiótica, Santo Agostinho, signo linguístico, signo não linguístico.

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1.INTRODUÇÃO

Segundo Kirchof [1], a semiótica só foi consolidada, enquanto campo do saber, após os trabalhos de Charles Sanders Peirce e Ferdinand Saussure, ou seja, entre o final do século XIX e início do XX, de maneira que, antes desse período, os estudos semióticos somente existiam com certa dependência dos estudos de outros campos, como a estética, a linguística, a lógica e, talvez, no caso de Santo Agostinho, da teologia.

 Todavia, Kirchof [1] acrescenta que, apesar da disciplina da semiótica ter sido fundada na contemporaneidade, inúmeros pensadores anteriores se dedicaram aos problemas semióticos, ainda que sem utilizar este termo, pois refletiram e registraram suas discussões sobre as funções, as tipologias e as relações internas e externas dos signos, apesar de o fazerem sem uma metodologia específica para a área.

 Dentre os pensadores anteriores a Peirce e Saussure, Todorov [1] enfatiza a importância dos trabalhos de Santo Agostinho na construção histórica da semiótica, pois define-o como sendo o primeiro a sistematizar uma teoria dos signos, isto ainda na antiguidade tardia. O sistema construído por Agostinho criou uma tradição na área do estudo dos signos, mantendo-se como a mais importante teoria dos sinais durante toda a Idade Média [1].

Desta maneira, apesar de questionável a possibilidade de extrair uma semiótica propriamente dita dos tratados e diálogos agostinianos, é bastante segura a busca por uma teoria geral dos signos nos textos deste filósofo, o que é de extrema importância histórica e razoável relevância para os estudos atuais em semiótica.

 Na obra Do Mestre, Agostinho desenvolve sua filosofia sobre a linguagem, aprofundando o conceito de “palavra”, porém, não concluindo suas reflexões com a “palavra”, mas, pelo contrário, classificando as palavras como um tipo de signo que, sozinho, não podem explicar todo o fenômeno da sinalização [2]. Já em Da Doutrina Cristã, o filósofo hiponense expõe os outros tipos de signo que, em conjunto com aquele das palavras, possibilita uma teorização geral sobre os signos [3].

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2.DISCUSSÃO

Em Da Ordem, Agostinho reflete sobre a linguagem como um instrumento criado pela razão para nomear a realidade [1]. Kirchof [1] explica que Agostinho argumenta a partir de uma metafísica cristã que, por sua vez, fornece uma realidade estável, segundo a qual as coisas reais podem ser fixamente nomeadas. Assim, a denominação do real é utilizada, especialmente na linguagem escrita, para veicular palavras, inclusive, para quem as lê posteriormente, pois são consideradas estáveis ao longo do tempo, por meio de seu estabelecimento correspondente a uma realidade entendida como estável [1].

Nota-se a centralidade do nomear na teoria agostiniana da linguagem em Da Ordem e, sendo tal diálogo o ponto de partida para os estudos da linguagem e, depois, dos sinais, então, presume-se um lugar de importância para a nomeação na teoria geral dos signos de Agostinho. Kirchof [1] sintetiza a questão em discussão e vai ainda mais longe, afirmando que:

o  ​​​​ núcleo  ​​​​ da  ​​​​ teoria  ​​​​ semiótica de Agostinho gravita, desde seus primeiros escritos, em torno da questão da nomeação ou denominação, sendo que o real a ser denominado é definido de modo estático, a partir de uma concepção metafísica de fundamento cristão.

Já em Do Mestre [2], Agostinho desenvolve mais a fundo o conceito de “palavra”, problematizando o entendimento anterior de que elas, ou até especificamente os nomes, possuem uma correspondência estável com a realidade, um denominado claro e fixo. Esclarece-se a relação entre as palavras e correspondências ao incluir o significado como terceira parte, o qual seria como uma ponte, a qual a semiótica contemporânea costuma chamar de sinalização.

Agostinho apresenta a impossibilidade de classificar todas as palavras como sinalizadoras iguais. Segundo ele, algumas significam objetos, denominando, outras não denominam, dependem da semântica [2]. “Cidade” denomina, mas “de” não denomina nenhum objeto, significando só quando sintaticamente relacionada a palavras que denominam [2]. ​​ Por fim, palavras que não denominam objetos nem são dependentes de semântica para significação, denominam a si mesmas, como a “palavra” [2].

Ou seja, Agostinho, em Do Mestre, desenvolve o conceito de “palavra”, criando subclassificações com base nos tipos de significação que realizam, as quais, segundo Molina e Kilian [4] são: palavras que significam coisas e palavras que significam palavras. Vale constar que, na perspectiva agostiniana, as palavras como “de”, tratadas no parágrafo anterior, são classificadas no segundo grupo, pois, apesar de não denominarem nada, podem receber um significado através da comparação com outras palavras que exercem a mesma função sintática [4].

Molina e Kilian [4] explicam que, a conclusão de Agostinho quanto a palavras como “nada”, é que sabemos que elas significam algo, sinalizam, porém, não somos capazes de explicar o que elas sinalizam exatamente. Enfim, palavras sinalizam algo, seja veiculando um significado associado a um objeto, seja remetendo a outra palavra ou até a si mesma; porém, Agostinho complementa que, além da linguagem falada ou escrita, outras ações também sinalizam, como os gestos dos surdos e as pantomimas dos atores [4]. Ou seja, para Agostinho, toda palavra é um sinal, mas nem todo sinal é uma palavra [2].

Em Da Doutrina Cristã, Agostinho aumenta a especificidade do conceito de sinal, trazendo a definição anterior (Da Ordem), porém, restringindo tal classificação àquilo que significa algo além de si mesmo [4]. Com essa retificação, nota-se o anteriormente presumido, a centralidade da denominação para Agostinho, que agora é especialmente na teoria dos sinais. Isto, pois, restringir a categoria signum aos que significam além de si, é como dizer que, na visão agostiniana Da Doutrina Cristã, nem todas as palavras são exatamente sinais, pois somente aquelas que denominam o são, logo, os nomes seriam os mais legítimos sinais, dentre os já considerados [3].

Esclarecendo a distinção nome-palavra, compreende-se melhor o argumento anterior, o que se observa na explicação de Kilian e Molina a seguir [4].

[...] há uma diferença clara entre “nome” e “palavra”. Tudo o que é um nome é uma palavra, mas não toda palavra pode ser considerada um nome, por exemplo, ex é uma palavra, mas não é um nome, dado que não podemos identificar o que essa palavra nomearia.

Seguindo a diante, Agostinho explica que ocorre sinalização – logo, há sinal – quando além dos sentidos sofrerem uma impressão, a mente produz uma ideia distinta da própria impressão [3]. Exemplifica-se através de uma pegada, pois ver uma pegada é uma impressão no sentido da visão, por outro lado, pensar que a pegada foi feita por um animal é uma produção mental distinta da própria impressão [3] e, deste modo, podemos classificar a pegada como um sinal de algum animal.

Ainda que ambas sejam sinais, há uma notável distinção entre pegadas e palavras, pois palavras, como antes visto, foram produzidas para sinalizar algo, enquanto a pegada sinaliza algo por ter sido produzida. Para trabalhar esta distinção, talvez a mais fundamental em sua teoria geral dos signos, Agostinho classifica os sinais em Naturais e Convencionais. São Naturais quando dão a conhecer, através deles mesmos, algo que está além deles, porém, não o fazem por desejo ou intenção, mas, simplesmente, porque quem os experimenta mentaliza um algo além, como é o caso da fumaça, que sem intenção faz aquele que a experimenta mentalizar o fogo [3].

Em Da Doutrina Cristã, explica-se que o objetivo de sinais intencionais sempre está na comunicação, pois “não há outra razão para significar, isto é, para dar um sinal, a não ser expor e comunicar ao espírito dos outros, o que se tinha em si próprio, ao dar o sinal” [4]. Consequentemente, esses sinais são aqueles que os seres vivos trocam entre si para se manifestar, expressar sensações e vontades através de algo que as denomine para outros seres animados [4]. Visivelmente, as palavras, os gestos, as bandeiras e todos os códigos criados pelos humanos para manifestar externamente algo interno, encontram-se nesse tipo de signum.

Agostinho chama esses signa intencionais e comunicadores de Sinais Convencionais, em detrimento dos Sinais Naturais que, como já explicitado, são aqueles que manifestam sem necessariamente comunicar e sem qualquer intenção. Essas, enfim, são as duas classificações mais gerais da teorização agostiniana sobre os sinais.

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3. CONSIDERAÇÕES

Agostinho desenvolve uma teoria geral dos signos/sinais na qual o ontológico precede o semiótico, pois defende que os signos/sinais existem simplesmente como forma de representação de uma realidade pré-existente [1] e que, inclusive, o signo tem sua própria estabilidade dependente da imutabilidade de um algo real, seja esse um objeto, uma vontade ou uma sensação.

Os signos são procedentes das coisas, na visão de Santo Agostinho, pois o caminho possível para a intelecção do mundo é, primeiramente, encontrar as coisas a serem entendidas e, posteriormente, explicá-las [1]. Assim sendo, para o filósofo em questão, todo ensinamento, reflexão e raciocínio se dá através de sinais, porém, a verdade ensinada provém das coisas representadas pelos sinais [1].

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4.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] KIRCHOF, Edgar Roberto. Teoria dos signos na idade média: a Semiótica de santo agostinho. Informação & Sociedade: estudos, v. 16, 2011.

[2] AGOSTINO, Santo. De magistro (Do mestre). Tradução de Angelo Ricci. São Paulo: Abril Cultural, 1987.

[3] AGOSTINO, Santo. De la doctrina Cristiana. In: Obras de San Agustín, Tomo XV. Tradução espanhola de Fr. Balbino Martín. Madri: Biblioteca de autores cristianos, 1957.

[4] KILIAN, Carina; MOLINA, Jorge Alberto. Observações sobre a semiótica de Santo Agostinho. Sapere aude, v. 9, n. 18, p. 425-442, 2018.

 

www.scientificsociety.net

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