ISSN: 2595-8402
DOI: 10.61411/rsc132321
Publicado em 10 de outubro de 2023
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ANO 2023
EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA: A QUESTÃO DA DEFICIÊNCIA NO OLHAR DOS PAIS INDÍGENAS DA ALDEIA DE DOURADOS-MS
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Josyele Moreira Marques1; Aguilera Souza 2
1Graduada em Pedagogia da UNIGRAN. Especialista em Educação indígena. Mestranda em Educação e Diversidade pela UFGD.
2Professor orientador. Graduado em Pedagogia. Mestre em Educação e Territorialidade- UFGD.
RESUMO
Como a criança indígena especial é vista pelo povo indígena na escola e em seu entorno? A criança indígena com necessidades especiais dificilmente é aceita pela comunidade indígena por não possuir a estrutura que se esperada pela comunidade indígena e por esta criança ser ´´amaldiçoada´´ por Deus. Apontar a necessidade de se compreender a visão da comunidade indígena de Dourados em relação à criança especial indígena, buscando compreender por que ocorre esta dificuldade de aceitação entre o povo indígena. Pesquisa bibliográfica sobre o assunto, entrevista com os pais, entrevista com o corpo escolar (professora, professora da sala de Atendimento Educacional Especializado (AEE) da Escola Municipal Francisco Meireles que é o Polo de crianças especiais indígenas, entrevista com alguns funcionários do Centrinho e uma coleta de dados e uma análise de dados em relação à quantidade de crianças indígenas especiais Guaranis e Kaiowás existentes na aldeia de Dourados. O estudo teve por base pesquisadores Bianchetti e Freire (Orgs) (1998)[2], que abordam com um olhar sobre a diferença (interação, trabalho e cidadania) e Matozzo e Bruno (2016) [6]que abordam por meio de um Mapeamento de crianças indígenas Kaiowá e guarani nascidas com deficiência nas aldeias de Dourados, MS: de 2009 a 2014.
Palavras – Chave: Educação Especial. Criança Indigena. Escola.
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ABSTRACT: How is the special indigenous child seen by the indigenous people at and around the school? The indigenous child with special needs is hardly accepted by the indigenous community because it does not have the structure expected by the indigenous community and because this child is “cursed” by God. Point out the need to understand the vision of the Dourados indigenous community in relation to the special indigenous child, seeking to understand why this difficulty of acceptance occurs among the indigenous people. Bibliographical research on the subject, interview with parents, interview with the school staff (teacher, teacher in the Specialized Educational Service (AEE) room at the Francisco Meireles Municipal School, which is the hub of special indigenous children, interviews with some Centrinho employees and also a collection of data and an analysis of data in relation to the number of special indigenous children Guaranis and Kaiowás existing in the village of Dourados. The study was based on researchers Bianchetti and Freire (Orgs) (1998)[2], who approach with a look at the difference (interaction, work and citizenship) and Matozzo and Bruno (2016) who approach through a Mapping of indigenous children Kaiowá and Guarani born with disabilities in the villages of Dourados, MS: from 2009 to 2014. O what the data presented here offered us.
Keywords: Special Education. Indigenous Child. School.
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1 INTRODUÇÃO
Este estudo teve como tema escolhido Educação Escolar Indígena com o título, “A questão da deficiência no olhar dos pais indígenas da aldeia de Dourados”, tal temática foi escolhida para ser abordada nesta pesquisa para proporcionar uma maior valorização do povo indígena, e principalmente da criança indígena especial, relatando a realidade educacional vivenciada por elas.
O estudo surgiu do seguinte questionamento de que como a criança indígena especial é vista pelo povo indígena na escola e em seu entorno? E para responder ao questionamento teve como hipótese de que a criança indígena com necessidades especiais dificilmente é aceita pela comunidade indígena por não possuir a estrutura que se esperada pela comunidade indígena e por esta criança ser “amaldiçoada” por Deus. Contudo, a criança com alguma necessidade especial acaba abandonando seus filhos por não os aceitarem, e essas crianças acabam parando no lar Santa Rita, com também ao Centrinho, ou a alternativa é continuar com a criança por causa do benefício que é cedido pelo governo.
Nesta perspectiva, a definição de reserva indígena são terras cedidas para abrigar a população indígena pelo governo federal, e especificamente na reserva indígena de Dourados, MS, estas terras são de aproximadamente 3.600 hectares e divide-se em Jaguapiru e Bororó com aproximadamente 12.000 habitantes. O objetivo geral é apontar a necessidade de se compreender a visão da comunidade indígena de Dourados em relação à criança especial indígena, buscando compreender por que ocorre esta dificuldade de aceitação entre o povo indígena.
E compreender melhor a realidade e a vivência da criança indígena especial, suas especificidades e identidade cultural e étnica, e em qual medida está criança se diferencia da criança especial não indígena. Tal tema pode possuir uma grande relevância no quesito acadêmico, pois a pesquisa relacionada à educação indígena e principalmente educação indígena especial não é muito explorada no campo científico, e através desta abordagem procura-se instigar o interesse pelo tema das crianças indígenas especiais.
Metodologicamente para iniciar este trabalho foi necessário realizar uma pesquisa bibliográfica, que foi o primeiro passo para se aprofundar no assunto, logo após foram realizadas as entrevistas com os pais que possuem algum filho com necessidades especiais, com algumas pessoas da comunidade indígena, e por fim com a direção e professora da sala de recursos da escola indígena Francisco Meireles para saber a visão de cada um deles em relação à criança especial, e por fim, foram coletados alguns dados sobre qual é a etnia em que nascem mais crianças indígenas especiais.
Pois, historicamente algumas tribos indígenas sacrificavam seus filhos por possuírem alguma deficiência, pois, essa criança não conseguira ser um futuro guerreiro, tendo ainda a crença que se a família ficar com esta criança a mesma pode acarretar uma maldição e tal atitude é praticada deste antes da colonização do Brasil.
Mesmo a aldeia de Dourados não realizando esta prática, alguns pais indígenas que possuem filhos com alguma necessidade especial acabam abandonando seus filhos por não os aceitarem, e essas crianças acabam parando no lar Santa Rita ou para o Centrinho, ou a alternativa é continuar com a criança por causa do benefício que é cedido pelo governo.
Nesta perspectiva, a pesquisa foi baseada na dissertação de Souza (2011)[14], que aborda um estudo sobre as representações sociais da deficiência e o acesso às políticas de saúde e educação em aldeias de Dourados, que abrange um material muito rico sobre a criança indígena com deficiência, será baseado também em Bianchetti e Freire (Orgs) (1998)[2], que abordam com um olhar especial sobre a diferença (interação, trabalho e cidadania) e Matozzo e Bruno (2016) que abordam o Mapeamento de crianças indígenas Kaiowá e guarani nascidas com deficiência nas aldeias de Dourados, MS: de 2009 a 2014.
O estudo contou com os tópicos: Pesquisa bibliográfica sobre o assunto, entrevista com os pais da Escola Municipal Francisco Meireles que é o Polo de crianças especiais indígenas. E com uma professora atuante da área de educação especial. O tema e o título do estudo partiram de uma observação de um caso específico de um menino com síndrome de Down que foi abandonado pelos pais por ser uma criança com dificuldades intelectuais, como também pelo fato de acreditarem que a criança é amaldiçoada, por ser portador da síndrome.
Por este motivo deu-se a necessidade de averiguar e se aprofundar nos motivos de muitas crianças indígenas especiais serem abandonadas por seus pais. Para Bianchetti e Freire (1998)[2], desde os primórdios da sociedade o homem desenvolveu certa apreensão por aquilo que é diferente, seja no período escravista, seja no período feudal ou no modo de produção capitalista, tal apreensão se deve explicitamente ao fato do diferente ser um fator que quebra o paradigma e modelo estipulado.
Neste sentido o autor cita Comênio que defende o ideal de ensinar tudo a todos, porém tal teoria era apenas um ideal e fica apenas no campo da intencionalidade. A partir das políticas neoliberais a educação deixa de ser parte do campo social e político para ingressar no mercado e funcionar a sua semelhança, fator o qual tornou a educação uma prática repetitiva e mecanizada, as pessoas com alguma deficiência, que por não conseguir acompanhar com excelência tal prática, foi excluído de possuir uma educação.
Contudo, a Constituição Federal de 1988, estabelece, ART. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988)[3].
Nesse sentido, a partir desse marco legal, é que muitas pessoas tiveram acesso à educação como um direito. E em 1989 as pessoas com deficiência intelectual conseguiram alcançar o direito a uma educação igualitária com a Lei 7.853 que define como crime obstáculos às matrículas de pessoas com deficiência em escolas pública, disciplinada por uma secretaria especial no Ministério da Educação e Cultura - MEC (BRASIL, 1989)[4].
Porém, só em 1994, o Brasil assina a Declaração de Salamanca, que atesta a eficácia da inserção de pessoas com deficiência intelectual nas escolas regulares para promover uma sociedade mais igualitária, com menos preconceito. [5]
Escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos; além disso, tais escolas provêm uma educação efetiva à maioria das crianças e aprimoram a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional (BRASIL, 1994)[5].
Souza (2011) [14]realiza um estudo sobre a criança deficiência intelectual indígena com uma abordagem social, buscou compreender como é a vivência destas crianças, levando em consideração que a aldeia de Dourados não possuiu os meios necessários para amparar socialmente estas crianças.
A autora cita o Centrinho como um dos campos de estudos que é o local para onde são encaminhadas todas as crianças indígenas com desnutrição, que faz parte do Hospital Porta da Esperança, próximo da Aldeia Jaguapiru, que abriga algumas crianças com deficiência intelectual e física que foram abandonadas pelos pais, ou não são visitadas por eles.
A pesquisa de Souza (2011)[14] busca compreender as relações, valores, atitudes e crenças das comunidades indígenas Kaiowá e Guarani acerca do fenômeno deficiência. O que leva a considerar importante situar conceitos sobre dificuldades de aprendizagem, pois, o estudo passa por esse questionamento e se considerou necessário à sua pesquisa como meio de elucidar o questionamento da base da pesquisa.
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2 CONCEITUANDO O TERMO DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
Segundo França (1996) apud Nutti (2009)[11], parece existir entre os defensores da abordagem comportamental a utilização do termo distúrbio, enquanto os construtivistas utilizam mais o termo dificuldade. O distúrbio sugere a existência de comprometimento neurológico, e a dificuldade está mais ligada a problemas de ordem psicopedagógica, social e cultural.
Muitas vezes, uma teoria contradiz a outra, ou então, uma soma-se a outra, existe ora uma ênfase no biológico, ora uma ênfase no ambiente, ou então uma ênfase no biológico e no ambiente.
De acordo com Garcia (1998)[8], a definição proposta pelo National Joint Committe on Leraning Disabilities dos Estados Unidos, dificuldade de aprendizagem é um termo geral que se refere a um grupo heterogêneo de transtornos, que se manifestam por dificuldades significativas na aquisição e uso da escuta, da fala, da leitura, escrita, raciocínio ou habilidades matemáticas.
Esses transtornos são intrínsecos ao indivíduo, supondo-se devido à disfunção do sistema nervoso central, e podem ocorrer ao longo do ciclo vital. Podem existir, junto com as dificuldades de aprendizagem, problemas nas condutas de autorregularão,
percepção social e interação social, mas não constituem, por si próprias, uma dificuldade de aprendizagem.
Ainda que as dificuldades de aprendizagem possam ocorrer concomitantemente com outras condições incapacitantes (por exemplo: a deficiência sensorial, retardamento mental, transtornos emocionais graves) ou com influências extrínsecas (tais como: as diferenças culturais, instrução inapropriada ou insuficiente), não são os resultados dessas condições ou influências. (National Joint Committe on Leraning Disabilities, 1988 apud GARCIA, 1998, p.32)[8].
Fernández (1991) apud Nutti (2009)[11] considera as dificuldades de aprendizagem como sintomas ou fraturas no processo de aprendizagem nos quais estão envolvidos, sempre, o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo.
Pain (1981,) apud Nutti (2009)[11], considera a dificuldade para aprender como um sintoma, que cumpre uma função positiva tão integrativa como o aprender. O conceito de dificuldades de aprendizagem apoia-se, basicamente, em três ideias que tem sido utilizada para definir este termo.
É essencial examiná-las do ponto de vista interativo. A primeira diz respeito ao binômio de desenvolvimentoaprendizagem [...] A segunda ideia se refere aos fatores biológicos [...] A última tem a ver com o ambiente físico e social (...). (SCHWARTZMAN, 1999, p. 243).
Compreendendo a definição de deficiência leva-se a percepção da necessidade do processo de inclusão educacional, a qual é vital para a socialização do aluno com alguma dificuldade de aprendizagem, por isso a inclusão é necessária e importante para esses alunos, e para que ela ocorra, os profissionais da educação precisam desenvolver métodos.
Este trabalho foi realizado por pesquisa bibliográfica e de campo que consistiu em algumas etapas como: Pesquisa bibliográfica, com levantamento de dados e análise de dados e de campo com entrevistas semiestruturadas. Sobre a pesquisa bibliográfica pode-se afirmar que: A revisão da literatura sobre as principais teorias que norteiam o trabalho científico.
Essa revisão é o que chamamos de levantamento bibliográfico ou revisão bibliográfica, a qual pode ser realizada em livros, periódicos, artigo de jornais, sites da Internet entre outras. (PIZZIANI et. al., 2012).
Já a pesquisa de campo, segundo Piana (2009)[12] é a busca de informação que conta com o apoio e alicerce da população, e neste caso, o pesquisador vai a campo para buscar informação pertinentes a sua temática, utilizando-se de uma intervenção direta ou indireta (entrevista).
Para este trabalho a abordagem foi à entrevista semiestruturada, pois as pessoas a serem entrevistadas possuem um vasto conhecimento e experiência com a temática e desta forma, a vivência prática dos entrevistados contribuirá para o enriquecimento e validação do projeto.
Para Manzini (1990-1991)[9], a entrevista semiestruturada consiste em um roteiro dirigido e focalizado com perguntas principais, uma estrutura semiestrutura possui uma abertura para encontrar informações mais livres, pois não está presa a um padrão estipulado.
A primeira parte será um aprofundamento bibliográfico, baseando-se na pesquisa de Souza (2011)[14] e Matozzo e Bruno (2016)[6] dentre outros, realizando um breve histórico de como era a criança indígena especial antigamente, e como eles eram tratados pelos pais, pela escola e pela comunidade e como foi o primeiro contato destas crianças com uma escola de ensino regular.
A segunda parte consiste em entrevistas semiestruturadas, com perguntas já pré-estabelecidas e alguns questionamentos que surgirem ao decorrer da entrevista, primeiramente com pais de alunos da Escola Francisco Meireles que possuem alunos/filhos com deficiência intelectual em sala e depois com a professora que possui uma relação direta com as crianças especiais e os pais.
O estudo documental com análise dos documentos, leis, programas e ações das instituições de atenção às crianças indígenas com deficiência na perspectiva dos direitos sociais, e tal pesquisa é de cunho qualitativo.
A pesquisa que se difere das demais, pois seu principal objetivo é mostrar a criança indígena no olhar da comunidade, da escola, mas principalmente dos pais, tal pesquisa busca responde o questionamento de por que de mães de crianças indígenas especiais abandonarem seu filho.
A entrevista foi realizada com os pais que possuem filhos com alguma necessidade especial, para conhecer suas dificuldades e adversidades em criar uma criança especial na sociedade atual. E por fim, foi realizada uma entrevista com a professora de Educação Especial para compreender como as crianças com deficiência intelectual vêm sendo percebida pelos estudiosos sobre a questão e que contribuições podem oferecer aos pais e professores indígenas.
Tendo realizado as entrevistas com os participantes do estudo, os quais foram mães, professores da escola polo que atende as crianças com deficiência intelectual indígenas da Reserva de Dourados, dentre as tribos Bororó e Jaguapiru, ambas localizadas entre as divisas dos municípios de Dourados e Itaporã-MS. Situando a simplicidade das cinco mães em responder os questionamentos, as quais sempre apenas respondem, não fazem comentários sobre o tema, o que poderia ser muito enriquecedor para a pesquisa. Mesmo assim, conseguiu-se o objetivo previsto.
As maiorias das famílias entrevistadas foram da etnia Kaiowá – três mães, e da etnia Terena foram duas. Destacando que se sabe ter mais famílias com crianças com deficiência intelectual e ou física nas duas aldeias, nas não se teve-se acesso aos mesmos.
Devido ao atendimento médico hospitalar, hoje se percebe com maior brevidade de tempo, se a criança é deficiente ou não, com o teste do pezinho e/ou pela assistência médica. Como foi o caso de uma das mães, Terena, que soube ser o seu filho deficiente ao nascer.
Mas a mãe Kaiowá somente soube ser a sua filha deficiente, aos dois meses, com o teste do pezinho e somente lhe foi explicado quando foi internada e lhe foi cobrado por não ter atendido em sua deficiência. E outra mãe somente ficou sabendo ser o seu filho deficiente quando esse já tinha dois anos de idade.
Para Falkenbach et al., (2008)[7], nem sempre o saber que o filho/a é deficiente é bem aceito pelos pais, os quais muitas vezes idealizam muitas expectativas com o seu ente querido, a não aceitação da deficiência pode ser um meio de se proteger e de continuar a busca por uma solução que não esteja em si e/ou na criança. Sobre qual foi a reação da mãe quando soube ser o seu filho/a deficiente físico ou intelectual, percebe-se a dor nas falas das mães: “não sabia o que fazer”, “eu não entendi”, “o médico ficou me explicando muito e eu chorei”, “eu já tinha percebido que tinha algo de diferente”, “me foi explicado que era diferente, e por isso aceitei”.
Entretanto, quando perguntado sobre a reação dos parentes em relação à deficiência da sua criança: foram diversas, até mesmo relacionadas à possibilidade da “maldição dos deuses” sobre a criança e na família, mas que foi depois comentado pela assistente social e médico, não existir isso. Tiveram familiares que reclamaram muito, porque deixou isso acontecer.
E nesse espaço, se questiona: Como assim acontecer. Como se fosse algo possível de ser previsto, evitado? Outros familiares tentaram ajudar, confortar, oferecendo algum tipo de apoio. No que foi muito reconfortante. Principalmente por serem muitas as pessoas que ajudaram.
Porém, os desafios que tanto a criança como a família tiveram que enfrentar foi comentado por todas as mães, como de ter a sua filha somente autorizada pela diretora da escola a ser matriculada após os sete anos, dizendo que ela era muito pequena.
O que não é justificável, por ser lei que a criança deve receber educação escolar tanto na faixa etária da educação infantil, e depois ser alfabetizada com idade a partir dos seis anos.
Não tendo nenhuma informação ao fato de ser pequena, há crianças com estatura menor e nem por isso deixa de frequentar a escola. Outra criança somente foi matriculada na escola após os oito anos, e devido à intervenção da assistente social, que em visita domiciliar percebeu a presença dela, pois, é comum se esconder a pessoa com algum tipo de deficiência das visitas. E indagou sobre a sua escolaridade e diante da negativa, orientou e fiscalizou a sua matrícula escolar.
Porém, o desafio da criança com deficiência física ou intelectual não se refere ao entrar com idade inferior aos sete anos e sim da questão da aceitação da mesma pela escola e demais pessoas da comunidade escolar, foi o que aconteceu com a criança Kaiowá, em que foi a escola que precisou de mudanças em sua estrutura física para favorecer a acessibilidade dela.
Além de terem que ser entendidas em sua diferença pelas demais crianças, as quais por não terem vivência fora da aldeia em muitos casos, não conseguem entender do porquê de o coleguinha/o usar uma cadeira de rodas, ter o seu corpo, seu rosto diferente, não ser igual aos demais indivíduos de convívio contínuo.
Essa dificuldade também foi percebida pelos pais, por terem que se adequarem a essa nova realidade, o de saber como agir com o seu filho diferente, e principalmente em não olhar para o olhar diferente dirigido tanto a eles como para a sua criança.
Mas como pais dedicados ao filho/a, o seu maior desafio é de permitir que o outro o ajude, ou seja, na escola, por exemplo: em deixar que outra pessoa de comida, que limpe a sua criança, do medo de alguém machucá-la, de judiar mesmo.
De não conseguir fazer que coma a comida, pois precisa ter paciência, deixar a comida papa para alimentá-la. Enfim, tem os diferenciais que a mãe pensa que outra pessoa não saberá como agir, mesmo na escola.
A professora em questão está realizando o curso de mestrado na área de educação especial, e indicou a sua necessidade em realizar esse curso e os demais que vem fazendo na área de educação especial: observando a sua fala:
A cidade onde morava onde eu nasci é uma cidade bem pequena e eu vi a necessidade de um de um atendimento às pessoas que possui alguma necessidade especial aí eu meu marido que é que na época se formou em ciências sociais formamos a APAE da minha cidade. Junto com um casal de pastores. E quando eu cheguei aqui em Dourados, por ter experiência na área de educação especial, já me colocaram para trabalhar com este público. Nessa época estava começando ainda a serem formadas as salas de recursos e bem no começo foi bem difícil, mas com o passar do tempo foi facilitando.
Para Souza e Rodrigues (2015)[13] o Estado disponibiliza leis e fomenta o estudo, e a ciência da comunicação, vem oferecendo a informática, a indústria os meios de se acessar essa tecnologia, mas depende do ser humano fazer o seu uso adequado.
O que não significa ser apenas se colocar esses meios e a população ir fazendo o seu uso, precisa sim, de ser estimulado e se desenvolver os meios corretos para essa interação.
Outra pergunta importante apresentada para a professora em questão foi:
“Já no início da sua experiência na educação especial, qual foi o maior desafio que você encontrou?”
Bom meu maior desafio foi eu mesma porque eu estava começando, eu tinha um pouco de experiência, mas na prática de sala de recursos não, tão ligado assim com a educação especial demais, então, principalmente o meu maior desafio foi ter essa superação. Por eu ter aceitado o desafio. E como eu não tinha tanta experiência nem conhecimento. Em relação à educação especial, eu busquei me aperfeiçoar né, a buscar conhecimento pra me ajudar na prática. (PROFESSORA A).
Percebe-se a busca por superação de limites em sua formação, à formação continuada, tendo compreendido que deve partir da própria pessoa, esse interesse em querer saber mais e mais sempre.
Muito importante à colocação de Souza e Rodrigues (2015, p. 22.985)[13] “É relevante que os conhecimentos sejam construídos a todo o momento, aproveitando as situações vividas e as trocas de saberes que ocorrem nas relações do ambiente escolar, pois as mudanças acontecem a todo instante”.
Enfim, valorizar o saber e se oferecer oportunidades. Pergunta muito importante foi feita para a professora: “Como fazer para integrar os pais na vida escolar do seu filho?” - Acha que para integrar o pai na vida escolar de seus filhos que, simplesmente, deve proporcionar atividades que promovam os pais, é sempre colaboração deles (PROFESSORA A).
Para Aquino (2012)[1] a cultura tradicional dos pais, sempre age fundamentando a sua formação, o que não impede a criança de posteriormente adquirir os ensinamentos de outra etnia e/ou grupo social. Como no caso da alfabetização.
A qual, quando elaborada na língua materna, tende a ser mais eficaz na forma como ela posteriormente compreende os valores da outra cultura. Sobre como lidar com a resistência dos pais dos alunos há deficiência, A professora pensa que somente com uma boa metodologia e que o professor tenha uma boa familiaridade com a sua execução, conseguira motivar os seus alunos, assim como no uso de diversos recursos audiovisuais, como cita abaixo:
“São os vídeos né! Que mostram a superação das pessoas que mesmo com necessidades especiais conseguiram se for esse formato é uma família e seguir uma carreira”. (PROFESSORA A)
No item: Como trabalhar com os professores e alunos quando não há uma aceitação da criança especial, a professora destacou ser mais fácil de trabalhar, explicar para a criança:
[...] porque você pode fazer dinâmicas algumas atividades que os ajudem a compreender né, mas essa dessa deficiência entendeu e aceitar assim a coleguinha. Já com professores é um pouquinho mais difícil, mas eu acho que com trabalho e o decorrer do tempo que acontece a associação (PROFESSORA A).
Em relação à atuação da atuação dos órgãos públicos no suporte à educação especial, para a professora, demora um pouco a chegar os materiais e cursos de formação, devido principalmente às necessidades de licitações, que devem ocorrer para a compra dos mesmos, não acontece no início do ano letivo de todo o material já estar na escola, mesmo porque, nem sempre já se sabe qual será o aluno na sala de recursos que se irá atender.
E já incluindo no questionamento anterior sobre a questão de idade que a criança com deficiência física ou intelectual deve ser matriculada, a entrevista realizou a seguinte pergunta: “Os alunos com deficiência devem ser matriculados de acordo com a faixa etária ou com desenvolvimento intelectual?”
Professora A:
Creio que de acordo com a idade porque se você coloca uma pessoa que já tem uma idade avançada junto com crianças menor, eu creio que vai deixar essa criança com comportamento mais infantilizado. Ela tem a mesma mentalidade que essa criança menor e, colocando-a num numa sala com crianças da idade dela [...] vai se envolver bem melhor. No caso da atividade teria que ser adaptadas. Né!
Como destacado em estudo apresentado por Bruno e Soares (2014)[6], na mesma comunidade indígena, somente com o tempo, com as adequações que se percebe serem necessárias é que as mudanças ocorrem. Não tem como agir se não se sabe o que deve ser feito especificamente. Mas tudo é valido para o professor que está em busca constante para melhorar a qualidade do ensino para o seu aluno.
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3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Verifica-se que as crenças, os limites sociais e culturais ainda impedem das crianças e pais de crianças indígenas e não indígenas de buscarem atendimento eficaz para seus filhos. Mas em relação ao meio social indígena, essa dificuldade é ainda maior, pois mesmo tendo assistência social, educacional e médica, ainda é relativamente falha ou não atende ao conjunto do contexto da Reserva Indígena Francisco Meireles, uma vez, que a sua população já ultrapassa doze mil habitantes.
As moradias da população são distribuídas ao longo das terras na aldeia, falta conhecimento, maior atenção dos meios púbicos, dado o grande número de pessoas. Além de se perceber a complexidade da questão – de um lado, os valores da cultura e do outro, a cultura do povo não índio que está tentando levar a saúde e atendimento educacional especializado.
Tendo também a questão da dificuldade em obter informações, como do fato de não se obter os dados sobre o total de crianças com deficiência física ou intelectual na Reserva, devido em parte, do próprio preconceito da população local, nas suas crenças e do hábito de esconder a criança das visitas, como foi constatado em uma das entrevistas realizadas.
Sobre a temática da resistência dos pais em dialogarem sobre a deficiência dos filhos com algum tipo de deficiência física ou intelectual, percebe-se que nem mesmo deve ser essa a questão e sim, as crenças, a falta de conhecimento e ou orientação adequada que se deve tentar trabalhar com esses pais.
Foram algumas das conclusões obtidas, indicando a importância de se buscar novos saberes sobre o tema, e se destacando os avanços já obtidos pelos pesquisadores até a presente data, e da necessidade de se continuar nesse caminho de buscas e novos conhecimentos.
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4 REFERÊNCIAS
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