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Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025
ARTIGO ORIGINAL
O Apkallu da Gulbenkian e seus pares: Uma análise das discrepâncias entre os baixos-relevos do Palácio de Nimrud
Jader Reis Monteiro1
Como Citar:
MONTEIRO, Jader Reis. O Apkallu da Gulbenkian e seus pares: Uma análise das discrepâncias entre os baixos-relevos do Palácio de Nimrud. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 2081-2099, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025115718
DOI: 10.61411/rsc2025115718
Área do conhecimento:
Ciências Humanas
Sub-área:
Arqueologia
Palavras-chaves: Apkallu; Baixo-Relevo Assírio; Palácio de Nimrud; Arte Neo-assíria; Fundação Calouste Gulbenkian.
Publicado: 29 de outubro de 2025
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Resumo
Escavado no Palácio Noroeste de Nimrud, o acervo de baixos-relevos do rei Ashurnasirpal II é um marco da arte neo-assíria. Este artigo tem por objetivo analisar as particularidades de confecção do conjunto de relevos do cômodo H, utilizando como ponto de partida a peça em posse da Fundação Calouste Gulbenkian. A metodologia baseia-se na análise comparativa da figura do ser apotropaico Apkallu entre a peça da Gulbenkian e exemplares de outros museus (como Brooklyn e Hood), focando especificamente nas inconsistências de detalhe, como o número de pétalas das rosetas. A análise demonstrou que as discrepâncias não são restritas ao cômodo H e se estendem a painéis cruciais, como o de número B-23 proveniente da sala do trono. A conclusão corrobora a bibliografia ao indicar que as variações observadas não são intencionais, mas sim o registro material de um trabalho exaustivo realizado por diversas equipes de artesãos e da realidade prática do canteiro de obras assírio.
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The Gulbenkian Apkallu and its counterparts: An analysis of the discrepancies among the bas-reliefs of the Palace of Nimrud
Abstract
Excavated from the Northwest Palace of Nimrud, the collection of bas-reliefs commissioned by King Ashurnasirpal II is a landmark of Neo-Assyrian art, although many pieces have been widely dispersed. This article aims to analyze the specific manufacturing characteristics of the relief set from Room H, using the piece held by the Calouste Gulbenkian Foundation as its starting point. The methodology is based on a comparative analysis of the apotropaic figure, the Apkallu, between the Gulbenkian piece and examples from other museums (such as Brooklyn and Hood), focusing specifically on inconsistencies in detail, such as the number of petals on the rosettes. The analysis demonstrated that these discrepancies are not restricted to Room H but extend to crucial panels, such as number B-23 from the throne room. The conclusion corroborates existing scholarship by indicating that the observed variations are not intentional; rather, they are the material record of exhaustive work carried out by diverse teams of artisans and reflect the practical reality of the Assyrian construction site.
Keywords: Apkallu; Assyrian Bas-Relief; Palace of Nimrud; Neo-Assyrian Art; Calouste Gulbenkian Foundation.
Introdução
Escavado inicialmente por Sir Austen Henry Laylard em 1845, o Palácio Noroeste de Nimrud - cidade também conhecida como Kalhu, atualmente Mossul no norte atual Iraque - continha uma das mais fascinantes e complexas arquiteturas do médio oriente antigo e do período Neo-assírio. A escultura e decoração presente neste palácio, erguido em nome de Ashurnasirpal II (883-859 a.c), é um marco na arte assíria [3.]. Suas paredes estavam repletas de baixos-relevos com os mais variados temas, desde cenas de guerra, caça, a representações de seres mitológicos e mágicos [6.].
Dentro deste contexto, diversos painéis esculpidos em baixo-relevo - recuperados inicialmente durante a escavação por Laylard - foram retirados de contexto e contrabandeados para a Europa e América do Norte [11.]. Um desses artefatos se encontra na Fundação Calouste Gulbenkian e foi adquirido em 1920 de um intermediário chamado Paul Mallon [9.].
Este artigo tem por objetivo analisar as particularidades de confecção de um conjunto de relevos do cômodo H, pertencente ao palácio de Ashurnasirpal II. A metodologia escolhida, por sua vez, se baseia na análise comparativa dessas peças com outras figuras dos painéis do mesmo palácio, selecionadas a partir de catálogos e da disponibilidade das fontes. O ponto focal da comparação é a representação da personagem conhecida como Apkallu - termo acádico que pode ser traduzido como ‘Sábio’- que é uma figura apotropaica ou um ser sobrenatural que atrai o bem e protege do mal [3.].
Estado da Arte
A efígie em questão provém, como já referido, do Palácio Noroeste de Nimrud, onde em conjunto com outras formavam um ambiente repleto de significado mágico ritual [6.]. Estas imagens e outras semelhantes eram “repetidamente insculpidas nas paredes de palácios e edifícios oficiais” [9.].
Neste baixo-relevo e em outros similares, muitos aspectos despertam a curiosidade do observador, como a pose da personagem, seus adereços ou sua significação. Esses e outros aspectos levam à comparação com outras imagens provenientes do mesmo palácio [6.]. Assim, para compreender o significado e o contexto da peça em análise, é necessário situá-la no panorama das representações e da arquitetura assíria.
A cidade de Kalhu (Nimrud) fica na margem oeste do rio Tigre e, até o reinado de Ashurnasirpal II, era uma cidade secundária no cenário político da Assíria antiga. Durante o período deste governante, porém, se tornou a capital do reino, tendo sofrido significativas mudanças urbanas e, em seu auge, chegou a ter cerca de 380 hectares, sendo, desta forma, uma das maiores cidades de seu tempo [5.].
Figura 1: Localização de Nimrud em comparação com outras cidades da mesma época.
Fonte: Adaptado de Kertai [5.].
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Das construções realizadas por Ashurnasirpal II, destaca-se seu próprio palácio. A cidadela, que o envolvia, localizava-se na parte sudoeste da cidade. Contudo, o palácio ficava especificamente na região noroeste dessa cidadela, o que lhe confere o nome atual de Palácio Noroeste de Nimrud.
Figura 2: A localização da cidadela e do palácio noroeste em Kalhu.
Fonte: Adaptado de Kertai [5.].
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O palácio era composto por diversos cômodos e espaços. Entre estes destacam-se a sala B - também conhecida como sala do trono - e a já referida sala H, onde originalmente encontrava-se a peça que é o ponto de partida principal deste artigo, junto de outras 26 figuras semelhantes [6.].
Figura 3: Palácio Noroeste com seus espaços e cômodos numerados.
Fonte: Adaptado de Kertai [6.].
Como já mencionado, a peça encontra-se no Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, suas dimensões são 230cm x 140cm, está listada com o número de inventário 118 na base de inventariação da instituição e é composta de alabastro [9.]. Este mineral, também conhecido como mármore de Mossul, é abundante na região [11.].
Figura 4: Apkallu da Fundação Calouste Gulbenkian
Fonte: Imagem do Autor (2025).
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No baixo relevo está representada uma figura humanoide apotropaica, alada, de vestes típicas de um nobre assírio, um balde na mão esquerda e realiza um gesto de boas-vindas ou de cumprimento. [6.].
Em seu contexto original a peça encontrava-se numa sala em que somente existiam representados figuras dos gênios alados e a imagem do rei repetindo o mesmo gesto com uma taça na mão direita e segurando um arco com a mão esquerda [12.].
Figura 5: Localização do Baixo Relevo da Fundação Calouste Gulbenkian na sala H.
Fonte: Adaptado de Kertai [5.].
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O cômodo H - num contexto global da arquitetura assíria e comparativamente com a sala adjacente, G - possuía um aspecto muito mais privativo, tanto na sua disposição arquitetônica quanto nas figuras parietais que o decoravam [6.].
Para além da figura real protegida por Apkalle, a sala ainda continha representações da árvore da vida. A partir tanto da disposição arquitetônica do cômodo quanto pelas características das personagens dos relevos e seus gestos, pode-se inferir que - em conjunto com os cômodos, J, K, M e O - teria um propósito de armazém de itens pessoais do rei, como armas, tesouros, objetos de culto e cunho mágico religioso [6.].
Metodologia
Partindo destas considerações para o caso do baixo-relevo na coleção da Gulbenkian, o Apkallu em questão está retratado em seus pulsos e testa, com pulseiras e tiara contendo representações de rosetas. Estas, por sua vez, são um símbolo associado tradicionalmente à Inanna/Ishtar, dado que os espíritos protetores são geralmente representantes de deuses ou seus intercessores e são retratados com os respectivos símbolos de cada divindade.
Um exemplo disto são os Apkalle associados ao deus Ea, retratados no templo do deus Assur, que, sendo ‘metade peixes, metade humanos’, eram relacionados com a purificação utilizando as águas do Abzu, fazendo deles assim, enviados deste deus [6.].
Figura 6: Detalhe das rosetas do Apkallu da Gulbenkian.
Fonte: Imagem do Autor (2025).
Embora a associação desta figura à deusa Inanna/Ishtar e à realeza assíria seja ponto pacífico na literatura acadêmica, um detalhe específico enriquece essa conexão: o bracelete em sua mão direita ostenta uma roseta de oito pétalas. Conforme aponta Kurtik, o número 8 é um símbolo conhecido do planeta Vênus, que por sua vez representa a própria deusa, reforçando de maneira simbólica essa relação [7.].
Contudo, essa simbologia se torna complexa ao notarmos que o número de pétalas varia entre os diferentes adornos do Apkallu como pode ser visto detalhadamente na Figura 6. Tal inconsistência levanta uma questão central sobre a confecção dos relevos: essa discrepância foi intencional, carregada de algum significado ainda não compreendido, ou foi fruto de liberdade artística ou mesmo de um descuido dos artesãos envolvidos? É justamente essa questão que baseia a análise que o tópico seguinte buscará responder e cujo a metodologia utilizada para tal é apresentada a seguir.
A peça está fora de contexto, como já referido anteriormente, e, em seu conjunto original, cada figura estaria ou protegendo as costas de Ashurnasirpal II juntamente com uma figura espelhada à frente da figura do rei, ou guardando as passagens para os outros cômodos [5.]. Este tema se repetia ao longo da sala H e estaria disposto de acordo com a Figura 5, como mostrado no tópico anterior.
Dito isto, os outros exemplares restantes - provenientes do mesmo cômodo - estão espalhados ao redor do mundo, dentre coleções particulares e museus, de acordo com o autor Samuel M. Paley em King of the World: Ashur-nasir-pal II of Assyria 883–859 B.C. [10.] e o catálogo de Janusz Meuszyński: Die Rekonstruktion der Reliefdarstellungen und ihrer Anordnung im Nordwestpalast von Kalhu [8.].
Para confirmar ou desacreditar as hipóteses apresentadas, foram analisados os catálogos acima citados para identificar quais peças estão disponíveis ao público e a partir disso foram verificados nos catálogos das exibições e reservas técnicas das instituições mantenedoras listadas, quais peças estariam disponíveis para consulta online.
Feito isso, partiu-se para análise de todas as peças disponíveis para consulta digital - uma por uma - observando as características apresentadas acima no Apkallu da Gulbenkian e se estas se encontravam presentes nos outros exemplares. Chegou-se a duas peças emblemáticas no que tange à discrepância apontada, uma que apresenta o mesmo número de pétalas - no caso 8 - em todos os adornos e outra que não só não apresenta o mesmo número de pétalas, mas que também possui outras características singulares. Aqui, nomeadamente, fez-se uma escolha pelos exemplares presentes um no Museu do Brooklyn e no Museu de Arte Hood, como objetos de comparação.
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Desenvolvimento e discussão
A função da sala H, já apresentada no tópico anterior, é suposta a partir da disposição espacial arquitetônica dos cômodos, bem como de uma comparação iconográfica e dos motivos entre os diversos espaços palacianos. Portanto, é inferido uma intencionalidade e um relativo cuidado na sua realização, pois “a criação de um palácio esculpido era um acontecimento excepcional, que normalmente não ocorria mais de uma vez durante o reinado de um rei - se é que acontecia - é de se esperar que tudo no que concerne às imagens e sua elaboração tenha sido deliberado” [11.].
Não havia, no entanto, um procedimento fixo para a execução da obra. Não obstante, Reade afirma que se pode perceber que muitas pessoas estavam envolvidas neste processo e que haveria diversos níveis de responsabilidade [11.].
Tabuletas de argila da época da construção palaciana, atestam o interesse na empreitada e no seu progresso, embora sua intervenção consistisse em um papel mais indireto na construção, como por exemplo na escolha dos temas representados e na qualidade dos relevos esculpidos [11.]. Por sua vez, o desenho geral do palácio e de sua decoração ficaria a cargo de um comitê de altos oficiais sob a supervisão real, onde ao menos um deles teria experiência em ‘magia’, sabendo como garantir que as figuras mágicas a serem talhadas nas paredes fossem posicionadas de modo a oferecer o máximo efeito protetor [11.].
Neste contexto, Reade afirma que cada palácio possuía características próprias, mas a organização interna nunca era aleatória. Uma vez decidido qual seria o esquema geral da decoração interna e colocadas as placas em posição, o trabalho preliminar era realizado em diferentes áreas e tinha de ser feito com os operários divididos em várias equipes [11.].
Dito isto, passemos para a análise propriamente dita dos paineis da sala H que foram selecionados de acordo com o critério exposto na seção anterior.
O Apkallu da placa de número 55155 do Museu do Brooklyn [2.], proveniente da sala H, está adornado, em seus pulsos e testa, com rosetas que - ao contrário do exemplar português - possui o mesmo número de pétalas, 8, conforme pode ser vista na figura a seguir:
Figura 7: detalhe do Apkallu do objeto número 55155 do Museu do Brooklyn
Fonte: Adaptado de BROOKLYN MUSEUM [2.].
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Figura 8: Contexto geral do Apkallu do objeto número 55155 do Museu do Brooklyn .
Fonte: Adaptado de BROOKLYN MUSEUM [2.].
Já o Akpallu do Museu de Arte Hood, de número S.856.3.5 no catálogo da instituição, possui rosetas em sua mão direita, que está representada fazendo o sinal de benção [12.] e na tiara em sua testa. Porém, sua mão esquerda, que segura o balde com águas do Abzu [12.], não leva a pulseira com a roseta representada, como pode se ver na Figura 10.
Poderia se argumentar que a roseta da mão esquerda em questão estaria, pela imagem estar de perfil, por de trás do punho, fora da vista do observador. No entanto, isto parece improvável dado que as outras representações analisadas da mesma personagem apresentam rosetas nos dois lados do punho.
Também se pode observar que a roseta em sua testa não está circunscrita da mesma forma que tanto a outra presente nas imagens, quanto as presentes nas outras duas placas estão.
Figura 9: Apkallu que figura o objeto S.856.3.5 do Museu de Arte Hood.
Fonte: Adaptado de HOOD MUSEUM OF ART [4.].
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O motivo desta discrepância parece residir no modo de construção do palácio. Por serem diversos artesãos e escultores envolvidos na confecção e realização das esculturas, pequenos erros estavam sujeitos a ser cometidos [11.]. Onde “o procedimento parece ter sido feito de modo que, em cada área, um homem desenhava ou incisava os contornos principais no seu próprio estilo” [11.].
Esses exemplos só parecem mais ainda ir ao encontro à hipótese de Reade que diz que "a qualidade do trabalho final, mesmo às vezes dentro dos limites de uma única placa, era muito variável [...] Algumas esculturas do século VII sugerem produção em massa por técnicas mais rústicas e improvisadas, sem o uso sistemático de regras ou instruções uniformes [...]. Um fragmento do palácio de Senaqueribe até mostra uma cena que foi esculpida uma segunda vez, mais acima, porque a primeira versão tinha ficado numa posição muito baixa na parede” [11.].
Assim, no caso da sala H, parece que as discrepâncias presentes entre as figuras das placas não são intencionais e parecem ter sido fruto de um trabalho exaustivo e feito ao longo de anos por diversas equipes de artesãos. Desta forma, ao extrapolar esta conclusão e ao analisar o caráter privativo deste espaço, lança-se a hipótese de que este, por possuir tal caráter, seria mais suscetível às imperfeições encontradas nas figuras analisadas.
Portanto, para confirmar ou desacreditar esta outra hipótese adicional, deve-se realizar uma comparação breve, a fim de não fugir do escopo do presente artigo, com alguma outra peça de destaque, exposta de forma ‘pública’ - evidenciando a importância de sua localização - e na qual estaria representada a figura real acompanhada de Apkalle. Desta forma, o exemplar perfeito para essa comparação - onde estão tanto as características de destaque, importância da localização no palácio e motivos representados, supostamente em total oposição das características das figuras da sala H - seria o painel de trás do trono real na sala B, nomeadamente o painel B-23, exposto atualmente no Museu Britânico.
Deste modo, ao comparar - primeiramente figuras provindas da sala H e posteriormente estes com o relevo que se encontrava atrás do trono na sala B - dois ambientes de funções completamente distintas, objetiva-se confirmar de vez a falta de intencionalidade nas discrepâncias encontradas entre os baixos-relevos do Palácio Noroeste de Nimrud.
Figura 10: Painel B-23 que se encontra no Museu Britânico e era originário da sala do trono.
Fonte: Adaptado de BRITISH MUSEUM [1.].
Ao observar atentamente o painel, observa-se diversas discrepâncias não só em relação às figuras da sala H, mas também dentro do próprio painel. As rosetas, presentes no Apkallu da esquerda, não estão sequer presentes na personagem semelhante à direita.
Figura 11: Detalhe do painel B-23.
Fonte: Adaptado de BRITISH MUSEUM [1.].
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Este detalhe poderia ser explicado com o argumento de se tratar de duas personagens distintas. No entanto, esse argumento parece pouco provável quando se analisa outros elementos discrepantes no painel, pode-se ver claramente a diferença de confecção entre as imagens em alguns outros elementos. Nomeadamente na discrepância do número de pétalas presentes nas rosetas das próprias personagens que as possuem e entre si, ou ainda o fato de o Apkallu da esquerda parecer muito mais delgado que o que figura à direita, entre outros detalhes.
Portanto, aparentemente as discrepâncias presentes na sala H, ao invés de serem exceção, são na realidade a regra, não representando nenhuma intencionalidade na confecção de tais imagens. Esta conclusão encontra eco em Reade quando este diz que a qualidade do resultado final das obras, mesmo por vezes dentro de um mesmo painel, era muito variável [11.].
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Considerações finais
O presente corolário vai ao encontro da bibliografia analisada e de autores consagrados, ao chegar na conclusão de que as discrepâncias observadas, não só não foram intencionais como não indicam qualquer simbolismo ou significado oculto nas figuras em que ocorrem tais diferenças ou ainda nas em seus contextos palacianos.
A análise, que teve como ponto de partida a variação no número de pétalas das rosetas no Apkallu da Fundação Calouste Gulbenkian, levou a uma conclusão mais ampla sobre os processos de confecção no Palácio Noroeste de Nimrud. A comparação inicial com outros exemplares do mesmo cômodo, como os do Museu do Brooklyn e do Museu de Arte Hood, já apontava para um padrão de inconsistência que colocava em causa a hipótese de uma intencionalidade simbólica.
Não obstante, o fator decisivo para a argumentação foi a análise do painel B-23, proveniente da sala do trono, um espaço de máxima importância pública e cerimonial. As significativas discrepâncias ali encontradas demonstraram que a variabilidade não estava restrita a cômodos de menor visibilidade, como a Sala H, mas que, pelo contrário, permeava toda a obra, independentemente da função do espaço. Deste modo, o presente estudo corrobora a visão de que a confecção dos relevos de Nimrud foi uma operação complexa e descentralizada, que envolveu diversos artesãos com estilos e níveis de atenção distintos.
As variações observadas não devem, portanto, ser interpretadas como erros ou falhas, mas sim como um registro material das realidades práticas de um canteiro de obras da antiguidade. Diante do exposto, o que à primeira vista parecia uma anomalia, revela-se, ao final, uma fonte de dados crucial para a compreensão da natureza da produção artística palaciana assíria.
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Referências
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