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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

Entre a terra e o mar: continuidades e descontinuidades da gênese renascentista do patrimônio arqueológico

Jader Reis Monteiro1

 

Como Citar:

MONTEIRO, Jader Reis. Entre a terra e o mar: continuidades e descontinuidades da gênese renascentista do patrimônio arqueológico. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 1911-1919, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025112918

 

DOI: 10.61411/rsc2025112918

 

Área do conhecimento:

Ciências Humanas

Sub-área:

Arqueologia

 

Palavras-chaves: Arqueologia Subaquática; História da Arqueologia; Patrimônio Cultural Subaquático.

 

Publicado: 5 de outubro de 2025


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Abstract

This article has the goal of briefly analyzing the views on terrestrial and submerged cultural heritage since the Renaissance. It argues that while the Renaissance interest in antiquities on land gradually fostered the notion of cultural heritage, submerged artifacts remained stigmatized as “treasures,” a view that contributed to their late recognition as archaeological heritage. Taking the case of Lake Nemi as a starting point, the article demonstrates how these early incursions, although foreshadowing practices of nautical archaeology, were more closely tied to a long tradition of salvage operations with utilitarian and commercial purposes. The research highlights the fundamental dichotomy that emerged: terrestrial heritage from then on was gradually valued, eventually becoming associated with cultural identity and nation-building, whereas underwater heritage, enveloped in a mystique of rescue and adventure, was primarily valued for its pecuniary worth. It concludes that this historical disparity in perception is the fundamental reason why underwater cultural heritage took centuries longer to be formally recognized and protected in comparison to terrestrial heritage.

Keywords: Underwater Archaeology; History of Archaeology; Underwater Cultural Heritage.

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    • Introdução

O fervor pelo colecionismo durante o período renascentista não se limitou apenas à busca por objetos em terra. O crescente interesse em reunir artefatos e textos antigos também inspirou uma nova abordagem na exploração subaquática.

Um bom exemplo disto é a figura do arquitecto renascentista Leon Battista Albertti (1404 - 1472) [2.]. O humanista estava interessado nos artefactos para além das estelas funerárias e mármores contendo inscrições. Fato evidenciado em sua obra, De re aedificatoria, onde fica explícito seu grande interesse no naufrágio do Lago Nemi, a cerca de 30 quilômetros a sudeste de Roma, onde dirigiu e contratou mergulhadores Genoveses, famosos por sua perícia no ofício, numa tentativa de resgate de objetos do local [10.,8.].

A actividade de mergulho é praticada provavelmente desde tempos imemoriais, uma vez que “diferentes achados arqueológicos espalhados pelo planeta [...] testemunham um conhecimento milenar de técnicas de mergulho [...] [logo] é razoável supor que, desde a ocorrência do primeiro naufrágio, o ser humano, com o conhecimento que já dispunha, tenha tentado recuperar por meio do mergulho o que perdeu” [10.]. A evidência, direta ou indireta do resgate de cargas de navios afundados remonta à antiguidade e, tal actividade, possui diversos relatos durante este período, um dos mais detalhados é a Lex Rhodia - lei que previa recompensas aos mergulhadores de acordo com a dificuldade de execução do trabalho [4.].

 

    • Desenvolvimento e discussão

A partir da recuperação da cultura material associada e de partes do próprio naufrágio, Alberti estudou-os a fim de compreender as adversidades enfrentadas por um antigo construtor naval romano. Apesar de não ter realizado o que se propôs a fazer, uma vez que não obteve sucesso na recuperação da totalidade da embarcação localizada no fundo lacustre, a empreitada realizada no Lago Nemi “prenuncia as quatro atividades imperativas realizadas por qualquer arqueólogo náutico: (1) prospectar e encontrar embarcações naufragadas ou abandonadas; (2) escavar e mapear as embarcações e seus artefatos; (3) recuperar conservar e conservar os destroços; e (4) interpretação e publicando um estudo dos vestígios encontrados” [tradução própria]2[8.].

Dado o insucesso da primeira tentativa, passado meio século Francesco DeMarchi pessoalmente mergulhou no local em 1535 com um aparato que permitia a respiração e deixava seus braços e pernas livres para se locomover no fundo do lago [4., 9.]. Inclusive sendo referenciado por George Bass e Johan McManamon como tendo sido uma das primeiras pessoas a realizar um reconhecimento arqueológico com equipamento de mergulho [3.,8.], embora haja algumas ressalvas em chamar estas experiências renascentistas em mergulho, de arqueologia subaquática [1.].

Concomitantemente e após este feito de DeMarchi ocorreu uma intensificação das atividades subaquáticas com os avanços tecnológicos realizados a partir do Renascimento. Através da técnica do silo de mergulho desenvolvida por Frans Kessler e aperfeiçoado por Edmund Halley no século XVII e do desenvolvimento do escafandrismo no fim século XVIII [4.,10.]. Esta actividade, adquiriu o nome de que é comumente chamada: salvatagem, através de sua utilização, não somente de resgate esporádico a objectos antigos, mas principalmente na sua utilização ao longo do tempo como uma maneira de reaver a carga de navios afundados e no reaproveitamento desta quando possível [10.].

A disciplina, no entanto, não pode ser definida somente pelo interesse pelo passado, ou ainda pela actividade de escavação, ou desenterramento [7.]. Tampouco pode ser rotulada da mesma forma, a arqueologia subaquática pela atividade de mergulho e recolha de artefactos através de resgate e salvatagem. Actividades essas que, embora cruciais para o desenvolvimento da arqueologia subaquática, não consideravam o contexto ou qualquer outro fator que não o artefato em si. Todavia, a recuperação de artefactos por estes meios, ao menos parcialmente, neste período, ajudou a influenciar a formação do imaginário de muito daquilo que ainda está presente na disciplina de arqueologia.

O interesse em naufrágios, inicialmente, dos renascentistas, não se limitava apenas à busca de relíquias antigas ou à admiração estética dos vestígios romanos, mas ia além: visava compreender a engenhosidade e as conquistas tecnológicas da época romana para aplicá-las de forma prática em seu próprio tempo.

Alberti, em particular, foi um dos primeiros a reconhecer a importância de estudar as realizações arquitetônicas e urbanísticas dos romanos. Ele não apenas admirava os monumentos antigos, mas também os analisava criticamente, buscando compreender os princípios de design e engenharia por trás deles.

Levando em conta que a construção de qualquer conceito historicamente é composta por continuidades e descontinuidades que se interrelacionam, “a história de um conceito não é, de forma alguma, a de seu refinamento progressivo, de sua racionalidade continuamente crescente, de seu gradiente de abstração, mas a de seus diversos campos de constituição e de validade, a de suas regras sucessivas de uso, a dos meios teóricos múltiplos em que foi realizada e concluída sua elaboração” [6.].

Porém operacionalmente, podemos considerar que tal devir teve início e se perpetuou de certo modo ao longo da modernidade3, posto que “a influência deste período é vista em arqueologia na caracterização da natureza do material, na sua abordagem ao classificar e categorizar, em sua visão progressiva e unilinear da história e em suas próprias categorias particulares de ontologia e epistemologia” [tradução própria]4[12.].

Utilizando-se do conceito num sentido lato, a actividade de recuperação de vestígios do passado passou por um período “em que a arqueologia, como disciplina dos monumentos mudos, dos rastros inertes, dos objetos sem contexto e das coisas deixadas pelo passado, se voltava para a história e só tomava sentido pelo restabelecimento de um discurso histórico” [6.].

Posto isso, porém, a simples curiosidade pelo passado não explica porquê somente na modernidade a atividade ganhou o impulso que teve neste período, afinal, como dito anteriormente, coleções e tesouros não eram novidade à época.

Durante o Renascimento, uma era marcada pelo ressurgimento do interesse nas artes, ciências e cultura clássicas, figuras proeminentes como Leon Battista Alberti e outros intelectuais demonstraram um notável fascínio pela arqueologia. Esse interesse não era meramente antiquário; era uma busca por conhecimento que poderia ser aplicado na contemporaneidade. Esses estudiosos viam na arqueologia uma janela para entender a ciência e a técnica do passado, com a intenção de adaptar esse conhecimento para resolver desafios do seu tempo.

À medida que esse interesse se desenvolveu, surgiu uma conscientização incipiente, fraca, mas crescente e gradual sobre a importância do patrimônio cultural. A compreensão dos feitos dos romanos e sua aplicabilidade no presente começou - mesmo que apenas focada em alguns atributos estéticos - a gerar uma valorização mais ampla dos artefatos, sítios e tradições históricas. O estudo dos vestígios do passado não era mais apenas uma busca por curiosidades arqueológicas, mas sim uma forma de preservar e compreender a própria identidade cultural que ali nascia.

Assim, o interesse dos renascentistas pela arqueologia acabou por desempenhar um papel fundamental no florescimento da consciência do patrimônio cultural, mesmo que não intencionalmente. Ao reconhecer o valor intrínseco do legado deixado pelas civilizações antigas e sua aplicabilidade na sociedade contemporânea, eles lançaram as bases para a valorização, preservação e estudo sistemático do patrimônio cultural e da arqueologia como disciplinas fundamentais para entender e preservar a história da humanidade. Esse movimento intelectual estabeleceu os alicerces para as noções modernas de conservação do patrimônio cultural e da importância da arqueologia na compreensão do passado.

Entretanto, ao contrário do que ocorreu gradativamente com o patrimônio terrestre, onde, por mais que durante e após o renascimento a ideia de patrimônio cultural paulatinamente passou ser vista como algo que deveria ser preservado, o mesmo não ocorreu com os artefatos que se encontravam submersos.

Ainda que viessem a estar em pé de igualdade no conceito, ambos eram artefatos e vistos pelo seu valor pecuniário, um - o patrimônio terrestre - estava associado à ideia de obras de arte enquanto o outro - o patrimônio subaquático - estava associado aos tesouros. ​​ Isto é, enquanto os monumentos e artefatos em terra estavam cada vez mais sendo valorizados pela sua antiguidade, ainda que comercializados e retirados de seus locais originais, nos mares, lagos e rios a atividade de salvatagem florescia como uma atividade lucrativa, de recuperação de valores que estavam ali somente para serem resgatados e vendidos. Quaisquer que fosse sua origem, sejam âncoras perdidas, peças de artilharia contemporâneas aos mergulhadores que os resgatavam, estátuas e até ânforas, o interesse aqui era, na maior parte dos casos, apenas comercial [8.].

Isto se deve à longa tradição de salvatagem que se incumbia de salvar e resgatar objetos submersos das mais distintas origens [8.]. A salvatagem que não era realizada com mergulho livre, por ser um empreendimento custoso, perigoso, cujas invenções e ferramentas associadas não estavam protegidas por patentes [8.], estava envolta em mistérios e segredos guardados por engenheiros e mergulhadores. Um exemplo disso é que não se sabe a natureza completa dos aparatos de mergulho utilizados por DeMarchi e outros engenheiros renascentistas, que escolheram manter suas técnicas segredo [8.].

Desta forma, criou-se uma certa mística e mistério na divisão entre o mundo emerso e o submerso [10.], fruto da já clássica disparidade entre a terra e o mar, “sociedade dos ‘pescadores’ e sociedade ‘camponesa’, apesar de ambas estarem inseridas na pequena produção mercantil” [5.]. ​​ “O particularismo da gente do mar, seu modo de vida específico marcado por práticas sociais e culturais diferenciadas das camponesas” [5.] - ainda que essa contraposição seja entre contratantes e contratados, nobreza e plebe, e Diegues esteja se referindo a comunidades pescatórias, em última análise - faz com que os mundos e a semiótica do artefato sejam completamente diferentes.

Assim, hipoteticamente, a mesma classe de artefato, digamos, uma estátua, recuperada de um sítio arqueológico em terra e uma recuperada de um naufrágio possuem, - para além do contexto arqueológico, que nesta época era sequer considerado na forma que atualmente se entende - haveria um abismo semiótico entre os dois artefatos. Ainda que as duas viessem a ser vendidas a colecionadores renascentistas, a que foi retirada de um naufrágio seria envolta em mística e mistério, como se de outro mundo tivesse sido recuperada, como se o fundo do mar fosse um local de onde as riquezas estivessem ali para ser retiradas e recuperadas heroicamente.

 

    • Considerações finais

Ao passo que a arqueologia ‘terrestre’ se desenvolveu com a mudança de episteme ao valorizar o patrimônio como formador de identidade cultural durante o renascimento - e posteriormente na contemporaneidade - sendo um dos principais alicerces do nacionalismo, em um processo que se retroalimenta, culminando nas nefastas ideologias fascistas, o mesmo não ocorreu com a arqueologia em meio úmido. ​​ 

Dessa forma, o patrimônio cultural emerso valorizou-se e possui legislação que o protege, podendo se argumentar que remonta à leis europeias do final do século XVII [11.], como por exemplo “o Placat real de 1666, ou éditos que protegiam recursos arqueológicos e arquitetônicos [que] podem ser encontrados na Rússia, Espanha, Portugal e França." [11.]. Em contrapartida, o patrimônio cultural subaquático demoraria séculos - após a descoberta do Lago Nemi - para ser sequer entendido como patrimônio e não fetichizado como tesouro a ser resgatado das profundezas do desconhecido.

 

    • Declaração de direitos

 O autor declara ser detentor dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do autor, e não possuem direitos autorais reservados a terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara não cometer plágio ou autoplágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade do autor.

 

    • Referências

  • ALVES, Francisco J. S. O desenvolvimento da arqueologia subaquática em Portugal: uma leitura. Arqueologia & História, ISSN 972/9451-39-7, v. 54, p. 255–260, 2002.

  • ANDRÉN, Anders. Between Artifacts and Texts: Historical Archaeology in Global Perspective. New York: Plenum / Springer, ISBN-13. 978-1475794113, 1998.

  • BASS, George F. Archaeology Under Water. London: Thames and Hudson, ISBN 978-0140212198, 1969.

  • BLOT, Jean-Yves. Underwater Archaeology: Exploring the World Beneath the Sea. Harry N. Abrams, ISBN 978-0810928596, 1996.

  • DIEGUES, Antônio Carlos Sant’Ana. Pescadores, camponeses e trabalhadores do mar. São Paulo: Ática, 1998.

  • FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 7. ed. São Paulo: Forense Universitária, ISBN 978-8521803447, 2010. ​​ 

  • FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Arqueologia. São Paulo: Contexto, ISBN 978-8572442510, 2003.

  • MCMANAMON, John M. Caligula’s Barges and the Renaissance Origins of Nautical Archaeology Under Water. College Station: Texas A&M University Press, ISBN 978-1623494384, 2016.

  • MCMANAMON, John M. Neither Letters nor Swimming: The Rebirth of Swimming and Free-diving. Leiden; Boston: Brill, ISBN 978-9004446205, 2021.

  • RAMBELLI, Gilson. Arqueologia até debaixo d’água. São Paulo: Maranta, ISBN 978-8587563026, 2002.

  • REAP, James K. Introduction: Heritage legislation and management. Built Heritage 6, 9, 2022. https://doi.org/10.1186/s43238-022-00059-9

  • WALLACE, Sandra (ed.). Contradictions of Archaeological Theory: Engaging Critical Realism and Archaeological Theory. New York: Routledge, ISBN 978-0415591270, 2011.

1

Universidade NOVA de Lisboa-FCSH, Lisboa, Portugal. Email: ​​ 

2

[Alberti’s Nemi] enterprise adumbrates the four principal activities of any nautical archaeologist: (1) surveying and finding wrecked or derelict vessels; (2) excavating and mapping the vessels and their artifacts; (3) recovering and conserving the material remains; and (4) interpreting and publishing a study of the remains [8.].

3

Por modernidade entende-se, operacionalmente neste trecho em particular “o período da experiência humana no mundo ocidental que se estende desde a Renascença Italiana ao presente” [tradução própria] (THOMAS apud [12.]). “the period of human experience in the Western world stretching from the Italian Renaissance to the present” (THOMAS apud [12.]).

4

“The influence of modernity is seen in archaeology’s characterisation of the nature of the material, its approach to classification and categorisation, its progressionist and uni-linear view of history, and it’s particular brands of ontology and epistemology” [12.].

 


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