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ISSN: 2595-8402

Journal DOI: 10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO ORIGINAL

Expectativas e realidades nos relacionamentos afetivos: desafios da era contemporânea

Itamar de Oliveira Souto Junior1 ; ​​ Mariana Fernandes Ramos dos Santos2

 

Como Citar:

JUNIOR, Itamar de Oliveira; DOS SANTOS, Mariana Fernandes Ramos. Expectativas e realidades nos relacionamentos afetivos: desafios da era contemporânea. Revista Sociedade Científica, vol.7, n. 1, p.5775-5792, 2024.

https://doi.org/10.61411/rsc202491417

 

 

DOI: 10.61411/rsc202491417

 

Área do conhecimento: Psicologia.

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Palavras-chaves: Relacionamentos afetivos. Expectativas. Conexões significativas. Reflexão. 

 

Publicado: 01 de dezembro de 2024.

Resumo

A compreensão das expectativas e realidades nos relacionamentos afetivos, bem como do fenômeno do interesse pelo bônus sem o ônus, é essencial para promover relacionamentos mais saudáveis e satisfatórios. Ao reconhecer e enfrentar os desafios inerentes à construção de conexões significativas, os indivíduos podem cultivar relacionamentos mais autênticos, resilientes e gratificantes em suas vidas. Este estudo oferece uma reflexão aprofundada sobre essas questões, convidando à análise crítica e ao desenvolvimento de estratégias para melhorar a qualidade dos relacionamentos afetivos na era contemporânea. O texto explora a evolução do pensamento sobre vínculos afetivos desde a antiguidade, destacando as contribuições de filósofos e teóricos ao longo da história. Na contemporaneidade, Bauman analisa a fragilidade dos laços afetivos, caracterizando as relações modernas como "líquidas", marcadas pelo individualismo e consumismo, enquanto Illouz investiga o impacto do capitalismo nos relacionamentos, ressaltando a criação de expectativas irreais. Ambos os autores criticam a superficialidade das relações atuais, destacando a necessidade de resgatar a profundidade e a autenticidade nos vínculos afetivos. O texto também discute a relevância da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) como uma abordagem para ajudar indivíduos e casais a lidarem com as expectativas e realidades nos relacionamentos, por meio de intervenções que promovem comunicação, empatia e resolução de conflitos. Os resultados apontam a relevância da TCC como ferramenta eficaz para promover vínculos mais autênticos e satisfatórios

 

 

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Abstract

Understanding the expectations and realities in romantic relationships, as well as the phenomenon of interest in the bonus without the burden, is essential to promoting healthier and more satisfying relationships. By recognizing and addressing the challenges inherent in building meaningful connections, individuals can cultivate more authentic, resilient, and fulfilling relationships in their lives. This study offers an in-depth reflection on these issues, inviting critical analysis and the development of strategies to improve the quality of affective relationships in the contemporary era. The text explores the evolution of thinking about emotional bonds since antiquity, highlighting the contributions of philosophers and theorists throughout history. In contemporary times, Bauman analyzes the fragility of emotional bonds, characterizing modern relationships as "liquid", marked by individualism and consumerism, while Illouz investigates the impact of capitalism on relationships, highlighting the creation of unrealistic expectations. Both authors criticize the superficiality of current relationships, highlighting the need to restore depth and authenticity in emotional bonds. The text also discusses the relevance of Cognitive Behavioral Therapy (CBT) as an approach to helping individuals and couples deal with expectations and realities in relationships, through interventions that promote communication, empathy and conflict resolution. The results point to the relevance of CBT as an effective tool to promote more authentic and satisfying bonds.

Keywords: Affective relationships; Expectations; Meaningful connection; Reflection

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1.Introdução

 Os relacionamentos afetivos desempenham um papel fundamental na vida das pessoas, influenciando seu bem-estar emocional e psicológico. No entanto, muitos indivíduos enfrentam desafios ao reconciliar suas expectativas românticas com as realidades cotidianas dos relacionamentos. O fenômeno de desejar os benefícios dos relacionamentos sem os compromissos ou desafios associados frequentemente resulta em erros cognitivos, como a minimização do positivo e a catastrofização, é uma área de estudo crucial para compreender a saúde emocional e o sucesso dos relacionamentos.

Os relacionamentos afetivos são mais do que simples interações entre indivíduos; são pilares emocionais que moldam a jornada humana, influenciando profundamente seu bem-estar emocional, psicológico e até mesmo físico. A busca por conexões significativas e duradouras é inerente à natureza humana, mas o caminho para alcançar esses objetivos muitas vezes se revela cheio de desafios.

A dicotomia entre as expectativas românticas idealizadas e a realidade pragmática dos relacionamentos é um tema recorrente nas narrativas humanas. Embora muitos busquem amor, intimidade e estabilidade emocional, o processo de cultivar e manter tais conexões muitas vezes confronta os indivíduos com a necessidade de compromisso, comunicação aberta e resolução de conflitos. Esses desafios podem ser ainda mais acentuados em uma sociedade caracterizada pela instantaneidade, pela gratificação imediata e pela valorização do individualismo.

O fenômeno de desejar os benefícios dos relacionamentos sem estar disposto a enfrentar os compromissos ou os desafios associados é um reflexo da mentalidade contemporânea [6], na qual a busca pelo prazer e pela felicidade imediata muitas vezes supera a disposição para investir tempo e esforço na construção de relações sólidas e significativas. Essa tendência pode levar a uma série de erros cognitivos, como a minimização do positivo (ignorando aspectos gratificantes dos relacionamentos) e a catastrofização (exagerando os problemas ou desafios), o que, por sua vez, pode minar a saúde emocional e o sucesso dos relacionamentos a longo prazo.

Portanto, a compreensão desses fenômenos e dinâmicas é crucial não apenas para os estudiosos das ciências psicológicas, mas também para qualquer pessoa que deseje cultivar relacionamentos significativos e satisfatórios em sua vida. É dentro desse contexto que as reflexões de Zygmunt Bauman em "Amor Líquido"[6] ganham relevância, oferecendo uma lente crítica para examinar as complexidades e os desafios dos relacionamentos na era contemporânea.

Segundo Bauman “A definição romântica do amor como “até que a morte nos separe” está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas de parentesco às quais costumava servir e de onde extraia seu vigor e sua valorização. Mas o desaparecimento dessa noção significa, inevitavelmente, a facilitação dos testes pelos quais uma experiência deve passar para ser chamada de “amor”: Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados.” [6]

Ao explorar as raízes sociais, culturais e psicológicas dessas questões, Bauman nos convida a repensar nossas concepções de amor, intimidade e compromisso, e a encontrar maneiras mais autênticas e resistentes de navegar pelas águas turbulentas do amor líquido [6].

Investigar como a busca pelo bônus sem o ônus pode impedir a expressão autêntica das emoções e a construção de relações baseadas na vulnerabilidade e na intimidade emocional, é urgente e de extrema importância para o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis e duradouros. 

Acredita-se que as expectativas alimentadas por ideais românticos ou culturais podem levar as pessoas a desejarem apenas os aspectos positivos dos relacionamentos, ignorando ou minimizando os desafios. Sendo assim, pode haver maiores níveis de insatisfação, dificuldades de comunicação e evasão de conflitos, em comparação com aqueles que estão mais dispostos a enfrentar os desafios e responsabilidades inerentes aos relacionamentos. Com o desenvolvimento dessa pesquisa poderá ser proposto estratégias e intervenções psicológicas através da Terapia Cognitivo Comportamental - TCC - que possam auxiliar indivíduos e casais a reconhecerem e lidarem de forma mais construtiva com os desafios dos relacionamentos.

Este estudo tem como objetivo investigar as expectativas e realidades nos relacionamentos afetivos, explorando como o interesse pelos benefícios sem os compromissos e responsabilidades afeta a qualidade e a estabilidade dos relacionamentos, à luz do conceito de relacionamento líquido e dos erros cognitivos associados, identificar e analisar os erros cognitivos, como minimização do positivo e catastrofização, que impactam as percepções dos indivíduos sobre seus relacionamentos, investigar como esses erros cognitivos influenciam o comportamento e as decisões dentro dos relacionamentos afetivos. e compreender as consequências psicológicas e emocionais associadas ao descompasso entre expectativas e realidades nos relacionamentos.

O estudo das expectativas e realidades nos relacionamentos afetivos é crucial para promover uma compreensão mais profunda dos desafios emocionais enfrentados por indivíduos em suas vidas amorosas. A pesquisa nesta área pode fornecer insights valiosos para terapeutas, conselheiros e profissionais de saúde mental, auxiliando no desenvolvimento de intervenções eficazes para promover relacionamentos mais saudáveis e satisfatórios.

A metodologia utilizada foi uma revisão bibliográfica sistemática na base de dados da Biblioteca Virtual em Saúde pesquisando com as seguintes palavras-chaves: casamento, satisfação pessoal, divórcio, psicologia, mulheres, homens, relações interpessoais, afeto e terapia conjugal; no período de 2019 a 2024 garantindo atualidade e alinhamento com os avanços recentes da área, com os tipos de estudo – prognóstico e revisão sistemática – em português. Incluíram-se artigos que abordam diretamente o tema da pesquisa, com foco nos objetivos específicos definidos. Foram encontrados 20 artigos relacionados e 15 foram descartados por critérios específicos como: estudos muito genéricos; outros que abordam o mesmo aspecto do tema sem adicionar informações novas ou significativas; e alguns estudos focados em contextos culturais ou sociais muito diferentes do foco da revisão. E algumas obras como a de Zygmunt Bauman – Amor Líquido, que oferece uma análise profunda sobre a natureza das relações amorosas na modernidade[6]; Judith S. Beck, em Prática da Terapia Cognitiva, oferece ferramentas práticas para ajudar indivíduos a identificarem e modificarem padrões de pensamento disfuncionais que podem afetar suas relações interpessoais[10]; Robert L. Leahy, em Técnicas de Terapia Cognitiva: manual do terapeuta, explora como a terapia cognitiva pode ser aplicada para resolver conflitos e melhorar a dinâmica nas relações[15]; Patrícia Soares, em Psicologia do Casamento: Desafios e Oportunidades, analisa os desafios enfrentados pelos casais contemporâneos e sugere estratégias para superá-los[23]. Além disso, Santo Agostinho, em Confissões [1], e Tomás de Aquino, em Suma Teológica [2], abordam aspectos filosóficos e teológicos das relações humanas. Aristóteles, em Ética a Nicômaco, discute a amizade e o amor como componentes essenciais da vida ética [3]. Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, analisa as complexidades das relações entre gêneros [7]. Susan David, em Agilidade Emocional, oferece insights sobre a flexibilidade emocional e sua relevância para o desenvolvimento de relacionamentos autênticos [12]. Sigmund Freud, em O Mal-Estar na Civilização, reflete sobre as tensões nas relações humanas causadas pela sociedade [13]. Eva Illouz, em O Amor nos Tempos do Capitalismo, investiga como o capitalismo molda as expectativas e experiências amorosas [14], e Michel de Montaigne, em Ensaios, oferece uma visão introspectiva sobre o amor e a amizade [16]. Juntas, essas obras oferecem um panorama abrangente sobre a complexidade das relações afetivas, suas dinâmicas e os desafios enfrentados pelos indivíduos e casais na busca por vínculos significativos.

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2.Relações afetivas ao longo do tempo e discussão

Desde a Antiguidade, pensadores exploram como os vínculos afetivos moldam a vida individual e social, revelando as complexidades emocionais e morais que caracterizam esses relacionamentos:

Na antiguidade clássica, Platão analisa o amor em seu diálogo - O Banquete, onde introduz a ideia de eros, o desejo que impulsiona o indivíduo para além da esfera física em direção ao mundo das ideias. Segundo Platão, em O Banquete, o amor é uma força que busca a verdade e a beleza superiores, levando à realização espiritual e ao autoconhecimento - (Platão, 2013). Aristóteles, em Ética a Nicômaco, distingue tipos de amizade (ou philia) — a amizade por prazer, por interesse e a amizade virtuosa. Esta última é considerada a mais elevada, baseada no desejo do bem mútuo e no respeito à virtude do outro, servindo como base de relacionamentos afetivos verdadeiros e duradouros (Aristóteles, 2015).

Na Idade Média, Santo Agostinho, em Confissões, explora a natureza do amor em um contexto cristão, diferenciando o amor carnal do amor espiritual, e vê o amor como uma expressão do vínculo entre os seres humanos e Deus. Para Agostinho, o amor verdadeiro direciona o indivíduo ao amor divino e é central para a moralidade e a vida social (Agostinho, 1984). São Tomás de Aquino amplia essa visão, tratando o amor benevolente como um princípio moral fundamental, onde o bem do outro é buscado como fim em si mesmo. Ele relaciona o amor entre as pessoas com o conceito de caridade, que eleva os relacionamentos para além do prazer ou interesse (Aquino, 2002).

Na era do Renascimento e Iluminismo, Michel de Montaigne, em seus Ensaios, aborda a amizade e o amor com uma visão humanista, destacando a liberdade e o respeito mútuo como essenciais para a construção de vínculos genuínos. Montaigne vê a amizade como uma união espontânea de almas, em que a sinceridade e o apoio mútuo são fundamentais (Montaigne, 1972). Jean-Jacques Rousseau, em Emílio, ou Da Educação, sugere que o amor romântico está ligado ao desenvolvimento pessoal e é essencial para o autoconhecimento e a realização emocional, mas adverte contra as paixões descontroladas, que podem corromper o caráter humano (Rousseau, 2004).

Na Era Moderna, Arthur Schopenhauer, em Metafísica do Amor, vê o amor como um instinto de perpetuação da espécie, onde os interesses pessoais são subordinados ao bem da humanidade. Ele sugere que o amor romântico é uma ilusão criada pelos impulsos da espécie, ressaltando o aspecto irracional e inevitável das relações afetivas (Schopenhauer, 2005). Sigmund Freud explora o amor a partir de uma perspectiva psicanalítica, tratando o amor romântico como uma expressão dos desejos inconscientes e conflitos internos que impactam a escolha de parceiros e a dinâmica relacional (Freud, 2011).

No Existencialismo e Modernidade, Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, considera o amor como uma tentativa de "possuir" a liberdade do outro, o que cria tensões e leva ao conflito entre o desejo de liberdade individual e o de ser amado. Segundo ele, o amor traz à tona o conflito entre a liberdade e a dependência emocional, refletindo a complexidade dos relacionamentos (Sartre, 2007). Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, explora as relações afetivas, especialmente as relações de gênero, mostrando como o amor romântico pode ser uma prisão emocional, especialmente para as mulheres, que historicamente assumiram papéis de submissão afetiva. Ela propõe um amor baseado na reciprocidade e na igualdade (Beavoir, 2009).

Na contemporaneidade, Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, discute a fragilidade dos laços afetivos na modernidade, marcada pela “liquidez” das relações. Ele argumenta que o individualismo e o consumismo transformaram os relacionamentos em experiências descartáveis, em que o compromisso é frequentemente evitado, impactando a profundidade dos vínculos (Bauman, 2004). Eva Illouz, em O Amor nos Tempos do Capitalismo, investiga como o capitalismo e a cultura de consumo influenciam os relacionamentos afetivos, onde o amor é frequentemente idealizado e comercializado, levando a expectativas irreais e frustrações nos relacionamentos modernos (Illouz, 2004).

Bauman argumenta que a intensificação do individualismo e do consumismo transformou os relacionamentos afetivos em experiências descartáveis, em que o compromisso é frequentemente evitado, e a possibilidade de troca ou abandono se torna uma constante. A liquidez dos vínculos afeta diretamente a profundidade emocional, levando as pessoas a temerem o apego duradouro, que é visto como uma ameaça à liberdade individual e à constante renovação das experiências. Dessa forma, as relações tornam-se pautadas em uma superficialidade afetiva, onde o outro é valorizado enquanto fonte de prazer e realização imediata, mas raramente como alguém com quem se compartilham desafios e responsabilidades a longo prazo (Bauman, 2004). Bauman aponta que essa “liquidez” no amor contribui para que as pessoas vejam o parceiro como um meio de alcançar felicidade, prazer e realização, e esse ideal de amor romântico – muitas vezes estimulado pela mídia e pela cultura de consumo – resulta em relações onde o compromisso e a disposição para enfrentar os aspectos difíceis são negligenciados. Tal postura gera insegurança e a sensação de que a relação é insatisfatória ou insuficiente para atender aos desejos idealizados.

Eva Illouz, aponta que as idealizações criam expectativas irreais, levando a frustrações recorrentes, pois os indivíduos esperam encontrar uma “alma gêmea” ou uma relação que traga felicidade plena e sem ônus, o que raramente se concretiza na realidade. Além disso, Illouz argumenta que o capitalismo incita uma lógica de constante busca pelo “melhor”, criando uma pressão para que as relações sejam intensas e perfeitas, mas facilmente substituíveis quando apresentam qualquer sinal de desgaste. Esse modelo contribui para a cultura de consumo de pessoas, onde parceiros são tratados como “bens” emocionais que devem ser trocados quando não atendem às expectativas criadas pelo ideal de amor romântico (Illouz, 2004). Illouz, em Por Que o Amor Dói? reforça que o cenário contemporâneo intensifica as expectativas sobre o amor, influenciando diretamente os comportamentos e sentimentos dos indivíduos nas relações. Para Illouz, as promessas de satisfação plena e a exaltação da autonomia individual levam a um modelo de relacionamento onde o sofrimento se torna uma realidade comum, uma vez que as necessidades de aceitação e conexão são frustradas repetidamente. O descompasso entre expectativas e realidade, nesse sentido, gera um ciclo de expectativas não atendidas, frustração e desejo por um ideal muitas vezes inatingível, impactando negativamente o bem-estar emocional dos envolvidos.

Essas perspectivas de Bauman e Illouz convergem para um entendimento crítico das relações afetivas contemporâneas, em que a busca pelo prazer individual se sobrepõe à construção de vínculos sólidos e comprometidos. Esse cenário faz com que as relações sejam pautadas pelo medo do apego e pelo desejo de autonomia absoluta, o que leva ao distanciamento emocional e à dificuldade de estabelecer uma base de confiança e vulnerabilidade mútua. Para ambos os autores, o desafio atual está em resgatar a autenticidade e a profundidade nas relações, questionando os valores individualistas que as condicionam. É preciso, segundo essa crítica, repensar os modelos de relacionamento, promovendo uma valorização da intimidade verdadeira, da comunicação sincera e do enfrentamento conjunto dos desafios, como um caminho para relações mais significativas e menos orientadas pela superficialidade do consumo emocional.

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2.1O bônus e os relacionamentos saudáveis

O desejo de apenas aproveitar os aspectos agradáveis e recompensadores de um relacionamento sem assumir responsabilidades ou enfrentar desafios, pode comprometer profundamente a autenticidade emocional e impedir o desenvolvimento de relações verdadeiramente íntimas e duradouras. Esse fenômeno está ligado a fatores como o medo de vulnerabilidade, a evitação de conflitos e uma valorização superficial dos relacionamentos, todos elementos que fragilizam o vínculo e dificultam a criação de uma conexão genuína entre os parceiros.

Ao evitar o ônus dos relacionamentos — conflitos, diferenças e momentos difíceis — as pessoas podem cultivar um vínculo baseado apenas em aspectos agradáveis, como prazeres imediatos ou conveniências. Isso leva a um ambiente onde as emoções são constantemente filtradas, e as pessoas evitam compartilhar pensamentos ou sentimentos que possam provocar inseguranças ou discussões. No longo prazo, essa superficialidade emocional inibe a construção de uma base de confiança mútua e torna o relacionamento vulnerável a rupturas diante de crises.

A expressão autêntica das emoções requer vulnerabilidade e confiança, componentes que só se desenvolvem quando há disposição para enfrentar dificuldades ao lado do outro. O conceito de vulnerabilidade, descrito por autores como Brené Brown, envolve o ato de se abrir ao outro e de confiar que os sentimentos, medos e inseguranças serão acolhidos sem julgamento. No entanto, a busca apenas pelo "bônus" do relacionamento minimiza essa entrega já que a intimidade emocional não é percebida como uma necessidade; ao contrário, ela é evitada, pois expõe partes da personalidade e dos sentimentos que podem ser incômodos ou gerar desconforto.

Relacionamentos saudáveis exigem comunicação aberta e disposição para resolver conflitos. Muitas vezes as pessoas evitam discussões e preferem contornar ou ignorar problemas, o que cria barreiras na comunicação. Essa postura evita o enfrentamento necessário para que o casal compreenda as perspectivas um do outro e construa soluções em conjunto. A ausência dessa interação pode resultar em mágoas acumuladas e em uma desconexão emocional, pois os problemas subjacentes não são tratados e minam a confiança e o respeito mútuo.

As idealizações romantizadas e culturais impulsionam a busca pelo prazer sem as dificuldades, levando a erros cognitivos, como a minimização dos aspectos positivos das relações e a catastrofização dos aspectos negativos. Isso leva à frustração e à insatisfação, pois não há disposição para aceitar que relacionamentos reais envolvem fricções e que essas fricções podem ser transformadas em oportunidades de crescimento, além de promover um comprometimento “condicional”, onde os parceiros permanecem no relacionamento enquanto ele for fonte de gratificação. Quando o relacionamento exige sacrifício ou dedicação, há uma tendência de abandono, resultando em vínculos frágeis. Esse comprometimento parcial prejudica a construção de uma relação sólida, que é essencial para enfrentar os desafios inerentes aos relacionamentos longos e autênticos.

Compreender as consequências psicológicas e emocionais associadas ao descompasso entre expectativas e realidades nos relacionamentos é essencial para a 

Promoção de vínculos saudáveis e satisfatórios. Este descompasso é frequentemente alimentado por ideais romantizados e expectativas culturais que influenciam como as pessoas percebem e experienciam suas relações. Esse fenômeno é amplamente investigado na psicologia e na sociologia, com estudos sugerindo que ele está associado a elevados níveis de frustração, ansiedade e insatisfação conjugal.

Segundo a psicóloga (Susan David, 2018) em Agilidade Emocional, o confronto entre expectativas e a realidade leva a uma rigidez emocional que impede o florescimento de relações autênticas e flexíveis. Quando as pessoas mantêm uma visão idealizada do que o relacionamento “deveria ser”, acabam experimentando sentimentos de frustração e decepção frequentes. Essa rigidez emocional contribui para a incapacidade de aceitar as limitações do parceiro ou da relação, comprometendo a adaptação a circunstâncias desafiadoras. Como consequência, a saúde emocional de ambos os parceiros pode ser afetada, promovendo insegurança, desmotivação e perda de interesse na relação.

Outro aspecto relevante do descompasso entre expectativas e realidade é o impacto nos padrões de comunicação entre os parceiros. Quando uma pessoa sente que suas expectativas não estão sendo atendidas, isso pode levar a comportamentos de evitação ou críticas constantes, ambos considerados prejudiciais pela psicologia das relações. Gottman e Silver (1999), conhecidos por suas pesquisas sobre o funcionamento dos relacionamentos saudáveis, argumentam que as críticas e o desprezo são dois dos “quatro cavaleiros do apocalipse” nas relações, sendo preditores significativos de divórcios e separações. A rigidez das expectativas, portanto, pode aumentar o desgaste emocional e dificultar a resolução de conflitos, pois a comunicação passa a ser um campo minado por ressentimentos.

É necessário que as pessoas se conscientizem das influências culturais e midiáticas que moldam suas idealizações sobre o amor e busquem desenvolver habilidades de comunicação e de aceitação mútua. Psicólogos e terapeutas podem auxiliar casais e indivíduos a enfrentar essas expectativas de forma mais realista, promovendo estratégias que incentivem o autoconhecimento, a empatia e a resiliência, elementos fundamentais para a construção de relacionamentos satisfatórios e duradouros.

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2.2Terapia cognitivo comportamental

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) enfatiza a importância de identificar e modificar pensamentos distorcidos, como a idealização e a minimização dos aspectos positivos do parceiro, que são comuns em pessoas com expectativas irreais sobre o amor. Esses pensamentos distorcidos, conhecidos como erros cognitivos, incluem a “catastrofização” – quando se tende a amplificar os aspectos negativos da relação – e a “distorção da realidade”, que consiste em se apegar às ideias de que o relacionamento só será bem-sucedido se cumprir todas as expectativas.

Com as contribuições de grandes autores como Aaron T. Beck, 1997, Judith S. Beck, 2013 e David D. Burns, 2000, entende-se que a perspectiva da TCC oferece uma abordagem para compreender e tratar as consequências desse descompasso. A TCC é eficaz para auxiliar indivíduos e casais a reconhecerem e lidarem de forma construtiva com os desafios dos relacionamentos com algumas estratégias e intervenções que podem ser aplicadas como:

 

Tabela 1: Sugestões de Técnicas de Intervenções em Terapia Cognitivo Comportamental

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Número

Intervenção Terapêutica

Estratégia

Intervenção

1.

Identificação de Pensamentos Disfuncionais

Incentivar os indivíduos e casais a reconhecerem e identificarem pensamentos automáticos que surgem em situações de conflito. Isso pode incluir crenças distorcidas sobre o parceiro, expectativas irreais ou críticas autoaplicadas.

Utilizar um diário de pensamentos, onde cada um registra suas emoções e pensamentos em momentos de estresse. Após isso, discutir esses pensamentos durante as sessões, desafiando sua validade e substituindo-os por pensamentos mais realistas e positivos.

 

  •  

Reestruturação Cognitiva

 

Trabalhar a reestruturação cognitiva para modificar padrões de pensamento disfuncionais que contribuem para a insatisfação nos relacionamentos.

Ensinar técnicas de reestruturação, como a identificação de erros de pensamento (catastrofização, generalização excessiva) e a formulação de respostas alternativas. Isso ajuda os casais a reinterpretar situações de forma mais equilibrada.

  •  

Comunicação Assertiva

 

Promover habilidades de comunicação assertiva para melhorar a expressão de sentimentos e necessidades sem agressão ou passividade.

 

Ensinar os casais a usarem "mensagens eu", onde expressam suas emoções e necessidades de maneira clara e respeitosa. Por exemplo, em vez de dizer "você nunca me escuta", poderia ser "eu me sinto ignorado quando não tenho sua atenção".

  •  

Resolução de Conflitos

 

Introduzir técnicas de resolução de conflitos que permitam aos casais abordarem desavenças de maneira construtiva.

 

Implementar o método de "tempo de espera", onde cada um pode se afastar por um breve período para esfriar a cabeça antes de retomar a discussão. Isso ajuda a evitar reações impulsivas e a manter o foco na resolução do problema.

  •  

Treinamento em Empatia

Aumentar a empatia entre os parceiros, ajudando-os a entender as perspectivas e sentimentos um do outro.

 

Utilizar exercícios de escuta ativa, onde um parceiro expressa seus sentimentos enquanto o outro ouve sem interromper, apenas para refletir o que ouviu. Isso promove a compreensão e diminui mal-entendidos.

  •  

Planejamento de Atividades Prazerosas

 

Incentivar os casais a planejarem e realizarem atividades que promovam conexão e prazer mútuo.

 

Criar um "calendário de relacionamento", onde os parceiros agendam atividades juntos, como jantares, passeios ou hobbies. Essa prática fortalece o vínculo emocional e aumenta a satisfação relacional.

  •  

Práticas de Mindfulness

 

Introduzir práticas de mindfulness para ajudar os casais a estarem mais presentes e conscientes em suas interações.

 

Ensinar técnicas simples de mindfulness, como a meditação da atenção plena, para que os casais possam reduzir a ansiedade e aumentar a conexão emocional durante conversas e momentos juntos.

Fonte: BECK, A.  (1997); BECK, J.  (2021)

Este conjunto de intervenções terapêuticas estruturadas demonstra um enfoque abrangente e eficaz para lidar com conflitos e promover a satisfação nos relacionamentos. Cada intervenção reflete os pilares da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que visa identificar e modificar pensamentos disfuncionais, desenvolver habilidades de comunicação e fortalecer a conexão emocional entre os parceiro, sendo técnicas de sugestões importantes de intervenção dentro desta temática.

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3. Considerações finais

Ao desenvolver uma maior consciência sobre as influências externas que moldam as expectativas dos relacionamentos afetivos e a importância do comprometimento na construção de relações significativas, os indivíduos podem promover um clima emocional mais saudável. A disposição para enfrentar dificuldades, a prática da vulnerabilidade e a comunicação aberta se mostram essenciais para o fortalecimento das conexões afetivas.

O papel da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é crucial nesse contexto, oferecendo intervenções que ajudam os indivíduos e casais a reconhecerem e lidarem de forma construtiva com os desafios dos relacionamentos.

Assim, a reflexão sobre as dinâmicas dos relacionamentos afetivos, aliada ao uso de intervenções psicológicas adequadas, pode contribuir para a promoção de vínculos mais autênticos e satisfatórios, resgatando a profundidade e a intimidade que caracterizam relações verdadeiramente significativas.

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4. Declaração de direitos

Os autores declaram ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declaram que as imagens e textos publicados são de responsabilidade dos autores, e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declaram respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

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  • SOBRINHO, Gisele Maria Rosa; HERNANDEZ, José Augusto Evangelho; FALCONE, Eliane Mary de Oliveira. Evidências de Validade do Questionário de Empatia Conjugal. Revista Avaliação Psicológica, Campinas, ano 2021, v. 20, n. 2, 15 abr. 2019. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-04712021000200012. Acesso em: 6 maio 2024.

  • SOARES, Patrícia. Psicologia do casamento: desafios e oportunidades. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2017.

  • TEIXEIRA, Ana Isabel Mendes; DUARTE, Cidália. Perdão e Satisfação Conjugal: uma revisão sistemática. Psicologia: Ciência e Profissão, [S. l.], ano 2021, v. 41, n. e200730, p. 1-18, 13 set. 2021. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2022/05/1340442/perdao-e-satisfacao-conjugal-uma-revisao-sistematica.pdf. Acesso em: 6 maio 2024.

 

 

 

 

1

UniRedentor Afya, Itaperuna, Brasil.

2

UniRedentor Afya, Itaperuna, Brasil.

 

 


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