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Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
Journal DOI: 10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO ORIGINAL
Perspectivas e desafios para o futuro da medicina como opção profissional
David Xavier Barros1
Como Citar:
BARROS, David Xavier. Perspectivas e desafios para o futuro da medicina como opção profissional. Revista Sociedade Científica, vol.7, n. 1, p.5761-5774, 2024.
https://doi.org/10.61411/rsc202491717
Área do conhecimento: Medicina.
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Palavras-chaves: Medicina; Escolha da Profissão; Estudantes de Medicina; Carreira médica.
Publicado: 29 de novembro de 2024.
Resumo
Este estudo teve por objetivo fomentar uma reflexão acerca do futuro da medicina como uma opção de carreira. Com este propósito, analisamos 118 comentários feitos por diferentes usuários da plataforma YouTube a respeito do vídeo intitulado “URGENTE: Os médicos vão virar motoristas de Uber em 10 anos?”, publicado pelo canal Investidor Sardinha / Raul Sena no dia 20 de junho de 2024. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, com uma abordagem interpretativa e exploratória. Os resultados obtidos permitiram concluir que duas linhas de argumentação sustentaram o posicionamento dos comentadores sobre a questão levantada no vídeo: 1) a prática médica no Brasil deixou de ser uma forma de alcançar um retorno financeiro mais elevado; 2) o crescimento do número de médicos nas últimas décadas não levou a uma distribuição equitativa desses profissionais, que continua sendo desigual em certas regiões do país, serviços e especialidades. A nossa contribuição para as investigações ocorre por meio da abordagem de um tema contemporâneo e relevante, examinando uma problemática complexa associada à expansão indiscriminada de instituições de ensino médico no país e suas implicações profissionais.
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Prospects and challenges for the future of medicine as a professional option
Abstract
The aim of this study was to encourage reflection on the future of medicine as a career option. To this end, we analyzed 118 comments made by different users of the YouTube platform about the video entitled “URGENT: Will doctors become Uber drivers in 10 years?”, published by the Investidor Sardinha / Raul Sena channel on June 20, 2024. The research is characterized as qualitative, with an interpretative and exploratory approach. The results showed that three lines of argument supported the commentators' position on the issue raised in the video: 1) medical practice is no longer a means of achieving a more favorable financial return; 2) the growth in the number of doctors in recent decades has not led to an equitable distribution of these professionals, which remains unequal in various regions of the country, services and specialties. Our contribution to research is by addressing a contemporary and relevant issue, examining a complex problem associated with the indiscriminate expansion of medical education institutions in the country and its professional implications.
Keywords: Medicine; Choice of profession; Medical students; Medical career.
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1. Introdução
A medicina é reconhecida como uma profissão que demanda significativos sacrifícios pessoais1; contudo, ainda assim atrai um grande número de candidatos ao curso superior2. De acordo com algumas investigações3, 4, 5,6, fatores mais frequentemente mencionados pelos estudantes que influenciaram a decisão de ingressar na medicina incluem: motivações humanitárias e a aspiração de ajudar e ser útil à comunidade, influência do ambiente familiar, identificação pessoal, sonho da infância, percepção favorável da sociedade em relação aos médicos, disponibilidade imediata de trabalho para os médicos, busca por segurança financeira e anseio por prestígio social e intelectual.
Dados do Censo da Educação Superior 20237 mostram que 96,6% das 13.052 novas vagas oferecidas para o curso de medicina na rede pública foram ocupadas; por outro lado, a rede privada registrou uma taxa de ocupação de 94,6%, considerando as 38.068 novas vagas disponibilizadas. Além disso, ao se examinar a distribuição das matrículas presenciais nos dez principais cursos de graduação, medicina posicionou-se na quarta colocação.
A taxa de conclusão do curso de medicina também foi alta, alcançando 113.948 concluintes no período 2018 - 2022, segundo dados da 14ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil8. Além disso, medicina é o curso mais caro do ensino superior privado brasileiro, com média de preço de R$ 10.156, segundo a Pesquisa de Mensalidades9 do Instituto Semesp, realizada no primeiro semestre de 2024.
O Brasil nunca vivenciou um aumento tão significativo no número de médicos quanto o que se observa neste momento. Desde a década de 1990, o país elevou consideravelmente o número de escolas médicas, que passou de 78 para 389, tornando-se a segunda maior quantidade do mundo. Com isso, o quantitativo de médicos aumentou mais de quatro vezes, passando de 131.278 para 575.930 médicos em atividade, total este registrado em janeiro deste ano10. Essa expansão, impulsionada por fatores como a criação de novas escolas médicas e o crescimento na procura por serviços de saúde, resultou em um incremento de 444.652 médicos ao longo do período analisado, representando um crescimento percentual de 339%, conforme a Demografia Médica CFM – 2024, publicada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM)11.
Com uma taxa de 2,81 médicos por mil habitantes, o Brasil supera países como Estados Unidos, Japão e China. Entretanto, apesar desse avanço considerável, o CFM expressa preocupação em relação às repercussões na formação dos profissionais e na assistência prestada à população11. Para o CFM, houve uma expansão indiscriminada de instituições de ensino médico no país sem a observância de critérios técnicos mínimos, o que compromete a qualidade da formação dos futuros médicos. Ademais, verifica-se uma concentração desses profissionais em áreas específicas, o que intensifica a situação de desigualdade na distribuição, na fixação e no acesso aos mesmos11,12, 13.
O presente artigo teve por objetivo fomentar uma reflexão acerca do futuro da medicina como uma opção de carreira. O alvo deste estudo, portanto, consistiu na análise de um caso específico. Para tal, optamos por examinar 118 comentários feitos por diferentes usuários da plataforma YouTube a respeito do vídeo intitulado “URGENTE: Os médicos vão virar motoristas de Uber em 10 anos?”, publicado pelo canal brasileiro “Investidor Sardinha” no dia 20 de junho de 2024. Com base na análise de conteúdo proposta por Laurence Bardin 14 foi possível identificar três categorias: o aumento do número de médicos no Brasil, a deterioração da qualidade da formação médica e a falta de infraestrutura de atendimento tanto para os profissionais de saúde quanto para a população. Neste artigo, trataremos da primeira.
O artigo se estrutura da seguinte forma: após esta seção introdutória, apresentamos a descrição dos procedimentos metodológicos utilizados para coletar, organizar, filtrar e analisar os comentários. Na sequência, analisamos as duas linhas de argumentação que sustentaram o posicionamento dos comentadores sobre a possibilidade de que, dentro de uma década, os médicos possam se tornar motoristas de Uber. Em seguida, tecemos as considerações finais, nas quais revisitamos o objetivo do artigo e trazemos as reflexões que surgiram a partir das análises. Concluímos com a apresentação das referências.
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2. Procedimentos Metodológicos
A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, com uma abordagem interpretativa e exploratória, tendo como foco a análise de um conjunto de comentários do YouTube relacionados a um vídeo que discute sobre a crescente inserção de médicos no mercado de trabalho. O número expressivo de comentários (2.836) registrados no vídeo até 24/10/2024 funcionou como uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que expandiu as possibilidades de identificarmos diferentes tendências nas opiniões articuladas pelos comentaristas, também exigiu que definíssemos com clareza os passos para a coleta, organização, filtragem e análise dos comentários a serem examinados. A seguir, vamos detalhar os procedimentos adotados:
1) Coleta: a princípio, foram reunidos 361 comentários elaborados por diversos usuários, abrangendo um intervalo linear que se estende desde o comentário mais recente, cujo registro de extração data de 24/10/2024, até o 285º do vídeo.
2) Organização e filtragem: os comentários foram organizados em planilhas do software Excel. Em seguida, efetuamos uma busca simples nas planilhas, empregando os termos “médico” e “médicos”. A escolha dos termos deu-se por hipotetizar que sua ocorrência sinalizaria que o comentário, potencialmente, manifestaria o posicionamento dos comentadores sobre a questão levantada no vídeo. A busca gerou como resultado 118 comentários. Nessa etapa, foram desconsiderados 243 comentários incompreensíveis, repetidos, que fugiram do tema e/ou cujas posições não foram claramente identificadas.
3) Análise: com a definição dos 118 comentários, concentramos nossa atenção no posicionamento dos comentadores sobre a possibilidade de que, dentro de uma década, os médicos possam se tornar motoristas de Uber, bem como nas duas linhas de argumentação que embasaram essas posições. A Tabela 1 apresenta essa análise.
Tabela 1 – Distribuição dos posicionamentos dos comentadores em relação à questão apresentada no vídeo, conforme as duas linhas de argumentação identificadas.
Posicionamentos | Linhas de argumentação | Quantidade de comentários |
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Favoráveis | A prática médica no Brasil deixou de ser uma forma de alcançar um retorno financeiro mais elevado | 50 (42.37%) |
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Contrários | O crescimento do número de médicos nas últimas décadas não levou a uma distribuição equitativa desses profissionais, que permanece desigual em várias regiões do país, serviços e especialidades. | 68 (57.63%) |
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Total | 118 |
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Fonte: Elaboração própria.
Dando continuidade, discutiremos na próxima seção as duas vertentes argumentativas apresentadas nos comentários analisados. Os achados são complementados por dados estatísticos relacionados à profissão médica e ao crescimento expressivo de faculdades e cursos de medicina.
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3. Desenvolvimento e discussão
Para conduzir a análise dos comentários, é pertinente contextualizarmos o vídeo ao qual eles se referem. O vídeo “URGENTE: Os médicos vão virar motoristas de Uber em 10 anos?” foi publicado pelo canal Investidor Sardinha no YouTube, tendo alcançado 260 mil visualizações em menos de quatro meses, além de registrar 2.836 comentários. Seu criador, Raul Sena, declara-se como investidor desde 2012 e tem como objetivo educar o público sobre formas mais eficazes de investir em Criptomoedas, Ações, Ouro, Fundos Imobiliários, ETFs, Reits, Stocks, ADRs e uma variedade de outros ativos. É importante ressaltar que, além de apresentar uma questão problemática (o deslocamento de boa parte dos médicos para uma nova profissão), o conteúdo do vídeo pode ser visto como depreciativo em relação à profissão de motorista de Uber, que é tão respeitável quanto a atividade médica.
Do ponto de vista estrutural, o vídeo tem duração de 15 minutos e 21 segundos e é dividido em cinco seções: (1) ainda faz sentido cursar medicina no Brasil? (2) quanto custa uma faculdade de medicina? (3) os médicos vão ganhar menos? (4) como investir para se aposentar? (5) investir ou fazer medicina?, nas quais o autor procura esclarecer os motivos que tornam a medicina uma profissão em risco, respondendo à questão proposta no título. Assim, relata que há uma probabilidade de que, na próxima década, os médicos venham a se tornar tão numerosos que será necessário que uma significativa parcela deles considere mudar de profissão devido à escassez de oportunidades.
Com base nas informações apresentadas na seção introdutória, é apropriado enfatizar que a função do médico jamais deixará de existir. Mesmo com o avanço tecnológico que vivemos hoje, este profissional continuará a tomar decisões, realizar procedimentos, atender a população e analisar a estrutura dos sistemas de saúde 2. Além disso, a medicina proporciona uma variedade de possibilidades, permitindo ao profissional não só optar por várias especialidades, mas também abrir seu próprio consultório, ocupar cargos administrativos em instituições de saúde, ser professor ou seguir uma carreira acadêmica como pesquisador.
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3.1 A prática médica no Brasil deixou de ser uma forma de alcançar um retorno financeiro mais elevado
No âmbito dos comentários codificados como "favoráveis" em relação à questão apresentada no vídeo, observamos que uma parte significativa dos comentaristas (50) argumentou que a grande abertura de cursos e vagas em medicina contribuiu para a redução da renda dos médicos no Brasil uma significativa parcela dos comentaristas argumenta que a grande abertura de cursos e vagas de medicina contribuiu para a diminuição da renda dos médicos no Brasil. O comentarista 1 declara ter exercido a função de socorrista por aproximadamente dez anos e garante que, de fato, os profissionais da medicina estão enfrentando dificuldades financeiras.
O comentarista 2 menciona que existe um número de médicos e advogados que viajam para os Estados Unidos com a justificativa de fazer turismo ou oferecer apoio a amigos, entretanto, na realidade, acabam atuando na construção civil em funções auxiliares, obtendo assim rendimentos superiores aos que ganham no Brasil. De forma análoga, o comentarista 3, que é médico, relatou que, em feriados, realiza corridas de Uber Black e obtém renda superior àquela do seu trabalho em plantão. Além disso, menciona que alguns de seus colegas deixaram a profissão para atuar como corretores de imóveis.
A comentarista 4, que se formou em medicina em 2020, declara que, desde então, tem observado um incremento na dificuldade de sua profissão a cada dia. No começo, recebia várias propostas para trabalhar em plantões nas Unidades Básicas de Saúde do interior, mas em menos de dois anos já nota uma diferença significativa. Alega também que, atualmente, as escalas de plantão estão completas e não é possível garantir um plantão fixo.
O comentarista 5 observa que a diminuição de salários já é uma realidade, enfatizando que tem recebido diversas mensagens de médicos em busca de plantões, o que o motivou a diminuir seu valor por hora; na verdade, ele chegou a reduzir em até 50% e, ainda assim, houve demanda. Por fim, o comentarista 6, que se apresentou como um médico recém-formado, afirmou que não consegue um emprego fixo na sua região, pois o mercado de trabalho está extremamente saturado.
Neste contexto, é pertinente considerar um estudo realizado pelo Instituto Semesp, denominado 4ª Pesquisa de Empregabilidade15, que revelou que o curso de medicina possui a mais alta taxa de empregabilidade do país, com 92% dos egressos atuando na área para a qual se formaram. Por seu turno, a pesquisa Demografia Médica no Brasil 2023 15 apontou que a média mensal de renda dos médicos abaixo de 30 anos de idade em 2020 foi de R$ 12.259, passando para R$ 24.871 entre 31 e 40 anos; e triplicando na faixa etária subsequente, dos 41 aos 50 anos, chegando a R$ 36.101. A maior renda média foi verificada na faixa de 51 a 60 anos, quando o valor atingiu R$ 41.253, um aumento de 3,4 vezes em relação à média da faixa inicial. Na faixa de 61 a 70 anos, a renda média foi de R$ 40.008, uma diminuição equivalente a 3%. Já nas faixas de 71 anos ou mais e acima de 80 anos, as rendas médias foram de R$ 34.332 e R$ 34.055, respectivamente, e a diminuição foi de 17%.
Os rendimentos médicos variaram entre as regiões, sendo o maior valor médio observado no Distrito Federal (R$ 37,3 mil) e o menor na Bahia (R$ 25 mil). Nas capitais, a renda média foi de R$ 32 mil, 13,3% superior à média de R$ 28,3 mil encontrada nos interiores dos estados. A disparidade de renda entre homens e mulheres foi igualmente destacada: durante o período em questão, a renda média reportada pelos homens alcançou R$ 36.421, enquanto a das mulheres foi de R$ 23.205, representando 63,7% do rendimento declarado pelos homens. Os dados apresentados na Demografia Médica no Brasil 2023 têm como fonte todas as declarações de IRPF. Assim, não se limitam apenas a salários, remunerações e honorários decorrentes da prática médica, mas abrangem o total de rendimentos informados à Receita Federal16.
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3.2 O crescimento do número de médicos nas últimas décadas não levou a uma distribuição equitativa desses profissionais, que permanece desigual em várias regiões do país, serviços e especialidades
No contexto dos comentários classificados como "contrários" (68) a respeito da questão abordada no vídeo, a desigualdade na distribuição e, por conseguinte, no acesso aos profissionais médicos foi o tema mais frequentemente abordado. O comentarista 7 indagou sobre a localização de toda essa quantidade de médicos, levando em conta que, ao buscar serviços de saúde, há uma deficiência na oferta desses profissionais. Segundo sua análise, pode ser que não exista escassez de médicos para aqueles que possuem condições financeiras para contratar um plano de saúde; contudo, a maior parte da população ainda lida diariamente com a ausência de atendimento médico. Por último, mencionou que é complexo compreender como um médico pode estar desempregado.
Um outro comentador também declarou que era extremamente desafiador entender o que estava se passando, especialmente por não ser da área médica. Na sua visão, esses profissionais são os mais bem remunerados do país (com total merecimento). O comentarista 8 afirmou que há uma grande demanda por médicos e considerou inaceitável que uma consulta custe R$ 900,00. Ele acredita que com mais médicos formados, os preços das consultas poderão se adequar melhor à realidade financeira da população brasileira. Finalmente, o comentarista 9, que também manifestou discordância em relação à ideia de que médicos poderiam se tornar motoristas de Uber, salientou que ainda há muitos lugares no Brasil, especialmente no interior, áreas rurais e subúrbios, que apresentam alta demanda por esses profissionais da saúde.
Contrariamente a certas expectativas, o acréscimo na quantidade de médicos, embora significativo, não modificou, por si só, as desigualdades na distribuição geográfica, na fixação e no acesso a esses profissionais no Brasil16. Em face do contexto em tela, é relevante destacar que além de estarem majoritariamente concentrados em grandes centros urbanos e capitais, a distribuição dos médicos nos setores público e privado da saúde se revela insatisfatória10. Há uma escassez de médicos nos pequenos municípios, nas áreas periféricas das grandes cidades e em diversos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) – incluindo a atenção primária, os prontos-socorros e os ambulatórios de especialidades.
As capitais brasileiras têm uma média de 7,03 médicos por mil habitantes, ao passo que nas localidades interioranas essa média se reduz a 1,89. Vitória, no Espírito Santo, destaca-se com a maior densidade, apresentando 18,68 médicos por mil habitantes, enquanto o interior do Amazonas conta apenas com 0,20 profissionais para cada mil pessoas, o que gera sérias dificuldades para esta e outras parcelas da população no que tange ao acesso aos serviços de saúde11. Por seu turno, “os especialistas, mais ainda do que os médicos em geral, tendem a estar menos disponíveis em serviços do SUS e fora das grandes cidades” 16.
De acordo com a Demografia Médica CFM 202316, “o motor da expansão da oferta de médicos no Brasil foi a abertura de cursos de medicina privados, em favor de grupos empresariais da educação, provocando disputas de mercado, judicialização e conflitos regulatórios”. Essa expansão, porém, não ocorreu paralelamente ao aprimoramento dos processos de avaliação da qualidade do ensino médico. A quantidade de vagas disponíveis para a Residência Médica (RM) também não tem sido adequada para acompanhar o crescimento dos novos profissionais dessa área.
Observa-se, portanto, uma estagnação na capacidade das instituições e programas de RM em admitir um maior número de médicos residentes. Ademais, a oferta continua concentrada: os estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul reúnem juntos mais de 60% das vagas disponíveis. Dentre as medidas necessárias para mudar esse quadro, estão: a diminuição do número de médicos sem perspectivas de realizar RM, a redução da concentração de vagas e da ociosidade na ocupação, assim como o aumento da remuneração e do financiamento de bolsas, sobretudo em especialidades que compõem as metas prioritárias e as políticas estratégicas do SUS16.
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4. Considerações finais
Neste artigo, procuramos fomentar uma reflexão acerca do futuro da medicina como uma opção de carreira. Constatamos que a medicina apresenta alta taxa de empregabilidade e diversas possibilidades de atuação. Assim, as chances de não estabelecer uma carreira consistente após a conclusão do curso são muito reduzidas. Um médico pode, por exemplo, atuar em hospitais e laboratórios, abrir seu próprio consultório, auxiliar os departamentos de recursos humanos ou até seguir uma carreira acadêmica em instituições públicas ou privadas.
Atualmente, o Brasil conta com um grande contingente de médicos, o que evidencia que a profissão permanece em ascensão e é essencial para a sociedade. No entanto, os resultados obtidos indicam que a desigualdade na distribuição desses profissionais entre as capitais brasileiras, regiões metropolitanas e áreas interioranas é uma realidade concreta. Sob essa ótica, é fundamental que o país revise e fortaleça políticas e programas direcionados à distribuição e permanência de médicos em regiões carentes e com menor proporção de profissionais por habitante.
Por fim, destacamos que os comentários frequentemente aludiram à deterioração da qualidade da formação médica e à falta de infraestrutura de atendimento tanto para os profissionais de saúde quanto para a população. Neste artigo, porém, não focamos nesses aspectos. Para trabalhos futuros, acreditamos que esses tópicos podem ser explorados de maneira mais aprofundada.
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5. Declaração de direitos
O autor declara ser detentor dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do autor, e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declarar respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade do autor.
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