Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
Journal DOI: 10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO ORIGINAL
Geração de 30, Raízes do Pensamento Sociológico Brasileiro: uma revisão de literatura
Edlaine Ronconi de Abreu Dias1; José Vitor Ranieri Moreira2; Jean Rodrigo Dias3 ; Jéssica Fernanda de Lima Monge Baches4; Silvana Afonso Costa5; José Mauro Palhares 6
Como Citar:
DIAS, Edlaine Ronconi de Abreu; MOREIRA, José Vitor Ranieri; DIAS, Jean Rodrigo et al. Geração de 30, Raízes do Pensamento Sociológico Brasileiro: uma revisão de literatura. Revista Sociedade Científica, vol.7, n. 1, p.4674-4699, 2024.
https://doi.org/10.61411/rsc202465617
Área do conhecimento: Ciências Humanas.
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Sub-área: Educação.
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Palavras-chaves: Brasil; Sociologia brasileira; Raízes históricas; modernismo.
Publicado: 07 de outubro de 2024.
Resumo
Este artigo analisa a importância da Geração de 30 para os primórdios da sociologia brasileira. Composta por intelectuais de diversas áreas, essa geração emergiu com críticas políticas, econômicas e culturais durante a transição do Regime Imperial, Republicano e Era Vargas. No campo antropológico/sociológico, destacam-se Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior. Este estudo é de natureza aplicada e adota uma abordagem qualitativa exploratória, utilizando o método de análise de conteúdo. Trata-se de uma revisão sistemática de literatura, adaptada ao checklist e fluxograma PRISMA. As bases de dados incluem Scielo e Google Scholar para artigos, teses e dissertações, e Google Books e bibliotecas físicas para livros, todos em português. Foram utilizados descritores como: (História do Brasil OR Antropologia do Brasil) AND Identidades AND Sociologia Brasileira AND Geração de 30 AND Gilberto Freyre AND Caio Prado Junior AND Sérgio Buarque de Holanda AND Modernismo. Exceto para livros, os registros abrangem o período de 2000 a 2023. A avaliação dos estudos considerou fatores de evidência como, H-Index, Scielo Altmetric e adaptação do Currency, Reliability, Authority, Purpose (CRAP Test) para livros, manuais e Pubmed. Além disso, foi realizada uma análise de risco de viés usando o Overview Quality Assessment Questionnaire (OQAQ). Os resultados fazem a análise-síntese de 16 registros, demonstrando que as obras desses intelectuais desafiaram conceitos raciais, culturais e eurocêntricos dominantes, num cenário de mudanças políticas intensas, pós-abolição e ascensão de interesses burgueses e militares, posicionando-os como precursores de uma sociologia autenticamente brasileira. Este artigo ilumina a relevância histórica e contemporânea das contribuições fundamentais desses autores para entender as dinâmicas sociais, culturais, políticas, econômicas e históricas do Brasil.
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1. Introdução
A Sociologia começou a se desenvolver no Brasil nas décadas de 1920 e 1930, quando estudiosos buscavam compreender as dinâmicas sociais e culturais que moldaram a formação da sociedade brasileira. Este período foi marcado por intensas transformações políticas, econômicas e sociais, incluindo a transição do regime imperial para a república e a subsequente Era Vargas.
Durante o período colonial, até o início do século XIX, o saber intelectual no Brasil era amplamente monopolizado por influências Européias limitando o desenvolvimento de uma reflexão racional e científica sobre a sociedade brasileira11. A Geração de 30, por sua vez, representou uma ruptura com essa tradição. Marcada pelo movimento modernista, explorava temas como a formação da identidade nacional, as relações étnicas e culturais, e as estruturas de poder em uma sociedade em transição.
A Geração de 30, no campo da sociologia, foi composta por figuras proeminentes como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior. Segundo Fernandes [3] "a sociologia foi recebida, no Brasil, como novidade intelectual, simultaneamente à sua criação na sociedade europeia". E foi neste contexto que estes pensadores influenciaram no desenvolvimento das ciências sociais no Brasil.
Gilberto Freyre, com sua obra seminal "Casa-Grande & Senzala", Sérgio Buarque de Holanda, com "Raízes do Brasil", e Caio Prado Junior, com "Formação do Brasil Contemporâneo", são reconhecidos por suas contribuições críticas e inovadoras 1. Eles utilizaram a antropologia, a etnografia, a literatura e a historiografia para desafiar narrativas eurocêntricas dominantes e propor uma visão única da sociedade brasileira, influenciando não apenas a academia, mas também o debate público e político. Assim sendo, o objetivo é examinar como esses três intelectuais influenciaram a construção inicial da sociologia brasileira.
Esta revisão sistêmica de literatura tem natureza aplicada, adota uma abordagem qualitativa e fins exploratórios 5 9. Segue o método PRISMA 16 para organizar sua estrutura, o método de análise conteúdo de Minayo 15 para síntese qualitativa, e as técnicas de leitura de Gil5, Lakatos; Marconi 9 e Minayo15. Ao integrar essas metodologias, este estudo busca dar luz a como Freyre, Buarque de Holanda e Prado Junior reconfiguraram conceitos essenciais para uma compreensão mais profunda da sociedade brasileiro 12.
Para tanto, as sessões deste artigo apresentam, seu detalhamento metodológico; desenvolvimento, discussões e considerações da análise qualitativa dos dados de 16 (dezesseis) registros quanto ao contexto histórico, políticos, culturais, étnicos e sociológicos, a caracterização da Geração de 30 e dos Pioneiros Freyre, Holanda e Prado Junior.
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2. Metodologia
Este artigo investiga a influência da Geração de 30 na formação inicial da sociologia brasileira por meio de uma pesquisa aplicada com abordagem qualitativa e fins exploratórios 9. As etapas e técnicas metodológicas seguiram o método de análise de conteúdo de Minayo 15. Quanto à natureza, abordagens, fins, formulação do problema e técnicas de leitura, utilizou-se as recomendações de Gil 5 e Lakatos;Marconi 9
O estudo procurou adaptar o método PRISMA 16 para a elaboração transparente da revisão de literatura, resultando na criação de uma lista de verificação com 27 itens e um diagrama de fluxo dividido em quatro fases. O Quadro 1 apresenta a adaptação do checklist PRISMA 16 utilizado na pesquisa realizada. checagem
Seção/tópico | n. | Item do checklist | check | |
Título | 1 | Identificado no título como uma revisão sistemática “de literatura” | ||
Resumo estruturado | 2 | Resumo estruturado incluindo: estrutura, objetivo, critérios de elegibilidade, síntese dos métodos, resultados, limitações, conclusões e achados principais. | ||
Introdução | ||||
Racional | 3 | Descrita a justificativa da revisão no contexto do que já é conhecido. | ||
Objetivos | 4 | Apresentada uma afirmação explícita sobre a questão abordada com as compa- rações, os resultados e o delineamento do estudo. | ||
Métodos | ||||
Protocolo e registro | 5 | Indicado um protocolo de revisão com endereço eletrônico: Google Sholar– https://scholar.google.com/ , Scielo – https://www.scielo.br/, bilbioteca digital Google Books – https://books.google.com.br/. | ||
Critérios de elegibilidade | 6 | Especificadas as características do estudo, bem como os critérios de elegibilidade na metodologia do estudo com a justificativa. | ||
Fontes de informação | 7 | Descritas as fontes de informações de busca. | ||
Busca | 8 | Apresentada a estratégia de busca eletrônica para a base de dados, in-cluindo os limites utilizados, de forma que possa ser repetida. | ||
Seleção de estudos | 9 | Apresentado o processo de seleção de estudos (rastreados e excluídos). | ||
Processo de coleta de dados | 10 | Descrito o método de extração de dados dos artigos e baixa- dos os artigos completos. (itens 9; 11) | ||
Lista dos dados | 11 | Definida as variáveis obtidas (filtro: títulos, palavras-chave, resumos, metodologia, introdução). |
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Risco de viés de cada estudo | 12 | Descritos os métodos usados para avaliar o risco em cada estudo (por estudo). (item 9) |
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Medidas de sumarização | 13 | Definidas as principais medidas de sumarização dos resultados (limitada a basede dados, período analisado e descritores utilizadas) | ||
Síntese dos resultados | 14 | Descritos os métodos de análise dos dados e a combinação de resultados dos estudos (coincidências e divergências). |
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Risco de viés entre estudos | 15 | Especificada qualquer avaliação do risco de viés que possa influenciar a evidência cumulativa (não apresentou viés). (itens, 8;9;10) |
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Análises adicionais | 16 | Descritos os métodos de análise adicional (análise de subgrupos de temas, resultados dos estudos identificados). (item 10) |
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Resultados | ||||
Seleção de estudos | 17 | Apresentados os números dos estudos rastreados, avaliados para elegibilidade e incluídos na revisão, razões de exclusão em cada etapa. | ||
Características dos estudos | 18 | Para cada estudo, são apresentadas as características para extração dos dados com apresentação das citações. (objetivos e conclusões) | ||
Risco de viés em cada estudo | 19 | Apresentados os dados sobre o risco de viés em cada estudo (itens, 8;9;10; 15, não apresentou risco de viés). | ||
Resultados de estudos individuais | 20 | Apresentado para cada estudo: sumário com objetivos, resultados e conclusões (benefícios ou risco se for o caso). (não se aplica) | ||
Síntese dos resultados | 21 | Apresentados os resultados de cada meta-análise realizada. ( não se aplica) Estudo qualitativo, apresenta síntes qualitativa. | ||
Risco de viés entre estudos | 22 | Resultados da avaliação de risco de viés entre os estudos (item 15; 8; 9; 10, não apresentou viés). | ||
Análises adicionais | 23 | Apresentados os resultados das análises adicionais (dos autores, das institui- ções, citações dos estudos). | ||
Discussão | ||||
Sumário da evidência | 24 | Sumarizados os resultados principais, sua relevância e contribuições. | ||
Limitações | 25 | Discutidas as limitações no nível dos estudos e das contribuições. | ||
Conclusões | 26 | Apresentada a interpretação geral dos resultados no contexto de outras evidências e implicações para futuras pesquisas. |
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Financiamento | ||||
Financiamento | 27 | Não há fonte de financiamento para a revisão de literatura. | ||
Legenda | Item presente | Item não aplicável; atendido outro item; exaurido. | ||
Quadro 1 - Checklist do Método PRISMA adaptado ao estudo realizado.
Fonte: Aptado pelos autores 16 (2024).
Na pré-análise inicialmente organizou-se o material coletado e definiram-se os objetivos específicos desta pesquisa, como problema, parâmetros de busca e os critérios de inclusão e exclusão.
Para busca, exploração e categorização do material utilizaram-se os seguintes descritores: (“História do Brasil” OR “Antropologia do Brasil”) AND “Identidades” AND “Sociologia Brasileira” AND “Geração de 30” AND “Gilberto Freyre’ AND “Caio Prado Junior’ AND ‘Sérgio Buarque de Holanda” AND “Modernismo’. Além disto, foram definidas as medidas de sumarização a partir de critérios de inclusão e exclusão, conforme ilustra os itens do quadro 2:
n. | Critério de inclusão | Critério de exclusão |
(i) | Artigos completos disponíveis nos indexadores Google Scholar e Scielo). | Estudos não relacionados ao tema específico; de outros indexadores. |
(ii) | Estudos publicados entre 2000 e 2022 (artigos, teses, dissertações) | Estudos duplicados; diferentes dos tipos textuais incluídos; fora do recorte temporal. |
(iii) | Publicações em português | Estudos completos em outras línguas. |
(iv) | Estudos abordando diretamente os descritores | Estudos que não abordem os descritores; |
(v) | Livros físicos e digitais (google book, acervo físico) | Fontes não verificáveis; estudo duplicados, reedição (mais antiga); mesmo autor com referencial e idéias similares.
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(vi) | Atendam aos critérios de evidência, qualidade e risco de viés. | Não atendam aos critérios e risco. |
Quadro 2 – Critérios de inclusão e exclusão
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Para a avaliação da qualidade dos registros dos indexados, no Google Scholar foi utilizado indicador H-Index, com um mínimo de H3, já na base Scielo a referência foi a métrica Altmetric, exigindo um score igual ou superior a 1.
No caso dos livros e Pubmed, um checklist adaptado do Test CRAP (Currency, Reliability, Authority, Purpose) foi aplicado para verificar a relevância e originalidade, contextualização histórica e credibilidade das fontes, considerando obras que atendessem a um mínimo de 17 dos 19 itens do formulário. O formulário também foi utilizado para obras dos indexadores para análise de divergências e coincidências.
A análise do risco de viés foi conduzida utilizando o formulário OQAQ (Overview Quality Assessment Questionnaire), requerendo uma pontuação mínima de 8 dos 10 critérios estabelecidos. Conforme o ilustra o quadro 3, foram estabelecidos critérios gerais e indicadores para cada um.
n. | Critério | Descrição | Indicadores |
Citações, downloads, alcance. | Medidas de impacto acadêmico com base na atividade de ferramentas e ambientes online. | Google Scholar (H-Index ≥ H3) Scielo (Altmetric score ≥ 1) | |
Relevância e Originalidade | Análise da contribuição dos estudos para o campo de conhecimento da Sociologia Brasileira. | Livros, Google Books; Pubmed (Checklist CRAP Test) (≥ 17) Análise de Risco (OQAQ ≥ 8 pontos) | |
Contextualização Histórica | Consideração do contexto histórico e social abordado pelos autores em suas análises. | ||
Credibilidade das Fontes | Avaliação da confiabilidade das fontes e dados utilizados pelos autores. | ||
Análise de Risco de Viés | Verificação de possíveis vieses na seleção, condução, análise e apresentação dos resultados. | Análise de Risco (OQAQ ≥ 8 pontos) | |
Qualidade Metodológica | Avaliação da clareza e rigor metodológico dos estudos, incluindo delineamento e execução. | Livros, Google Books; Pubmed (Checklist CRAP Test) (≥ 17) | |
Coerência Teórica | Verificação da consistência e fundamentação teórica utilizada nos estudos revisados. | ||
Transparência e Reprodutibilidade | Avaliação da clareza na apresentação dos procedimentos e possibilidade de replicação dos estudos. | Análise de Risco (OQAQ ≥ 8 pontos) |
Quadro 3 – Adaptação dos Critérios de Evidência e Análise de Risco de Viés
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
A partir dos critérios do quadro 2, a base de dados rastreio inicial, passou para fase de filtro por variáveis (título; palavras-chave; resumo; introdução/apresentação; texto integral), sendo utilizadas técnicas de leitura para estabelecer a elegibilidade. Utilizou-se leitura flutuantei dos títulos e palavras-chave buscando sua pertinência aos objetivos da pesquisa, realizando a peneira para o próximo filtro, a leitura Skimming.
Empregou-se a leitura Skimmingii para revisar resumos, introduções e metodologias daqueles registros selecionados na leitura flutuante, atribui-se elegibilidade apenas aqueles com qualidade dentro dos padrões mínimos evidência, H-Index, Altmetric, CRAP Test (adaptado), qualidade e risco de viés OQAQ, um filtro para o próximo procedimento, leitura críticaiii.
Realizou-se se a leitura crítica aos textos integrais apenas dos registros elegíveis nos filtros anteriores. Todavia ficaram limitados à essa fase da análise, aqueles cujas referências e ideias apresentaram similaridade, sem necessidade de repeti-las na síntese qualitativa. As obras direcionados ao embasamento metodológico, não computam no fluxo de registros. A discussão dos resultados demonstra-se através das conclusões interpretadas à luz dos dados incluídos e apresentados na sessão a seguir.
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3. Desenvolvimento, Resultados e Discussões
A busca de dados conforme a metodologia explicitada anteriormente e envolveu os meses de maio a julho de 2024 e incluiu 15 (quinze) registros na síntese qualitativa. Os resultados dos registros estão contabilizados e demonstrados na figura 1 a seguir, um fluxograma de filtro.
Figura 1: Fluxograma dos registros filtrados para revisão sistêmica de literatura
Fonte: Adaptado pelos autores de PRISMA[16] (2024).
Os estudos exploram os conceitos da Sociologia Brasileira demonstrando o início de como essa ciência passou a evidenciar e a relações fenomenológicas da sociedade seus indivíduos no contexto brasileiro. Foi possível encontrar evidências nos estudos incluídos e detalhados em ordem alfabética no quadro 4.
Quadro 4 – Caracterização e sumarização dos registros elegíveis para extração.
Autores / Ano | Objetivos | Conclusões |
AZEVEDO, FERNANDO (1962) | O livro busca analisar e contextualizar o desenvolvimento da Antropologia e da Sociologia no Brasil, oferecendo uma visão crítica e histórica sobre como essas disciplinas se estabeleceram e evoluíram no país. | Enfatizam o impacto das ciências sociais na compreensão da sociedade brasileira, destacando como as ideias de Gilberto Freyre, Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda e outros influenciaram tanto a academia quanto a visão popular sobre a identidade nacional e os desafios sociais do Brasil |
CARVALHO, R. DE (2024) | Este livro visa apresentar e analisar a obra de Castro Alves, especialmente as obras "Espumas Flutuantes" e "Os Escravos", destacando seu impacto na literatura brasileira e sua representação das questões sociais e políticas da época. | Reflete sobre como as obras de Castro Alves continuam relevantes para entender não apenas a poesia brasileira, mas também as lutas e dilemas sociais que marcaram o Brasil do século XIX. |
FERNANDES, F. (1977) | Esta obra tem como objetivo traçar um panorama histórico e crítico da evolução da sociologia no Brasil, destacando os principais teóricos, temas e debates que moldaram essa disciplina ao longo do tempo. | Reflete sobre o desenvolvimento da sociologia no contexto brasileiro, enfatizando seu papel na análise das questões sociais e políticas do país. Encerra com uma discussão sobre os desafios e as contribuições da sociologia para a compreensão e transformação da sociedade brasileira. |
FREYRE, GILBERTO (2000) | A obra visa analisar a formação da sociedade brasileira a partir das interações entre colonizadores europeus, africanos escravizados e indígenas, explorando as influências culturais e sociais que moldaram as relações raciais e culturais no Brasil | As conclusões oferecem uma síntese das ideias apresentadas por Freyre, destacando como suas teorias contribuem para o entendimento das complexidades sociais e culturais do Brasil. O livro encerra com reflexões sobre as consequências contemporâneas da miscigenação e das estruturas de poder estabelecidas durante o período colonial. |
HOLANDA, MARIA AMÉLIA BUARQUE DE (2024) | Este estudo biográfico visa fornecer uma cronologia detalhada da vida e obra de Sérgio Buarque de Holanda, destacando eventos importantes e contribuições significativas do autor para a sociologia e a cultura brasileira. | Em vez de uma conclusão tradicional, o recurso termina com um resumo das principais fases da vida de Sérgio Buarque de Holanda, destacando seus marcos intelectuais e suas contribuições para o pensamento social brasileiro. |
HOLANDA, SÉRGIO BUARQUE (2006) | O livro "Raízes do Brasil" tem como objetivo investigar as origens e características distintivas da sociedade brasileira, explorando elementos culturais, históricos e sociais que moldaram sua formação. | As conclusões oferecem uma reflexão profunda sobre as raízes históricas e culturais do Brasil, destacando as peculiaridades e contradições identificadas por Sérgio Buarque de Holanda. Induz à discussão sobre os desafios contemporâneos e as possibilidades de desenvolvimento cultural e social do país. |
KUHLMANN JÚNIOR, M. (2023) | O artigo tem como objetivo explorar o período inicial da vida e obra de Gilberto Freyre, focando nas influências históricas e sociais que moldaram suas ideias durante a juventude, especialmente entre 1915 e 1930. | Influências e desenvolvimentos intelectuais de Gilberto Freyre durante seu período inicial, destacando como essas experiências contribuíram para a formação de suas teorias sobre a sociedade brasileira. Reflete sobre a importância de Freyre e sua relevância contínua para os estudos sociais e históricos no Brasil. |
LIEDKE FILHO, E. D. (2005) | Este artigo tem como objetivo oferecer uma análise abrangente da trajetória da sociologia no Brasil, explorando suas diversas teorias, desafios e contribuições para o entendimento das dinâmicas sociais no país. | As conclusões apresentam uma síntese das principais teorias discutidas, destacando os desafios enfrentados pela sociologia brasileira e suas implicações para a compreensão das transformações sociais e políticas no Brasil contemporâneo. |
MAIA F. J. F.; FARIAS M.H.V. DE (2020) | O estudo objetiva investigar como a colonização da América contribuiu para a formação do eurocentrismo como um padrão de poder mundial, explorando as dinâmicas de dominação e resistência no contexto colonial. | Infere sobre as consequências duradouras da colonialidade do poder, destacando como essas dinâmicas continuam a influenciar as relações globais contemporâneas. Destaca a necessidade de reconhecer e desconstruir as estruturas eurocêntricas de poder para promover uma maior igualdade e justiça social. |
MARTINS. MARO LARA. (2013) | A tese tem como objetivo investigar a sociologia modernista brasileira dos anos 30, explorando como os intelectuais desse período abordaram questões de interesse social e virtude na construção de uma nova identidade sociocultural no Brasil | Oferece uma síntese das análises realizadas na tese, destacando como os sociólogos modernistas dos anos 30 contribuíram para o debate intelectual e cultural no Brasil, influenciando perspectivas sociológicas futuras. A tese encerra com reflexões sobre o legado desses intelectuais e suas implicações para os estudos sociológicos contemporâneos no país. |
MELO, A. C. B. DE. (2020) | O artigo tem como objetivo analisar como a obra "Formação do Brasil Contemporâneo" de Caio Prado Jr. aborda questões de raça e modernidade, explorando como esses temas são tratados e suas implicações para o entendimento da sociedade brasileira. | Destaca como Caio Prado Jr. discute a influência da raça e da modernidade na formação histórica e social do Brasil contemporâneo. O artigo encerra com reflexões sobre a relevância contínua da obra de Prado Jr. para os estudos de história e ciências sociais no Brasil, especialmente no que tange às questões raciais e de modernização. |
MICELLI, SÉRGIO (1995) | Este livro tem como objetivo traçar uma história detalhada e crítica do desenvolvimento das ciências sociais no Brasil, | Destaca como as ciências sociais no Brasil evoluíram e se diversificaram ao longo do tempo. |
OLIVEIRA, R. DE (2002) | O artigo tem como objetivo analisar a obra "Os Sertões" de Euclides da Cunha, explorando como ela contribuiu para a construção de uma visão mais profunda e complexa do Brasil em contextos geográficos, sociais e ambientais. | Destaca o impacto duradouro de "Os Sertões" na literatura brasileira e no entendimento da diversidade geográfica, social e cultural do país. regiões mais remotas. |
PRADO JR., CAIO (1994) | O livro tem como objetivo analisar e interpretar os processos históricos e sociais que levaram à formação da sociedade brasileira contemporânea, abordando questões econômicas, políticas e sociais fundamentais para compreender o Brasil moderno. | Síntese das análises históricas realizadas por Caio Prado Jr., destacando as transformações econômicas, políticas e sociais que moldaram o Brasil até o período contemporâneo. O livro encerra com reflexões sobre os desafios e perspectivas futuras principalmente relacionadas ao desenvolvimento econômico do país. |
SILVA. TÂNIA ELIAS M. (2007) | O artigo tem como objetivo traçar um panorama histórico das trajetórias da sociologia no Brasil, explorando os principais momentos, teóricos e debates que moldaram o desenvolvimento dessa disciplina no país. | As conclusões oferecem uma síntese das trajetórias analisadas, destacando como a sociologia brasileira evoluiu ao longo do tempo e suas contribuições para o entendimento das dinâmicas sociais no Brasil. O artigo encerra com reflexões sobre os desafios e perspectivas futuras para a sociologia no contexto brasileiro. |
Fonte: elaborado pelos autores (2024).
De acordo com os artigos identificados e selecionados na revisão da literatura, os dados apresentados no quadro 2 sobre os resultados e as conclusões das pesquisas, foram relacionadas à 13 pesquisas relevantes e enquadradas nos critérios de seleção já mencionados nos procedimentos metodológicos.
Outras duas tratam especificamente das obras literárias de Castro Alves e Euclides da Cunha, as quais são retratadas até os dias atuais como sendo evidências do contexto histórico-social do Brasil à época do início da sociologia. Frequentemente utilizada para análise por tratar das questões de raça e eurocentrismo, fortemente demonstrados pelos intelectuais abordados nesta revisão, ou seja, são obras atemporais da identidade brasileira, tendo sido citadas nas obras que tratam da história sociológica da geração de 30 12 13.
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3.1 Contexto histórico e conceitos sociológicos e a geração de 30
Para alcançar os objetivos propostos neste artigo foi necessário realizar um regaste histórico, do contexto político, econômico e social onde inseriu-se a sociologia no Brasil, as obras de Fernando Azevedo 1, Sérgio Micelli 14, Tânia Elias 19, Liedke Filho 9 e Florestan Fernandes 3 e Maia Farias11 trazem um panorama aprofundado a este respeito.
Neste cenário a influência Positivista entre os Militares é o calcanhar da decadência do antigo regime imperial brasileiro. O positivismo, é método teórico sociológico desenvolvido pelo francês Auguste Comte, é conhecido como pai da Sociologia 10. Ele propôs a ciência da sociedade baseada em métodos científicos das ciências exatas e da natureza, que deveriam ser aplicados para a melhoria da ordem social.
Em continuidade a sua teoria o também francês Émile Durkheim é o fundador da sociologia moderna, conhecido por seus estudos sobre coesão social, divisão do trabalho e anomia. Sua metodologia e teorias sociológicas forneceram base importante para os estudos sociológicos no mundo e consequentemente no Brasil 10. Todavia seus métodos sociológicos tem pontos controversos devido a racionalidade etnocêntrica.
No Brasil do séc. XIX não haviam instituições acadêmicas para formas os filhos dos mais abastados, estes iam para Europa dar continuidade em seus estudos, passando a ter contato com estes métodos de pensar a sociedade 20. Ou seja, o alicerce intelectual de militares e aristocratas que nutriam descontentamento com estrutura de poder do antigo regime, o Império de Dom Pedro II, logo culminaria num engenhoso plano para proclamação da República em 15 de novembro1889.
Com destaque à Benjamin Constant, os militares positivistas aderiram à teoria como uma ferramenta para modernizar e organizar o país. Acreditavam que a ciência e a razão deveriam guiar o governo e a sociedade, afastando-se das práticas políticas do Império, que consideravam obsoletas e corruptas. Enfatizavam então a “estática social” (ordem) e a “dinâmica social” (progresso) conceitos Comtianos que foram incorporados à bandeira nacional brasileira3.
A Proclamação da República em 1889 marcou o início de uma nova era na política brasileira, encerrando a monarquia e estabelecendo a República Velha, também conhecida como Primeira República (1889-1930). Durante esse período, o Brasil foi governado por uma série de presidentes civis, com forte influência das oligarquias regionais, especialmente dos estados de São Paulo e Minas Gerais, na política do "café com leite"10.
A República Velha foi caracterizada por um sistema político elitista e excludente, onde a elite agrária tinha o controle do poder. As fraudes eleitorais eram comuns e a política era dominada por uma série de alianças entre as elites regionais 20. No entanto, a crise econômica de 1929, causada pela queda dos preços do café, levou a um crescente descontentamento com o governo, culminando na Revolução de 1930.
Liderada por Getúlio Vargas, a Revolução política de 30 depôs o então presidente Washington Luís e pôs fim à República Velha. Vargas assumiu como chefe do Governo Provisório e, posteriormente, como presidente constitucional em 1934. Em 1937, Vargas instaurou o Estado Novo, um regime ditatorial que durou até 1945. Este período foi marcado por uma centralização do poder, reformas trabalhistas significativas e um esforço de industrialização.
Neste contexto de transição entre o século XIX e início do século XX (1889-1930) é onde emerge a Primeira Geração da Sociologia Brasileira: conhecida como Pré-Científica 1. Essa geração contava a história nacional da república brasileira, através de autores da literatura e cientistas da área de ciências naturais. Intelectuais estes fortemente influenciados por diversas correntes de pensamento etnocêntrico, incluindo o positivismo, o darwinismo social e o racismo científico.
A respeito da literatura antes de 30, faz-se necessário enaltecer o legado literário de Castro Alves (Espumas Flutuantes- 1870) [2] e Euclides da Cunha (Os Sertões -1911) [17] na crítica ao contexto da geração Pré-Científica . Em conjunto, representaram uma ruptura com o romantismo idealizado à época. Suas obras refletiam uma preocupação em compreender e transformar a sociedade brasileira por meio da crítica social [17]. Eles denunciaram as injustiças e as desigualdades presentes na sociedade brasileira de sua época.
Neste mesmo período de crise política e econômica que marcou a queda da República Velha e a ascensão de Getúlio Vargas, enquanto o Ministério do Trabalho focava na legislação trabalhista com ênfase na perspectiva fabril, o Ministério da Educação assumia o papel de promover valores de virtude, formando uma nova subjetividade e cultura 12.
Figuras como Capanema, Rodrigo de Mello Franco de Andrade, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda, Lúcio Costa, Alcides da Rocha Miranda, Luis Saia, Pedro Nava, Gilberto Freyre, entre outros, foram fundamentais na estatização do moderno e do movimento modernista a partir de 1930 12, daqui surgiria a segunda geração da sociologia brasileira.
Essa geração foi um movimento intelectual e cultural que teve grande impacto no Brasil. Compreende um grupo diversificado de escritores, artistas, políticos e intelectuais que influenciaram profundamente o pensamento e a cultura brasileira da época. Este grupo compartilhava um desejo comum de renovar e repensar os rumos do país. Dentre suas características contribuições destacam-se 12:
Crítica social à ordem vigente: criticava as estruturas sociais e políticas tradicionais do Brasil, buscando promover mudanças e reformas profundas na sociedade. Eles questionavam as bases do sistema oligárquico que dominava a política brasileira, defendendo ideais de modernização, progresso e democratização.
Interdisciplinaridade: colaborações entre escritores, artistas, sociólogos, antropólogos e outros intelectuais. numa abordagem mais abrangente e multifacetada dos problemas sociais e culturais do Brasil 3.
Inovação estilística: Na literatura, trouxe novas formas de expressão e experimentação estilística. Autores como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, entre outros, foram importantes expoentes desse movimento, introduzindo técnicas modernistas e regionalistas em suas obras 12.
Engajamento político: envolvimento em questões políticas e sociais do Brasil da época 3. Alguns participaram ativamente da vida política, enquanto outros expressaram seu engajamento por meio de suas obras artísticas e intelectuais, buscando conscientizar a população sobre as questões do país.
Identidade da sociedade brasileira: dedicaram a repensar a identidade nacional, buscando entender as características únicas do país e promover uma consciência nacional mais forte enquanto sociedade brasileira 1. Isso incluía explorar temas como a miscigenação, as tradições culturais regionais e a diversidade étnica do Brasil, a segunda Geração sociológica brasileira.
Destacam-se Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala - 1933), Caio Prado Junior (Formação do Brasil Contemporâneo- 1942) e Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil- 1936) 1 . Estes três autores são o tripé da sociologia no Brasil, é sobre eles que debruçamos o estudo para demonstrar a importância da sociologia brasileira.
Para entendermos a relevância do trio sociológico da geração de 30 (Freyre, Holanda e Padro Jr.) é necessário primeiro relembrar a 1° geração sociológica Brasileira, a qual estava alicerçada em teorias nacionalistas, raciais e étnicas que base para o eurocentrismo, o etnocentrismo, o darwinismo social e o racismo científico.
A este respeito, as obras de Carvalho 2, Liedke Filho 10, Maia Farias 11 , Melo 13, Azevedo 1, Fernandes3, Prado Junior 19, Freyre 4 e Holanda 7 trazem as evidências necessárias para tratar dos assuntos. Esses são conceitos interligados que refletem visões de mundo sobre a superioridade de uma determinada cultura ou raça em relação às outras. No Brasil de início do sec. XX esses conceitos foram fortemente embasados por: Nina Rodrigues, Cesare Lombroso e Sílvio Romero 11.
Nina Rodrigues, um médico brasileiro conhecido por seus estudos sobre a cultura e a sociedade brasileira, influenciado pela visão positivista de Comte. Procuravam justificar a desigualdade racial e a superioridade da raça branca.
Cesare Lombroso, um médico italiano bem influente no Brasil conhecido por suas teorias sobre a criminalidade e a criminalidade inata, argumentava que certas características físicas e biológicas estavam associadas à tendência criminosa, o “fenótipo do crime” 13 principalmente direcionado aos negros.
Sílvio Romero foi um escritor, crítico literário brasileiro que também foi influenciado pelas ideias positivistas de Comte 11. Ele também incorporou elementos do racismo científico em suas análises, promovendo a ideia de uma hierarquia racial. Sob sua ótica demonstra-se a idéia da diluição do fator negativo13. Por acreditar que os genes negroides eram inferiores, quanto mais houvesse miscigenação entre brancos e pretos mais haveria o “embranquecimento” 11da população.
O eurocentrismo é uma perspectiva que coloca a Europa e as culturas europeias como o centro de tudo, considerando-as superiores em relação às demais culturas e civilizações. Isso se manifesta na ideia de que a Europa é o berço da civilização moderna visivelmente demonstrada pela exploração colonial e sua estrutura econômica escravocrata 11. O Brasil foi influenciado pelo eurocentrismo através da colonização portuguesa e da exploração colonial, refletido na imposição de valores e na extração de recursos em benefício da metrópole 19.
O etnocentrismo é a tendência de considerar a própria cultura como superior às outras. Isso leva à avaliação de outras culturas com base nos valores e padrões da própria cultura, muitas vezes levando à desvalorização ou mesmo à demonização de outras formas de vida e pensamento 13. Se manifesta na cultura dominante, que muitas vezes marginaliza grupos étnicos como indígenas e afrodescendentes, além de gerar preconceitos regionais10.
Darwinismo Social, derivado das teorias de Charles Darwiniv sobre a evolução, foi utilizado de forma distorcida para justificar hierarquias sociais e raciais, alegando que algumas raças e classes eram naturalmente superiores a outras. Racismo Científico foi promovido por vários pensadores da época, que usaram pseudociência para justificar a discriminação racial 13. Em contraposição à esta estrutura, a forma de ver e comandar a sociedade do Brasil é que estão Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior13.
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3.2 Os pioneiros Freyre, Holanda e Prado Júnior
Para tratar especificamente de Freyre, Holanda e Prada Junior, três obras dão luz especifica a temática, Kullmann Júnior8, Maria Amélia Buarque6 e Melo13. Obviamente inclui-se também os próprios. Além disto, as seis demais já citadas anteriormente. Iniciamos então por Gilberto Freyre.
Gilberto Freyre foi um dos mais proeminentes sociólogos, antropólogos e escritores brasileiros do século XX. Nascido em 1900, em Recife, no estado de Pernambuco, Freyre deixou um legado duradouro através de suas obras que exploraram profundamente a sociedade e a cultura brasileira 8.
Sua obra mais famosa, "Casa-Grande & Senzala" (CG&S), publicada em 1933, é um marco na sociologia brasileira. Nela, Freyre discute a formação da sociedade brasileira 8. CG&S é dividida em cinco partes, destaca-se pela análise detalhada dos índios e dos colonizadores portugueses, além de explorar intensamente a vida dos escravos africanos. Freyre baseia sua análise na distinção entre raça e cultura, influenciado por Franz Boasv , e navega entre paradigmas de racismo científico e cultural ao longo de suas interpretações [8]. Em seus escritos, ele frequentemente explorava temas como sexualidade, política, família, religião, cultura, ancestralidade, buscando contextualizar com a vida cotidiana e doméstica da “Casa Grande”:
No estudo de sua história íntima [da casa-grande] despreza-se tudo o que a história política e militar nos oferece de mais empolgante por uma quase rotina de vida: mas dentro dessa rotina é que melhor se sente o caráter de um povo. Estudando a vida doméstica dos antepassados sentimo-nos aos poucos nos completar: é outro meio de procurar-se o “tempo perdido” [...]. 4
Este aspecto intimista e detalhista é uma marca do autor. Há uma relação especial entre o pesquisador e o objeto de estudo, isto dito nas palavras do próprio Freyre. Segundo ele:
[...] Casa-grande & senzala poderia ser considerado extensão de uma autoanálise pessoal que se tornará análise social: busca de um tempo em grande parte perdido e procura de um tempo social total que devesse ser reencontrado não só por um indivíduo como por um povo. 4
Neste trecho de CG&S observa-se, a vontade (subjetividade) eminente em relatar a análise o povo do qual fazia parte, sobretudo o distanciamento de uma ótica social puramente objetiva. Freyre escreveu uma série de outras obras importantes, incluindo “Sobrados e Mucambos” e “Ordem e Progresso”. Ele também foi um importante ativista social, defendendo políticas que promovessem a igualdade racial e social no Brasil. Sua influência se estendeu para além das fronteiras brasileiras, com suas ideias sendo discutidas e debatidas em todo o mundo acadêmico 1.
Sérgio Buarque de Holanda foi um dos mais importantes historiadores, sociólogos e ensaístas brasileiros do século XX. Nascido em São Paulo, em 1902, e falecido em 1982, sua obra teve um impacto significativo no entendimento da cultura e da sociedade brasileira 6. É mundialmente conhecido por seu livro seminal “Raízes do Brasil” (RdB), publicado em 1936.
Nesta obra, ele explora as origens e os traços distintivos da sociedade brasileira, examinando sua formação histórica, cultural e social 1. Uma das principais ideias de RdB é o conceito da “cordialidade brasileira”, que descreve a natureza informal e personalista das relações sociais no país, em contraste com a rigidez e impessoalidade das sociedades modernas europeias 1. A palavra “cordial” é frequentemente utilizada com o significado de ser cortês. Assim, muitos acreditavam que Sérgio Buarque a empregava como um elogio, sugerindo que o brasileiro era naturalmente educado.
Contudo, Sérgio utilizava a palavra em seu sentido etimológico: “cordis”, em latim, significa “coração”. Dessa forma, o “cordial” seria a pessoa que se deixa conduzir pelas emoções, cujo centro é o coração 6. Diferente de outros povos que se orientam pelo cérebro e pela razão, o brasileiro seria dominado pelas paixões. Outros estudiosos argumentam que Sérgio Buarque de Holanda estava sendo irônico, pois o brasileiro não seria nada cordial no sentido de educado e cortês 1. O personalismo é a essência do “homem cordial” 7, pois ele prefere estabelecer laços de amizade antes de realizar um negócio, por exemplo.
EM um trecho de Raízes do Brasil , Holanda 7 afirma que o Brasil só alcançará uma democracia plena quando ocorrer uma revolução iniciada pelas bases da sociedade. Além disso, será necessário aceitar a impessoalidade da democracia e compreender que direitos e deveres devem ser iguais para todos.
As constituições feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e oligarquias, são fenômenos corrente em todo a história da América do Sul. [...] outros serviam do lema “Liberdade”, ainda mais prestigioso, ao mesmo passo em que procuravam consolidar em nome dele um poder positivamente ditatorial e despótico. 7
Sérgio Buarque de Holanda foi influenciado por várias correntes de pensamento, e a abordagem sociológica de Max Weber certamente teve um impacto significativo em seu trabalho. Max Weber foi um dos fundadores da sociologia moderna e suas ideias sobre a ação social, a burocracia, a ética protestante e o espírito do capitalismo são fundamentais para o entendimento das dinâmicas sociais e culturais.
A influência de Weber em Buarque de Holanda pode ser percebida em vários aspectos de sua obra, especialmente em RdB. Uma das contribuições de Weber que ressoa em RdB é sua ênfase na compreensão da sociedade a partir de múltiplas perspectivas ao analisar a formação da sociedade brasileira, combinando elementos da história, sociologia, antropologia e literatura para construir uma narrativa abrangente 3.
Além disso, a ideia de “cordialidade brasileira” de Buarque de Holanda pode ser vista como uma aplicação do conceito weberiano de ação social. Enquanto Weber discutia os tipos ideais de ação social, Holanda explorava as características distintivas das relações sociais no Brasil, destacando a informalidade, o personalismo e a ambiguidade das interações sociais 14. Conforme pode-se ver nas palavras do próprio autor, ao explicar a cordialidade brasileira:
A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras” [...] 7.
Buarque de Holanda também teve uma destacada carreira acadêmica, lecionando em várias instituições no Brasil e no exterior, e ocupou importantes cargos públicos e acadêmicos 6. Sua obra, portanto, reflete uma síntese original de influências intelectuais diversas, incluindo a de Max Weber, que enriqueceram a compreensão da sociedade brasileira e sua complexa teia de relações sociais e culturais14.
Caio Prado Júnior foi um dos mais importantes historiadores e pensadores políticos do Brasil do século XX. Nascido em São Paulo em 1907 e falecido em 1990, ele teve uma influência duradoura no estudo da história e da formação social brasileira14.
Sua principal obra é a "Formação do Brasil Contemporâneo" (FdBC), publicada em 1942. Neste livro, ele propõe uma interpretação histórica da sociedade brasileira, destacando as raízes econômicas e estruturais que moldaram o país desde os primórdios do período colonial até o início do século XX 13.
Uma das principais teses de Prado Júnior é a ideia de que a economia brasileira foi dominada desde o início por uma estrutura latifundiária baseada na produção agrícola voltada para exportação, o que influenciou profundamente as relações sociais, políticas e econômicas do país 1.
Prado dividiu a população colonial em dois grupos: os elementos orgânicos, formados pela massa escrava e por todos os que integravam o sistema escravista; e os elementos inorgânicos, que incluíam as categorias sociais que permaneciam à margem da estrutura colonial básica, embora fossem por ela afetadas 19. Este segundo grupo era composto principalmente por agricultores de subsistência, trabalhadores da pequena indústria doméstica, vadios e, em geral, pelos livres desclassificados da colônia 19.
Com base nesses dois elementos - o "sentido da colonização" e a estrutura escravocrata - Caio Prado desenvolveu toda a sua argumentação. Ele dividiu seu ensaio em três partes: povoamento, vida material e vida social 19.
Caio Prado Júnior aplicou então os princípios de Kal Marx à análise da formação social brasileira. Karl Marx analisava a sociedade através das relações de trabalho, lutas de classe e o materialismo histórico. Ao utilizar a teoria de Marxista, Prado focou nas as relações de produção, as classes sociais e as estruturas econômicas como elementos-chave para compreender o desenvolvimento histórico do país. Como pode-se verificar:
Tudo isto lança muita luz sobre o espírito com que os povos da Europa abordam a América. A idéia de povoar não ocorre inicialmente a nenhum. É o comércio que os interessa, e daí o relativo desprezo por este território primitivo e vazio que é a América [...] ocupar com povoamento efetivo, isto só surgiu como contingência, necessidade imposta por circunstâncias novas e imprevistas. [...] A crise econômica da Inglaterra. [...] O caráter que tomará a exploração agrária nos trópicos. Esta se realizará em larga escala, isto é,- em grandes unidades produtoras — fazendas, engenhos, plantações (as plantations das colônias inglesas) 19.
Como aludido nas próprias palavras de Prado, a economia brasileira era desde os primórdios tinha um caráter mercantil, e por conseguinte dominada por uma estrutura latifundiária baseada na produção agrícola para exportação, que moldou profundamente as relações sociais e econômicas do país 3.
As colônias tropicais geraram uma sociedade completamente original. Essas colônias não se limitaram a feitorias comerciais, mas mantiveram um forte caráter mercantil 13, onde colonos brancos exploravam recursos naturais abundantes com o trabalho de populações indígenas ou africanas, que foram dominadas e recrutadas para a produção de produtos de alto valor comercial 19. Conforme explica Prado:
Em outras palavras, para cada proprietário (fazendeiro, senhor ou plantador), haveria muitos trabalhadores subordinados e sem propriedade. Nas demais colônias tropicais, inclusive o Brasil, não se chegou nem a ensaiar o trabalhador branco. Isto porque nem na Espanha, nem em Portugal [...] faltavam braços por toda parte, e empregava-se em escala crescente mão-de-obra escrava. [...] Finalmente, os portugueses tinham sido os precursores, nisto também, desta feição particular do mundo moderno; a escravidão de negros africanos; e dominavam os territórios que os forneciam. Adotaram-na por isso em sua colônia quase que de início — possivelmente de início mesmo — [...] 19.
Ao adotar uma perspectiva de Marx Prado Júnior também enfatizou a importância da luta de classes na história brasileira e a necessidade de uma análise crítica das estruturas de poder e exploração 3. Ele via o colonialismo, o capitalismo e as relações de dependência como aspectos fundamentais da história do Brasil, influenciados pelo modo de produção capitalista global. Além de FdBC, Prado Júnior escreveu várias outras obras importantes, incluindo "Evolução Política do Brasil" e "História Econômica do Brasil”.
A abordagem marxista de Caio Prado Júnior também se refletiu em seu engajamento político. Ele foi membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e esteve envolvido em atividades políticas ao longo de sua vida, lutando por mudanças sociais e políticas que refletissem os princípios do socialismo 13. Sua contribuição para a historiografia e a análise social do Brasil foi significativa e continua a ser estudada e debatida até os dias de hoje.
A análise das obras de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior revela a diversidade de abordagens e interpretações sobre a formação da sociedade brasileira10. Enquanto Freyre destaca a miscigenação como um fator positivo e formador da identidade nacional 11, Holanda foca nas características culturais e sociais herdadas da colonização portuguesa 1, e Prado Junior enfatiza as estruturas econômicas e as desigualdades resultantes do sistema colonial 13.
Esses três autores contribuíram significativamente para o desenvolvimento da sociologia brasileira ao oferecerem perspectivas distintas, mas complementares, sobre a formação do Brasil 1. Mesmo que algumas ainda que transpareçam ambiguidade, dizeres e vocabulários próprios do tempo, a que se entender sua atemporalidade, por prever e perceber um subjetivo puramente brasileiro. Suas obras desafiaram as narrativas eurocêntricas predominantes e promoveram a busca por uma compreensão da complexa e multifacetada sociedade brasileira.
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4. Considerações Finais
Gilberto Freyre é amplamente reconhecido por sua obra "Casa-Grande & Senzala", publicada em 1933, onde aborda a formação da sociedade brasileira a partir de uma perspectiva cultural e social, enfatizando o papel das relações entre senhores e escravos na construção da identidade nacional. Freyre desenvolve a ideia de que a miscigenação racial foi um fator positivo na formação do Brasil, contrastando com visões eurocêntricas que desprezavam essa mistura racial. Ele argumenta que a cultura brasileira é resultado de uma síntese de influências indígenas, africanas e europeias, criando um modelo único de sociedade. Freyre destaca que "a civilização brasileira foi edificada, em grande parte, pelo trabalho dos negros e pela interação cultural entre negros, índios e brancos" (Freyre, 1933).
Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra "Raízes do Brasil", publicada em 1936, analisa a formação da sociedade brasileira e a influência das culturas ibéricas na constituição do país. Ele introduz o conceito de "homem cordial" para descrever a personalidade brasileira, caracterizada pela valorização das relações pessoais e afetivas em detrimento das normas impessoais e burocráticas. Holanda argumenta que essa característica tem raízes na colonização portuguesa e na organização social baseada em laços familiares e de compadrio.
Caio Prado Junior, em seu livro "Formação do Brasil Contemporâneo", publicado em 1942, oferece uma interpretação marxista da história do Brasil, enfatizando as estruturas econômicas e as relações de produção como fatores determinantes na formação da sociedade brasileira. Prado Junior critica a visão romântica da miscigenação e destaca as desigualdades sociais e econômicas resultantes do sistema colonial e da escravidão. Ele argumenta que "a estrutura agrária e escravocrata do Brasil colonial estabeleceu as bases para a persistência de profundas desigualdades sociais" (Prado Junior, 1942).
Essas contribuições aconteceram em tempo aos primórdios da sociologia mundial, de Durkheim, Weber e Marx, ao passo que as obras deste trio de autores, são os primeiros registros dos fenômenos que envolviam a sociedade brasileira, diferentes do que se via sob um olhar científico europeu totalmente ligado às ciências naturais, de caráter objetivo.
Percebe-se sua notória relevância antropológica, histórica e sociológica para entendermos o Brasil, mesmo diante de críticas relacionadas a dualidade e ao vocabulário ainda em construção, sobretudo do ponto de vista étnico racial de Freyre, não há como negar deram o start inicial para as próximas gerações sociológicas do Brasil.
De modo que A Geração de 30, representada por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior, representam a formação inicial da sociologia brasileira, para além do olhar sociológico Europeu.
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5. Declaração de direitos
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Universidade Estadual de Londrina, Londrina/ UEL, Brasil.
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Mato Grosso/ IFMT ,Cuiabá, Brasil.
Universidade Federal do Amapá/ UNIFAP, Macapá, Brasil.
Universidade Federal do Amapá/ UNIFAP, Macapá, Brasil.
A leitura inicial permite a realização da pré-análise. Essa leitura preliminar é, portanto, o primeiro contato do pesquisador com os documentos obtidos na coleta de dados.15
A estratégia de leitura conhecida como Skimming consiste em buscar o máximo de informações possível durante o contato com um texto. Trata-se de uma, onde se "passa os olhos" pelo texto para identificar sua ideia geral e tema central.9
A leitura crítica envolve a construção de um argumento fundamentado que avalia e analisa o conteúdo lido. Isso inclui entender o que o texto afirma, descrever os pontos principais e interpretar o significado e implicações do texto. 5
Charles Darwin (1809-1882), naturalista inglês é conhecido pela a teoria da evolução das espécies. Considerado “Pai da biologia moderna” 13
(Franz Boas 1858-1942) influente antropólogo teuto-americano, considerado o "Pai da Antropologia Americana"8.

