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ISSN: 2595-8402

DOI: 10.61411/rsc36859

Publicado em 20 de outubro de 2023

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ANO 2023

 

VIVÊNCIA NA PRÁTICA E NA TEORIA: A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES NO COTIDIANO DA ESCOLA DE ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL NO MUNICÍPIO DE FOZ DO IGUAÇU

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Karina Feltraco da Silva ¹; Fernando José Martins ²

 

¹ Mestranda do PPG Sociedade, Cultura e Fronteiras, da UNIOESTE - Campus de Foz do Iguaçu. Coordenadora pedagógica da rede municipal de Foz do Iguaçu, na Escola do Campo Brigadeiro Antônio Sampaio.

​​ [email protected].

 

² Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor Associado ​​ da Universidade Estadual do Oeste do Paraná- UNIOESTE. Professor Orientador do PPG Sociedade, Cultura e Fronteiras, da Unioeste - Campus de Foz do Iguaçu.

[email protected].

 

 

RESUMO

A formação continuada de professores surge no Brasil na década de 1960, contudo passou a ser uma exigência com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 9.394/96, art. 67, sendo fundamental para o exercício profissional. Ademais, as mudanças sociais ocorridas têm sido outro fator determinante para a necessidade de formação continuada, para que professores possam continuar aprendendo e atualizando-se nos conhecimentos produzidos historicamente pelo homem. A formação é um processo contínuo e permanente de desenvolvimento, exige que o professor esteja disponível para continuar aprendendo, bem como que ele reflita teoricamente sobre suas ações de trabalho (ALFERES; MAINARDES, 2011). Para que um professor possa atender a todas essas mudanças e vivências que chegam em sua sala de aula, uma das formas que ele utiliza é a formação continuada. Desse modo, validei a minha experiência como docente do município de Foz do Iguaçu, desde 2019, para relatar de uma melhor forma como essa formação continuada é oferecida dentro do município, visto que a educação tem sido considerada uma ferramenta de desenvolvimento social, mas para que isso se efetive é preciso considerar que a apenas com a escola sozinha não é possível, demanda de outros fatores, como investimento na educação. Não basta apenas expandir ou democratizar a escola pública, é preciso preparar e valorizar os professores que nela trabalham. Conclui-se, que a formação continuada tenha por finalidade realmente, conforme asseguram as DCNs (2015), a reflexão da prática educacional e a busca constante de melhorias e evoluções técnicas e pedagógicas que auxiliem para uma melhor qualidade na educação no cotidiano de escolas públicas nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A metodologia utilizada foi de abordagem qualitativa, constituída pela pesquisa bibliográfica de análise crítica-reflexiva. A pesquisa bibliográfica se propôs a buscar aspectos históricos, sociais, políticos e conceituais sobre a expansão da escola e necessidade da formação continuada, usando autores como Aguiar (2010), Gadotti (2003), Militão e Leite (2013), Freire (1996)[1][4][5][2] A respeito do relato de experiência, ele explana a minha própria vivência trabalhando na única escola do campo dentro do município de Foz do Iguaçu.

PALAVRAS-CHAVE: Formação Continuada. Cotidiano Escolar. Ensino Fundamental.

PALABRAS CLAVE: Educación Continua. Vida escolar. Enseñanza fundamental.

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1 INTRODUÇÃO

 Esse relato de experiência foi escrito com o objetivo de abordar a importância da formação permanente na função docente relacionando-a às mudanças sociais e à expansão da escola pública; bem como explicitar como tem sido realizada a formação continuada no cotidiano de escolas públicas de anos iniciais do fundamental no município de Foz do Iguaçu- PR.

Esse artigo trata de uma pesquisa de caráter qualitativo, em que a metodologia é constituída pela pesquisa bibliográfica de análise crítica-reflexiva. Possui embasamento teórico em autores como Aguiar (2010), Gadotti (2003), Militão e Leite (2013), Freire (1996) [1][4][5][2].

Também é abordado o relato de minha experiência, trazendo como ferramenta para explanar dentro da minha vivência trabalhando na única escola do campo dentro do município de Foz do Iguaçu, como ocorre a formação continuada no município.

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2 DESENVOLVIMENTO E DISCUSSÃO

A concepção crítica de formação continuada de professores considera que esse momento é fundamental para o professor planejar, refletir, revisar e planejar novamente, se necessário, sua prática pedagógica como também se apropriar de conhecimentos teóricos e saberes práticos. A formação é permanente ao trabalho docente.

O conceito de formação permanente surgiu com Paulo Freire, período em que exerceu a função de gestor da educação no Estado de São Paulo, onde implementou essa nomenclatura nas escolas (MILITÃO E LEITE, 2013)[5].

Paulo Feire nasceu em 1921, em Recife (Pernambuco), teve sua trajetória como professor, também foi criador de ideias e métodos, sua metodologia foi muito utilizada no Brasil durante as campanhas de alfabetização.

Foi em 1967 que Paulo Freire publicou a sua primeira obra chamada de “Educação como prática da liberdade”. A sua principal obra foi a “Pedagogia do oprimido”, escrita em 1968 e traduzida em várias línguas. Até o ano de 1974 a obra não havia sido publicada no Brasil, foi quando o General Geisel iniciou um processo de liberalização cultural no Brasil.

Nos anos 1980 retornou ao Brasil após 16 anos exilado e, em 1989, se tornou Secretário da Educação em São Paulo, durante todo o seu mandato fez grande empenho e dedicação para implementar movimentos de alfabetização. Freire foi conhecido mundialmente pelas suas ideias e métodos, recebeu vários prêmios internacionais e é o autor de várias obras que tratam sobre a educação como um todo.

Freire (1996, p. 43-44)[2] diz que: “Na formação permanente dos professores, momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar na próxima prática”. A discordância de Paulo Freire com as práticas vivenciadas sobre a formação de professores em outras cidades e estados era clara, pois nestes são mais valorizados a compra de ‘pacotes’ do que a capacidade crítica de um professor.

Tal situação é comentada por Militão e Leite (2013, p.9) em seu artigo que se referenciam em Paulo Freire, que afirma:.

 

Percebe-se como uma tal prática transpira autoritarismo. De um lado, nenhum respeito à capacidade crítica dos professores, a seu conhecimento, à sua prática; de outro, na arrogância com que meia dúzia de especialistas que se julgam iluminados elabora ou produz o ‘pacote’ a ser docilmente seguido pelos professores que, para fazê-lo, devem recorrer aos iguais. (FREIRE, 2001 apu.d Militão e Leite, 2013, p.71)[3][5].

​​  Segundo Paulo Freire:.

A melhora da qualidade da educação implica a formação permanente dos educadores. E a formação permanente se funda na prática de analisar a prática. É pensando sua prática, naturalmente com a presença pessoal altamente qualificada, que é possível perceber embutida na prática uma teoria não percebida ainda, pouco percebida ou já percebida, mas pouco assumida (FREIRE, 2001 apud Militão e Leite, 2013, p. 9)[3][5]..

Isto é, uma educação melhor se dá quando também a formação permanente dos educadores tem uma qualidade melhor. Essa formação permanente prioriza analisar as práticas que se dá com a presença pessoal intensamente qualificada.

A formação permanente dos professores não pode acontecer sem que seja conhecida a realidade vivenciada por eles, o desafio para ela acontecer é estar articulada com o progresso das organizações escolares. De acordo com Aguiar (2010, p. 3)[1], “O desfio está, portanto, em compreender a escola como um ambiente educativo, onde trabalhar e formar não sejam atividades isoladas, mas articuladas e inovadoras”. De acordo com Aguiar (2010, p. 3)[1], isso possibilita uma formação permanente com práticas reflexivas, ou seja, essa formação permanente auxilia os professores a ter consciência e compreensão da realidade e ajuda na elaboração de diferentes formas para confrontá-la.

Mas afinal, por que é necessária a formação continuada?

Podemos responder esta questão com base na obra Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, de Paulo Freire (1996)[2], na qual afirma que o educador (professor) exerce uma atividade que demanda estudo permanente, e seus estudos nos apresenta elementos constitutivos para a compreensão da prática docente enquanto dimensão social da formação humana. Nesse sentido, ensinar demanda inúmeras exigências para uma ação educativa e crítica.

Freire (1996)[2] acredita que não há docência sem discência, isto porque apesar de serem diferentes, nenhum se reduz ao estado de objeto, pois ambos aprendem e ensinam juntos, o docente tem que aprender a ensinar para então poder ensinar seus alunos, os discentes têm que compreender como se aprende para então conseguir absorver os conhecimentos transmitidos.

Segundo Freire (1996):.

 

[...] nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo. Só assim podemos falar realmente de saber ensinado, em que o objeto ensinado é apreendido na sua razão de ser e, portanto, aprendido pelos educandos (FREIRE, 1996, p.6)[2]..

 

Para Freire (1996, p.7)[2] cita: “Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino”. Ao professor, enquanto ensina seus alunos, é necessário sempre que continue pesquisando, pois, com o passar do tempo, as coisas vão se modificando e com elas novas condições para se ensinar, como cita Freire (1996, p.7)[2]: “Educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e para comunicar o novo”.

Gadotti (2003)[4] também defende a formação permanente, priorizando a importância da troca de experiências vivenciadas entre os professores:.

   

Quando os professores aprendem juntos, cada um pode aprender com o outro. Isso os leva a compartilhar evidências, informações e a buscar soluções. A partir daqui os problemas importantes das escolas começam a ser enfrentados com a colaboração de todos (GADOTTI, 2003, p.31)[4]

 

.Isto é, quando os professores participam da formação continuada, seja ela em rodas de conversas, cursos, etc., eles se permitem aprender uns com os outros. A troca de experiências que cada um viveu é de muita importância, quando os professores dialogam entre si e expõem suas experiências e problemas, podem juntos buscar as soluções mais coerentes para eles.

A formação permanente de Freire (1996)[2] se constrói sobre a base da ação reflexiva e dialógica, na qual se permite o processo de ação-reflexão-ação. Esse processo se dá quando o professor tem a sua prática e tem o tempo para refletir sobre ela e discutir com seus companheiros de trabalho formas de como melhorar suas práticas pedagógicas, assim quando essas ações refletidas em grupo, o professor pode voltar ao seu fazer pedagógico e implementar as melhorias discutidas.

A formação permanente de Freire é pautada em um tipo de formação que seja capaz de trazer transformações e causar mudanças de grande significado na educação brasileira. Os professores com formações permanentes de qualidade são os sujeitos que problematizam a educação e com isso buscam cada vez mais uma educação de mais qualidade.

Acredita-se que professores que são resultados da formação permanente na perspectiva de Freire, são os professores que estão a todo momento ligado com a reflexão crítica da realidade que presenciam.

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3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No município de Foz do Iguaçu, a Secretaria Municipal de Educação conta com um Núcleo de Tecnologia Educacional Municipal, que atua como agente de integração e socialização de informações administrativas e pedagógicas, ou seja, é um espaço que constitui uma rede de comunicação. A atuação do Núcleo de Tecnologia Educacional Municipal está ligada ao processo de formação continuada de docentes, fomentando o desenvolvimento da pesquisa e utilização de tecnologias nos processos educacionais ( https://ead.pti.org.br/ntm/). Esse núcleo tem se articulado com instituições de nível superior local para o desenvolvimento de alguns cursos de formação continuada para os professores da rede municipal.

Desde 2019, ano em que iniciei o trabalho na rede, as formações continuadas oferecidas pela Secretaria Municipal da Educação acontecem periodicamente, sempre sendo enviado cronograma previamente para nossa organização.

Normalmente as formações são realizadas no dia da hora atividade do professor, visto que os 33% determinados por lei, oferecidos aos professores, servem também para capacitação profissional. As formações oferecidas são sempre em torno de assuntos pedagógicos, para que possamos realizar a busca contínua por capacitações e conhecimentos que possam aprimorar a docência.

Ressalto também a parceria que o município possui com a Universidade Estadual do Oeste do Paraná –UNIOESTE da cidade, a qual desenvolve e participa de várias formações continuadas voltadas aos profissionais da rede. Inclusive desde o ano de 2022 até atualmente, todos os docentes da escola em que atuo foram convidados a participar de uma pós-graduação voltada para a educação do campo, visto que é a única escola que leva o Do Campo em sua nomenclatura. Nesta pós-graduação uma porcentagem das aulas acontece durante carga horária de trabalho e outra em horários alternados.

Visto isso, penso que a formação continuada, e, acima de tudo, permanente, dos professores se faz tão necessária, pois a sociedade está em constante evolução e com isso o professor tem a necessidade de estar sempre buscando as atualizações e aperfeiçoamentos para que sua prática em sala de aula possa acompanhar as mudanças que vão acontecendo na sociedade conforme o decorrer dos anos. Não somente pelas mudanças sociais, mas pelas questões que a formação inicial não abrange, considerando a prática pedagógica escolar e suas demandas.

A formação continuada é uma oportunidade de busca contínua por novos conhecimentos e experiências, visto que o ser humano nunca tem o conhecimento total de algo e com ela é possível estar sempre aprimorando os entendimentos e descobrindo novos saberes.

Acredito também que a busca por uma educação cada vez de melhor de qualidade é ininterrupta, o que auxilia uma grande melhoria na educação são formações iniciais de qualidade e formações continuadas mais eficientes, são ferramentas de extrema importância para esse objetivo.

Entendo que a formação inicial tem o seu valor relevante, porém ela por si só não sustenta o profissional em sua carreira, pois as demandas pedagógicas e nosso público, ou seja, nossos alunos mudam a todo tempo, novas práticas e métodos são desenvolvidos e o docente precisa estar por dentro para cada vez mais melhorar a sua prática. Penso que a junção da prática com a teoria, essa teoria em constante avanço e progresso e com as reflexões obtidas, as ideias e metodologias novas pensadas e aplicadas na prática, isso, sim ajudaria em passos mais largos chegarmos a uma educação melhor e de qualidade. E também, valorização deste professor diante ao trabalho honroso que tem realizado nas escolas públicas, que carecem de investimentos.

Com a formação continuada os professores podem aprender uns com os outros enquanto participam de treinamentos adicionais, como grupos de discussão e cursos. É muito importante que cada um compartilhe suas experiências vividas. Quando os professores conversam entre si e descobrem experiências e problemas, eles podem trabalhar juntos para encontrar as soluções mais coerentes. À medida que o professor valoriza sua prática (em sala de aula) e percebe na teoria (formação continuada) a relação entre os dois, será crítico quanto sua importância na educação e como sua ação atinge seus educandos.

Dentro dos anos trabalhados na rede pública de Foz do Iguaçu, a formação continuada contribuiu e têm contribuído muito para o meu melhor desenvolvimento profissional, as práticas e metodologias compartilhadas com os docentes de toda a rede nos incentiva a aplicá-las e buscar sempre melhores resultados, visando sempre o oferecimento de práticas pedagógicas de melhor qualidade para o meu educando.

Entendo que a formação inicial tem o seu valor relevante, porém ela por si só não sustenta o profissional em sua carreira, é nítido que a prática vivenciada no seu dia-a-dia agrega ao docente uma bagagem primordial que mesmo com toda a teoria que fosse adquirir na sua carreira agregaria, mas penso que a junção da prática com a teoria, essa teoria em constante avanço e progresso e com as reflexões obtidas, as ideias e metodologias novas pensadas e aplicadas na prática, isso sim ajudaria em passos mais largos chegarmos a uma educação melhor e de qualidade. E também, valorização deste professor diante ao trabalho honroso que tem realizado nas escolas públicas, que carecem de investimentos.

 

4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • AGUIAR, Maria da C. Carrilho de. O caráter simbólico e prático da formação permanente para professores. PUC-PR, 2010.

  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

  • FREIRE, Paulo. Biografia e Principais obras. Disponível em: <http://paulofreireufmg.blogspot.com.br/2010/06/biografia-e-principais-obras_24.html>. Acessado em: abril, 2023.

  • GADOTTI, M. Boniteza de um sonho: ensinar e aprender com sentido. Novo Hamburgo: Feevale, 2003. Ebook disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/boniteza.pdf>. Acessado em: abril, 2023.

  • MILITÃO, Andréia Nunes; LEITE, Y. U. F. A Historicidade do Conceito de Formação Continuada: uma análise da visão de Paulo Freire sobre a formação permanente. In: VII Congresso Brasileiro de História da Educação - Anais do VII Congresso Brasileiro de História da Educação. Cuiabá - MT: SBHE, 2013.

 

 

 

 

 

www.scientificsociety.net

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