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Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025
ARTIGO ORIGINAL
Luto não reconhecido em profissionais da saúde: o impacto invisível das perdas e o sofrimento de quem cuida
Júlia da Rocha Areal Monteiro1; Júlia de Moura Ramos2; Matheus Garcia Coelho3
Como Citar:
MONTEIRO, Júlia da Rocha Areal; RAMOS, Júlia de Moura; COELHO, Matheus Garcia. Luto não reconhecido em profissionais da saúde: o impacto invisível das perdas e o sofrimento de quem cuida. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 2100-2120, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025115018
DOI: 10.61411/rsc2025115018
Área do conhecimento:
Ciências da Saúde
Sub-área:
Psicologia
Palavras-chaves: Luto não reconhecido; Profissionais de saúde; Psicologia, Cuidado psicológico.
Publicado: 31 de outubro de 2025
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Resumo
O presente trabalho discute o luto não reconhecido em profissionais da saúde, destacando os impactos invisíveis das perdas vivenciadas por aqueles que exercem o cuidado. O luto, embora seja um processo natural e universal, apresenta diferentes formas de expressão e elaboração, influenciadas por fatores psicológicos, culturais e históricos. No ambiente da saúde, entretanto, o sofrimento decorrente da perda de pacientes frequentemente não é validado, configurando o fenômeno do luto não reconhecido. O objetivo deste estudo é discutir o luto não reconhecido e suas implicações para profissionais da saúde, evidenciando seus desdobramentos emocionais e ressaltando a relevância da atuação do psicólogo no acolhimento e na legitimação desse sofrimento. Trata-se de uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, fundamentada em produções científicas nacionais e internacionais pertinentes ao tema. Os estudos analisados indicam que o luto não reconhecido pode estar associado a consequências significativas, como esgotamento emocional, síndrome de Burnout e quadros depressivos, afetando a saúde mental dos profissionais e a qualidade da assistência prestada.
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Unrecognized grief in healthcare professionals: the invisible impact of losses and the suffering of caregivers
Abstract
This study discusses unacknowledged grief among healthcare professionals, highlighting the invisible impacts of losses experienced by those who provide care. Grief, although a natural and universal process, presents different forms of expression and elaboration, influenced by psychological, cultural, and historical factors. In healthcare settings, however, the suffering arising from patient loss is often unvalidated, constituting the phenomenon of unacknowledged grief. The objective is to understand how this type of grief affects the emotional and professional lives of healthcare workers, emphasizing the relevance of the psychologist’s role in providing support and legitimizing such suffering. This work is a qualitative literature review, based on relevant national and international scientific publications. The analyzed studies indicate that unacknowledged grief may be associated with significant consequences, such as emotional exhaustion, Burnout syndrome, and depressive symptoms, impacting both professionals’ mental health and the quality of care provided.
Keywords: Unrecognized grief; Health professionals; Psychology; Psychological care.
Introdução
O luto é um fenômeno universal e inevitável, presente em diferentes culturas e períodos históricos, cuja vivência é singular para cada indivíduo. Trata-se de um processo psicológico, social e cultural que envolve reações emocionais intensas diante de perdas significativas. A forma como o luto é experienciado está relacionada não apenas às características pessoais do enlutado, mas também aos aspectos culturais, sociais e institucionais que permeiam o contexto em que ocorre. Assim, ainda que se trate de uma experiência intrinsecamente humana, a maneira como cada sociedade valida ou silencia esse sofrimento influencia diretamente a possibilidade de sua elaboração saudável.
No contexto da saúde, o luto adquire contornos particulares, pois profissionais que lidam cotidianamente com a morte de pacientes enfrentam perdas constantes, muitas vezes não reconhecidas socialmente ou institucionalmente. Essa experiência configura o fenômeno chamado Luto Não Reconhecido [8.], que ocorre quando o sofrimento do enlutado não encontra respaldo social, cultural ou organizacional, impedindo a vivência de rituais, a validação de vínculos ou a legitimação da dor. Em outras palavras, trata-se de um luto que permanece invisível, apesar de seus impactos profundos na vida emocional e profissional de quem cuida.
A relevância deste estudo justifica-se pelo impacto silencioso e, muitas vezes, ignorado que o luto não reconhecido pode gerar nos profissionais da saúde. A ausência de espaços de escuta, de rituais de despedida e de validação social favorece o surgimento de sofrimentos psíquicos como a síndrome de Burnout, quadros depressivos, esgotamento emocional e até sintomas ansiosos. Esses desdobramentos não afetam apenas a saúde mental dos trabalhadores, mas reverberam na qualidade do cuidado oferecido, comprometendo a humanização das práticas e reforçando a lógica de um trabalho automatizado e tecnicista.
Soma-se a isso a cultura institucional presente em muitos serviços de saúde, que tende a valorizar a objetividade técnica em detrimento da expressão emocional. Tal postura, embora justificada pela busca de eficiência, contribui para o silenciamento do sofrimento, reforçando um ambiente de distanciamento afetivo e desumanização da prática profissional. Profissionais são incentivados a “seguir em frente” sem espaço para elaborar suas perdas, o que gera acúmulo de dores não reconhecidas ao longo da carreira. É valido pontuar que tal contexto exige atenção, sobretudo porque a literatura aponta que trabalhadores da saúde estão entre os grupos mais vulneráveis a transtornos mentais relacionados ao estresse ocupacional [19.].
No Brasil, a realidade da saúde pública e privada impõe desafios adicionais, como sobrecarga de trabalho, escassez de recursos e precarização das condições laborais. Esses fatores, quando somados à invisibilidade do luto, tornam-se potenciais desencadeadores de adoecimento psíquico. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde [29.] indicam que profissionais da área da saúde apresentam índices elevados de ansiedade, depressão e Burnout, especialmente após a pandemia de COVID-19, que intensificou os vínculos, as perdas e o enfrentamento com a morte em larga escala. Nesse sentido, compreender o luto não reconhecido nesse grupo é também compreender a manutenção da saúde mental de uma categoria essencial para a sociedade.
Diante desse cenário, o objetivo do presente trabalho é discutir o fenômeno do luto não reconhecido em profissionais da saúde, destacando seus impactos emocionais e institucionais e refletindo sobre a importância da atuação do psicólogo no acolhimento e na legitimação desse sofrimento. Ao trazer luz a esse tema, pretende-se contribuir para ampliar as discussões sobre saúde mental dos trabalhadores da saúde, promovendo a valorização de práticas humanizadas que considerem a finitude como parte integrante do cuidado, ao mesmo tempo em que reconheçam a necessidade de oferecer suporte a quem cuida.
Metodologia
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de Revisão Bibliográfica de natureza qualitativa, com o objetivo de discutir o luto não reconhecido e suas implicações para profissionais de saúde. A coleta de dados foi realizada em diversas bases e repositórios digitais, assim como também Scribd, Scielo, Revista Akrópolis Unipar, Organização Mundial da Saude (OMS), Google Acadêmico, Researchgate, Google Livros, Pepsic e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e sua versão Revisada e Atualizada (DSM 5-TR) da American Psychiatric Association, utilizado para referencial clínico, garantindo ampla diversidade de materiais relevantes e fundamentação técnica adequada.
O estudo foi estruturado em três subtemas, sendo: I) Luto: Aspectos psicológicos, suas fases e tipologias; II) A influência da cultura e da história na construção do luto e no fenômeno do luto não reconhecido; III) O sofrimento do profissional enlutado e a atuação do psicólogo. Espera-se que esta pesquisa fortaleça a compreensão de que cuidar de quem cuida não é apenas uma medida de proteção individual, mas também uma estratégia fundamental para a manutenção da qualidade assistencial e para a construção de instituições mais humanas e sensíveis ao sofrimento.
A busca bibliográfica foi conduzida de forma sistemática, utilizando descritores específicos, tais como: “Luto não reconhecido”; “Profissionais de saúde”; “Saúde mental”, “Impactos emocionais”, e “Atuação do psicólogo”, de modo a identificar publicações pertinentes aos objetivos da pesquisa.
Para a seleção dos artigos, priorizaram-se publicações recentes, entretanto, também foram incluídos estudos pioneiros, em virtude de sua relevância histórica e conceitual para a temática. A pesquisa foi desenvolvida no período de Maio a Agosto de 2025, garantindo um levantamento atualizado e criterioso da literatura disponível.
Foram considerados para exclusão materiais, como artigos, dissertações e publicações que não abordassem diretamente a temática do estudo. Em particular, foram descartados aqueles que se tratavam de “luto infantil”, processos de luto que não envolvessem os impactos em profissionais de saúde, e qualquer luto sem relação com a área da saúde e impactos na saúde mental, garantindo que a seleção bibliográfica fosse estritamente relevante para a pesquisa das consequências emocionais da perda, o luto não reconhecido e questões correlatas.
Para sistematizar e evidenciar as produções teóricas que embalaram está revisão bibliográfica, elaborou-se o Quadro 1, que apresenta as principais obras e autores utilizados na construção do referencial teórico.
Quadro 1: Referências utilizadas na revisão bibliográfica
Autor(es)/Ano | Título da Obra ou Artigo | Tipo de Estudo / Obra | Principais Contribuições | Relação com o Tema do TCC |
Kenneth Doka (1999, 2002, 2022) [10.,8.,9.] | Disenfranchised Grief: Recognizing Hidden Sorrow | Obra teórica internacional | Introduz o conceito de luto não reconhecido e suas implicações sociais e emocionais. | Fundamenta o eixo conceitual central do TCC, definindo o fenômeno investigado. |
Maria Júlia Kovács (1992, 2005) [16.,14.] | Morte e desenvolvimento humano; Educação para a morte | Obra teórica nacional | Discute a educação para a morte e o papel do psicólogo frente à finitude. | Sustenta o papel da psicologia na legitimação do sofrimento e humanização do cuidado. |
Elisabeth Kübler-Ross & David Kessler (2005) [18.] | Sobre a morte e o morrer | Obra clássica sobre o processo de luto | Apresenta as fases do luto e a importância do acolhimento psicológico. | Oferece base conceitual para a análise das reações emocionais diante da perda. |
Maslach, Schaufeli & Leiter (2001) [19.] | Job Burnout | Estudo teórico-empírico internacional | Aborda o esgotamento emocional e o impacto psicológico do trabalho em saúde. | Conecta o luto não reconhecido à síndrome de Burnout e ao sofrimento psíquico. |
Freitas & Oliveira (2010) [12.] | Os impactos emocionais sofridos pelos profissionais de psicologia frente à morte em contexto hospitalar | Estudo empírico nacional | Analisa reações emocionais de psicólogos diante da morte de pacientes. | Reforça a necessidade de suporte psicológico e espaços de escuta no contexto hospitalar. |
Fonseca (2001) [11.] | Luto Antecipatório | Obra teórica nacional | Explora o conceito de luto antecipatório e suas dimensões emocionais. | Amplia a compreensão sobre as diferentes manifestações do luto entre profissionais da saúde. |
Mendes, Lustosa & Andrade (2009) [20.] | O psicólogo em equipes multidisciplinares de saúde: atuação frente ao processo de morrer | Estudo teórico | Analisa a função do psicólogo na equipe de saúde diante da morte. | Fundamenta a discussão sobre o papel do psicólogo como mediador do sofrimento institucional. |
Organização Mundial da Saúde – OMS (2022) [29.] | Our Duty of Care: A Global Call to Action to Protect the Mental Health of Health and Care Workers | Relatório técnico internacional | Aponta dados sobre saúde mental e Burnout entre profissionais de saúde pós-pandemia. | Atualiza o contexto empírico sobre o adoecimento psíquico dos trabalhadores da saúde. |
Philippe Ariès (2012) [3.] | A morte na cultura ocidental | Obra histórica | Analisa a evolução cultural da relação com a morte na sociedade ocidental. | Contextualiza o silenciamento cultural da morte e o surgimento do luto não reconhecido. |
Thomas Attig (2004) [4.] | Living and Dying: The Social Psychology of Loss and Grief | Obra teórica | Discute a dimensão social e psicológica do luto e da perda. | Contribui para compreender o caráter socialmente construído do luto. |
Fonte: Elaborado pela Autora (2025), com base em Doka [10.,8.,9.], Kovács [16.,14.], Kübler-Ross e Kessler [18.], Maslach, Schaufeli e Leiter [19.] entre outros.
Desenvolvimento e discussão
Luto: aspectos psicológicos, suas fases e tipologias.
O luto é uma resposta emocional e psicológica comum à perda de algo ou alguém que tem importância na vida de um indivíduo, sendo na maior parte das vezes ligado à morte de um ente querido. Segundo Barbosa [5.], o luto, que surge do fim de um vínculo afetivo, traz um processo complexo com mudanças e transformações que afeta diferentes áreas da vida de um sujeito.
O processo de luto é muito pessoal, mudando entre as pessoas, que podem mostrar diferentes maneiras para lidar com a perda e se ajustar a ela. O Luto envolve várias partes, as emocionais, cognitivas e comportamentais, que afetam diretamente como o enlutado vive a experiência. Conforme Worden [28.], o luto não é um caminho reto, mas sim difícil e com muitas facetas precisando que cada indivíduo descubra seu próprio modo de se adaptar à perda.
No entanto, o luto pode ser desencadeado por outras formas de ruptura, como separações, diagnósticos de doenças graves ou mudanças significativas na vida. De acordo com o DSM 5 [2.] o processo de luto é caracterizado por sentimentos de vazio e perda, envolvendo também uma série de reações emocionais, como tristeza, raiva pela perda, negação da morte, sentimento de vazio e diversas dificuldades em atividades cotidianas, relacionamentos e futuro. Esse processo é também influenciado por fatores como a personalidade, as crenças culturais, a intensidade do vínculo com o que foi perdido e o contexto em que a separação ocorre.
O luto é uma resposta natural à perda, marcada por uma série de reações emocionais que variam de pessoa para pessoa. Embora frequentemente associado à morte, ele também pode surgir diante de outras mudanças significativas, exigindo tempo e apoio para a adaptação. [18.]
Embora o falecimento de alguém próximo seja uma experiência inerente à condição humana, ela pode constituir um processo complexo, com repercussões tanto emocionais quanto físicas para o indivíduo enlutado. As manifestações do luto variam amplamente, não havendo um tempo definido para sua elaboração. Em casos de intensidade prolongada, o luto pode exigir suporte psicológico para auxiliar o indivíduo na adaptação ao sofrimento e na reorganização de sua vida. Trata-se de um fenômeno pessoal, mas de caráter universal, que demanda compreensão, apoio social e, quando necessário, intervenções terapêuticas, visando promover a resiliência e a reintegração do sujeito à nova realidade imposta pela ausência.
Diante de variáveis contribuições a respeito das análises no campo do luto, destacamos a autora Kubler-Ross para a definição das fases do luto.
Tabela 1: Fases do luto a partir dos estudos de Elisabeth Kubler-Ross [17.]
1. Negação e Isolamento | No estágio inicial, a negação e o isolamento atuam como um mecanismo de defesa temporário, amenizando o impacto da perda. Essa reação envolve a recusa em aceitar a realidade, especialmente quando a notícia da morte é recebida de forma abrupta. Embora seja o primeiro estágio do luto, pode se manifestar em outros momentos do processo. |
2. Raiva | Corresponde ao segundo estágio, é quando a pessoa expressa sua revolta diante da perda. Nesse momento, pode surgir agressividade, além da busca por culpados e questionamentos como "Por que ele?", em uma tentativa de aliviar a dor e a indignação causadas pela situação. |
3. Barganha | A berganha, presente no terceiro estágio da reação à perda, representa uma tentativa de negociar ou adiar os temores diante da situação. Nesse momento, as pessoas procuram estabelecer acordos com figuras que, de acordo com suas crenças, poderiam intervir na situação. Geralmente, essas promessas e negociações são dirigidas a Deus ou aos profissionais de saúde responsáveis pelo acompanhamento. |
4. Depressão | No quarto estágio do luto, pode ser dividida em dois tipos: reativa e preparatória. A depressão reativa surge como resposta a perdas secundárias decorrentes da morte, como a perda de um emprego, dificuldades financeiras ou mudanças nos papéis familiares. Já a depressão preparatória indica a aproximação da aceitação, momento em que a pessoa se recolhe, refletindo sobre o impacto da perda em sua vida e sobre sua própria trajetória. |
5. Aceitação | Nesse estágio, a pessoa se torna mais serena diante da realidade da morte. É um momento em que consegue expressar com mais clareza seus sentimentos, emoções, frustrações e desafios. Quanto maior a negação ao longo do processo, mais difícil pode ser alcançar essa fase. Vale destacar que esses estágios não seguem uma ordem rígida e podem variar de acordo com a experiência individual de cada pessoa. |
Fonte: Kübler-Ross [17.].
Além dessas fases, existem os tipos de luto e ao começar a pontuar os tipos, neste presente artigo destacaremos três dos mais comuns e frequentes. Podemos citar em primeiro momento, o mais grave denominado como Luto Prolongado. Convém destacar que o mesmo é diagnosticado a partir do momento que o luto vira um problema de saúde. O Luto Prolongado, no começo, partilha alguns dos sintomas do luto normal, mas em vez de diminuir com o tempo, persiste e se agrava após doze meses (12) da morte do ente querido [1.]. Ele é marcado por uma saudade forte da pessoa que partiu, descrença sobre a morte, dor emocional (raiva, tristeza, amargura), dificuldade em relacionamentos (solidão), preocupação excessiva, lembranças com o falecido [23.,24.].
Além disso, inclui-se culpa extrema, falta de significado na vida querendo ter morrido em vez do outro e dificuldade em aceitar a realidade da morte [25.]. Também podem aparecer sinais físicos como dor, agitação, mudanças no sono e cansaço [27.]. Outro ponto importante quando se fala do Luto Prolongado é a diferença que deve ser feita entre o Luto Prolongado e o Episódio Depressão Maior (EDM).
Segundo o Manual DMS 5-TR [1.], para diferenciar o Luto Prolongado do Episódio de Depressão Maior, é bom ver que no luto prevalecem sentimentos vazio e perda, já no EDM existe um humor deprimido e de não ser capaz de se sentir bem novamente. Na dor do luto, a emoção vem em ondas ligadas a lembranças do falecido, enquanto no EDM a tristeza é constante, sem precisar de eventos específicos. Também o luto pode ter momentos de felicidade; enquanto no Episodio Depressivo Maior há uma desesperança generalizada. No luto pensa-se sobre quem perdeu, e no episódio maior de depressão fica-se ruminando os erros passados e/ou o pessimismo sobre o futuro, além de um forte sentimento de inutilidade. Quando há pensamentos na morte, no luto se há o desejo de se reunir ao falecido, enquanto no EDM estão mais ligados com um desejo de parar com o próprio sofrimento por se sentir indigno e incapaz.
Outro tipo relevante a se comentar é o Luto Antecipatório, Fonseca [11.] é o processo pelo qual familiares e pessoas próximas começam a vivenciar, elaborar e se adaptar emocionalmente à ausência de alguém querido antes que a morte ocorra. Ele enfatiza que esse luto envolve dimensões intrapsíquicas, interacionais e sociais, permitindo que os indivíduos reconheçam a perda iminente. Esse processo emocional também é descrito por Kovács [16.] como uma antecipação da perda vivida por quem está próximo do outro, que começa a sofrer pela desvinculação enquanto a pessoa ainda está viva.
Por fim, é importante mencionar o Luto Normal. Segundo Parkes [22.] diz que o Luto Normal é compreendido como uma reação saudável a um evento difícil, como a perda grande e significativa de uma pessoa. Ele pensa que uma ação saudável ao luto inclui a capacidade de uma pessoa expressar suas emoções verdadeiramente, seja por reconhecer a finitude, se adaptar às novas situações ou investir em novos laços afetivos. Esse processo de adaptação é muito importante para a recuperação emocional, deixando ao enlutado dar sentido à perda, reorganizar sua vida e, ao fim restabelecer um equilíbrio emocional.
A influência da cultura e da história na construção do luto e no fenômeno do luto não reconhecido.
Atualmente, entende-se a morte como um processo contínuo, capaz de desencadear respostas emocionais significativas tanto no indivíduo que está morrendo quanto em seus familiares e cuidadores [14.]. Na cultura ocidental contemporânea, especialmente a partir do século XX, a morte passou a ser tratada como um evento silencioso, cercado por tabus, muitas vezes associada ao fracasso da medicina e à perda do controle sobre a vida [3.].
A cultura exerce influência significativa na maneira como o luto é vivenciado, expressado e compreendido. Ainda segundo o autor, historicamente, as sociedades ocidentais experimentaram mudanças profundas na relação com ao falecimento. Durante a idade Média a morte era uma presença cotidiana, integrada aos rituais religiosos e à vida social, marcada por manifestações públicas de dor e ritos de despedida que legitimavam o sofrimento coletivo. Com o avanço da modernidade, a medicalização e institucionalização da morte deslocaram esse processo para espaços hospitalares, promovendo o seu ocultamento e a privatização do luto, o que contribuiu para a transformação das práticas culturais em torno da perda.
Na Idade Média, a morte era, em certo sentido, incorporada à vida, sendo algo conhecido, familiar e parte integrante do cotidiano social. Com a modernidade, ela se torna um evento afastado, invisível e cercado de tabus. [3., p. 56]
Segundo Klass, Silverman e Nickman [13.], o luto deve ser compreendido como um fenômeno socialmente construído, onde rituais e símbolos tradicionais desempenham um papel crucial na facilitação e adaptação à perda. Esses rituais auxiliam o coletivo e o indivíduo a expressar emoções, preservar a memória do falecido e reintegrar-se à vida social. Portanto, a ausência ou negação desses costumes pode dificultar a vivência do luto. Além disso, a antropóloga Margaret Stroebe [26.] enfatiza que as normas culturais definem quem tem direito ao luto, como deve ser manifestado e por quanto tempo.
As normas culturais regulam não apenas como e por quanto tempo o luto deve ser expressado, mas também quem tem permissão para sentir e manifestar o luto. Quando essas normas são violadas, os enlutados podem ser marginalizados ou desacreditados. [26., p. 102]
Quando o sofrimento não está alinhado com essas regras, o enlutado pode ser marginalizado, o que está diretamente relacionado a noção de Luto Não Reconhecido. Kenneth Doka [8.] desenvolveu este conceito para descrever situações em que o sofrimento decorrente da perda não recebe validação social, impedindo que a pessoa em processo de luto tenha acesso ao suporte e aos rituais necessários para a elaboração da sua dor.
O Luto Não Reconhecido trata-se de um tipo de luto que não encontra espaço legítimo de expressão no contexto social, seja porque a perda não é validada socialmente, seja porque a pessoa enlutada não é reconhecida como alguém com o “direito” de sofrer. Em outras palavras, o fenômeno Luto Não Reconhecido é caracterizado pela ausência de praticas de despedidas, suporte social e aceitaçao emocional, impedindo que quem o vivencia compartilhe a dor ou receba o acolhimento que precisa naquele momento. Doka [8.] ainda descreve cinco circunstâncias em que o luto tende a não ser reconhecido socialmente: (1) quando a relação com o falecido não é socialmente validada; (2) quando a perda em si não é reconhecida; (3) quando a morte não é compreendida como significativa; (4) quando a forma de enlutamento não é aceita culturalmente; e (5) quando a própria pessoa enlutada não é reconhecida como autorizada para expressar o sofrimento. Esta última categoria sendo o foco do presente trabalho, por sua relevância no campo da saúde.
As transformações culturais que levaram ao silenciamento da morte e ao enfraquecimento dos rituais tradicionais acarretaram também na invisibilidade de diversos tipos de perdas e lutos. Além das perdas causadas pela morte, outros tipos, como separações, desemprego, adoção, e perdas simbólicas, muitas vezes não são reconhecidos pelo coletivo [4.]. Essa negligência perceptiva aumenta o risco de sofrimento psíquico não elaborado.
No âmbito dos profissionais da saúde, essa questão se agrava, uma vez que o ambiente hospitalar tende a valorizar a objetividade e a eficiência técnica, em detrimento da expressividade afetiva, gerando uma cultura que dificulta o reconhecimento do luto [6.]. O luto não reconhecido nesse contexto pode levar a consequências negativas para a saúde mental dos profissionais, como Burnout e outras síndromes associadas ao estresse crônico [19.].
Portanto, compreender a influência da cultura e da história na construção do luto é fundamental para o desenvolvimento de práticas psicológicas e institucionais que promovam a legitimação do sofrimento, o acolhimento emocional e a humanização dos processos de ruptura. Romper com os estigmas e tabus na temática da morte e do luto possibilita a criação de espaços onde todas as formas de perda possam ser vivenciadas e elaboradas, respeitando as particularidades de cada indivíduo e contexto cultural.
O sofrimento do profissional enlutado e atuação do psicólogo.
Ao começar a discutir o sofrimento dos profissionais de saúde e o papel do psicólogo no suporte aos que vivenciam uma perda, vale ressaltar que o luto é uma experiência que atravessa qualquer sujeito até mesmo Psicólogos. Segundo Ortiz et al. [21.], os profissionais de saúde são responsáveis por promover a saúde, prevenir doenças, realizar campanhas educativas e cuidar da população em todas as etapas da vida, desde a infância até a terceira idade. Durante a internação, esses profissionais criam vínculos com pacientes e familiares, porém, após o falecimento, a equipe frequentemente vivencia sentimentos de culpa e frustração, precisando, ainda assim, recompor-se para dar continuidade às suas funções. Muitas vezes, esses profissionais não dispõem de tempo para processar suas emoções relacionadas à morte e raramente buscam apoio psicológico, ao qual é fundamental para refletir sobre os impactos desse processo em sua saúde mental, desempenho e bem-estar.
Freitas e Oliveira [12.] ressaltam que, embora a morte seja um elemento inerente à vida, ela pode comprometer negativamente a qualidade de vida dos profissionais que a enfrentam constantemente. Eles destacam que as reações diante da fase terminal variam: alguns profissionais mantêm uma postura técnica e objetiva, enquanto outros apresentam fragilidades emocionais evidentes.
Nesse cenário é importante discutir a exaustão emocional, esta caracterizada pelo desgaste progressivo resultante da convivência contínua com o sofrimento, que pode desencadear a síndrome de Burnout, afetando a motivação e a capacidade de estabelecer vínculos terapêuticos eficazes. A Síndrome de Burnout refere-se a um estado de esgotamento físico e emocional decorrente da exposição contínua a estressores psicossociais no contexto de trabalho. Esse desgaste é provocado por uma vivência direta, intensa e prolongada dessas condições, o que pode comprometer a eficiência no desempenho das atividades diárias e repercutir negativamente em outras áreas da vida do profissional [7.]. Adicionalmente, a depressão é uma consequência, manifestando sintomas descritos no DSM, frequentemente negligenciados pelos próprios profissionais.
O automatismo, enquanto mecanismo defensivo, pode conduzir ao desempenho mecânico e distante das tarefas, comprometendo a humanização do cuidado. Diante disso, Kovács [15.] contribui dizendo que o contato do profissional de saúde com a morte é cada vez mais frequente, e, por isso a presença e o olhar acolhedor da psicologia torna-se essencial nesse contexto:
Se a morte é uma preocupação universal do homem, e a psicologia estuda a relação do homem com mundo, então a morte deveria ser área de preocupação primordial da psicologia, como campo de estudo e como prática profissional. [15., p. 229]
No que tange à atuação do psicólogo frente ao sofrimento dos profissionais enlutados, ressalta-se seu papel fundamental nas equipes multidisciplinares de saúde. O psicólogo auxilia na preparação desses profissionais para enfrentar a morte de maneira integrada, reconhecendo-a como parte do ciclo da vida e do cuidado a pacientes sem possibilidade de cura. Mendes, Lustosa e Andrade [20.] destacam que o psicólogo contribui para a redução das tensões internas oriundas da prática profissional diante do morrer, promovendo a aplicação de técnicas psicoterapêuticas que favorecem a restauração do equilíbrio emocional.
Kovács [16.] afirma que a atuação do psicólogo extrapola o acolhimento emocional, abrangendo a educação e o desenvolvimento de estratégias no processo de adaptação da morte e do luto, temas comumente negligenciados nas equipes de saúde. A intervenção psicoterapêutica propicia um ambiente seguro para a expressão das emoções, a elaboração do sofrimento e o restabelecimento da humanização do cuidado, frequentemente prejudicada pelo desgaste psicológico. A função educativa do psicólogo é igualmente essencial, orientando sobre os processos de luto, normalizando as reações emocionais e combatendo o estigma relacionado à vulnerabilidade no ambiente hospitalar [20.]. Essa atuação facilita a elaboração do luto, fortalece os vínculos entre os profissionais e melhora o ambiente de trabalho, refletindo na qualidade do atendimento prestado.
Maslach, Schaufeli & Leiter [19.] apontam que o profissional de psicologia contribui tambem na atuação preventiva e na redução dos efeitos da síndrome de Burnout, intervindo sobre o estresse crônico e fomentando a resiliência e o autoconhecimento dos profissionais. Em suma, o psicólogo exerce papel imprescindível na humanização do cuidado em saúde, reconhecendo a finitude da vida e apoiando os profissionais na construção do equilíbrio emocional necessário para o desempenho competente e sensível de suas funções no cuidar.
Segundo Kovács [14.], o psicólogo contribui com a equipe por meio da orientação acerca da finitude e da trajetória do luto, visto que muitos profissionais adoecem em função do sofrimento acumulado e não elaborado. Portanto, o tema não deve ser ocultado, mas abordado com sensibilidade e humanização.
Considerações finais
O percurso desta pesquisa evidenciou que o luto não reconhecido em profissionais da saúde ultrapassa a dimensão individual e se projeta como um fenômeno institucional, cultural e socialmente negligenciado. A rotina de perdas vivenciadas nesses ambientes, somada à ausência de espaços de escuta e de validação emocional, produz um sofrimento silencioso, mas profundamente enraizado, que compromete não apenas a saúde mental dos trabalhadores, como também a qualidade da assistência prestada a quem busca o cuidado deles. Reconhecer esse luto é, portanto, mais do que um gesto de cuidado: é um imperativo ético, social e humano diante de quem dedica sua vida ao cuidado do outro.
Ao longo do estudo, constatou-se que o profissional de saúde é constantemente convocado a sustentar a dor alheia sem dispor de um espaço legítimo para elaborar a própria. A cultura institucional, marcada pela valorização da técnica e pela negação da vulnerabilidade, reforça a invisibilidade do sofrimento, como se a expressão emocional fosse incompatível com a competência profissional. Essa lógica, contudo, mostra-se não apenas desumana, mas contraproducente, pois o acúmulo de lutos não elaborados se manifesta em quadros de exaustão, Burnout, depressão e afastamentos. Dessa forma, ao não reconhecer a vulnerabilidade de seus trabalhadores, as instituições e a sociedade acabam reforçando um ciclo de adoecimento que fragiliza o próprio sistema de saúde.
A psicologia surge, nesse contexto, como mediadora fundamental, oferecendo acolhimento, promovendo a ressignificação da experiência de perda e favorecendo a humanização do cuidado. A presença ativa do psicólogo nas equipes de saúde não deve ser vista como algo secundário ou emergencial, mas como parte constitutiva da prática assistencial. Cuidar de quem cuida é, afinal, uma estratégia de preservação da vida, da dignidade e da qualidade dos vínculos estabelecidos entre profissionais e pacientes. Mais do que um suporte terapêutico, trata-se de um investimento ético, institucional e social, capaz de proteger não apenas o indivíduo, mas também a coletividade que depende da saúde pública e privada.
Conclui-se que, apesar de sua relevância, o tema do luto não reconhecido, ainda permanece marginalizado tanto nas formações acadêmicas quanto nas políticas institucionais de saúde. Discute-se pouco sobre a morte nas universidades, e menos ainda sobre os impactos emocionais que ela provoca em quem está na linha de frente do cuidado. A ausência de protocolos institucionais para lidar com essas perdas revela o quanto ainda precisamos avançar no reconhecimento da dimensão humana do trabalho em saúde. Esse silenciamento, além de gerar sofrimento psíquico, perpetua uma lógica mecanicista de trabalho, na qual o profissional é valorizado apenas pela sua produtividade, e não pela sua integridade enquanto ser humano.
Humanizar o cuidado significa, também, legitimar a dor de quem cuida. É preciso que as instituições abram espaços de fala, criem dispositivos de apoio psicológico contínuo e implementem práticas coletivas de elaboração simbólica das perdas. Pequenos gestos, como rituais de despedida, rodas de conversa ou acompanhamento psicológico regular, podem se tornar marcos de reconhecimento e validação. Mais do que técnicas, são expressões de humanidade. Além disso, urge repensar a formação acadêmica dos profissionais de saúde, de modo que as temáticas da morte e do luto não sejam tratadas como exceções, mas como parte constitutiva do processo de cuidar. A sensibilidade diante da finitude não enfraquece a prática técnica; pelo contrário, potencializa sua eficácia, promovendo uma atuação mais completa e compassiva. Enfrentar o luto não reconhecido requer, portanto, coragem institucional, demandando esforços coletivos para romper o silêncio que frequentemente envolve a vulnerabilidade dos profissionais. Ao validar esse sofrimento, a organização não apenas contribui para a preservação da saúde mental de seus colaboradores, mas também reafirma que o cuidado constitui, antes de tudo, um ato humano, atravessado pela finitude e pela sensibilidade.
O reconhecimento do direito ao luto implica reconhecer o direito ao cuidado integral, estendido tanto aos pacientes quanto àqueles que, cotidianamente, se encontram na fronteira entre a vida e a morte. Assim, este estudo conclama à reflexão: por quanto tempo ainda se permitirá que profissionais que dedicam-se ao cuidado enfrentem suas dores em silêncio? A resposta a essa pergunta não pode ser adiada, pois dela depende não apenas a integridade dos profissionais, mas a própria possibilidade de um sistema de saúde verdadeiramente humano.
É tempo de transformar a invisibilidade em reconhecimento, o silêncio em escuta e a dor solitária em experiência compartilhada. Afinal, cuidar de quem cuida não é apenas uma escolha política e profissional, mas sobretudo um compromisso inadiável.
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Centro Universitário Uniredentor-Afya, Itaperuna, Brasil. Email:
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