Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025
ARTIGO ORIGINAL
Perda gestacional: o amor ainda estava lá
Mileni Almeida Botelho1; Maria Clara Soares Salengue2; Myriam Siqueira da Cunha3; Marcia Giusti Miller4;
Como Citar:
BOTELHO, Mileni Almeida; SALENGUE, Maria Clara Soares; CUNHA, Myriam Siqueira da; MILLER, Marcia Giusti. Perda gestacional: o amor ainda estava lá. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 1120-1149, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025102918
DOI: 10.61411/rsc2025102918
Área do conhecimento:
Ciências Humanas
Palavras-chaves: Gestação de Alto Risco; Maternidade; Psicologia.
Publicado: 3 de junho de 2025.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Resumo
A maternidade é um fenômeno singular, subjetivo e, nesse sentido, pode ser permeada por intensas mudanças, desejos e abdicações. Dessa forma, em algumas situações, essa experiência constitui-se como uma vivência solitária e implicada em diversos lutos. O processo de tornar-se mãe fica ainda mais complexo quando a vivência da gestação é interrompida precocemente pela morte, visto que a mulher vivencia, então, duas perdas: a do filho e a do papel materno em construção. Dessa forma, o objetivo da presente pesquisa foi compreender a experiência de perda gestacional e os significados atribuídos a essa experiência. Como metodologia, optou-se pela pesquisa fenomenológica hermenêutica, de abordagem qualitativa. Os dados foram coletados por Entrevista em Profundidade, o que possibilitou estabelecer conexões cognitivas e emocionais sobre a experiência vivida e os significados atribuídos, produzindo novas compreensões sobre o fenômeno vivenciado. A participante da pesquisa foi uma mulher que viveu uma perda gestacional. A análise e a interpretação dos dados ocorreram a partir da redução do volume de informações e da construção da estrutura da experiência vivida para revelar a essência do fenômeno. Como conclusão, nesse processo emergiram três unidades de significados: “Alguém para se lembrar: naquele momento era tudo”, “Tenho medo de ser um só: a minha não nasceu” e “Para você viver mais: achava que seria impossível”, que formam a estrutura do tema fenomenológico “O amor ainda estava lá”. Esse tema representa a essência do fenômeno vivido pela participante da pesquisa, em relação à sua experiência de perda gestacional.
…..
Gestational loss: love was still there
.
Abstract
Motherhood is a singular and subjective phenomenon and, in this sense, can be permeated by intense changes, desires and abdications. Thus, in some situations, this experience is a solitary one and involves several types of mourning. The process of becoming a mother becomes even more complex when the experience of pregnancy is interrupted prematurely by death, since the woman then experiences two losses: that of the child and that of the maternal role that is being constructed. Thus, the objective of this research was to understand the experience of pregnancy loss and the meanings attributed to this experience. The methodology chosen was hermeneutic phenomenological research, with a qualitative approach. The data were collected through in-depth interviews, which made it possible to establish cognitive and emotional connections about the experience and the meanings attributed, producing new understandings about the phenomenon experienced. The research participant was a woman who experienced pregnancy loss. Data analysis and interpretation were performed based on the reduction of the volume of information and the construction of the structure of the lived experience to reveal the essence of the phenomenon. In conclusion, three units of meaning emerged from this process: “Someone to remember: At that moment it was everything”, “I’m afraid of being alone: Mine wasn’t born” and “For you to live longer: I thought it would be impossible”, which form the structure of the phenomenological theme “Love was still there”. This theme represents the essence of the phenomenon experienced by the research participant, in relation to her experience of pregnancy loss.
Keywords: High Risk Pregnancy; Maternity; Psychology.
.
1. Introdução
CANÇÃO PARA VOCÊ VIVER MAIS
Nunca pensei um dia chegar
E te ouvir dizer
Não é por mal
Mas vou te fazer chorar
Hoje vou te fazer chorar
Não tenho muito tempo
Tenho medo de ser um só
Tenho medo de ser só um
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar
Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
Deixei que tudo desaparecesse
E perto do fim
Não pude mais encontrar
O amor ainda estava lá
O amor ainda estava lá
Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
Faz um tempo eu quis
Faz um tempo eu quis
Você viver mais
Você viver mais
Você viver mais
Você viver mais
Você viver mais
Você viver mais
(Pato Fu)
A maternidade é um fenômeno singular e subjetivo, podendo ser permeada por intensas mudanças, desejos e abdicações. Dessa forma, em algumas situações, essa experiência constitui-se como uma vivência solitária e implicada em diversos lutos. Historicamente, a maternidade foi se constituindo a partir de idealizações, repercutindo de forma significativa sobre a identidade feminina e o ideal de amor materno.
Essa construção sociocultural gerou exacerbada responsabilidade perante a gestação e os cuidados com o filho, bem como permitiu a romantização do processo, tornando-o uma vivência solitária. Todavia, escolher engravidar e gestar não, necessariamente, confere à mulher o sentimento materno, nem a vinculação com filho. Por conseguinte, emerge o sentimento de culpa, na medida em que são rompidas as idealizações sociais e surgem as implicações psicológicas envolvidas no período gestacional.
Assim, algumas mulheres tornam-se mães muito antes da gestação, por meio da idealização e do desejo de engravidar. Outras, porém, assumem essa maternidade quando descobrem a gravidez ou durante o período gestacional. Além disso, existem aquelas que desenvolvem esse sentimento através do contato diário com o filho.
Entretanto, algumas gestações findam em perda. Dessa forma, o começo de duas novas vidas é interrompido pela morte: morre o bebê que viria a nascer e a mãe que estava em construção. Contudo, para algumas mulheres a ausência do filho não implica no fim do papel materno, ele apenas adquire nova configuração. Assim, a vivência da maternidade é permeada pela culpa e pela dor da perda, caracterizando o fim de um começo.
Destarte, é primordial que haja um espaço para que o luto seja discutido e caracterizado, tornando-se visível, a fim de validar no convívio social e na atuação profissional a dor do outro, da forma como ela se apresenta.
1.1 FAZ UM TEMPO
Na Idade Medieval, passa a existir uma iconografia acerca dos papéis familiares, caracterizando-se a mulher como provedora do amor e do lar, enquanto o homem assume e enfrenta as intempéries [1]. A representatividade desses papéis torna-se fixa, imutável e cada vez mais legitimada socialmente ao longo da história.
É nesse período também que se solidifica a ideia de essência feminina, a partir do pressuposto de que, independentemente do contexto social que a mulher integra, ela será sempre a mesma, rejeitando-se e punindo-se qualquer ideia de subjetividade atrelada à identidade feminina. Sendo assim, tanto a mulher que é casta e segue a doutrina, como aquela que se rende aos desejos de sua feminilidade, serão ambas portadoras da mesma essência: frágil e moralmente debilitada [2].
Desse modo, cria-se um consenso de culpabilidade feminina que não estará atrelada à sua conduta, mas sim pautada pelo pressuposto de ser feminino não pensante e não moderado, condenando a humanidade ao pecado. Essa crença gera permissividade para expansão da sociedade patriarcal já instaurada. Portanto, é de grande valia que haja a alienação das mulheres e a imputabilidade do seu ser, pois assim não há existência ou subjetividade, apenas a culpa de não ser divino, de não ser homem [3].
Gradualmente, as mulheres foram conquistando seu espaço. Contudo, é apenas no século XX, com o surgimento do anticoncepcional, que há o real rompimento da ideia de natureza feminina [4], pois, conforme aponta Beauvoir [5], “a libertação vem do ventre", ou seja, as mulheres assumem real controle sobre seu corpo, passam a ter efetivo direito de escolha, permitindo a ocupação de novos papéis sociais.
1.2 O AMOR QUE A GENTE VIVEU
A maternidade é um amplo processo, que abarca uma série de mudanças na vida da mulher, sua psique, sua vida social e seu corpo. No entanto, só é concebido espaço para pensar a maternidade como um sentimento quando se rompe com o determinismo biológico, colocando-se a mulher, seu corpo e seus sentimentos como aptos à maternidade [6].
Badinter [7] aponta para a estruturação histórica dessa ideia de natureza feminina para a maternidade, construindo-se, assim, a prerrogativa de que todas as mulheres conseguirão ser mães, de forma plena e realizada, o que evidentemente não acontece, gerando culpa, além da imposição de um papel social no qual não cabe o erro. A ideia de amor materno coloca a figura da mãe em uma posição de idealização social, inviabilizando a subjetividade do seu sentir e promovendo o ideal de perfeição da mãe que ama e cuida, oprimindo a mulher que sofre.
Dessa forma, todo o avanço do movimento feminista que, muitas vezes, teve como principal objetivo desvincular a figura feminina do papel materno confronta-se com as projeções sociais contemporâneas que atribuem à mulher a responsabilidade de cuidado em relação ao filho e ao seu desenvolvimento. Além disso, impõe-se a cobrança social sobre essa mãe/gestante, exingindo-se que se mantenha dentro de um padrão social, estético e emocional, ainda que passando por diversas mudanças hormonais, psíquicas e biológicas.
Há que se destacar também que a gravidez constitui um momento simbólico e regressivo. Nesse período há uma retomada de experiências passadas, confrontando-se diretamente com a posição atual. Além disso, instauram-se diversas fantasias geradas pela díade corpo e feto, enquanto objetos reais e simbólicos. Nesse sentido, Costa e Silva [8] apontam: “A gravidez remonta à infância da mulher, mas pontua-se no presente e modifica o futuro”.
Além da extrema pressão social perante a figura materna, há também uma angústia interna pela vivência da incerteza frente ao período gestacional e à sua impotência, contrapondo-se a todas as responsabilidades desse processo. “A possibilidade de dar a vida a um ser e ao mesmo tempo inscrevê-lo na ordem da mortalidade confere à maternidade, desde o princípio, uma estreita relação com o poder e com a culpa” [9].
Além disso, a corrente psicanalista pauta-se na ideia de que inicialmente o filho necessitará ser parte da mãe, assim como ela de seu bebê, até que ele desenvolva uma estrutura psíquica que comporte as próprias emoções e sentimentos. Dessa forma, inicialmente o bebê existe no imaginário da mãe, ou seja, a gestação não necessariamente fornece o sentimento de maternidade, essa afeição se torna evidente na relação e no suporte que essa mulher conseguirá fornecer ao filho [6].
Nesse aspecto, Winnicott [10] aponta a vitalidade da abstenção materna de si, para que possa ser gerido um espaço para o filho. Assim surge o conceito de “preocupação materna primária”, ou seja, ela consegue, através de uma sensibilidade maior que é desenvolvida nesse período, ofertar aquilo de que seu filho precisa. Contudo, nem todas as mães apresentam essa capacidade. A mesma mulher pode conseguir criar esse espaço para um filho e para outro não, haja vista, que essa é uma condição psicológica. Entretanto, esse processo, quando consolidado, ocorre de forma natural e é temporário, ainda que vital para o desenvolvimento da criança e o fortalecimento da relação mãe-bebê.
1.3 VOU TE FAZER CHORAR
O luto é o processo que permite ao indivíduo a reintegração das partes cindidas após a vivência da perda de um objeto de forte valor emocional. No entanto, esse processo é subjetivo e atemporal, ainda que seja de suma importância para a continuação da vivência do enlutado, a fim de que não haja o adoecimento psíquico [11]. Contudo, a ideia capitalista de substituição, presente na sociedade atual, não concebe espaço e tempo para que o sujeito possa viver seu luto, fazendo com que seja inserido na normatividade do silêncio tirânico e vazio.
Os filhos do silêncio são todos aqueles que não encontram espaço para existir ou ainda protagonizar a vivência da própria dor, haja vista a desvalidação social frente à perda [12]. Sendo assim, cumpre destacar a vivência da perda gestacional na qual as mulheres perdem além do filho, a idealização e o papel materno que estava em construção [11].
No entanto, essa temática fala muito mais de vida do que de morte, já que a dor que habita o outro é vívida, latente e calada diariamente. Nesse sentido, o luto encontra-se não só na vivência da perda gestacional, do corpo, do filho, da esperança e dos planos, mas também em cada silêncio. Os silêncios, por sua vez, tão altos que ensurdecem o pensamento, apertam o peito, desesperam a alma, mas continuam calados, pois não encontram espaços para sussurrar [12].
A perda gestacional é, muitas vezes, calada com palavras vazias, abraços não acolhedores ouvidos e olhos fechados. Considerando-se uma sociedade que pouco tolera a morte concreta, é vital perceber os sofrimentos que são cotidianamente atropelados pela falsa ideia de ordem social. É necessário dar vida e olhar para essas dores que foram mortas antes mesmo que pudessem ser concebidas [13].
Nesse sentido, é importante compreender que a perda culmina em dois vazios para a mulher: há o esvaziamento dos ideais maternos, bem como o do útero. Sendo assim, quando se trata de morte no período gestacional, há a perda de dois sujeitos: a mãe que estava gestante e o filho que estava sendo gerado, ambos os papéis se perpetuarão na memória materna [14]. Contudo, é necessário romper com os padrões de silêncio para que a dor da perda seja, então, gerada e elaborada, a fim de que, através do luto, a mulher entenda sua vivência e assuma o protagonismo da própria história.
2. Metodologia
A metodologia utilizada neste estudo foi a pesquisa fenomenológica hermenêutica, de abordagem qualitativa, conforme apresentada por Van Manen [15], uma vez que a principal preocupação é investigar, descrever e interpretar experiências vividas. A fenomenologia é um tipo de pesquisa qualitativa que examina essas experiências, buscando entender sua essência [16].
Para Van Manen [15], a pesquisa fenomenológica é o estudo da experiência vivida, no esforço de entender profundamente a natureza ou o significado delas, oferecendo, assim, a possibilidade de se estar em contato direto com o mundo. É fenomenologia, porque é um estudo descritivo dessa vivência, na tentativa de enriquecê-la pela descoberta do seu significado, e hermenêutica, porque é o estudo interpretativo das expressões e objetivações da experiência vivida no esforço de compreender o significado nelas expresso.
Para a realização da pesquisa, foi entrevistada uma mulher de 42 anos que viveu uma perda gestacional com 38 semanas de gestação, assim atendendo aos critérios de inclusão. No primeiro contato com a participante, foram informados os objetivos e o sigilo implicados no estudo, as gravações das entrevistas e o direito de desistir da participação em qualquer etapa da pesquisa. Após, foram combinados com a participante o local, a data e a hora da realização das entrevistas, respeitando suas disponibilidades.
A coleta e a análise sistemática de materiais foi obtida por meio de narrativas, usando métodos que asseguram a credibilidade dos resultados. Foi seguida a indicação de Seidman [17] para a coleta de dados, utilizando-se a entrevista em profundidade. Assim, não foram feitos questionamentos, testes ou avaliação de hipóteses, na medida em que o propósito fora entender as experiências das participantes e os significados atribuídos a essa experiência.
A entrevista fenomenológica em profundidade consistiu em conduzir uma série de três momentos distintos com as participantes [17]. A primeira etapa estabeleceu as circunstâncias da experiência. O ponto fundamental foi a trajetória de vida da participante e a função do pesquisador foi colocar a experiência dela no seu momento, pedindo que falasse a respeito da história de sua vida. A segunda etapa levou a participante a relembrar os detalhes de suas experiências e os contextos em que ocorreram. Na terceira fase, pretendeu-se incentivar a reflexão sobre o significado de sua experiência. A entrevista foi orientada para que fossem feitas vinculações emocionais e intelectuais entre a experiência vivida e os significados atribuídos a ela.
Cada etapa forneceu elementos que colaboraram com o encaminhamento do encontro seguinte. Foi indispensável seguir a estrutura sugerida e o senso de foco de cada entrevista, pois cada uma delas teve uma finalidade dentro da série [17]. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi lido ao início do primeiro encontro, tendo a concordância da participante e solicitada, então, a assinatura do documento, para efetivar a participação. A participante recebeu uma cópia do Termo assinado.
Foram três encontros que levaram em torno de quatro horas, no total. O armazenamento do conteúdo ocorreu por meio de transcrição das gravações. Buscou-se captar tudo o que foi dito para analisar e interpretar, bem como acompanhar o processo de coleta de dados [18].
Houve um fluxo constante indissociável entre as fases da coleta e da análise de dados [19]. Todo o material coletado foi transcrito após cada encontro para a execução do desafio de dar sentido aos dados. Reduziu-se o volume de informações e foi construída uma estrutura para alcançar a essência das experiências vividas [20], ou seja, fazer o que Miles e Huberman [21] descrevem como redução de dados.
Desse modo, houve inúmeras releituras do material para identificar declarações e falas marcantes que revelassem a experiência vivida pela participante. A abordagem detalhada permitiu entender o que uma simples sentença ou palavra revelou sobre o fenômeno do estudo. Nesses momentos, alguns temas foram descartados, agrupados e outros emergiram, fazendo nascer o andamento do próprio processo analítico e a estrutura do estudo[15].
A construção da essência do que os dados revelaram [20] e a redução dos dados [21] foram alcançadas na elaboração do texto fenomenológico. Obteve-se a confiabilidade pela explicitação de cada passo dado na abordagem com a participante, no detalhamento da análise, na interpretação das narrativas e pela documentação de todo o material. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética na Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Católica de Pelotas, sob o número nº 5.524.234 na data do dia 12 de julho de 2022.
3. Desenvolvimento e discussão
Com a finalidade de obedecer às questões éticas, decidiu-se atribuir um nome fictício à participante do estudo. O nome “Mãe da Luz” foi a forma que a própria participante pediu para ser mencionada. O nome atribuído também estabelece relação com o tema do artigo, pois relata a vivência da participante que sentiu sua gestação à luz de um amor, que perdura para além da perda.
3.1 A TRAJETÓRIA DE MÃE DA LUZ: Tenho medo de ser só um
Mãe da Luz é uma mulher de 41 anos que atualmente reside em um município do Rio Grande do Sul. Passou sua infância no interior, é a filha do meio e possui quatro irmãos. Na infância, era responsável pelo cuidado dos irmãos mais novos, trabalhos domésticos e pela lida na roça. Seu contexto familiar é marcado pela disciplina, havendo pouco espaço para expressão emocional. O convívio com a mãe é marcante na sua infância, em que pese o comportamento seu agressivo em relação à filha.
Ademais, a família frequentava o grupo da Igreja e o CTG, os quais lhe oportunizaram a convivência com outras crianças e momentos de descontração. Destarte, Mãe da Luz precisou diversas vezes de internação hospitalar e realizou acompanhamento neurológico constante, dos seis aos quatorze anos, devido à crises convulsivas. Sendo assim, sua infância foi caracterizada por convívio familiar, internações e responsabilidades laborais.
No período de transição da infância para a adolescência, Mãe da Luz foi molestada por dois homens por um longo período e não recebeu acolhimento da família. Sendo assim, decidiu começar a trabalhar fora de casa, aos quatorze anos, para poder afastar-se desse ambiente. Por essa razão, foi para a cidade morar com uma amiga de infância, período em que desempenhava trabalhos domésticos em casas particulares.
Nessa fase, só tinha autorização para sair com o irmão mais velho e os namoros eram escondidos da família. Aos dezoito anos, conheceu seu marido e logo foram morar juntos. Contudo, nesse período precisou de acompanhamento psiquiátrico, pois entrou em depressão devido à necessidade de sair de casa. Após três anos de casados, o casal adquire a casa própria e logo foi vivida a primeira gestação.
3.2 A EXPERIÊNCIA DE MÃE DA LUZ: Nunca pensei um dia chegar
A gestação não ocorreu de forma planejada. Após atraso em seu ciclo menstrual, Mãe da Luz decidiu fazer um exame ginecológico. Foi acompanhada do marido que, no momento, não quis entrar. A médica, então, informou-lhe o resultado positivo, abalando sua condição emocional, visto que ela e o marido não estavam planejando uma gestação naquele momento, pois enfrentavam condições financeiras difíceis. Além disso, seu estado psicológico ainda estava em processo de reestruturação, após ter sofrido um grave acidente de moto, no qual quase perdeu a perna. Dessa forma, a descoberta da gestação e os primeiros meses foram marcados pela angústia e pela falta de direcionamento em relação ao futuro.
Ademais, recebeu apoio do marido e foi bastante criticada por sua família por ter engravidado naquele momento. Contudo, mais tarde, recebeu a aprovação que esperava. Ao longo da gestação, foi se encantando pelo processo gestacional e criando laços com a bebê que estava gerando, sentindo-se grata por poder viver aquele momento e tudo que nele estava implicado. Nesse momento, aproximou-se da sua família, pois era a única filha que ainda não possuía filhos. Em face do entusiasmo e apoio familiar, teve três chás de bebês e pode aproveitar os meses gestacionais.
Além disso, refere sempre ter cumprido a rotina de exames, fazendo o pré-natal de maneira adequada. Quando completou as 38 semanas, realizou um exame de rotina e foi detectada uma arritmia cardíaca no feto, que logo em seguida normalizou-se sem a necessidade de outros exames ou procedimentos. Contudo, após uma noite em que a bebê mexeu-se muito, durante a consulta de rotina ocorrida no dia seguinte, não foi possível detectar o batimento cardíaco do feto. Nesse momento, Mãe da Luz, que estava sozinha, ligou para os familiares para que a acompanhassem até o hospital. Sua cunhada foi com ela e, logo em seguida, o marido chegou. Após a ultrassonografia, foi comunicado o falecimento do bebê e os médicos prescreveram uma medicação para que o parto fosse induzido, visto que não poderia ser realizada uma cesárea devido ao alto risco de vida para a gestante.
Durante a madrugada, as contrações começaram e a equipe médica foi avisada, mas não deu atenção ao caso. Quando a médica chegou ao quarto, o processo já estava ocorrendo, fazendo com que Mãe da Luz fosse arrastada com urgência para a sala de parto, descalça, sem que pudesse se preparar. Em meio aos procedimentos, desmaiou diversas vezes, acordando com as enfermeiras batendo em seu rosto. Segundo seu relato, uma das profissionais subiu em sua barriga para que fosse feita a força adequada e a bebê pudesse sair. Quando o parto ocorreu, ela não quis ver a filha, com medo que ela tivesse alguma má formação. Os médicos, então, levaram-na. Mãe da Luz teve que levantar-se e vestir-se sozinha após o procedimento.
Depois de retornar para o quarto, junto com as outras mães que tiveram bebês saudáveis, tentou descansar. Foi avisada que a bebê não possuía nenhuma má formação e, então, decidiu ver sua filha, mas não lhe foi permitido segurá-la. Após a bebê ser vestida, Mãe da Luz deu seu último adeus, registrando na memória a sua última lembrança.
3.3 O AMOR AINDA ESTAVA LÁ
A partir do detalhamento da análise e da interpretação das narrativas reveladas pela participante, foi possível extrair a estrutura nuclear da experiência vivida pela Mãe da Luz. Nesse processo, surgiram as seguintes unidades de significado: “Alguém para se lembrar: naquele momento era tudo”, “Tenho medo de ser um só: a minha não nasceu” e “Para você viver mais: achava que seria impossível”, que são a estrutura do tema fenomenológico: “O amor ainda estava lá”. Esse tema representa a essência do fenômeno vivido pela participante da pesquisa em relação à experiência de perda gestacional.
3.4 ALGUÉM PARA SE LEMBRAR: naquele momento era tudo
O processo gestacional implicou diversas mudanças na estrutura de vida da Mãe da Luz. Houve uma transformação significativa em seu corpo, que marcou para o seu mundo externo a vida que estava sendo gerada. Contudo, concomitantemente, ocorreu uma série de mudanças no seu funcionamento psíquico, visto que ela se defrontou com um novo papel a ser construído internamente, para que assim fosse possível compreender tal fenômeno e poder ofertar aquilo que a filha precisaria.
A barriga foi crescendo... Tem um ser dependente de ti [...] E de certa forma é muito tocante porque tu ficas imaginando o quanto Deus é grandioso [...] o teu corpo está se transformando e tu estás gerando uma vida. A concretização de que realmente tu estás gerando uma vida, uma prova concreta (Mãe da Luz).
Assim, é possível perceber que a maternidade está para além do biológico, é uma construção subjetiva composta pela disponibilidade psíquica de cada gestante e constantemente influenciada por seu ambiente [6]. Nesse sentido, Winnicott é o autor que empunha a ideia de mãe suficientemente boa, de modo a perceber o suporte materno concedido ao filho, manifestado através da disponibilidade psíquica que essa pessoa terá, ou seja, naquilo que ela disponibilizará de si para o seu filho [10].
O processo gestacional foi uma vivência em que a subjetividade de Mãe da Luz foi destituída para que fosse construído o papel de mãe. No entanto, contraditoriamente, a maternidade também possibilitou a ela um espaço de autoconhecimento, de forma que pudesse viver pela primeira vez o protagonismo da própria vida, assim percebendo sua imensa capacidade enquanto ser humano, subjetivo e real.
Eu acho que o significado de gerar uma vida. É o quão mulher, o quão incrível é ser mulher e poder ter essa possibilidade [...] Eu acho que o recompensador se refere a... Porque às vezes a gente acha que não é merecedor. Eu acho que é consciência de tudo. Tu estás tendo uma recompensa por tu seres, por tu tentares passar algo de bom, então acho que quando passa algo de bom, você tem um retorno disso, o retorno de algo bom [...] Naquele momento era tudo! Era algo grandioso, inimaginável (Mãe da Luz).
Nesse momento, há a conversação histórica do ideal de essência feminina para a maternidade e a disponibilidade psíquica para o ser mãe, permitindo a diferenciação dos papéis cabíveis ao feminino [22]. Entretanto, é primordial compreender as implicações do período gestacional para vida e para a estruturação psíquica da mulher, pois essa experiência permite o desenvolvimento, a integração, o amadurecimento e a expansão da personalidade. No entanto, a experiência é tomada pela subjetividade e, nesse sentido, será vivida de formas distintas por diferentes mulheres, o que caracteriza a relação da mulher com a sua gestação e posteriormente com seu filho [23].
A perda do protagonismo frente à própria vida moveu Mãe da Luz para um movimento de autorreflexão, a fim de compreender a sua estrutura de vida e, assim, comportar a subjetividade de um novo ser. A instituição do novo papel trouxe a insegurança e a impotência como sentimentos que marcam um futuro planejado em uma inconstante certeza, frente ao desenvolvimento acelerado do novo. Contudo, nesse processo construíram-se as memórias e as relações eu-tu foram exploradas através das sensações maternas e fetais, constituindo o psiquismo de ambos e fazendo surgir a mãe e a filha.
Deus tinha sido bom comigo, porque eu pude gerar e pude sentir e acompanhar todo o desenvolvimento que muita mãe não pode. Então, aquilo de alguma forma me recompensava e era recompensador pra mim, porque eu pude carregar os nove meses, eu pude gerar, eu pude acompanhar todo o desenvolvimento. Eu pude sentir todas as sensações [...] Apesar da dor, ao mesmo tempo foi satisfatório, foi feliz [...] Algo sem explicação, é surreal (Mãe da Luz).
Nesse sentido, o princípio da maternidade é a abdicação do corpo, a mudança da mente e a incerteza frente à ideia de futuro enquanto ser individual. Assim, torna-se possível afirmar que a maternidade caracteriza o luto da mulher que existe e escolhe, para a mãe que assumirá o protagonismo de uma vivência incerta e sem precedentes [9]. Desse modo, torna-se possível pensar a responsabilidade designada à figura da mulher, para suportar a gestação e, assim, dispor de mecanismos psicológicos para que se torne possível a experiência de ser mãe, haja vista que surgirão, desse processo, dois novos seres: a mãe e o filho [8].
Variados e complexos sentimentos marcaram as etapas da gestação vivida por Mãe da Luz. O começo do processo foi permeado por incertezas, medos e anseios. Contudo, com o passar dos meses, o vínculo foi sendo criado e o sentimento predominante na relação foi o amor, resultante não só das trocas, mas da doação diária da mãe para sua filha.
Acho que ser mãe é o significado do amor, da doação, acho que do amor mútuo, é achar que tu é capaz de um poder que tu não consegue explicar, achar que tu tem super poderes, significado de amor [...] Porque eu acho que é a junção de dois seres, acho que é o reflexo... a imagem é o reflexo da imagem da quantidade do amor de uma vida gerada. (Mãe da Luz).
Durante o período gestacional, as expectativas da mãe em relação ao bebê se originam de seu próprio mundo interno, bem como relações passadas e necessidades conscientes e inconscientes relacionadas ao filho. Essas demandas são mais frequentes e intensas no segundo trimestre da gestação, que é o momento em que o feto, através dos movimentos, anuncia realmente sua existência. Depois do sétimo mês, o volume e a intensidade dessas expectativas tendem a diminuir, preparando, dessa forma, o lugar do bebê real [24].
Sendo assim, o contato diário concebeu à Mãe da Luz a delicadeza do sentimento aguçado, de forma que ela sentisse a mudança, ainda que não a entendesse e, assim, pudesse estar entregando amor e carinho, até o último movimento da filha.
Eu me lembro das cenas muito, extremamente, que eu fui tomar o banho e eu estava com aquele barrigão e eu sempre fazia muito carinho, né. Eu conversava muito assim, e aí eu lembro que eu fui tomar banho e ainda falei, mexi assim, eu disse: “ah, sapeca, mexesse essa noite inteira, não deixou a mãe dormir, agora tu tá quietinha, aquela coisa assim, né não imaginava que estava acontecendo [...] Foi a última lembrança de vida dela (Mãe da Luz).
Nesse sentido, Pereira [25] salienta que a inconstância dos movimentos fetais ao final da gestação reflete um sinal de alerta importante quanto ao bem-estar do bebê. No entanto, através da percepção materna é possível identificar tais alterações. Contudo, devido à rotina gestacional, muitas vezes o processo de observação tende a ser negligenciado pelas gestantes, principalmente quando se trata de redução dos movimentos.
Mãe da Luz ainda não compreendia o que estava acontecendo, ainda era uma gestante, ainda era mãe e sua maternidade não se encerrou nesse momento.
3.5 TENHO MEDO DE SER UM SÓ: a minha não nasceu
A gestação foi construída em uma ideia de temporalidade biológica e social. Sendo assim, cada semana e mês foram contados, a fim de que essa soma regressiva culminasse no nascimento, na vicissitude concreta da vida que surge ao nascer. Portanto, o tempo marcou as vivências da gestação, os exames de rotina situaram Mãe da Luz em seu processo e permitiram que essa vivência ocorresse para além do plano simbólico, de forma real. Contudo, a espera por cada exame, pautada no desejo de que o desenvolvimento do bebê estivesse ocorrendo dentro dos padrões esperados, tornaram-se precursores de ansiedade e de angústia pela espera daquilo que é criado em um padrão de incertezas.
Eu fui à consulta e deu que estava tendo uma alteração cardíaca, aí a gente acompanhou, conforme foram passando os dias e depois foi normalizando [...] E eu lembro que no último mês, eu já tinha completado as 38 semanas, e aí fui nessa consulta, e aí na consulta, ela viu que o bebê não estava se movimentando. Aí foi, foi ali que a gente percebeu (Mãe da Luz).
Aguiar e Zoring [26] retomam a ideia de crise durante o período gestacional e entendem que a morte, nesse processo, torna-se um fator agravante da instabilidade que já está sendo vivenciada. Diante da interrupção do processo gestacional, surgem os sentimentos de culpa e de incapacidade, ou seja, a mulher defronta-se com a finitude de um começo. É necessário, vislumbrar a energia psíquica envolvida para que fosse possível tornar real a gestação, que antes estava no imaginário, e que acaba culminando na ausência da vida.
Dessa forma, a energia pulsional de Mãe da Luz foi direcionada para que aquela vida fosse concebida, desencadeando uma entrega absoluta de seu corpo e de parcialidades do seu psiquismo, a fim de sustentar a grandeza do processo gestacional. No entanto, é importante vislumbrar a vida enquanto um objeto frágil e finito, considerando-se que a existência da bebê não dependeu somente do cuidado materno, mas de um desenvolvimento adequado, que fosse capaz de suportar o nascimento e o posterior crescimento. Dessa forma, Mãe da Luz, ainda que entregue ao processo, viveu a angústia da impotência, gerada pela falta de controle que, mais tarde, tornou-se a culpa por aquilo que não lhe foi possível administrar.
Quando ela foi colocar o sonoro para ouvir o coração, o batimento, a gente não... Ela não achava o batimento, eu comecei a ficar tensa, a ficar preocupada, eu comecei a ficar aflita, angustiada, preocupada, e eu disse: “o que está acontecendo? Por que não está batendo? Não estou ouvindo o coração bater” [...] a gente sabe que a primeira coisa que aparece é o coraçãozinho do bebê batendo e aí eu vi que o coração não batia [...] Perda, acho que não tinha mais vida (Mãe da Luz).
Pereira [25] contempla a ampliação do sofrimento materno trazido pelo enorme silêncio que acompanha a notícia de que não há mais vida intrauterina. Dessa forma, a dor vivida pela família é tomada por um enorme vazio e a dor materna sucumbe junto ao seu papel social naquele momento. Nesse sentido, não é concebido um espaço de acolhimento que permita a real compreensão do fenômeno da morte.
Sendo assim, a partir da comunicação da ausência de vida, Mãe da Luz passou em um curto período por intensas mudanças psíquicas e físicas que foram fundamentais para a reconstrução do seu ser e início do seu luto enquanto figura individual. Sua maternidade foi tomada por uma solidão do que ela ainda não compreendia, ainda que a perda fosse real, simbolicamente ela viveu o medo de ser um só.
Eu disse, ah, o coraçãozinho do bebê não tá batendo, aí foi quando ele disse, ah, então o bebê tá morto. Aí a ficha caiu que me deu o choque de realidade, foi difícil assim a gente aceitar, foi muito doloroso, muito complicado [...] sabendo que tinha alguma coisa de errado, a expectativa de que algo se revertesse, que aquilo se tornasse algo bom, esperança [...] porque na minha cabeça aquilo não estava acontecendo e ela ia se movimentar, ia dar sinal de vida e aquilo ia acabar (Mãe da Luz).
Nesse momento, percebe-se o começo do processo de luto pela perda do filho, do vínculo criado pelos pais, das sensações que incitavam a existência de uma vida. Assim, a finitude da vida abraça seu berço, a gestação [27].
Por se tratar de uma gestação em meses finais e o bebê já estar formado, foi necessário realizar a indução do parto, para que o bebê fosse expelido do corpo materno. Contudo, esse processo foi longo e doloroso pela ausência de vida, uma vez que o bebê não realizava os movimentos que auxiliam nesse processo, como ocorre em um parto vaginal comum.
Quando me colocaram na mesa, eu não tinha mais forças para ajudar o bebê nascer. Eu lembro que eu desmaiei e aí eu me lembro de acordar com a enfermeira batendo no meu rosto para me acordar [...] porque eu lembro que eu apaguei, eu lembro que eu estava tentando e eu passei mal [...] eu não tinha mais força, então elas sentaram aquela mesa o máximo e a enfermeira veio por cima de mim (Mãe da Luz).
Sendo assim, entende-se que a mulher enfrenta, nesse processo, a vivência de dois vazios: um, externo a ela, pelo fim da gestação e pelo esvaziamento do útero, ainda que no pensamento ainda haja o sentimento materno, e o vazio interno gerado pela ausência do filho vivo [14].
O parto trouxe a validação do processo de morte, pois, a partir do momento do nascimento, não havia mais esperança de vida. Ademais, a experiência desse parto tornou-se ainda mais dolorosa, ne medida em que essa mãe teve que ficar junto às demais que estavam saindo de lá com os filhos nos braços. Mãe da Luz viveu, assim, a solidão que abraça a perda. Após o parto, a dupla tornou-se unidade, um ser só.
Porque tinha muitas mães tendo bebê e a gente ouvia o choro dos bebês nascendo e eu sabia que a minha não ia chegar [...] A confirmação da morte praticamente, que estava vindo e eu não ia levar pra casa [...] Porque eu queria entrar com ela nas mãos, porque eu sabia que aquela sala trazia vidas também, mais vida do que a morte [...] A confirmação mais uma vez da morte, que eu não ia ter ela comigo (Mãe da Luz).
A perda gestacional pode ocorrer em qualquer etapa da gestação. Nesse sentido, quando ela é efetivada, o filho, enquanto objeto real, não vive no psiquismo materno, essa mulher vive então o luto do filho imaginário [14].
A relação mãe-bebê vivida por Mãe da Luz foi pouco acompanhada pela sociedade. Logo, a prova viva dessa maternidade perante familiares e amigos seria a gestação e o decorrente nascimento. Contudo, quando ocorreu o parto, Mãe da Luz não deu à luz, encerrando-se o ciclo da vida a partir do não nascimento. “Porque ali estavam vindo mais vidas, e aqui, comigo, já tinha se encerrado o ciclo” (Mãe da Luz).
Assim como ocorreu com Mãe da Luz, as mulheres que vivem esse processo, enfrentam a dor da perda, a finitude de sua idealização, bem como o não reconhecimento social da maternidade, culminando em carência de apoio a essas mulheres [11].
Sendo assim, após a experiência de um parto violento, a vivência da perda foi abraçada pela tirania do silêncio, que põe fim à subjetividade da dor vivida e deslocou Mãe da Luz novamente para o papel de mulher. Contudo, o luto só pôde ser vivido através da compreensão coletiva da necessidade de empatia, que permitiu a construção de um espaço no qual a dor pôde, enfim, existir. Essa mãe, então, sofreu sem julgamentos ou precedentes, a perda de sua filha, gestada durante vívidos oito meses.
Uma enfermeira. E eu lembro que ela me olhou assim, com um olhar de piedade, assim. E ela estava tapada em cima daquela mesa, assim. Foi a primeira vez que eu vi, assim. [...] Eu acho que foi um olhar de compaixão da parte dela, algo que eu vi que alguém estava demonstrando um sentimento de humanidade assim, acho que de certa forma eu não tive o profissional deveria ter a enfermeira que me acompanhou quem fez o parto [...] compaixão, consternação (Mãe da Luz).
Cumpre destacar o imediatismo da sociedade atual, pautado na ideia de substituição, de modo a não fornecer espaços para que o luto seja concebido e o sofrimento vivenciado. Dessa forma, é gerado um atropelamento das questões internas individuais. Para compreender o luto, é necessário entender que ele não é caracterizado por momento, mas sim por um processo psíquico intenso em que é vivenciada a perda de um objeto que possuía representação afetiva para o indivíduo. Nesse sentido, o sujeito compreende um novo funcionamento, no qual abandona alguns esquemas e aprende outros, reintegra-se após a perda do objeto. Assim, o luto é o processo que permite a elaboração psíquica da perda [11].
Portanto, cabe questionar onde se encontrava a mulher como ser provido de subjetividade, na mãe que perdeu? Onde a mulher para além da mãe encontrou espaço para que seu ser existisse dentro desse grandioso movimento vivido, sem assim abandonar ou negar sua maternidade? A sociedade, em seu acelerado funcionamento, não concebeu esse espaço necessário para que Mãe da Luz pudesse se reintegrar, para entender o seu processo e viver sua dor na plenitude hostil do sentimento verdadeiro.
Aí eu fui para o quarto e só quis tomar um banho e descansar assim sabe ficar? Queria sozinha por que... Já tinha se encerrado aqui um e... Acabado aquela tortura, que pra nós, para mim foi uma tortura [...] eu acho que... Significado de... De limpar a alma, de fortalecer, descarregar aquela energia aquela tensão toda [...] reabastecer as energias porque tinha sido muito desgastante [...] pela exaustação, momento de não ter que pensar em nada, falar nada, ver nada, nem ninguém, tentativa de ter um momento meu, de me neutralizar assim. Um tempo para mim (Mãe da Luz).
Em uma sociedade que pouco tolera a dor e o luto vivenciado pela morte concreta, há pouco espaço para que sejam discutidos, vividos, compartilhados e elaborados os lutos simbólicos. Nesse sentido, as normas sociais estabelecem padrões tanto para o sofrimento quanto para o sujeito e o seu direito ou não de se enlutar [13].
Ademais, para além do tempo, foi fundamental para elaboração do luto o contato com a filha, a fim de romper com ideias onipotentes que podiam levar Mãe da Luz a crer que causou mal à própria filha. Ver a bebê constituiu concretamente a morte aos olhos da mãe e permitiu a compreensão da finitude do processo, criando o real vínculo entre mãe e filha, a partir do momento em que aquele frágil ser é tocado no forte desejo de cuidado materno.
E lembro-me de eu querer pegar no colo, mas eles não deixaram. Depois eu compreendi que eles evitaram que era para mim não ter tanto trauma. Mas eu quis pegar e eles não deixaram. Ela disse, não, vai ser melhor pra ti. Foi a única coisa que eu não consegui fazer [...] arrependimento [...] frustração (Mãe da Luz).
Sendo assim, apesar da dor da perda, o momento de despedida permitiu uma compreensão real do fim daquele processo e concedeu à mãe da luz seu último adeus:
Pra mim foi doloroso demais não me despedir e ter que não ter ela nos meus braços e levar pra casa [...] acho que é... Não é o esperado porque tudo que tu queres é o teu filho vir ao mundo e tu teres aquele primeiro contato, levar ele pra casa e ficar contigo o resto da vida [...] e aí eu fui e me despedi, porque eu não podia ir ao sepultamento. Eu pedi pra ela pegar as coisas, a minha irmã pegou aí a minha cunhada vestiu, e eu fui ver ela uma última vez [...] certeza de que eu não ia ver mais, foi a última lembrança [...] o fim de tudo [...] o significado de que não tinha mais vida [...] o último adeus (Mãe da Luz).
Quando não ocorre o encontro com o filho, a gestante não consegue encontrar algo que sustente a ideia de que seus pensamentos hostis não prejudicaram o filho. Nesse sentido, há um movimento psíquico de voltar à gestação e procurar possíveis erros ou ações negativas, a fim de gerir um motivo para a perda e assim autorizar a própria culpa, ou seja, validar as próprias fantasias [26]. Dessa forma, Moreira et al. [28] explica que a elaboração do luto, pela perda da posição poderosa de grávida, só é atenuado pela possibilidade de ter o seu filho no colo. A chamada “síndrome do colo vazio” é ainda agravada pela de não sobrevivência desse filho.
Ainda que tenha vivido a perda, Mãe da Luz não se tornou um só, a filha continua a existir, agora na memória da mãe e na continuação de seu papel.
3.6 PARA VOCÊ VIVER MAIS: achava que seria impossível
Os dias seguiram, anoiteceu e amanheceu, mas a vida não continuou e Mãe da Luz viveu cotidianamente a ausência da filha. O tempo permitiu que, sutilmente, as dores fossem amenizadas, e, através do processo de luto, iniciou-se a busca por uma explicação, a fim de compreender o acontecimento, amenizar a culpa e permitir que a vida seguisse seu curso.
Saber que ela não estava presente, que tudo que lembrava ela não estava mais ali, que não ia ter continuidade [...] os primeiros dias foram bem difíceis, dormir, acordar, ver que ela não estava ali. Sabia que ia ter que enfrentar os dias sem ter ela por perto, foi bem difícil (Mãe da Luz).
A forte necessidade de compreensão do fenômeno e consequentemente redução da culpa pela perda conduziram a busca por uma resposta espiritual:
Chegou um certo momento que eu consegui aceitar, assim. Eu pensei, ah se Deus não me deu é porque não era pra ser minha. Fiquei pensando que, de repente, Deus me evitou um pior.
Porque acho que só Deus tem o poder de dar a vida e tirar, não me deu porque não era o momento [...] eu acho que não era o momento, talvez eu preferia pensar dessa forma que causava menos dor para mim (Mãe da Luz).
Segundo Duarte e Turato [29], as mulheres sempre procuram atribuir um sentido para a sua perda, tentando tamponar o vazio deixado pela perda por meio da busca de explicações. Além disso, há uma tendência nas mulheres em buscar conforto para o sofrimento vivido na espiritualidade, procurando consolo na ideia de que o óbito fetal foi gerado por uma ordem divina.
Através desse árduo processo de compreensão, houve o esvaziamento da culpa e a retomada do protagonismo da própria vida, a saída da solidão: “Porque depois de superado, depois de entender, depois de ter passado o luto eu entendi que a culpa não era minha [...] uma dor maior do que já carregava” (Mãe da Luz).
Lemos e Cunha [11] destacam a importância do apoio familiar, que deve ser ofertado à mulher logo após a perda gestacional, visto que essa, por si só, já abarcará grande culpa. Portanto, é de suma importância oportunizar apoio emocional e liberdade de expressão para essa mulher enlutada, o que muitas vezes ocorre de forma oposta.
Contudo, quando Mãe da Luz recebeu o apoio necessário e conseguiu elaborar seu luto, passou a construir novamente a estruturação do seu eu, ainda que a autoestima estivesse afetada pela impotência frente à perda pregressa. No entanto, nesse processo, surgiu fortemente o desejo de viver a maternidade novamente. E, então, conseguiu se reestruturar após a vivência da perda, garantindo a si mesma o poder do papel materno. “Tentar gerar novamente uma vida, realizar um sonho, ser mãe de novo [...] a primeira presente, segunda gestação [...] porque eu consegui me reerguer, consegui engravidar, foi a realização de ser mãe” (Mãe da Luz).
Além disso, Sousa e Muza [30] argumentam que a perda é um acontecimento que afeta a autoestima da mulher e, por isso, a gestação subsequente pode ficar atrelada a sentimentos de medo e de insegurança. Além disso, há a ambivalência das emoções, pelo processo que novamente acontecerá. Contudo, há a elevação da autoestima trazida pela presença física do filho, que irá produzir o sentimento de capacidade [12].
Ainda assim, o tempo foi um alento para algumas frustrações, mas não apagou as memórias, tão pouco as idealizações, mesmo que a vida tenha seguido seu curso sem a bebê perdida. A sua filha passa a existir na vida de Mãe da Luz trazendo também a dor do que não foi vivido, daquilo que não pôde ser dito, como um manifesto de saudade. Assim, a memória permite que o impossível aconteça. Ainda que sem viver, a bebê existe na vida da mãe.
Imaginar tanta coisa que pudesse ter vivido, ter realizado, imaginar como de repente poderia ser até avó no momento, às vezes, a cabeça fica imaginando criando, eu procuro evitar, é uma coisa que eu prefiro deixar no passado [...] o trauma da perda, a dificuldade de lidar, de não ter, de ver uma mamãe com filho, de imaginar que poderia ser o teu [...] coisas que poderia ter vivido, que poderia ser ela aquela criança que eu vi [...] insegurança, trauma do que eu vivi a incerteza [..] algo que te marca (Mãe da Luz).
Mãe da Luz passa a compreender a maternidade como uma construção, vivendo suas maternidades de formas diferentes. A vivência é de perda, ainda que a maternidade esteja sempre viva para além de suas ausências.
De um modo geral, a superação da perda. Não que um filho vá substituir outros de maneira alguma, mas ameniza. E isso te dá novas expectativas de vida [...] força, seguir em frente, realizar coisas que tu achava que seria impossível (Mãe da Luz).
Ser mãe novamente não adentra, ainda, esse processo, constituindo-se apenas como uma possibilidade, sem que a mãe e o filho perdido deixem de existir [12]. A vivência dessa maternidade singular irá se perpetuar para além do tempo, o luto ainda é vivido e a dor diariamente elaborada. Contudo, o sentimento não foi negado nesse processo, existiu e consolidou-se com uma dor real para uma perda concreta, um amor incondicional para uma existência eterna.
4. Considerações finais
Esta pesquisa teve como objetivo compreender a experiência de perda gestacional e os significados atribuídos a essa. As falas de Mãe da Luz, expõem uma experiência permeada de sentimentos, lutos, cuidados e muitos medos. O amor que foi consolidando esta relação estava lá e em cada movimento do gestar, construiu a mãe e a filha. Mas, uma gestação que ora foi vivida, tornou-se, ao final, uma lembrança e um sonho suspenso. Quando deu seu adeus, registrou também a sua última lembrança. No olhar perdido da mãe, a verdade e a intensidade de uma existência singular. Ali havia uma mãe, ainda que não houvesse luz. Mas o amor ainda estava lá.
Os silêncios se impuseram na medida em que a sua filha não nasceu. Uma mulher, que viveu diariamente os enlaces do tempo, abraçada pela saudade. Sua vivência trouxe a beleza singular da poesia que exprime o seu profundo sentir. O silêncio na sua existência tornou-se canção e em contraponto transformou a dor da perda que jamais a deixa ser uma só. Sendo assim, pelo seu amor encontrou novamente a luz e fez o que considerava impossível, a filha ser eterna na perda. E os dias seguiram. Mas esta história ainda não tinha tido um final, apenas uma dolorosa vírgula. A continuidade do papel materno acontece em suas nuances, em uma existência sutil e tênue, que prescinde cotidianamente de uma presença física. É como uma vírgula, que assinala uma pausa ligeira entre tempos. E perto do fim, não pude mais encontrar [...] fazer uma canção para você viver mais... pois o amor ainda estava lá... Sem protagonismo ou precedentes Mãe da Luz representou a imensidão da entrega absoluta ao sofrimento e à dor. A perda gestacional implicou, em um longo processo de superação do luto, pela busca por si mesma e pelos seus novos papeis. A dor do luto perdura, fazendo com que muitas mulheres que buscam encontrarem-se novamente no papel materno, ainda que as maternidades sejam vividas singularmente, precisem muitas vezes de apoio profissional.
Apesar da pesquisa não ter tido como objetivo a generalização dos resultados, ela permitiu, na singularidade e intensidade da perda gestacional vivida pela participante, aprofundar a compreensão e a importância do tema para a Psicologia como ciência e profissão. A temática das perdas gestacionais insere-se ainda de forma fundamental para a formulação e melhorias das políticas públicas voltadas para o estabelecimento de protocolos com relação a saúde materno-infantil, acesso a serviços de apoio psicológico, assistência pré-natal, assim como pós-perda. Academicamente a temática mostrou-se relevante, considerando que muitas vezes a perda gestacional é vivida como um processo invisível. Na medida em que é um fenômeno pouco notificado, impede uma compreensão mais aprofundada, ações mais eficazes e humanizadas para a saúde mental da mulher e de seus familiares.
5. Declaração de direitos
O(s)/A(s) autor(s)/autora(s) declara(m) ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara(m) que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do(s) autor(s), e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara(m) respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara(m) não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.
6. Referências
ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. 2 ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
MARIANI, C. M. C. B.; AMARAL, M. J. C. DO. A mística como crítica nas narrativas de mulheres medievais. Revista de Cultura Teológica, n. 86, p. 85–107. 2015. https://doi.org/10.19176/rct.v0i86.26041
SILVA, C. E. DA; SILVA, T. A insígnia do pecado: The Magdalene Sisters. Revista Estudos Feministas, v. 28, p. e60353, 31 ago. 2020. https://doi.org/10.1590/1806-9584-2020v28n260353
FITTIPALDI, M. O Movimento Feminista: modernidade, identidade e a mulher. Revista Direito, Estado e Sociedade, n. 27, 22 out. 2005.
https://doi.org/10.17808/des.27.312
BEAUVOIR, S. O segundo Sexo: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira. 1980.
SANTOS, N. D. T. G. DOS; ZORNIG, S. A.-J. Primeiros tempos da maternidade: indiferenciação ou intersubjetividade na relação primitiva com o bebê? Estilos da Clinica, v. 19, n. 1, p. 78–90, 1 abr. 2014.
BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. São Paulo: Círculo do Livro. 1980.
COSTA, R. M. L. DA; SILVA, M. A. B. DE O. Desejo e regressão na gravidez: uma perspectiva psicanalítica. Analytica: Revista de Psicanálise, v. 9, n. 17, p. 1–24, 1 dez. 2020.
MOURA, D. F. G. Maternidade e poder. Revista Mal Estar e Subjetividade, v. 13, n. 1-2, p. 387–404, 1 jun. 2013.
WINNICOTT, D. W. Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes. 1988.
LEMOS, L. F. S.; CUNHA, A. C. B. DA. Concepções Sobre Morte e Luto: Experiência Feminina Sobre a Perda Gestacional. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 35, n. 4, p. 1120–1138, dez. 2015. https://doi.org/10.1590/1982-3703001582014
PONTES, M. M. Maternidade interrompida: O drama da perda gestacional. 1a edição ed. [s.l.] Editora Ágora, 2009.
CASELATTO, G. O Resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. Summus Editorial. 2020.
BONANI, I. R.; CORDEIRO, S. N.; DE CAMPOS, K. S. Mães de Anjos: A experiência de mulheres que tiveram um filho natimorto. Psicologia Argumento, v. 39, n. 107, p. 1245–1278, 17 dez. 2021.
https://doi.org/10.7213/psicolargum39.107.AO12
VAN MANEN, M. Researching lived experience: human Science for an action sensitive pedagogy. London, Ontario, Canadá: The Althouse Press, State University of New York Press. 2018.
BYRNE, M. M. Understanding life experiences through a phenomenological approach to research. Association of Operating Room Nurses - AORN Journal. v. 73, n. 4, p. 830-832. April. 2001. https://10.1016/s0001-2092(06)61812-7
SEIDMAN, I. Interviewing as qualitative research: a guide for researches in education and the social sciences. Teachers College Press: New York. 2019.
MERRIAM, S. B. Qualitative research and case study applications in education, San Francisco: Jossey-Bass Publishers. 1998.
TRIVIÑOS, A. N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação - o positivismo; a fenomenologia; o marxismo. São Paulo: Atlas. 2015.
PATTON, M. Q. Qualitative evaluation and research methods. Newbury Park: Sage. 2002.
MILES, M. B.; HUBERMAN, A, M.; SALDAÑA, J. Qualitative data analysis: a methods sourcebook. Thousand Oaks – California: SAGE Publications Inc. 2014.
STELLIN, R. M. R. et al. Processos de construção de maternagem. Feminilidade e maternagem: recursos psíquicos para o exercício da maternagem em suas singularidades. Estilos da Clinica, v. 16, n. 1, p. 170–185, 1 jun. 2011.
SIMAS, F. B.; VILELA, L.; SCORSOLINI-COMIN, F. Significados da gravidez e da maternidade: discursos de primíparas e multíparas. Psicologia: teoria e prática, v. 15, n. 1, p. 19–34, 2013. Psico_15-1_prefaciais_cap1.indd
PICCININI, C. A. et al. Expectativas e sentimentos da gestante em relação ao seu bebê. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 20, n. 3, p. 223–232, dez. 2004. https://doi.org/10.1590/S0102-37722004000300003
PEREIRA, M. U. L. et al. Comunication of death and grief support to the women who have lost a newborn child. Revista Paulista de Pediatria, v. 36, n. 4, p. 422–427, 2018. https://10.1590/1984-0462/;2018;36;4;00013
AGUIAR, H. C.; ZORNIG, S. Luto fetal: a interrupção de uma promessa. Estilos da Clinica, v. 21, n. 2, p. 264–281, 1 ago. 2016. http//dx.doi.org/0.11606/issn.1981-1624.v21i2p264-281
MORAES, M. C. Psicologia e psicopatologia perinatal: sobre o (re) nascimento psíquico. Appris. 2021.
MOREIRA, J. O. et al. Programa mãe-canguru e a relação mãe-bebê: Pesquisa qualitativa na rede pública de Betim. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, ed. 3, p. 475 – 483. 2009.
DUARTE, C. A. M; TURATO, E. R. Sentimentos presentes nas mulheres diante da perda gestacional: uma revisão. Psicologia em Estudo, Maringá, 14(3), 485-490. 2009.
SOUZA, E. N.; MUZA, J. C. Quando a morte visita a maternidade: papel do psicólogo hospitalar no atendimento ao luto perinatal. Monografa, Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF. 2011.
Universidade Católica de Pelotas, Pelotas, Brasil.
Universidade Católica de Pelotas, Pelotas, Brasil.
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense, Pelotas, Brasil.
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense, Pelotas, Brasil.
