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Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
Journal DOI: 10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025
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ARTIGO ORIGINAL
Transformações do patrimônio edificado como narrativa de história, memória e temporalidades em Goiás
Gledson Rodrigues do Nascimento1; Ana Paula Campos Gurgel2
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Como Citar:
DO NASCIMENTO, Gledson Rodrigues; GURGEL, Ana Paula Campos. Revista Sociedade Científica, vol.8, n. 1, p.702-709, 2025.
https://doi.org/10.61411/rsc202588218
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Área do conhecimento: Ciências Sociais.
Palavras-chaves: Patrimônio edificado, História, Memória, Pirenópolis, Cidade de Goiás.
Publicado: 07 de março de 2025.
Resumo
Neste texto a história da cidade é mostrada a partir de duas visões de mundo, uma delas carrega a rusticidade do século XVIII, a outra mostra parte do resultado dos processos de transformações ocorridos sobre o tecido urbano que atravessaram o século XIX e alcançaram o XX. Nesse caso, tem sido a arquitetura das edificações, entre outros parâmetros urbanísticos, que demonstra determinados aspectos culturais em disputa, dividindo-se entre a produção vernacular do espaço construído e outras condicionantes que direcionam o observador a identificar três séculos de produção arquitetônica. Essa constatação é confirmada ao percorrer o centro histórico de algumas cidades goianas, tendo como exemplos as cidades de Pirenópolis e Cidade de Goiás. Apesar de algumas diferenças, ambas apresentam o patrimônio edificado a partir de narrativas de temporalidades, percorrendo a memória e a história, por meio de fontes visuais que nos contam sobre o passado e o presente.
Transformations of built heritage as a narrative of history, memory and temporalities in Goiás
Abstract
In this text, the city's history is presented from two worldviews. One of them reflects the rusticity of the 18th century, while the other shows part of the result of the transformation processes that occurred in the urban fabric that spanned the 19th century and into the 20th century. In this case, it has been the architecture of the buildings, among other urban parameters, that has demonstrated certain cultural aspects in dispute, dividing itself between the vernacular production of the built space and other conditions that direct the observer to identify three centuries of architectural production. This observation is confirmed when visiting the historic centers of some cities in Goiás, such as the cities of Pirenópolis and Cidade de Goiás. Despite some differences, both present the built heritage based on narratives of temporalities, traversing memory and history, through visual sources that tell us about the past and the present.
Keywords: Built heritage, History, Memory, Pirenópolis, City of Goiás
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1. Introdução
As narrativas que constituem o desenvolvimento do território brasileiro também podem ser identificadas em seu patrimônio histórico e cultural [1] [2] [3]. Nesse sentido, a arquitetura das edificações integra-se a uma rede de significados, a respeito da história de determinadas cidades, tendo como pano de fundo as especificidades de um contexto que acumula três séculos de produção arquitetônica. Assim, podem ser conferidos registros de um lugar que se assemelha às características das cidades de origem portuguesa [4], uma vez que esse cenário decorre do processo de ocupação e de expansão territorial “em consonância com os interesses da Coroa portuguesa” [5]. Contudo, entre tais interesses, está incluída a determinação pela exploração de riquezas minerais nas regiões centrais da colônia portuguesa na América, inserindo assim o território goiano no curso da história, classificado em determinado momento como “o século do ouro em Goiás” [6]. Sendo assim, há resquícios de ocupação e de certas transformações territoriais já em meados de 1731 [5] [7], pois, como essa região “já havia sido percorrida desde fins do século XVI, o território goiano passa a ser oficialmente incorporado à colônia portuguesa na América a partir de 1727 [...]” [5].
Conforme transcreve [5], esse primeiro momento, em que o território goiano passa a ser percorrido, imbrica reconhecer mais adiante que, “depois de Mato Grosso, a Capitania de Goiás seria a maior capitania do reino do Brasil de acordo com os mapas existentes [...]” [8]. Dessa maneira, tem sido possível identificar, em meio à paisagem dessas cidades, uma maneira de o homem contar sua história, marcando seu lugar na historiografia goiana. Dessa forma, mostra-se como algumas das localidades conseguiram atravessar as dificuldades da época de arraiais ou de pequenos núcleos urbanos ainda no século XVIII [5] até se tornarem algumas das cidades atualmente existentes. Contudo, nessas localidades, sob as condições de uma economia baseada na exploração aurífera, identifica-se também, por meio dos edifícios, o lento desenvolvimento sob a escassez da agricultura de subsistência, que se estenderia a boa parte do século XIX. Esse mesmo século também apresentaria um cenário de transição, sobretudo no modo de se construir nas ruas irregulares das cidades históricas em Goiás.
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2. Século XIX, transições arquitetônicas e urbanísticas em Pirenópolis e na Cidade de Goiás
Essa transição também pode ser identificada a partir dos materiais utilizados nas novas construções, bem como nas novas concepções arquitetônicas, incluindo o modo como elas foram sendo implantadas nos lotes urbanos [1] [2] [3]. As novas concepções construtivas estão presentes nas ruas de algumas cidades goianas, onde a arquitetura vernacualar revela características de temporalidades [9]. Sendo assim, evidencia-se uma condição transformadora, com um processo de mediação que transita entre o que é encontrado e que dizem os espaços de memória, que “é tomada como história” [10] – uma história identificada por meio da arquitetura secular, acionando a memória pela própria história da cidade narrada a figura 1.
Figura 1: Vista do Largo da Matriz, Lápis de Willian John Burchell (1825 -1829). Fonte: Ferrez (1985).
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Com uma das representações de Burchell em pleno século XIX, trazida acima, tornam-se evidentes as particularidades encontradas nos centros históricos desta e de outras localidades goianas. Como fontes visuais representativas de temporalidades, tais desenhos permitem realizar indagações em um mesmo espaço – como é possível refletir a partir da figura 2.
Figura 2: Recorte da paisagem atual, Largo da Matriz Nossa Senhora do Rosário
Fonte: acervo do autor
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Sob a mesma perspectiva historiográfica, a figura 2 demonstra outro recorte da paisagem que transita entre a própria memória e a história, como uma espécie de obsessão pelo passado e a história do presente [11], nesse caso potencializada por uma imagem fotográfica. Entre o elo entre as fontes visuais, memória e a história mantendo a arquitetura como um objeto representativo de transformação mostrado nas figuras 1 e 2. Em ambas as imagens, extraem-se condicionantes urbanísticas do centro histórico, com as transformações que foram se acumulando até a chegada do século XX. Ainda assim, mostra-se uma arquitetura vernacular dividindo espaço com outros elementos no tecido urbano, já com passeios, calçamentos e instalação de um singelo mobiliário urbano – o que é evidente na figura 2. Esse quadro é diferente ao que se observa na figura 3, a qual traz um espaço que também aderiu ao processo de turistificação [12], a fim de atender às demandas necessárias para receber o constante fluxo de visitantes, quando em visitas ao centro histórico da Cidade de Goiás, conforme mostra a figura 3.
Figura 3: Rua Moretti Foggia imagem atual do lugar. Fonte: acervo do autor
Acima, na figura 3, temos um recorte da paisagem da Cidade de Goiás, a qual também passou pelo processo transformador do século XIX e, por isso, em seus diferentes planos, identificam-se condicionantes transformadoras do espaço urbano semelhantes às da figura 2. Mais uma vez, a arquitetura das construções caracteriza diferentes momentos de produção do espaço sob os efeitos da condição do período colonial brasileiro em Goiás. Nesse recorte de espaço e tempo, há comprovações tanto nos calçamentos quanto nos próprios edifícios, de uma herança direta dos séculos XIX, confirmadas pela figura 4.
Figura 4: Rua Moretti Foggia, antiga rua Direita, Cidade de Goiás década de 1930. Fonte: arquivo pessoal de Elder Camargo de Passos.
Ao se comparar a figura 4 com a 3, produzida por este autor em visita de campo, além de um conjunto arquitetônico com características do século XIX, identifica-se que os suportes de iluminação urbana foram retirados da via, diferentemente do que ocorre em Pirenópolis, trazido na figura 2. Entre outras aspectos, com essa comparação entre a imagens do passado com a do presente, ainda pode ser identificada uma camada modificadora nas fachadas dos edifícios ao longo de toda a via, de onde, ao seu final, observa-se a Igreja do Rosário dos Pretos. Entretanto, há de ser considerado que o referido edifício religioso, por sua vez, não passou por uma transformação de sua fachada, mas, sim, por uma sobreposição por completo, realizada com a construção de uma arquitetura neogótica, representando, assim, a liberdade criativa [13], que traz uma das faces do ecletismo na arquitetura brasileira [14].
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3. Considerações finais
Conforme procurou-se demonstrar, a narrativa de temporalidade preenche os olhares do observador com particularidades que caracterizam o século XIX como herdeiro direto das condicionantes urbanísticas e arquitetônicas do século XVIII, uma vez que ainda é possível captar informações a respeito de um período carregado de simplicidade e rusticidade em território goiano. Assim, por meio de uma linguagem visual, as características físicas dos edifícios são demonstradas, bem como as mudanças ocorridas sobre o traçado urbano medieval, que não escondem as camadas modificadores de três séculos de produção do espaço construído. Portanto, se o traçado urbano demonstra a instalação ou a substituição por completo de alguns mobiliários urbanos, no caso dos edifícios, são identificadas outras condições transformadoras. Dessa maneira, infere-se que, tanto na cidade de Pirenópolis quanto na Cidade de Goiás, ocorre uma narrativa de temporalidades que envolve o patrimônio histórico e cultural. Então, as questões patrimoniais imbricadas na cultura temporal são identificadas por meio de variáveis encontradas entre o modo vernacular de construção e a presença das múltiplas faces do ecletismo na arquitetura em terras goianas.
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4. Declaração de direitos
O(s)/A(s) autor(s)/autora(s) declara(m) ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara(m) que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do(s) autor(s), e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara(m) respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara(m) não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.
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