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Scientific Society Journal  ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​​​ 

ISSN: 2595-8402

Journal DOI: 10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO ORIGINAL

Psicoterapias assistidas por MDMA no tratamento do estresse pós-traumático em adultos: uma revisão integrativa

Manuela Bezerra e Silva França1; Sandra Regina Mota Ortiz2

 

Como Citar:

França, Manuela Bezerra e Silva; Ortiz, Sandra Regina Mota; Psicoterapias Assistidas por MDMA no Tratamento do estresse pós-traumático em adultos: uma revisão integrativa. Revista Sociedade Científica, vol.7, n. 1, p.4876-4896, 2024.

https://doi.org/10.61411/rsc202473517

 

DOI: 10.61411/rsc202473517

 

Área do conhecimento: Ciências da Saúde.

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Palavras-chaves: MDMA; Psicoterapias Assistidas; Tratamento; Estresse Pós-Traumático.

 

Publicado: 22 de outubro de 2024.

Resumo

O Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) é caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas associados a um profundo sofrimento psicológico após a vivência ou testemunha de um episódio traumático. Apesar de muito prevalente na população, a abordagem atual do transtorno possui importantes limitações, o que afeta de maneira significativa a qualidade de vida dos afetados. Diante desse cenário, há a busca por substâncias capazes de aprimorar a aliança e a experiência psicoterápica, uma vez que estas atuam como importantes preditores de resultados terapêuticos positivos. Assim, o MDMA, uma anfetamina psicodélica, tem apresentado interessantes resultados na abordagem do transtorno. ​​ O presente artigo se trata de um levantamento bibliográfico de caráter transversal, correspondente a uma pesquisa de abordagem qualitativa do tipo revisão integrativa de literatura. Nela, foram incluídos artigos científicos publicadas em português e inglês, no período de 2018-2024 e com livre acesso nas bases de dados PubMed e Google Acadêmico. ​​ Este estudo tem como objetivo descrever os atuais achados da literatura acerca do papel das psicoterapias assistidas por MDMA no tratamento do Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Foram encontrados, após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 16 artigos elegíveis. Neles foram avaliados os resultados obtidos nos ensaios clínicos de fase 2 e 3 com uso de MDMA, o papel da droga sobre a aliança terapêutica, o papel dela sobre os mecanismos de extinção do medo e de reconsolidação de memórias e sobre os sistemas neurobiológicos. Além disso, foi traçado um comparativo entre a anfetamina em questão e as atuais drogas usadas no tratamento do TEPT. O ano de 2021 foi o que mais se destacou no quesito de quantidade de publicações. Apesar dos promissores resultados obtidos, evidencia-se a necessidade de mais estudos para determinar a exata ação da droga sobre os sistemas neurobiológicos, bem como os efeitos de sua utilização a longo prazo.

 

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MDMA-assisted psychotherapies in the treatment of post-traumatic stress disorder in adults: an integrative review

Abstract

Post-Traumatic Stress Disorder is characterized by a set of signs and symptoms associated with deep psychological distress after experiencing or witnessing a traumatic event. Although very prevalent in the population, the current approach of the disorder has several limitations, which significantly interfere in the quality of life of those affected. In face of this scenario, there is a search for substances able to improve the psychotherapeutic alliance and experience, since these act as important predictors of positive therapeutic results. MDMA, a psychedelic amphetamine, has demonstrated interesting results in addressing PTSD. This article is a cross-sectional literature review. It included articles published in Portuguese and in English, in the period 2018-2024 and with free access in the PubMed and Scholar Google databases. ​​ The aim of this study was to describe the current perspectives about the role of MDMA-assisted psychotherapies in the treatment of Post-Traumatic Stress Disorder in adults. After applying the inclusion and exclusion criteria, 16 eligible articles were found, among which. In them, were evaluated the results obtained in phase 2 and 3 clinical trials using MDMA-assisted psychotherapy, showing the role of the drug on the therapeutic alliance, the mechanisms of fear extinction and memory reconsolidation and the different neurobiological systems reached. In addition, a comparison was drawn between the effect of the amphetamine and the current drugs used in the treatment of PTSD. 2021 was the year that stood out the most in terms of number of publications. ​​ Despite the promising results obtained, there is a need for further studies to determine the exact action of the drug on the neurobiological systems, as well as the effects of its long-term use.

Keywords: ​​ MDMA; Assisted psychotherapies; Psychedelics; Post-traumatic stress disorder.

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1.Introdução

 O Transtorno do Estresse Pós-Traumático

O Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) consiste em um transtorno psiquiátrico caracterizado por um conjunto de sintomas associados a um profundo sofrimento psicológico por no mínimo um mês após a vivência ou a testemunha de um

episódio traumático [1]

Entre as manifestações clínicas citadas, estão, de acordo com o DSM-V, a presença de reações dissociativas, a evitação de estímulos relacionados ao trauma, a ocorrência constante de sonhos angustiantes, adaptações negativas na cognição e no humor e alterações de reatividade e excitação, as quais podem, inclusive, acarretar profundas mudanças psicológicas e comportamentais no indivíduo. [2]

Além disso, esse transtorno costuma estar associado a outras doenças de origem psíquica, como depressão e ansiedade, o que, muitas vezes, resulta em incapacidades laborais, perdas significativas da qualidade de vida e em um aumento da utilização dos serviços de saúde. [3]

Sua exata etiologia ainda é incerta, uma vez que há o envolvimento de diversos sistemas neurobiológicos, os quais apresentam uma complexa correlação entre si [4]. No entanto, evidências clínicas demonstram o envolvimento de uma desregulação noradrenérgica nos sistemas de resposta ao estresse em pacientes com TEPT [5], sobretudo no locus ceruleus e em suas projeções para a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal [6; 7].

Ademais, é notada uma correlação desse déficit no papel da neurotransmissão de noradrenalina e um desequilíbrio da ação das monoaminas, em especial da serotonina e do glutamato, que têm uma função moduladora chave sobre o medo, o estresse, o comportamento social e a memória. [5; 8]

A abordagem de primeira escolha para o TEPT consiste no tratamento não farmacológico, baseado em psicoterapias comportamentais baseadas no trauma, entre as quais estão as terapias de exposição prolongada, terapias de processamento cognitivo, terapias de dessensibilização do movimento ocular e de reprocessamento, com evidências firmadas por estudos meta-analíticos. Entretanto, em casos mais severos, apenas a psicoterapia é muitas vezes insuficiente na abordagem desses pacientes. Ademais, está associado a uma alta prevalência de abandono do tratamento. [9]

Outrossim, diante do desequilíbrio monoaminérgico relacionado à patogenia do transtorno, tem-se o uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) ou de noradrenalina (ISRN) como base da abordagem medicamentosa do TEPT, com destaque para duas principais drogas: paroxetina e sertralina. Elas possuem efeitos colaterais que são, em geral, bem aceitos, como náuseas, ganho de peso leve e tardio e diminuição da libido. No entanto, têm grande potencial de geração de tolerância e, consequentemente, de dependência [10; 11].

Dessarte, a sintomatologia diversa do TEPT e os diversos sistemas neurobiológicos envolvidos que constituem um grande desafio para a determinação de um tratamento farmacológico adequado [12], uma metanálise que se propôs a avaliar os atuais guidelines que orientam o tratamento do TEPT observou que as atuais medicações utilizadas atuam majoritariamente mascarando os sintomas do transtorno, não sobre propriamente a fisiopatologia da doença [13].

Em termos de eficácia, apenas cerca de 25% dos pacientes obtiveram uma resposta clínica significativa após o uso desses medicamentos [14], ao passo que a média de evasão nos 55 estudos incluídos na metanálise foi de 29%. [11; 13]

Logo, evidencia-se que ambas as intervenções possuem grandes limitações na abordagem do transtorno em questão, sendo imprescindível a busca de novos medicamentos com diferentes mecanismos de ação sobre a patologia. [15]

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Características gerais do MDMA

O 3,4-metilenodioxianfetamina (MDMA) tem sua estrutura química determinada por um anel aromático anfetamínico ligado a um grupo metilenodioxi-O-CH2-O- nas posições 3 e 4 da molécula anfetamínica, assemelhando-o ao grupo da mescalina. Assim, os efeitos da molécula combinam as características alucinógenas e estimulantes de cada um dos grupos. [16]

Em virtude de seu pequeno tamanho molecular (193.24g/mol), a droga possui características altamente hidrofóbicas, o que permite sua rápida disseminação nos tecidos e sua passagem pela barreira hematoencefálica [17]. É rapidamente absorvida no trato gastrointestinal, atingindo seu pico de concentração plasmática cerca de 2 horas após a administração oral, com valores de 131ng/mL e 236ng/mg para as doses usualmente aplicadas de 75mg e 125mg, respectivamente [18].

A metabolização da droga é essencialmente hepática, sendo realizada, sobretudo, pelo grupo de enzimas da CYP2D6 e da CYP1A2 [18; 19; 20] No entanto, polimorfismos genéticos desse conjunto de isoenzimas conferem um amplo espectro de metabolização da substância, o que a torna altamente sujeita a alterações metabólicas individuais e alterações na dosagem, gerando diferentes espectros de toxicidade aguda [19; 20]. Outrossim, possui meia-vida de aproximadamente 8h e excreção predominantemente renal [18].

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Histórico

O MDMA foi sintetizado no ano de 1912 pela companhia alemã Merck, visando a obtenção de um novo agente hemostático. No entanto, apesar da concessão de uma patente exclusiva para o estudo da substância, o projeto foi abandonado pela empresa após o não alcance dos objetivos propostos para o seu uso clínico [21]. Somente anos depois, após serem evidenciados os efeitos psicoativos da droga, o MDMA conquistou uma maior notoriedade na comunidade científica, estimulando o desenvolvimento de pesquisas sobre os efeitos de sua utilização adjunto a psicoterapias [15; 21; 22]

Essas investigações revelaram que essa substância possui a capacidade de facilitar o acesso consciente do indivíduo às suas emoções profundas, o que a conferiu uma nova classificação, distinta daquela atribuída aos demais alucinógenos e estimulantes, proposta pelo pesquisador David Nichols. Essa classificação, denominada “entactogeno” [23], expressa o efeito de “entrar em contato consigo mesmo” proporcionado pela experiência do uso da droga [23; 24]. Dessarte, esse efeito, por possibilitar uma maior abertura do indivíduo para com não só outros como também suas emoções, está fortemente relacionado a uma melhora sintomática do TEPT[25].

Alguns anos depois, na década de 80, diante do crescimento expressivo do uso recreativo do Ecstasy (nome pelo qual o MDMA é popularmente conhecido), concomitante ao surgimento de evidências acerca de seus possíveis efeitos de toxicidade, principalmente sobre o sistema nervoso, o composto foi proscrito pela Agência Norte-Americana de Combate às Drogas, comprometendo a continuidade dos estudos acerca de sua aplicabilidade clínica. [22]

Atualmente, seu uso médico ainda é vedado nos Estados Unidos pela Drug Enforcement Administration [26]. No Brasil, consta na lista F2 de substâncias sujeitas a controle especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) [27]. Entretanto, no ano 2017, foi cunhada pela American Food And Drug Administration (FDA) como uma possível “terapia inovadora” para o TEPT, dando início a diversos estudos que apontam para sua utilidade terapêutica no tratamento do transtorno em indivíduos que não obtiveram resposta clínica significativa ou não toleram os tratamentos atualmente disponíveis [28]. Diante disso, a Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS) atualmente comanda estudos multicêntricos de fase 3 sobre o efeito das terapias assistidas por MDMA no tratamento do TEPT [29; 11].

 

2.Referencial teórico

Tabela1- Artigos publicados de 2018-2024

Título

Autores

Ano

Idioma

Resumo

Breakthrough for Trauma Treatment: Safety and Efficacy of MDMA-Assisted Psychotherapy Compared to Paroxetine and Sertraline

Allison A. Feduccia, Lisa Jerome, Berra Yazar-Klosinki, Amy Emerson, Michael C. Mithoefer, Rick Doblin

2019

Inglês

O artigo em questão faz um comparativo, em termos de segurança e eficácia, a partir de dados provenientes de seis ensaios clínicos de fase 2 promovido pela MAPS, entre os efeitos das psicoterapias assistidas com MDMA e as atuais frentes de tratamento vigentes para o TEPT.

MDMA-Assisted Psychotherapy for PTSD: are memory reconsolidation and fear extinction underlying mechanisms?

Allison A., Feduccia, Michael C. Mithoefer

2018

Inglês

Esse estudo busca elucidar a ação MDMA sobre diversos sistemas neurobiológicos para avaliar o papel da facilitação da reconsolidação de memórias traumáticas e da extinção do medo condicionado na remissão sintomática do TEPT observada em estudos clínicos.

MDMA-Assisted Psychotherapy for moderate to severe PTSD: a randomized, placebo-controlled phase 3 trial

Jennifer M. Mitchell, Marcela Ot’alora G., Bessel van der Kolk, Scott Shannon, Michael Bogenschutz, Yevgeniy Gelfand, Casey Paleos, Christopher R. Nicholas, Sylvestre Quevedo, Brooke Balliet, Scott Hamilton, Michael C. Mithoefer, Sarah Kleiman, Kelly Parker-Guilbert, Karen Tzarfaty, Charlotte Harrison, Alberdina de Boer, Rick Doblin, Berra Yazar-Klosinski & MAPP2 Study Collaborator Group.

2023

Inglês

O artigo em questão relata o procedimento do estudo multissistêmico, randomizado, duplo-cego e confirmatório de fase 3 para avaliação da eficácia e da segurança das psicoterapias assistidas por MDMA em indivíduos com TEPT de grau moderado a severo, expondo os principais resultados encontrados.

MDMA-Assisted Psychotherapy for severe PTSD: a randomized, double-blind placebo-controlled phase 3 trial

Jennifer M. Mitchell, Michael Bogenschutz, Alia Lilienstein, Charlotte Harrison, Sarah Kleiman, Kelly Parker-Guilbert, Marcela Ot’alora G., Wael Garas, Casey Paleos, Ingmar Gorman, Christopher R. Nicholas, Michael C. Mithoefer, Shannon Carlin, Bruce Poulter, Ann Mithoefer, Sylvestre Quevedo, Gregory Wells, Sukhpreet S. Klaire, Bessel van der Kolk, Karen Tzarfaty, Revital Amiaz, Ray Worthy, Scott Shannon, Joshua D. Wooley, Cole Marta, Yevgeniy Gelfand, Emma Hapke, Simon Amar, Yair Wallach, Randall Brown, Scott Hamilton, Julie B. Wang, Allison Coker, Rebecca Matthews, Alberdina de Boer, Berra Yazar-Klosinski, Amy Emerson, Rick Doblin.

​​ 2021

Inglês

Essa publicação reporta os achados do ​​ estudo multissistêmico, randomizado, duplo-cego e confirmatório de fase 3 para avaliação da eficácia e da segurança das psicoterapias assistidas por MDMA no tratamento de indivíduos com TEPT de grau severo, incluindo aqueles com comuns comorbidades, tais como dissociação, depressão, história de abuso de álcool ou de outras substâncias e traumas de infância.

Long-term follow-up outcomes of MDMA-assisted psychotherapy for treatment of PTSD: a longitudinal pooled analysis of six phase 2 trials

Lisa Jerome, Allison A. Feduccia, Julie B. Wang, Scott Hamilton, Berra Yazar-Klosinski, Amy Emerson, Michael C. Mithoefer, Rick Doblin.

2020

Inglês

Esse estudo avalia as mudanças nos sintomas do TEPT, bem como os benefícios e malefícios das psicoterapias assistidas por MDMA a longo prazo.

MDMA-Assisted Psychotherapy for treatment of ​​ PTSD: study design and rationale for phase 3 trials based on pooled analysis of six phase 2 randomized controlled trials

Michael C. Mithoefer, Allison A. Feduccia, Lisa Jerome, Anne Mithoefer, Mark Wagner, Zach Walsh, Scott Hamilton, Berra Yazar-Klosinski, Amy Emerson, Rick Doblin

2019

Inglês

Esse estudo busca determinar o design a ser adotado nos estudos de fase 3 promovidos pela MAPS a partir dos resultados obtidos 6 ensaios caso-controle randomizados de fase 2, elucidando, sobretudo, a ação do MDMA sobre a sintomatologia do TEPT e a segurança de sua aplicação.

3,4-methylenedioxymethamphetamine-Assisted Psychotherapy for Treatment of Chronic Posttraumatic Stress Disorder: a Randomized Phase 2 Controlled Trial

Marcela Ot’alora G., Jim Grigsby, Bruce Poulter, Joseph W Van Derveer III, Sara Gael Giron, Lisa Jerome, Allison A Feduccia, Scott Hamilton, Berra Yazar-Klosinski, Amy Emerson, Michael C Mithoefer, Rick Doblin

2018

Inglês

O presente estudo reporta os achados clínicos observados nos estudos de fase 2 patrocinados pela MAPS para avaliação da eficácia e segurança das psicoterapias assistidas por MDMA

MDMA-Assisted Psychotherapy for PTSD: Growing Evidence for Memory Effects Mediating Treatment Efficacy

Mesud Sarmanlu, Kim P. C. Kuypers, Patrick Vizeli, Timo L. Kvamme

2024

Inglês

O artigo em questão explora as recentes evidências clínicas e pré-clínicas que sugerem que a eficácia do tratamento com MDMA possa ser influenciada pelos efeitos mnemônicos da droga, revisando dados acerca do efeito dela na extinção e reconsolidação do medo e a utilidade desses processos no tratamento do TEPT.

Pilot Study Suggests DNA Methylation of the Glucocorticoid Receptor Gene (NR3C1) is Associated with MDMA-Assisted Therapy Treatment Response for Severe PTSD

Candance R. Lewis, Joseph Tafur, Sophie Spencer, Joseph M. Green, Charlotte Harrison, Benjamin Kelmendi, David M. Rabin, Rachel Yehuda, Berra Yazar-Klosinski, Baruch Rael Cahn.

2023

Inglês

Nesse estudo são examinadas mudanças epigenéticas em três genes do eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal antes e depois da administração do MDMA e do placebo em conjunto à psicoterapia.

Preliminary Evidence for the Importance of Therapeutic Alliance in MDMA-Assited Psychotherapy for Posttraumatic Stress Disorder

Richard J. Zeifman, Hannes Kettner, Stephen Ross, Brandon Weiss, Michael C. Mithoefer, Ann T. Mithoefer, Anne C. Wagner

2024

Inglês

Esse artigo oferece as primeiras evidências preliminares acerca da relação entre a aliança terapêutica e os positivos resultados do tratamento para o TEPT por meio das psicoterapias assistidas por MDMA

Updated Cost-Effectiveness of MDMA-Assisted Therapy for the Treatment of Posttraumatic Stress Disorder in the United States: Findings from a Phase 3 Trial

Elliot Marseille, Jennifer M. Mitchell, James G. Kahn

2022

Inglês

Esse estudo atualiza a análise de custo-benefício da nova abordagem terapêutica com uso do MDMA a partir de dados de ensaios clínicos de fase 3, incluindo o custo-benefício incremental do regime de fase 3 mais intensivo comparado com o mais curto de fase 2.

Pharmacological-Assisted Psychotherapy for Post-Traumatic Stress Disorder: a Sistematic Review and Meta-Analysis

Mathew D. Hoskins, Robert Sinnerton, Anna Nakamura, Jack F. G. Underwood, Alan Slater, Catrin Lewis, Neil P. Roberts, Jonathan I. Bisson, Matthew Lee, Liam Clarke ​​ 

2021

Inglês

O artigo visa determinar a eficácia do tratamento convencional e de terapias assistidas por novos fármacos, com destaque para o MDMA, na redução da severidade dos sintomas do TEPT.

3,4-methylenedioxymethamphetamine (MDMA)-Assisted Psychotherapy for Victims of Sexual Abuse with Severe Post-Traumatic Stress Disorder: Na Open Label Pilot Study in Brazil

Alvaro V. Jardim, Dora V. Jardim, Bruno Rasmussem Chaves, Matheus Steglich, Marcela Ot’alora G., Michael C. Mithoefer, Dartiu X. da Silveira, Luís F. Tófoli, Sidarta Ribeiro, Rebecca Matthews, Rick Doblin, Eduardo E. Schenberg

2021

Inglês

O trabalho em questão conduz o primeiro ensaio clínico com uso das psicoterapias assistidas por MDMA no Brasil para o tratamento do TEPT, devido à alta prevalência do transtorno em virtude da epidemia de violência.

A proposed mechanism for the MDMA-mediated extinction of traumatic memories in PTDS patients treated with MDMA-assisted therapy

Robert J. Sottile, Thomas Vida

2022

Inglês

Esse artigo avalia a ação dos mecanismos moleculares, como o aumento do fator neurotrófico cerebral, mediados pelo MDMA nas vias do medo, da memória e do aprendizado combinada com os efeitos pró-sociais da droga, visando uma melhor explicação sobre sua função terapêutica

Perceived key change phenomena of MDMA-assisted psychotherapy for the treatment of severe PTSD: na interpretative phenomenological analysis of clinical integration sessions

Macha Godes, Jasper Lucas, Eric Vermetten

2023

Inglês

O estudo intenciona complementar e clarificar os achados quantitativos dos estudos de fase 2 a partir de uma abordagem qualitativa feita por meio de uma análise fenomenológica qualitativa de quatro sessões gravadas e transcritas de sete participantes com TEPT severo, a fim de obter um melhor entendimento da abordagem e sua eficácia.

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3.Metodologia

O presente artigo trata-se de um levantamento bibliográfico de caráter transversal, correspondente a uma pesquisa de abordagem qualitativa do tipo revisão integrativa de literatura. Nela, foram incluídos artigos científicos publicadas em português e inglês, no período de 2018-2024 e com livre acesso nas bases de dados PubMed e Google Acadêmico.

Os critérios de exclusão adotados correspondem a artigos publicados anteriormente ao período mencionado, publicações de acesso restrito, em formato de resumo, outros artigos de revisão ou estudos que não abordaram satisfatoriamente a temática abordada, não respondendo à questão de pesquisa “Como o uso do MDMA, adjunto às psicoterapias, pode contribuir para o tratamento de adultos que sofrem de Estresse Pós-Traumático?”.

Dessa forma, a partir das buscas feitas com a utilização dos descritores, extraídos da plataforma “DeCS – Descritores em Ciências da Saúde”, “MDMA”, “psicoterapias assistidas”, “tratamento”, “estresse pós-traumático”, foram encontrados 116 artigos, dos quais 16 mostraram-se elegíveis para a realização do trabalho.

Figura 1 - Fluxograma metodológico elaborado pela autora

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4.Desenvolvimento e discussão

O traçado de novas perspectivas para o tratamento do TEPT tem enfatizado a busca por substâncias capazes de aprimorar a aliança e a experiência psicoterápica, uma vez que estas atuam como importantes preditores de resultados terapêuticos positivos. Entre elas tem-se emergido dados acerca do uso do MDMA para tal finalidade.

Os primeiros estudos clínicos multissistêmicos, randomizados, duplo-cegos, confirmatórios de fase 3, patrocinados pela Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS) foram realizados diante da designação de possível “Terapia Inovadora” pela Food and Drug Administration em 2017. Tal denominação, contudo, não garante que a droga será aprovada para o uso medicamentoso, mas aponta para a existência de evidências clínicas preliminares sugerindo um substancial benefício no desfecho primário de pacientes com TEPT em relação às terapias atuais.

Ademais, análises de dados extraídos desses estudos apontam que, além dessa possível redução da intensidade dos sintomas em indivíduos com o transtorno, essa nova abordagem é capaz, inclusive, de reduzir os custos impostos pelo TEPT aos sistemas de saúde.

A partir das informações coletadas em cada uma das fases desses ensaios, observou-se que o MDMA, quando utilizado adjunto às psicoterapias, trouxe importantes vantagens clínicas, com significativa redução sintomática e do grau de prejuízo funcional em pacientes com grau moderado a severo do transtorno.

O perfil farmacodinâmico único da droga inclui o aumento da empatia, a acentuação dos sentimentos de proximidade interpessoal, melhora do comportamento pró-social, além de desenvolver uma maior habilidade em tolerar memórias estressantes e promover maior gratificação pela retomada de lembranças positivas.

Esses efeitos pró-sociais do MDMA demonstram ser importantes preditores desses positivos resultados, uma vez que provocam um aumento do sentimento de empatia e de confiança em outrem, gerando a sensação de ambiente seguro e encorajador. Dessa maneira, eles permitem que o paciente sinta-se mais livre para falar dos acontecimentos que o levaram a desenvolver o transtorno e de suas emoções relacionadas a ele. Entretanto, é importante ressaltar que a droga não é uma “pílula mágica” e que as vias que levaram o paciente a esses resultados positivos provenientes da adesão às psicoterapias assistidas demandam grandes esforços por parte dele.

O principal mecanismo de ação por trás desses efeitos subjetivos do MDMA baseia-se, sobretudo, no aumento da liberação de noradrenalina e da concentração de serotonina e, em menor grau, dopamina nos terminais axônicos e dos níveis plasmáticos de cortisol e ocitocina. Sua alta afinidade aos receptores serotoninérgicos (5-HT) é o fator predominante envolvido na resposta observada de atenuação do sentimento de ansiedade e depressão, aumento da sensação de autoconfiança e redução da resposta ao medo. Por outro lado, a ativação dos receptores alfa-2 adrenérgicos mostrou-se responsável pelos efeitos de sedativos e de relaxamento compartilhados com as demais substâncias do grupo das anfetaminas.

Outrossim, pesquisas têm demonstrado que o papel da droga nesse tratamento vai além dos conhecidos efeitos subjetivos provocados. É possível que o MDMA, por meio da ativação de diferentes substratos neurais, também possibilite a re-consolidação de memórias e a redução da sensação de medo atreladas a elas. Esse fator contribuiria para a manutenção da aliança terapêutica, uma vez que uma forte motivação por trás das altas taxas de evasão observadas nas psicoterapias isoladas é a dificuldade em lidar com os sentimentos surgidos a partir da recuperação das memórias traumáticas.

Neuroimagens realizadas em indivíduos saudáveis sob efeito da droga mostram que ela atua em caminhos neurais chave do processamento emocional das memórias, provavelmente a partir da modulação do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) e da consequente indução da plasticidade neural, facilitando a reformulação de tais lembranças. ​​ 

Estudos também apontam para uma possível ação do MDMA sobre mecanismos epigenéticos do eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal, a partir do processo de metilação do DNA, como importantes preditores do sucesso das psicoterapias no TEPT.

Todavia, as técnicas terapêuticas adotadas, escolhidas a partir das particularidades do indivíduo tratado, podem direcionar a ativação cerebral para diferentes regiões. Assim, é necessário um melhor entendimento acerca do exato papel do MDMA sobre esses diversos circuitos neurológicos durante os vários elementos das psicoterapias.

Um ano após o término das sessões, notou-se um aumento percentual de indivíduos enquadrados no grupo ativo que não mais atingiam os critérios para o TEPT designados pela CAPS-V. Esse efeito positivo progressivo sugere que os indivíduos, antes resistentes ao tratamento, foram, enfim, capazes de melhor integrar as psicoterapias em suas rotinas diárias, dando continuidade à evolução dos resultados obtidos.

Em contrapartida, nove participantes que receberam o MDMA e obtiveram melhora clínica reportaram o retorno dos sintomas associados ao TEPT um ano depois do término das sessões após vivenciarem um ou mais eventos significativamente estressantes. Portanto, é reforçada a posição da droga não como terapia principal, mas como facilitadora da abordagem psicoterápica, sem a qual é extremamente difícil a manutenção de uma ação sustentada.

Os eventos adversos relatados pelos participantes do estudo sucederam principalmente entre o grupo de dosagem ativa (75-125mg de MDMA) e foram, em geral, transitórios e de baixa ou moderada severidade. Entre eles, destacam-se tensão muscular, queda do apetite, náuseas, hiperidrose e sensação de frio. Ademais, foram observados aumentos também passageiros da frequência cardíaca e da pressão arterial de maneira dose-dependente.

Além disso, foram reportados eventos psiquiátricos, os quais ocorreram com equivalente frequência entre os dois grupos, sendo que os mais reportados foram ansiedade, humor deprimido, irritabilidade, ataques de pânico e insônia. Sérias ideações suicidas foram mínimas durante o estudo e ocorreram quase que inteiramente no grupo placebo. Não foram observadas alterações na função neurocognitiva e não houve relatos de abuso ou de dependência da droga.

Importante destacar que a aplicação desses testes na população brasileira em vítimas de abuso sexual com TEPT severo apresentou resultados semelhantes, porém em menor escala, aos observados no estudo piloto, demonstrando que a abordagem é aplicável à realidade do país.

Portanto, o MDMA mostrou-se bem aceito e seguro quando administrado por um número limitado de vezes em doses moderadas, com efeitos adversos previsíveis e autolimitados. Contudo, não existem evidências acerca de seu uso contínuo a longo prazo.

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5.Considerações finais

A partir do levantamento bibliográfico realizado, conclui-se que o MDMA apresentou positivos resultados terapêuticos nos ensaios de fase 2 e 3 patrocinados pela Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (MAPS). Infere-se que a droga pode ter um papel importante no aprimoramento da aliança psicoterápica, atuando em caminhos neurais chave para o processamento do medo e de memórias traumáticas. No entanto, a exata atividade que proporciona a obtenção de tais achados ainda é incerta, tornando-os mais teóricos que, de fato, práticos.

Outrossim, apesar de a anfetamina ter-se demonstrado segura quando administrada em doses terapêuticas por um determinado número de vezes, com leves e autolimitados efeitos adversos, não existem evidências acerca de tais efeitos de seu uso contínuo a longo prazo.

Portanto, os resultados observados demonstram o potencial da utilização da droga adjunto às psicoterapias voltadas ao trauma no tratamento do Transtorno do Estresse Pós-Traumático, evidenciando a necessidade de mais estudos para determinar sua exata ação sobre os sistemas neurobiológicos, bem como os efeitos de sua utilização a longo prazo

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6.Declaração de direitos

O(s)/A(s) autor(s)/autora(s) declara(m) ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara(m) que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do(s) autor(s), e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara(m) respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara(m) não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

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7.Referências

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1

Universidade Federal do Maranhão, São Luís, Brasil.

2

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