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ISSN: 2595-8402

DOI: 10.5281/zenodo.8172974

Publicado em 21 de julho de 2023

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ​​ ANO 2023

 

ANARQUISMO E HACKTIVISMO: APROXIMAÇÕES A PARTIR DO WIKILEAKS E ANONYMOUS

 

Alexandre Freire Pimentel1; Milton Pereira de França Netto2; Gabriel de Oliveira Cavalcanti Neto3

 

1, 2, 3Universidade Católica de Pernambuco, Pernambuco, Brasil

1[email protected]

2[email protected]

3[email protected]

 

 

RESUMO

Este artigo discute a prática do hacking como expressão de um novo ativismo político, marcado pela incorporação dos hackers e das redes de comunicação. Para tanto, discute sobre as influências do anarquismo nessa militância política e remete-se aos coletivos WikiLeaks e Anonymous, a fim de identificar sua estrutura e modo de ação enquanto expressões do cyberativismo. A fim de lançar bases teóricas acerca do hacktivismo, levanta bibliograficamente reflexões sobre o tema. Conclui-se que o hacking é um novo ativismo político, pois visa a subversão da ordem de poder sobre a tecnologia e as formas de circulação de informação na sociedade global promovida pelo advento da internet.

Palavras-chave: Hacking; Hacktivismo; WikiLeaks; Anonymous; Anarquismo.

 

1 INTRODUÇÃO

As tecnologias de informação, comunicação e informática são uma característica central da vida contemporânea, e a Internet está em seu centro. Para muitos (especialmente no Ocidente), a Internet pode ser vista como o próprio “tecido de nossas vidas” e as tecnologias de comunicação “o equivalente atual da eletricidade na era industrial”[1].

Como uma rede de comunicação global altamente sofisticada, particularmente por meio da admissão interconectada que fornece a um bem comum informacional mais acessível, a Internet transformou as estruturas e processos por meio dos quais as economias, a política e a sociedade funcionam. Se isso significa uma mudança na natureza fundamental das desigualdades nas relações de poder é outra questão.

 A tecnologia há muito molda a estrutura da vida social, pois os desenvolvimentos tecnológicos não surgem em um vácuo social ou político, nem a tecnologia é neutra. A própria história da internet, p.e., revela que a utilização de tecnologias pode não se dar como originalmente pretendidas e ecoar um ethos libertário, como também o caminho inverso é possível, através da sua mercantilização. Para Crang, a Internet é uma dessas tecnologias de design “anárquicas”, particularmente por meio de sua capacidade de gerar bens comuns informativos e, portanto, seu potencial para revigorar a democracia.

Por outro lado, reflete Carlo Cosentino[2] que a aceleração da comunicação permitiu a construção de uma esfera pública transnacional, na qual atores de diferentes países elaboram discursos e práticas difundidas para além das barreiras nacionais. As novas tecnologias, especialmente a internet, reduziram enormemente os custos da comunicação, o que, por um lado, acentuou o poder do capital, como se percebe através da atuação das empresas multinacionais, e, por outro, propiciou o surgimento da “sociedade civil global”.

Em outras palavras, enquanto algumas tecnologias são vistas como inerentemente ideológicas em sua capacidade de reforçar as relações de poder prevalecentes, outras incorporam princípios de design que oferecem a capacidade de contra-apropriação a serviço de fins mais emancipatórios

Nesse sentido, alguns anarquistas celebram a capacidade da tecnologia de melhorar a vida das pessoas e/ou promover princípios libertários ou democráticos - como no caso do WikiLeaks e do Anonymous, coletivos trabalhados neste artigo. Por outro lado, também estão atentos ao seu potencial de controle social.

Uma vez que a tecnologia é produzida e transformadora socialmente, muitas vezes é feita uma distinção entre os benefícios da tecnologia em si e suas relações de poder - isto é, o uso que a ela se dá, a maneira e o foco de sua distribuição e o aspecto social e impactos políticos de sua mercantilização.

Isso é semelhante a uma posição que Gordon atribui ao que ele chama de anticapitalistas “prometeicos”, como Proudhon, que argumentam que é importante distinguir entre a “essência da tecnologia” que, em sua capacidade de aumentar a liberdade e a criatividade, pode ser visto como “intrinsecamente positivo”; e os “efeitos da tecnologia” que, particularmente nas relações de poder capitalistas, podem ser vistos como inerentemente suspeitos.

No entanto, como se discute neste artigo, esse entusiasmo é temperado pelo necessidade de formação de um público crítico em espaços públicos (p.e., no ato de protesto), para atuar com seu potencial libertário na internet. Em segundo lugar, embora a Internet também tenha se tornado cada vez mais centralizada - particularmente por meio de um sistema de domínios de nomes que surgiu durante a comercialização e privatização iniciais da Internet - seu design continua a permitir vias de utilização que ressoam alguns valores anarquistas. Terceiro, por meio de uma combinação dos dois primeiros elementos, uma forma de política anárquica é gerada através da cultura hacker.

Diante disso, o presente artigo visa discutir a relação entre o anarquismo e o hacktivismo, tomando como exemplo a estrutura organizacional e modos de ação dos movimentos WikiLeaks e Anonymous.

 

2 REFLEXÕES SOBRE AS POSIÇÕES LIBERTÁRIAS ACERCA DA TECNOLOGIA

Este tópico reflete sobre os aspectos autoritários ou libertários do uso de tecnologias na internet, conflitando as posições dos teóricos anarquistas primitivistas e dos ecoanarquistas.

Uma vez que não há um acordo abrangente sobre tecnologia entre os anarquistas, a adoção da capacidade democrática das novas tecnologias de comunicação não é necessariamente um compromisso compartilhado por todos. Alguns anarquistas sustentam uma oposição ferrenha ao que eles consideram a devastação absoluta da tecnologia.

No entanto, as posições anarquistas sobre tecnologia compartilham de uma conclusão: todas influem nas relações de poder independentemente do sistema socioeconômico em que estão inseridas. Isto é, as tecnologias não surgem de forma livre e neutra; elas são selecionadas ou utilizadas em resposta às relações sociais prevalecentes e aos objetivos ideológicos. Evocando o panóptico de Foucault[3], é possível afirmar que, em uma sociedade baseada na hierarquia, como o capitalismo, há um ímpeto inteiramente racional para a vigilância.

Para os anarco-primitivistas ou “anticivilizacionistas”, como John Zerzan, a ideia de evolução interligada à tecnologia de forma acrítica é produto de uma “cultura simbólica”, pois as tecnologias acabam se tornando ferramentas para o arsenal de controle social do estado[4].

No entanto, a tecnologia não necessariamente é uma ferramenta de controle do Estado, ela apenas ajuda a realizar as tarefas de vigilância e opressão porque o projeto de tecnologia é fundamentalmente opressor[5]. Isso poderia ser diferente, caso os projetos de tecnologia tivessem uma “dimensão humana”, no sentido que estivessem sempre voltados para objetivos sociais amplos, ao invés de finalidades estritamente mercantis.

Esse segundo caminho é adotado pelo eco-anarquista e ecologista social Murray Bookchin, o qual nomeia as formas de tecnologia em escala adequada e ecologicamente corretas como “técnica libertária”[6], as quais se opõem às tecnologias autoritárias (fundamentalmente hegemônicas). Para o autor, não é a tecnologia em si que leva à ruína social e ecológica - ao contrário, ela é uma técnica nas mãos de uma elite hierárquica que constitui seu impulso destrutivo.

Sobre a internet, p.e., seu desenvolvimento exibia características libertárias ou anárquicas. Seus valores básicos de criatividade e colaboração dentro de um espaço de conhecimento público geraram uma onda de originalidade, imaginação e inovação que produziu algumas invenções de software notáveis desde o seu início. Ela não é produto de alguns inventores heroicos, mas fruto de uma colaboração e conflitos entre uma variedade notável de atores motivados – pelo menos originalmente – pela vontade de produzir conhecimento e exercer a criatividade acima da lucratividade e glória individual[6].

A Internet começou sua evolução na década de 1960 enquanto empreendimento decididamente não anárquico: visava o fortalecimento estratégico dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Impulsionada pelos objetivos militares da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Defense Advanced Research Projects Agency – DARPA), a Internet surgiu na “improvável interseção da grande ciência, da pesquisa militar e da cultura libertária”[1]. Esta foi uma rede comunitária criativa impulsionada por um etos libertário que valorizava buscas criativas e criação de conhecimento para seus fins intrínsecos ao invés de instrumentais.

A origem da internet é caracterizada por uma “ecologia do conhecimento” constituída de participantes ativos desempenhando seu papel em um mosaico tecnológico criativo. É por essas razões que o desenvolvimento libertário da Internet foi concebido como uma "economia da dádiva" ou bens comuns informativos que evitam o hierarquismo, compartilhando e igualando a participação, inovação e criação de conhecimento.

É dentro da cultura hacker, no entanto, que o ethos libertário e anárquico da Internet é mais diretamente invocado. Hoje, o termo hacker tem conotações pejorativas, na verdade criminalmente sinistras. No entanto, seu significado original era muito diferente.

De acordo com Jordan[7], o termo “hack” originalmente significava um usuário criativo de nova tecnologia, e os hackers eram conhecidos por sua busca por inovação dentro de uma tecnocultura colaborativa que valorizava e compartilhava a invenção criativa e a geração de conhecimento. Também há uma distinção entre “hackers” e “crackers”, este último mais geralmente entendido como aqueles que gostavam de sistemas incapacitantes para ganho pessoal ou criminoso. Como Saco aponta, o termo “crackers” foi inventado pelos próprios hackers para distinguir as práticas benignas de invadir sistemas de computador e os desafios intelectuais que eles representam do “cracking”, que significa a invasão de sistemas para fins maliciosos e/ou ilegais.

O WikiLeaks, p.e., contém elementos de ambas as categorias, já que muito do que eles fazem é considerado ilegal. Para Jordan[7], o ponto importante é que os hackers “resistem a ser determinados tecnologicamente e [buscam] reformar tecnologias para que haja novas determinações”.

A então ausência da nova tecnologia de um controle hierárquico mais centralizado tornou-a aberta e igualitária e, por meio de sua admissão de todos, virou a dinâmica de inclusão/exclusão de ponta-cabeça. A elite tecnológica original pode ter sido “disciplinada, ordeira, relativamente homogênea”, mas seus “descendentes” de hackers foram “impetuosos, indisciplinados e [...] além do controle de qualquer pessoa”[8].

A crescente comercialização da tecnologia provocou uma reação feroz voltada para defesa do espírito essencialmente libertário da internet, o que transformou o hacking não apenas em um ato criativo, mas também altamente político. Uma luta de Davi e Golias, entre hackers anárquicos contra o poder institucional do mercado e do estado. Os primeiros hackers, como Stallman e Torvald, começaram a resistência à mercantilização da tecnologia criando processos para miná-la por meio de uma organização chamada The Free Software Movement[9].

Depois, lançaram um sistema de licenciamento “copyleft” na década de 1980, para resistir à tendência de mercantilização, particularmente conforme promulgado por meio de copyright. Isso aconteceu durante a década de 1990, período da explosão da Internet, impulsionada pelo rápido crescimento da propriedade de computadores pessoais, a proliferação de software de protocolo e, em particular, o lançamento da World Wide Web (WWW), uma multimídia de interface mais eficaz.

Um personagem central na criação da WWW, Tim Berners-Lee, se inspirou no “manifesto” do hacker Computer Lib de 1974. Este manifesto foi um apelo à democratização, livre difusão e participação nas tecnologias informáticas para o cidadão comum, visava que ela não fosse um privilégio de uma elite tecnológica.

Enfim, pode-se afirmar que a internet se tornou um espaço de comunidades virtuais, nem todas dedicadas ao ethos libertário do hacker e seu compromisso com a livre participação, contribuição e acesso. No entanto, ainda que inconscientemente, essas comunidades virtuais lançam mão de práticas comunicativas abertas e livres - ao que pode ser efetivamente entender como uma espécie de esfera pública eletrônica que possibilitou a prática virtual da liberdade de expressão global.

 

3 A CULTURA HACKER

Realizada brevemente a discussão sobre as visões discordantes acerca do potencial libertário da internet no âmbito anarquista, este tópico volta-se à análise da evolução da comunidade de hackers, do hacking ao hacktivismo, i.e., a transformação da atividade hacker em algo com motivação política[7].

Segundo Taylor[10] e Conway[11], os hacktivistas representam uma nova geração de hackers, surgida em meados da década de 1990. Antes dos hacktivistas, havia: 1) hackers “verdadeiros”, ou os pioneiros da computação das décadas de 1950 e 1960, que se divertiam com os recursos dos computadores do MIT e de outras universidades americanas; 2) “hackers de hardware” ou os inovadores de computador da década de 1970; 3) uma geração de ‘crackers’ da década de 1980, também conhecidos como hackers que exploravam sistemas para fins maliciosos; 4) “microserfs”, também conhecidos como programadores da década de 1990, que exibiram diferentes "aspectos da subcultura hacker", ao mesmo tempo que aderiam à cultura corporativa de empresas como a Microsoft.

O hacktivismo foi moldado em um clima intelectual cercado pelos impactos da globalização[10]. Enquanto as gerações anteriores de hackers foram manifestações de uma celebração da tecnologia, os hacktivistas são diferentes das gerações anteriores de hackers no sentido de que o hacktivismo é principalmente celebrar a agência humana[12]. A importância do hacktivismo é vista em seus métodos únicos, que “procuram aliar de forma criativa técnicas baseadas em tecnologia com recursos culturais tradicionais e indígenas”[12].

Para entender como o fenômeno do hacktivismo surgiu, é importante examinar os fatores que contribuíram para seu nascimento. Os pesquisadores citam os seguintes "gatilhos" primários que facilitaram o surgimento do hacktivismo, os quais também são responsáveis, em parte, pela mudança que o ativismo provocou no âmbito digital, veja-se: 1) a expansão da tecnologia da informação no mundo moderno; 2) o contexto de crise global e crescente consciência política dentro das comunidades de hackers; 3) supressão estatal e/ou limitação do protesto tradicional; e 4) controle estatal e corporativo da propriedade intelectual (direitos autorais) e da Internet.

Além disso, numerosos autores atribuem o surgimento do hacktivismo, assim como do ativismo digital, à crescente importância da tecnologia no mundo moderno. “A expansão das tecnologias de informação e telecomunicações resultou no surgimento de novas culturas virtuais urbanas”[13]. Em outras palavras, a evolução de uma sociedade tradicional para uma sociedade de comunicação levou ao surgimento de culturas e subculturas virtuais. Essas culturas virtuais, por sua vez, formaram uma variedade de movimentos sociais e políticos online, que operam ao nível local e global.

Van Laer e Van Aelst[14] sugerem que o ativismo mudou para o reino online porque a Internet permite que os manifestantes promovam ideologias políticas em um nível mais global e via distâncias físicas, algo crucial para os ativistas no contexto atual de globalização. Dizem os autores que: “como econômico e o poder político mudou gradualmente para o nível internacional, a internet permitiu que os movimentos sociais acompanhassem essa transição e operassem de forma mais global”[14].

A Internet, segundo Jensen, Danziger e Venkatesh, constitui um novo canal que fomenta a formação de novas comunidades. Essas comunidades online são, em muitos aspectos, superiores às comunidades offline tradicionais. Uma das vantagens significativas das comunidades online é que a Internet como meio “pode mobilizar segmentos adicionais da comunidade política que não participam offline”. Em outras palavras, o ciberespaço tem a capacidade de facilitar discussões políticas que tendem a atrair “uma variedade mais ampla de grupos demográficos”, que de outra forma não participariam politicamente.

Outra qualidade importante da Internet é que ela ajuda a mitigar o status socioeconômico (SES). À semelhança de Papadimitriou[13], que afirma que a Internet (ou 'Notopia') cria comunidades que se caracterizam pelo anonimato, diversidade e união Jensen, Danziger e Venkatesh concluem que a Internet promove “uma maior democratização do político processo”, porque o status socioeconômico se torna irrelevante online.

Há muito tempo está estabelecido que uma democracia saudável não pode ser alcançada sem uma sociedade civil saudável. A Internet, ou a "comunidade virtual", representa uma nova arena que fornece aos indivíduos novas dinâmicas para a criação de uma sociedade civil saudável.

Os autores concluem que os processos democráticos estão de fato ocorrendo online, e que o ciberespaço representa um “meio distinto e socialmente inserido no qual o comportamento político ocorre”, em vez de uma mera extensão do engajamento político offline.

Para Beyer[15], quem analisou movimentos de “liberdade de informação” (como Anonymous, WikiLeaks e o Partido Pirata Internacional), a Internet representa uma ferramenta poderosa para moldar as crenças e ações políticas das pessoas, sendo especialmente eficaz na mobilização das gerações mais jovens, os quais estão “dispostos a se mobilizar em nome de reivindicações abstratas de direitos, a qual se espalha rapidamente pelos espaços sociais online” [15].

Assim, a Internet tem um forte potencial não apenas para a criação de movimentos sociais e políticos, mas também para a transformação da sociedade. Mahncke e Williams concordam ao afirmar que o desenvolvimento da Internet e a globalização de muitas maneiras estão desafiando cada vez mais as relações internacionais ao fornecer às pessoas novas maneiras de participar da política local e internacional.

Por fim, Fitri[16] sugere que a Internet, além de ser uma ferramenta poderosa para gerar apoio a causas políticas não violentas, também muda a natureza da ação coletiva. Mais especificamente, ele afirma que o ciberespaço empodera os participantes de uma forma que os espaços físicos simplesmente não podem.

A Internet como uma ferramenta para o discurso da democracia é empoderadora e atraente para ativistas e hacktivistas, porque fornece às pessoas métodos novos e mais eficazes de participação política. P.e., ela permite a coleta e publicação rápida e econômica de informações, bem como a comunicação com outras pessoas e a coordenação de ações em escala global de maneira mais eficaz. Tanto que levou à formação de um novo movimento, conhecido como hacktivismo, impulsionados também pela crise global, manifestada por meio da violação dos direitos das pessoas pelos governos e da crescente consciência política dentro da comunidade hacker.

Taylor[10] sugere que, ao longo do tempo, os hackers se tornaram mais politicamente conscientes. O hacking originalmente celebrou “engenhosidade humana sobre sistemas tecnológicos” [12]; mais tarde, entretanto, o hacking se tornou uma celebração da tecnologia em si.

A dicotomia da agência humana e das estruturas tecnológicas é muito importante para entender por que o hacking fez a transição para o hacktivismo. Conforme o mesmo autor, os hackers passaram por uma transição de indivíduos “politicamente não esclarecidos” com “conformidade patológica aos costumes da sociedade industrial” e “parasitas” [13], para indivíduos politicamente informados e proativos.

Em outro estudo, Taylor também sugere que os hackers evoluíram para hacktivistas a fim de serem “aceitos como parte legítima da sociedade” [10]. Isto é, essa transição de hackers para hacktivistas foi uma resposta ao seu status cada vez mais marginal.

 

3.1 CULTURA E ÉTICA DO HACKTIVISMO

A literatura revisada por pares identifica os seguintes componentes básicos da cultura hacktivista: teorização da conspiração, obsessão com privacidade e sigilo, fluidez de filiação, herança anárquica e sentimento anticapitalista e a cultura de humor e criatividade, as quais são trabalhadas neste tópico.

Krapp[17] aponta que a teorização da conspiração representa uma parte da cultura da Internet e, portanto, também uma parte da cultura hacktivista, uma vez que o hacktivismo está íntimo à comunicação online. O autor sugere que a teorização da conspiração representa “o modo nativo de pensar online” [17], ou um modo de teorizar sobre política e história. O pensamento conspiratório permite que os usuários da Internet e hacktivistas “refugiem-se no pensamento reconfortante de que algo importante sempre permanece oculto”[17].

As teorias da conspiração dão aos usuários da Internet formas alternativas de visualizar a política ou a história, especialmente nos casos em que as versões oficiais parecem incompletas ou tendenciosas. O sigilo e o anonimato representam outra parte importante da interação online, o que também é evidente na cultura hacktivista.

Gillen[18] afirma que a cultura da Internet está historicamente enraizada no anonimato relativo para os usuários; não é surpreendente, então, que a privacidade e o anonimato representem uma questão importante para hackers e hacktivistas. Wray[19] concorda ao afirmar que os hackers politizados têm um estilo de organização muito distinto; são “secretos, privados, discretos e anônimos” por natureza. Jordan e Taylor[20], em seu estudo sociológico sobre hackers, também apontam que o anonimato representa um componente integrante da comunidade hacker. Isto é sobremaneira importante porque o hacking representa uma atividade ilegal fortemente perseguida pelo Estado.

Outro componente crucial da comunidade hacker, estreitamente relacionado à comunidade hacktivista, é a cultura da fluidez dos membros, i.e. a alta taxa de mudança e evolução dos grupos e seus membros[20].

Muitos movimentos sociais têm como características serem redes informais, em vez de organizações formais. Tanto a comunidade hacker quanto a hacktivista têm limites altamente permeáveis: suas comunidades não têm cerimônias ou rituais formais, nem órgãos governantes. Não é surpresa, então, que “a natureza informal e em rede da comunidade hacker, combinada com sua natureza ilícita e às vezes obsessiva, significa que ocorre uma alta rotatividade” [20].

Mesmo que as comunidades de hackers e hacktivistas expressem o desejo de se organizar formalmente, o caráter ilícito da atividade impedem essa organização formal, pois isso facilitaria a captura de membros[20]. Assim, as comunidades de hackers e hacktivistas costumam ter uma estrutura geral solta e representam uma comunidade informal.

Jordan[10] afirma que as comunidades hacktivistas podem carecer da solidariedade que normalmente está presente entre os manifestantes em protestos de rua em massa, pois é muito mais difícil para os hacktivistas se reconhecerem.

Outro aspecto que caracteriza a cultura hacktivista é a sua herança anárquica. Os hackers foram os fundadores da Internet; eles lançaram as bases do protesto político no espaço cibernético, com base em seu compromisso ético com a anticensura e a liberdade de informação, bem como com base em suas capacidades tecnológicas. Isso deixou os hacktivistas com algo de uma herança anárquica e uma abordagem anarquista do ativismo[18].

Os movimentos hacktivistas também possuem sentimentos anticorporação ou anticapitalista. A ideia de que o capitalismo perdeu sua legitimidade, assim como a ideia de que o capitalismo é incapaz de se comunicar com seus cidadãos, tem forte ressonância na comunidade hacktivista[18], resultado da forte relação do movimento com ideais de justiça, liberdade e solidariedade.

A comunidade hacker contribuiu para uma série de inovações relacionadas ao computador no passado, pautadas no espírito de exploração lúdica que sempre caracterizou esta comunidade[17]. A cultura hacktivista pega emprestado esse aspecto da cultura hacker; e muitas vezes é caracterizado pelo uso de humor e criatividade em combinação com hacking, pois usam a linguagem do deboche, do absurdo, criativa e lúdica para se comunicar, bem como sarcasmo e humor negro[21]. O famoso coletivo hacktivista Anonymous, p.e., é conhecido por fazer vídeos de maneiras muito artísticas e criativas.

Vários estudos revisados por pares são dedicados às considerações éticas do hacktivismo. É importante mencionar que, embora a literatura inicial sobre hacktivismo (anos 1990 e início de 2000) o retrate sob uma luz mais crítica, trabalhos mais recentes assumem uma posição mais positiva e/ou defensiva do fenômeno.

Alguns autores apontam que o hacktivismo se assemelha muito à desobediência civil[22][23]. O hacktivismo também pode ser conceituado como uma forma justificável de ativismo político, uma vez que visa governos e corporações[22], isto porque não usam violência e / ou não causam danos físicos, embora suas ações possam causar outros danos.

A ética hacktivista está intimamente ligada à ética hacker original. O termo ‘ética do hacker’ foi cunhado pela primeira vez pelo jornalista Steve Levy em seu livro de 1984 “Hackers: Heroes of the Computer Revolution [24]. Levy descreveu a ética do hacker como consistindo nos seguintes princípios básicos: 1) todos devem ter acesso ilimitado e irrestrito aos computadores; 2) a informação quer ser gratuita e, portanto, deve ser gratuita; 3) deve-se desconfiar de qualquer tipo de autoridade e promover a descentralização; 4) os hackers devem ser julgados por suas habilidades técnicas, em vez de critérios falsos, como graduação, idade, raça ou posição); 5) atividades de hackers em computadores devem ser consideradas atos de arte e beleza; e 6) os computadores são vistos como fenômenos positivos, que podem mudar a vida de uma pessoa para melhor.

A comunidade hacker sempre se opôs à propriedade privada e/ou censura de informações, como fica evidente na ética hacker mencionada. Eles entendem a tecnologia sob duas possibilidades conflitantes: pode ser dominadora ou emancipadora, por isso se assumem como emancipadores da tecnologia. I.e., a democratização total da tecnologia é a principal ideologia da comunidade hacker. Nesse sentido, os hacktivistas “enfrentam as narrativas hegemônicas dos conglomerados de comunicação, a fim de estabelecer uma troca de informação descentralizada e comunicativa”[25].

Os hacktivistas compartilham muitos, senão todos, os princípios da ética hacker original. Tanto a ética hacker quanto hacktivista são libertárias e anarquistas por natureza: sua ética os coloca “em rota de colisão com o complexo comercial-industrial que deseja possuir e controlar a Internet”[22]. Os hacktivistas podem, portanto, ser conceituados como oponentes da elite do poder, que, por sua vez, busca usar a tecnologia para promover suas próprias agendas.

Não é nenhuma surpresa, então, que os hacktivistas tenham sido retratados pelo estado e pela mídia como vilões e ameaças à sociedade. Uma vez que os atos da maioria dos hacktivistas são cometidos contra governos e poderes corporativos, o hacktivismo rapidamente se tornou equiparado ao terrorismo cibernético. No entanto, os próprios hacktivistas condenam abertamente o terrorismo cibernético. Manion e Goodrum[22] afirmam que os hacktivistas são de fato diferentes dos terroristas cibernéticos: enquanto os terroristas cibernéticos usam a tecnologia (incluindo a Internet) para cometer atos terroristas, os hacktivistas agem de acordo com a desobediência civil.

Um ato de desobediência civil é baseado nos seguintes princípios: 1) não se deve causar danos a pessoas ou bens; 2) as ações de uma pessoa devem ser não violentas; 3) não se deve buscar lucro pessoal; 4) deve-se ter forte motivação ética para cometer um ato de desobediência civil; 5) deve-se estar disposto a assumir responsabilidade pessoal por suas ações[22].

O hacktivismo é um tanto, embora não totalmente, consistente com a filosofia da desobediência civil, especialmente em suas posturas sobre ética e violência. É importante, então, distinguir o hacktivismo do terrorismo cibernético (que usa métodos violentos) ou dos criminosos cibernéticos (que buscam lucro ou ganho pessoal). Embora os três usem a tecnologia como ferramenta para atingir seus objetivos, suas motivações são bem diferentes. Fitri[16] sugere outra comparação que ilustra essas diferenças muito claramente: enquanto o terrorismo cibernético visa a destruição, o hacktivismo visa a ruptura.

 

4 REFLEXOS DO HACKATIVISMO NOS MOVIMENTOS SOCIAIS

 

4.1 A NECESSÁRIA DIFERENCIAÇÃO ENTRE HACKATIVISTAS E CYPHERPUNKS

O "cypherpunks" é um movimento inclinado a uma posição política antiestatista conhecida como "cripto-anarquismo". O criptoanarquismo afirma que a comunicação anônima, possibilitada pela disseminação gratuita e global da tecnologia de criptografia de chave pública pela Internet, permitirá pelo eventual triunfo da liberdade individual sobre a violência e dominação sancionada pelo Estado; e que os desenvolvimentos na história intelectual e no software de computador estão tendendo para a realização da emancipação.

Esta forma de anarquismo, no entanto, é dominada por libertários de direita que defendem o “objetivismo” Randiano e o capitalismo desenfreado. Tim May, o representante público mais reconhecível dessa tendência entre os cypherpunks, imagina uma utopia objetivista em que indivíduos autônomos precisam apenas lidar uns com os outros de forma totalmente voluntária (maio de 1994).

Embora ele sustente que a expansão inevitável e irrestrita das tecnologias criptográficas resultará inevitavelmente na vitória do criptoanarquista, até este momento, May defende estratégias como a evasão fiscal, a venda de segredos militares e o desenvolvimento de "mercados de assassinato" para manter os gestores do estado em linha[35]. Ele também reconhece que qualquer futuro criptoanarquista resultaria necessariamente na centralização do controle técnico em um pequeno número de elites tecnologicamente proficientes e que essa pequena porcentagem será a única a prosperar.

Enquanto isso, o resto – as massas, os “95% sem noção [...] o improdutivo, o estagnado e o coxo” – sofreria em qualquer futura utopia anarcocapitalista, mas isso seria apenas o justo. Essa posição conflita com os princípios tradicionalmente socialistas do anarquismo, que rejeita veementemente o substantivo anarcocapitalismo, por ser uma contradição em seus próprios termos, já que o anarquismo é, em si, anticapitalista. Não há como associar o antiestatismo, o capitalismo e a práxis emancipatória. No entanto, há confluência entre o hackiativismo e o cypherpunks sobre dois temas principais: 1) as capacidades de vigilância do estado moderno precisam ser resistidas e, 2) a liberdade criptográfica absoluta deve ser perseguida para esse fim.

 

4.2 O HACKATIVISMO E O ANARQUISMO ENQUANTO MOVIMENTOS SOCIAIS

Alguns estudiosos sugerem que o hacktivismo pode ser conceituado como uma resposta à supressão do estado de métodos tradicionais de protesto (ou seja, protestos de rua). Embora o hacktivismo não seja causado diretamente pela repressão do estado aos protestos de rua, o aumento do hacktivismo está relacionado às tentativas dos governos de controlar, minimizar ou banir os protestos tradicionais.

Exemplo disso é o caso da China. Ao longo da história, o governo chinês muitas vezes bloqueou “as formas físicas tradicionais pelas quais os cidadãos chineses podiam expressar sua raiva sobre questões políticas”[27]. Foi a “falta de liberdade para protestos físicos”[27] que levou os cidadãos chineses a usar uma arena alternativa de protesto: a Internet.

Em sua pesquisa, eles também levantam a hipótese de que, em tempos de eventos políticos importantes, a adesão ao hacktivismo aumentaria. O estudo de Yip e Webber[27] confirmou a hipótese: o hacktivismo na China aumentou durante os momentos em que o povo chinês foi ou se sentiu ameaçado por seu governo.

Semelhante a Yip e Webber, Fuchs[28] afirma que os hacktivistas muitas vezes se envolvem em situações nas quais os protestos tradicionais reprimidos. Exemplo disso é o Anonymous e seu envolvimento no Movimento Occupy Wall Street (OWS), o coletivo se interessou pelo movimento OWS quando manifestantes pacíficos de rua foram ameaçados pela polícia. Ou seja, os hacktivistas se envolveram como resultado da brutalidade policial e da agressão contra os ativistas de rua.

Além disso, há uma relação entre o controle de propriedade intelectual na Internet e a ação dos hackativistas. Uma série de estudos sugere que o hacktivismo surgiu como uma resposta ao controle estatal e corporativo da propriedade intelectual. O que também representa uma diferente forma de combater a propriedade privada. Bakioglu sugere que o hacktivismo surgiu como uma iniciativa baseada em rede em resposta a “violações de privacidade que ocorreram por ordem de direitos autorais”, bem como “tensões entre propriedade intelectual e privacidade”.

Fuchs usa o conceito de capitalismo em rede global (CRG) em sua análise dos movimentos de direitos digitais e hacktivismo, que é assim definido:

O capitalismo em rede global é baseado em um modelo organizacional transnacional, as organizações cruzam as fronteiras nacionais, o aspecto inovador é que as organizações e as redes sociais estão cada vez mais distribuídas globalmente, que os atores e subestruturas estão localizados globalmente e mudam dinamicamente (novos nós podem ser continuamente adicionados e removidos), e que os fluxos de capital, poder, dinheiro, mercadorias, pessoas e informações são processados globalmente em alta velocidade. O ciberespaço permite a flexibilização e extensão global dos sistemas sociais no espaço, e a superação dos limites temporais, apoia a transnacionalização do capitalismo. O capitalismo em rede global é baseado em desigualdades estruturais; é composto por espaços segmentados (econômicos, políticos, culturais) nos quais centros centrais (corporações transnacionais, certos atores políticos, regiões e países, estilos de vida ocidentais e visões de mundo) centralizam a produção, o controle e os fluxos econômicos, políticos e culturais capital (propriedade, poder, habilidades). O capitalismo em rede global é um sistema antagônico; as redes transnacionais são espaços de dominação e espaços de libertação potencial da dominação).

 

O CRG representa, então, um lugar antagônico, no qual coexistem o controle da informação e a resistência a tal controle. Embora o estado ou as corporações possam tentar controlar a propriedade intelectual (p.e., direitos autorais), também há uma oposição a esse controle. A Operação Vingança, lançada pelo Anonymous, surgiu justamente em resposta a ataques à pirataria digital.

As tentativas do governo de exercer influência sobre as tecnologias de comunicação, e a Internet em particular, também desencadearam o hacktivismo, de acordo com Hearn, Mahncke e Willians[30]. O hacktivismo representa a “guerra distribuída com base no cidadão” (p. 1) contra as superpotências políticas e corporativas globais. Esses autores usam a teoria do meio para explicar por que o hacktivismo surgiu. A teoria do meio “assume que ferramentas como a Internet não são neutras e estão sujeitas à ação humana”[30]. I.e., a teoria do meio propõe a seguinte ideia: quando uma nova forma de comunicação é introduzida em uma sociedade (como a Internet), a sociedade será afetada cultural, social, política e como economicamente ​​ resultado da introdução deste meio[30].

É indiscutível que o nascimento da Internet também resultou no surgimento de relações de poder entre autoridades que tentam ativamente criar um "monopólio do conhecimento" e a sociedade na qual existem. O hacktivismo surge como uma resposta a essa hegemonia digital de estado e corporação e pode ser visto como uma resposta às ameaças às modernas tecnologias de comunicação, colocadas pela elite.

A este respeito, Hearn, Mahncke e Willians[30] conceituam o hacktivismo como interferência cultural (culture jamming). Os autores definem interferência cultural como “manipulação da mídia de massa por artistas e ativistas” com o propósito de criar “significados alternativos ou [combater] hegemonia”[30]. Exemplo de culture jamming é o graffiti: apesar de poder parecer “banditismo de outdoor”, ele tem um propósito subjacente que vai além do vandalismo: minar as intenções daqueles que criaram o outdoor ou anúncio. Da mesma forma, o hacktivismo surgiu não com o propósito de vandalismo, mas com o propósito de desafiar o poder corporativo e estatal sobre a tecnologia e conscientizar sobre os perigos desse controle.

 

4.3 O CASO DO WIKILEAKS

O WikiLeaks surgiu no cenário político global em 2010, quando vazou muitos documentos secretos do governo americano, disponibilizados em seu site na Internet. Seu objetivo é expor diretamente em rede dos segredos que sustentam as ambições de controle social das instituições estatistas.

 

O caso Wikileaks, é, sem dúvida, uma importante evidência empírica reveladora do cenário das novas lutas coletivas contra o capital hegemônico. Verificou-se uma forte reação do capital contra o movimento liderado por Assange. Por outro lado, revelou-se a rigidez predatória das leis britânicas, no trato com a imprensa, bem como a incoerente política do governo americano, no que se refere à liberdade de expressão. Utilizou-se de hackers e pressão política para tentar destruir toda a estrutura física do site[2].

Segundo matéria publicada no jornal El Pais[31], no final de 2010, o WikiLeaks expôs mais de 250.000 mensagens do Departamento de Estado dos EUA, que revelavam episódios inéditos ocorridos nos maiores conflitos mundiais, além de eventos e dados de grande relevância sobre a política exterior norte-americana, seus mecanismos e suas fontes, deixando em evidência suas fraquezas e obsessões. Juntas, essas informações facilitavam a compreensão, por parte dos cidadãos, das circunstâncias em que se desenvolve o lado obscuro das relações internacionais.

O mecanismo criado pelo editor-chefe da fundação, Julian Assange, consiste no fornecimento de uma plataforma onde os denunciantes pudessem vazar documentos de modo anônimo sem o receio de serem rastreados. Isso resultou em um movimento mundial de vazamento em massa para desafiar uma "governança por conspiração e medo" de forma generalizada.

Muitos dos detratores do WikiLeaks criminalizaram a organização alegando que ela ameaçava a segurança nacional e global, além do seu caráter megalomaníaco e anárquico. De fato, um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, P. J. Crowley, com a intenção de atacar a imagem do grupo, declarou que Assange “não é um jornalista” ou “um denunciante”; ele é “um ator político com uma agenda política um anarquista”. Contudo, Assange afirma que:

 

A luta do WikiLeaks é uma luta de muitas facetas. Em meu trabalho como jornalista, lutei contra guerras e para forçar os grupos poderosos a prestarem contas ao povo. Em muitas ocasiões, manifestei-me contra a tirania do imperialismo, que hoje sobrevive no domínio econômico -militar da superpotência global.

 

A acusação de anarquismo é frequentemente usada de forma livre e pejorativa, com o objetivo de significar o temperamento antissocial de alguma pessoa ou organização como se voltada para atacar as normas e práticas de uma ordem social.

Como dito, o WikiLeaks busca uma contrarresposta às forças da globalização neoliberal e às geografias retrabalhadas de desigualdade e dominação que ocorrem em seu nome. As novas tecnologias são um importante impulsionador do cenário globalizado de hoje, organizações "hackers" como o WikiLeaks injetam sua luta tanto por meio do uso das novas tecnologias quanto contra o tipo de mundo que elas possibilitaram mais recentemente.

Embora a natureza, o escopo e as implicações dessas novas tecnologias sejam altamente contestados, tanto dentro do pensamento anarquista quanto da sociedade em geral, a maioria concorda que elas moldaram os contornos da vida econômica, social e política de maneiras significativas. Para Assange:

 

‘’A vigilância não constitui um problema apenas para a democracia e para a governança, mas também representa um problema geopolítico. A vigilância de uma população inteira por uma potência estrangeira naturalmente ameaça a soberania. Intervenção após intervenção nas questões da democracia latino -americana nos ensinaram a ser realistas. Sabemos que as antigas potências colonialistas usarão qualquer vantagem que tiverem para suprimir a independência latino -americana”.

 

Essa concepção anarquista do movimento encontra respaldo no foco emancipatório de criação de “espaços livres” descentralizados que desafiam os arranjos hierárquicos e centralizados prevalentes.

No caso do WikiLeaks, fica evidente como as redes informacionais propiciam a propagação das informações instantaneamente e de como o processo de digitalização de documentos, compromete a confidencialidade das informações. Poucos segundos são suficientes para a cópia e o envio de dados para qualquer local do mundo.

No mesmo dia, os jornais do mundo todo abordavam em suas manchetes sobre os 251.287 telegramas diplomáticos do Departamento de Estado que destrinchavam a política interna de mais de cento e setenta países na primeira década do século XXI. Até hoje é, a maior quantidade de documentos oficiais vazados e publicados em domínio público da história. O vazamento ficaria conhecido como “Cablegate”.

Observamos assim que esse cenário, qualquer pessoa pode desencadear uma crise diplomática, enviando uma informação confidencial que tenha acesso. Esse fato representa a ameaça da difusão total do poder na sociedade global.

Conforme Carlo Cosentino[2],

 

Julian Assange é descrito como “excepcionalmente inteligente”, compunha um grupo hacker do submundo de Melbourne, na Austrália, que, entre outras coisas, instalou um worm dos piores no sistema da NASA, já dando mostras que daria trabalho ao governo americano. Invadiu e controlou, por dois anos, um terminal do Pentágono. Por esta razão foi condenando a pagar uma multa de mais de dois mil dólares. Anos mais tarde, criou um serviço gratuito de compartilhamento de informações: o Best Security, site de grande sucesso que dava dicas de segurança.

 

Em 1999, Assange criou o WikiLeaks, usando o nome do seu pai biológico, John Shipton. Em seu blog – IQ.org – elaborou uma teoria sobre estruturas da informação, relacionando a existência de segredos dos EUA com atrocidades. O texto foi como uma semente em direção ao que se tornaria o WikiLeaks anos depois.

As primeiras informações secretas chegaram ao WikiLeaks, segundo evidências encontradas por Luke Harding e David Leigh, através de hackers que eram pontas de rede do sistema. Assim, quando o site foi lançado, em 2006, a maioria das informações publicadas foi proveniente de dados grampeados.

Após alcançar notoriedade mundial, com as primeiras publicações, passou a trabalhar no sistema de cooperação. Fez acordos com veículos de comunicação como o jornal inglês TheGuardian, o americano The New York Times, além do El País, da Espanha, do Le Monde, da França, e da revista Der Spiegel, da Alemanha. Primeiro foram os diários de guerra do Afeganistão e Iraque e, logo depois, a infinidade de telegramas diplomáticos – tudo saído das cópias que Manning fazia de arquivos secretos, suspeita-se.

O caso WikiLeaks é, sem dúvida, uma importante evidência empírica reveladora do cenário das novas lutas coletivas contra o capital hegemônico. Verificou-se uma forte reação do capital contra o movimento liderado por Assange.

 

4.3.1 WIKILEAKS E O BRASIL

No Brasil, a primeira vez que o WikiLeaks chegava à capa de um jornal foi em 29 de novembro de 2010, quando os cinco maiores jornais do mundo, mais a Folha de S. Paulo no Brasil, publicavam o maior vazamento da história do jornalismo. No topo da capa daquela segunda-feira, a Folha estampava: “Brasil disfarçou luta antiterror, dizem EUA”.

O grupo também revelou como o governo dos EUA treinou agentes do Poder Judiciário, incluindo o ex-juiz federal Sérgio Moro. O documento apresentado pelo WikiLeaks, datado de 2009, informa o pedido de um treinamento aprofundado em Curitiba, vara do juiz Sérgio Moro, que atuou como comandante da famosa Operação Lava Jato, que influenciou diretamente nos resultados das eleições presidenciais de 2018.

Nos documentos vazados, o projeto é intitulado como "Projeto Pontes", que consistia num seminário com para consolidar a aplicação bilateral de leis e habilidades práticas de contraterrorismo, contando com a participação de juízes federais e promotores dos 26 estados brasileiros, além de 50 policiais federais. Também estavam presentes representantes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai.

 

Não é segredo algum que, na Internet, todos os caminhos que vão e vêm da América Latina passam pelos Estados Unidos. A infraestrutura da internet direciona a maior parte do tráfego que entra e sai da América do Sul por linhas de fibra óptica que cruzam fisicamente as fronteiras dos Estados Unidos. O governo norte-americano tem violado sem nenhum escrúpulo as próprias leis para mobilizar e espionar seus cidadãos. E não há leis contraespionar cidadãos estrangeiros. Todos os dias, centenas de milhões de mensagens vindas de todo o continente latino-americano são devoradas por órgãos de espionagem norte-americanos e armazenadas para sempre em depósitos do tamanho de cidades. Dessa forma, os fatos geográficos referentes à infraestrutura da internet têm consequências para a independência e a soberania da América Latina. Isso deve ser levado em consideração nos próximos anos, à medida que cada vez mais latino-americanos entrarem na internet.

 

Além do que comenta Assange, é preciso destacar a rigidez predatória das leis internas de cada País no trato com a imprensa, bem como a incoerente política dos governos aliados à lógica do capital, no que se refere à liberdade de expressão. Os países têm se utilizado de hackers e pressão política para tentar destruir toda a estrutura física do movimento criado Julian Assange. Porém, as tentativas de frear a atuação dos ciberativistas são ineficazes, no cenário da sociedade informacional, devido à difusão do poder entre os usuários da tecnologia da informação, uma multidão de anônimos criou diversos leaks-espelho, em todas as partes do mundo, salvando as informações do site de Assange.

Assim é insuficiente a tentativa de silenciamento, prendendo-o ou mesmo retirando o WikiLeaks do ar. Um dos resultados mais interessantes da atuação do WikiLeaks, p.e., surgiu após a divulgação de telegramas vazados da missão norte-americana na Tunísia, que denunciavam a corrupção dos governantes. Com o referido fato, dezenas de milhares de manifestantes se ergueram e derrubaram o presidente do país, Zine El Abidine Ben Ali.

Tudo começou depois que um universitário de 26 anos, Mohamed Bouazizi, desempregado e impedido pelas autoridades de vender frutas e legumes nas ruas, desesperadamente ateou fogo em si. Após este acontecimento, Muammar Kadafi, ditador da Líbia (país vizinho a Tunísia) reconheceu a importância do WikiLeaks nas revoltas que abalaram o regime tunisiano, e que meses depois se espalhariam por outros países do Oriente Médio e tirariam o próprio ditador do poder. Naquela oportunidade, disse Kadafi que estava triste pela derrubada de Ben Ali e “preocupado com o povo da Tunísia, cujos filhos morrem diariamente”.

A morte do jovem universitário provocou protestos em todo país contra a repressão política e o desemprego. O que estava por trás da revolta eram as frustrações latentes contra o regime de Ben Ali. Os tunisianos foram o primeiro povo do mundo árabe a tomar as ruas e derrubar um líder que há muito estava no poder.

 

4.3.2 A COMPLEXIDADE DA CARACTERIZAÇÃO DO WIKILEAKS

Para conceitualização do WikiLeaks, é preciso observar suas características. Ele visa um bem comum informativo – compromete-se com o livre acesso e troca de informações que uma Internet anárquica permite. Nesse grau, os fins da liberdade individual podem ser encontrados, pelo menos em parte, nos meios de tecnologia cibernética utilizados pelo grupo.

Inspirado nos elementos altruístas e anárquicos da cultura hacktivista, no antiestatismo do criptoanarquismo e utilizando a infraestrutura anárquica da Internet e os avanços do software hacker para fins de vazamento, o WikiLeaks busca tornar a informação livre para que o poder e o privilégio de governos e corporações se dissolva e desapareça.

No entanto, Assange entende que a luta humana não pode ser definida como “esquerda” contra “direita” ou uma luta iluminista da razão contrafé, mas, sim, como indivíduo contra instituição. Ele acredita que “verdade, criatividade, amor e compaixão são corrompidos” por instituições hierárquicas e “redes de patrocínio” que distorcem o espírito humano. Portanto, apesar de seu “jornalismo científico”, Assange não busca fornecer um relato “imparcial” dos acontecimentos. Em vez disso, sua missão, e o propósito do WikiLeaks, é revelar injustiças e abusos de poder, minando a capacidade dos poderosos de manter em segredo seus enganos e ambições, visando a proteção de indivíduos.

A promessa geral do WikiLeaks é que o ativismo pela transparência aja como um mecanismo para minar o poder centralizado e subverter a hierarquia institucional. Assange sugeriu exatamente isso a potenciais parceiros do projeto do WikiLeaks, alegando que a organização "fornecerá um catalisador que derrubará governos furtivamente em todos os lugares" e poderia ajudar a desvendar regimes que mantêm sua autoridade por meio de engano e desonestidade.

É nesse sentido que o WikiLeaks visa regimes explicitamente autoritários como a China e a Rússia. No entanto, a organização também busca revelar “o comportamento imoral” e os segredos de governos capitalistas e corporações monopolistas, no processo de “derrubada... [de organizações] que confiam na ocultação da realidade - incluindo a administração dos Estados Unidos”.

O WikiLeaks revela ainda seu caráter anárquico por meio de sua identificação do poder corporativo e institucional como prejudicial à atualização da liberdade humana. Uma breve análise revela que a coletividade do WikiLeaks vê as corporações como entidades autoritárias centralizadas que utilizam medidas de vigilância abrangente para espionar regularmente seus trabalhadores, e onde a eficiência econômica e o crescimento são continuamente privilegiados sobre a liberdade e igualdade humana.

Sua crítica ao capitalismo e seu antiestatismo explícito revelam uma aversão, não apenas a determinados arranjos hierárquicos, mas também à própria noção de autoridade e hierarquia impostas externamente. A busca radical do ativismo do WikiLeaks pela transparência, portanto, destaca seu compromisso anárquico com a descentralização do poder e da informação, visando uma democracia mais aberta, dedicada à busca da liberdade individual e da organização social não hierárquica.

Assim, é possível notar algumas sinergias importantes entre os princípios e práticas anarquistas e os valores e ambições do WikiLeaks. Nesse grau, os críticos do WikiLeaks podem estar certos quando o rotulam de anarquista, mesmo que tal vise depreciar a organização. Nada obstante, Assange e o WikiLeaks rejeitaram abertamente rótulos revolucionários e anárquicos, embora a análise das ideias formativas do WikiLeaks revela uma relação muito mais próxima - embora confusa - com a práxis revolucionária do que qualquer um deles admitiria abertamente.

Certamente, o WikiLeaks ressoa fortes impulsos anárquicos e é motivado por algumas das principais análises e ideais da ideologia anarquista. Isso não significa que o WikiLeaks é - ou era - uma organização doutrinária "anarquista" de "carteirinha", o que está de acordo com a rejeição do próprio Assange do rótulo de anarquista, bem como de acordo com alguns dos estudos recentes sobre anarquismo que distingue entre o anarquismo per si e a influência significativa dos valores anarquistas na política de oposição.

Como explorado acima, o reformismo liberal aparente na propagação do WikiLeaks e sua defesa do ativismo pela transparência aparece de muitas maneiras como uma fachada para os objetivos revolucionários que influenciaram Assange e a formação do WikiLeaks. Embora decididamente reformista em sua conceituação, a noção de ativismo de transparência é central para as ideias e objetivos revolucionários que formam o núcleo do WikiLeaks, pois o grupo acredita que o vazamento de informações irá invocar a resistência de massa aos modos estatista e capitalista e, por conseguinte, destruir a capacidade das elites do poder de manter conspirações, abrindo os canais comunicativos fechados necessários à sua manutenção.

Ao fazer isso, o WikiLeaks busca realizar o objetivo anarquista de uma sociedade pós-capitalista organizada ao longo de linhas não hierárquicas e diretamente democráticas, na qual, como Assange espera, verdade, criatividade e amor sejam capazes de emergir de formas mais autênticas e espontâneas.

Contudo, embora as novas tecnologias tenham permitido o "hacktivismo" do WikiLeaks e a "liberação" de informações que estão em seu núcleo, o impacto desse vazamento é, ao mesmo tempo, significativamente circunscrito pelo escopo e alcance desiguais dessas mesmas tecnologias.

Foi dito que os objetivos do ativismo de transparência do WikiLeaks são essencialmente duplos: primeiro, desenraizar e expor as conspirações dos poderosos; segundo, inspirar uma reação ativista baseada em princípios de um público horrorizado com as revelações. Em vez disso, a resposta dos públicos com bons recursos e capazes de acessar os vazamentos foi, na maioria das medidas, desanimadora; enquanto aqueles a quem o conteúdo dos vazamentos mais afetou (p.e., no Iraque ou Afeganistão) tiveram apenas acesso limitado ou nenhum acesso.

Isso toca em um ponto-chave explorado anteriormente: enquanto a Internet abre potencialidades democráticas e anárquicas por meio do desenvolvimento de um público mais informado e mais engajado, a realização dessas potencialidades depende da manifestação material de ação radical por esse público no chão.

A ironia aqui é: a despeito de as ferramentas da Internet tornarem os vazamentos possíveis, sua distribuição desigual minou seu efeito. Como Reid-Henry comenta: “No mundo informativo de hoje, precisamos mais do que apenas a verdade para nos salvar, ao que parece”.

De forma alguma essa dificuldade anula o sucesso do projeto WikiLeaks no confronto e deslegitimação dos atuais arranjos sociais de poderosos institutos estatistas. No entanto, o próprio WikiLeaks parece ter menos sucesso em fornecer uma alternativa prefigurativa anarquista para esses arranjos sociais prevalecentes.

Awwim, os críticos simpáticos aos objetivos do WikiLeaks afirmam que o projeto anárquico está falhando. Paradoxalmente, e apesar da visão de seus detratores principais, a contínua legitimidade e impacto do WikiLeaks dependem, portanto, do fortalecimento, ao invés da diluição, de seus valores anárquicos.

 

4.4 O COLETIVO HACKTIVISTA ANONYMOUS

 ​​​​ O grupo conhecido como Anonymous pode ser definido como um movimento em rede, que é frequentemente referido pelos estudos acadêmicos como uma comunidade hacktivista[21]. O mesmo autor descreve o Anonymous como “imprevisível, anarquista, perturbador, ambíguo, confuso, coletivo exagerado dos anônimos, uma rede frouxa sem membros com objetivos vagos em que todos podem participar” [21].

Fuchs[21] afirma que o Anonymous está comprometido com hackers, geeks, tecnólogos, defensores dos direitos humanos e ativistas, tendo se originado no quadro de mensagens 4chan.org, que é dedicado aos mangás japoneses.

Importante compreender que a plataforma 4chan funciona como um imageboard (também conhecido como chan, abreviatura do inglês channel) é um tipo de fórum/chat de discussão e diálogos que se baseiam na postagem de imagens e texto, geralmente de forma anônima. A interface dos imageboards é bastante simples, não exigindo cadastro nem mantendo o histórico das discussões por muito tempo, favorecendo o anonimato que é imprescindível para os ativistas.

O quadro de mensagens, da referida plataforma, não exige que os usuários registrem uma conta ou revelem sua identidade, a maioria dos usuários atende pelo nome de “anônimo”, posteriormente adotado pelo grupo Anônimo. Uma das primeiras ações coletivas do Anonymous pode ser rastreada até 2006, quando os membros dos conselhos do 4chan organizaram e realizaram “o bloqueio e a perturbação da comunidade online de adolescentes Habbo Hotel”[21].

No mesmo ano, o Anonymous lançou uma campanha contra Hal Turner, um locutor de rádio conhecido por sua visão de supremacia dos brancos e pontos de vista fascistas. Enquanto algumas campanhas anteriores do coletivo foram motivadas pelo desejo de 'trollar' (ou seja, frustrar) indivíduos que eles não aprovavam, ou simplesmente para fazer rir, o Anonymous se tornou mais político em 2008, quando lançou o “Projeto Chanology” contra a Igreja de Cientologia[21]. Em outras palavras, o Anonymous começou como um coletivo com intenções principalmente brincalhonas, mas depois evoluiu para uma organização que “adotou um ethos mais politicamente orientado” [32].

Em 2010, o Anonymous havia se tornado um grupo escandaloso reconhecido internacionalmente. O grupo lançou ataques DDoS como parte da Operação Payback contra Amazon, PayPal, MasterCard, Visa e PostFinance, em resposta às 20 tentativas dessas empresas de bloquear doações para o WikiLeaks.

O chamado ataque DDoS, pode ser compreendido como um ataque de negação de serviço, é uma tentativa de tornar os recursos de um sistema indisponíveis para os seus utilizadores. Não se trata de uma invasão do sistema, mas sim da sua invalidação por sobrecarga.

Serracino-Inglott propõe que Anonymous pode ser melhor compreendido através do conceito de 'cyber vigilantes'. O “Vigilantismo” citado pelo autor pode ser definido como

 

o uso organizado da violência, ou ameaça de violência, por um agente ou agentes que não são voluntariamente responsáveis perante o estado, com o propósito de controlar (prevenir e/ou punir) criminosos e não criminosos, mas ainda ações desviantes.

 

Os vigilantes são movidos ou inspirados por preocupações com a justiça e o bem-estar de sua comunidade. Para ser qualificado como um ‘vigilante’, deve-se atender a todos os seguintes critérios, segundo Serracino-Inglott: 1) a ação de vigilantismo deve ser realizada por uma pessoa que não é voluntariamente responsável perante as autoridades; 2) um ato de vigilantismo deve ser uma ação premeditada; 3) um ato de vigilantismo deve estar conforme o sistema de valores minimamente defensáveis” do vigilante; 4) um ato de vigilantismo deve ser motivado pela preocupação com a justiça ou o bem-estar da comunidade; e 5) um ato de vigilantismo é conter a violência ou ameaça de violência contra os "oponentes" percebidos.

Nesse caso, o Anonymous cumpre todos os critérios acima mencionados, exceto para a ameaça de violência. Porém, o autor afirma que no mundo moderno e tecnológico é importante redefinir o conceito de violência. Embora a violência seja tradicionalmente vista como um ato físico, no mundo virtual ela pode ser reconceituada como “a expressão da intenção punitiva” e “não menos poderosa do que uma ameaça de violência para satisfazer a preocupação do vigilante com a justiça”.

Se a violência for conceituada como punição, em vez de violência física, o hacktivismo pode cumprir o quinto critério para vigilantismo também. Segundo o mesmo autor, o Anonymous pode de fato ser considerado vigilante devido ao uso de punições e ameaças de punição. Seu objetivo principal é defender o bem-estar da comunidade e garantir que as normas e valores acalentados sejam defendidos e mantidos. Assim, embora os vigilantes usem violência (ou punição), esta última é um tanto significativa e necessária para a sociedade em alguns casos. O uso de violência/punição representa um componente necessário do vigilantismo.

Wong e Brown[32] usam o conceito de “e-banditry” para sua análise do Anonymous. O conceito de e-bandit representa uma extensão ou continuação do conceito de "bandido social", que foi introduzido pelo historiador marxista britânico, Eric Hobsbawm. Bandidos sociais representam ladrões nobres (Robin Hoods), que lutam contra a injustiça, sobretudo tirando dos ricos para dar aos pobres.

Os bandidos sociais se consideram justos porque se veem, assim como as pessoas que lutam para defender, como vítimas de injustiça. Os e-bandits, por sua vez, representam os Robin Hoods modernos, acreditando que a liberdade da Internet está sendo ameaçada pelos principais poderes da sociedade (Estado e corporações). Assim como os bandidos sociais, os e-bandidos veem suas ações como justificadas e/ou moralmente permissíveis.

Ao contrário das gerações anteriores de hackers, que tentaram ocultar suas atividades, a maioria dos hacktivistas deseja que suas ações sejam notadas ou descobertas. E-bandits são diferentes de outros hacktivistas porque eles estão dispostos a “se envolver em atividades ilegais e legais que provocam resultados negativos ou pelo menos onerosos para seus alvos, o que os diferencia de alguns hacktivistas que simplesmente querem postar vídeos em nome de uma causa” [32].

O e-banditry é realizado através de tecnologias de anonimato e representa um importante fenômeno social, assim como um movimento anarquista. Ele inspira “novas formas de pensar sobre democracia e ativismo cidadão” [32] por criar uma “política de ninguém”, isto é, a política de atores sem identidades. O anonimato, neste caso, é usado mais como uma ferramenta para a ação política do que como uma ferramenta para construir redes e comunidades, embora permita que permite que todos se juntem ao movimento, incluindo ativistas "atípicos".

 

4.4.1 VISÕES DE MUNDO: POLÍTICAS E VALORES CENTRAIS DO ANONYMOUS

Fuchs[28] descreve o Anonymous como um coletivo com visões de mundo políticas fluidas e heterogêneas. As crenças políticas do coletivo representam uma fusão de "anarquismo, liberalismo, comunismo e libertarianismo". Anonymous é um movimento pluralista, no qual diferentes visões e ideologias coexistem e se complementam.

Coleman[33] concorda dizendo que a diversidade da ideologia política do grupo é um componente essencial da cultura do Anonymous. Essas cosmovisões políticas contribuíram diretamente para o, até agora, sucesso e eficácia do coletivo. Wong e Brown[32] propõem que os objetivos políticos do Anonymous giram em torno das seguintes questões principais: 1) anticensura e liberdade de expressão; 2) privacidade; e 3) segurança na Internet.

O Anonymous como coletivo é especialmente antagônico em relação à vigilância e/ u violação da privacidade de seus cidadãos pelos estados. O Anonymous afirmou que baseia seus valores políticos nos seguintes princípios fundamentais[28]: 1) a mídia não deve ser atacada; 2) a infraestrutura crítica não deve ser atacada, e 3) deve-se trabalhar por justiça e liberdade. O foco nos valores libertários de liberdade de expressão, reunião, informação e imprensa domina a comunicação política do Anonymous[28].

Até o momento, os principais alvos do Anonymous têm sido governos e empresas. A liberdade da Internet (que representa uma questão central para o movimento) e das pessoas são ambas ameaçadas pelos poderes corporativos e estatais, de acordo com o Anonymous. O coletivo exige que a Internet seja controlada pela sociedade civil.

O Anonymous também é conhecido como um forte oponente da desigualdade de classe e está preocupado com a justiça socioeconômica em todo o mundo[28]. Como resultado de sua análise empírica da comunicação pública do Anonymous, Fuchs[28] concluiu que: 55% dos Anons alinhados com os valores liberais puros; 8% com valores socialistas puros e 22% misturavam liberalismo e socialismo.

 

4.4.2 CANAIS ORGANIZACIONAIS DE ANONYMOUS

​​ Conway[11] e Jordan [7] dividem os hacktivistas em duas categorias: ação direta virtual em massa (MVDA) e ação direta virtual individual (IVDA). Os hacktivistas que se enquadram na categoria MVDA dependem de uma massa crítica, enquanto os hacktivistas IVDA agem sozinhos. Embora o Anonymous seja conhecido por fornecer aos membros ambas as opções de ação direta virtual, no geral, o grupo depende de esforços mútuos, como nos ataques (DDoS).

Em outras palavras, os Anons mostram apreço pela comunidade; Por isso, para Colemann[33], os Anonymous representam um coletivo participativo, de modo que indivíduos não experientes em tecnologia são bem-vindos. Para o mesmo autor, embora as opiniões e habilidades 'verdadeiras' dos hackers possam ser respeitadas e/ou apreciadas no Anonymous, eles não erguem barreiras de entrada nem controlam a evolução do Anonymous.

Mansfield-Divine e Shalin Hai-Jew[34] também observam que muitos membros do Anonymous carecem de habilidades sofisticadas de computador ou hacking. Os ataques DDoS, que os membros do Anonymous costumam empregar para derrubar os sites dos oponentes, não são tecnicamente complicados por natureza. Assim, é lógico concluir que o Anonymous não representa uma comunidade hacktivista pura, uma vez que muitos participantes não são tecnicamente experientes.

Coleman[33] também fornece insights interessantes quanto à forma de eleição dos alvos dos Anonymous. Para ele, as operações do coletivo são principalmente reativas vários eventos ou incidentes locais e internacionais podem servir como gatilhos para a ação. Portanto, eles não são escolhidos aleatoriamente ou caoticamente. Por fim, Coleman[33] sugere que o Anonymous deve ser conceituado como uma reação a certas tendências da sociedade (p.e., governos tentando controlar a Internet).

O Anonymous pode, portanto, ser visto como um fenômeno social positivo porque o coletivo, ​​ com outros grupos hacktivistas, fornece aos cidadãos novos “caminhos criativos para a participação pessoal e coletiva” (Coleman, 2013, p. 17). É importante mencionar que, embora o Anonymous seja frequentemente retratado como um grupo de hackers violentos pela mídia, a maioria dos Anons nunca infringem a lei[33].

Mansfield-Devine sugere outro efeito positivo do Anonymous e grupos semelhantes. O coletivo ajuda a aumentar a conscientização sobre a segurança e evidencia a tecnologia moderna é incrivelmente vulnerável pelas falhas nos sistemas e softwares de computador.

 

4.4.3 ANONYMOUS E SUA RELAÇÃO COM O BRASIL

No Brasil, a atuação do movimento inicialmente foi marcada por desconfiança. Destaca-se o suposto vazamento contendo dados pessoais de Jair Bolsonaro, seus familiares (Flavio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro), dos ministros Abraham Weintraub, a época ministro da educação, e Damares Alves, ministra da família, e do deputado estadual Douglas Garcia, ocorrido no dia 1º de junho, publicado na conta do Twitter @AnonymouBrasil.

 

O grupo de hackers Anonymous Brasil vazou na noite desta segunda-feira (1º), criminosamente, no Twitter, supostos dados pessoais do presidente Jair Bolsonaro, seus filhos, ministros, empresário e políticos bolsonaristas. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar. O grupo Anonymous é um coletivo de hackers que atacam sites e, eventualmente, divulgam criminosamente arquivos na internet. Os hackers vazaram supostos dados cadastrais, como endereços e telefones pessoais, além de informações sobre suposto patrimônio dos atingidos” [35] (Portal de Notícias G1, 2020)

 

A conta foi derrubada pouco tempo após a divulgação dos dados, prints que circulam pela web comprovam que as publicações foram realizadas por hacktivistas experientes. A Polícia Federal, logo em seguida, anunciou a abertura de um inquérito para investigar o incidente. Em ato sucessivo, a @AnonymouBr1 surgiu no Twitter reclamando a responsabilidade pelo vazamento.

Tanto nos EUA quanto no Brasil, o “retorno” dos Anonymous está sendo encarado com um tanto de ceticismo e incredulidade. Este sentimento é comum devido a dificuldade em apurar atos realizados em nome do movimento justamente por sua natureza descentralizada. Não existe um “membro dos Anonymous”, e sim um ativista que utiliza o nome do coletivo para realizar as suas ações (que pode ou não estar de acordo com as ideologias pessoais de outra célula ou indivíduo).

Isso significa que o maior trunfo da iniciativa se prova pelo ponto de vista prático, pois é simplesmente impossível apontar qual ação é “oficial” ou não — existem perfis em redes com mais ou menos tempo de existência e que fazem mais ou menos sucesso por conta de seu número de seguidores, mas esses nem sempre são fatores confiáveis para levar em conta a credibilidade de uma célula.

O movimento Anonymous neste ato demonstrou solidariedade em questões raciais, declarando guerra, p.e., à Ku Klux Klan, divulgando dados de supostos membros da organização supremacista em 2015. Ao mesmo tempo, podemos citar a sua atuação quando uma célula do movimento dirigiu ataques DDoS contra o movimento Black Lives Matter. Levando todos esses aspectos em conta, é comum que o Anonymous cause confusão e desperte a curiosidade na sociedade. A retomada do uso de tal nome para diversas investidas não marca a volta de um grupo organizado, mas sim da cultura hacktivista como forma de protesto social e político.

 

5 CONCLUSÃO

O artigo demonstrou que o hacktivismo é uma das possíveis expressões de um novo ativismo político, a partir do exemplo das ações de iniciativas como o WikiLeaks e o Anonymous. Ambos os grupos visam a expansão de um ecossistema comunicacional horizontal, interativo, multidirecional e distribuído na internet. Lutam pela liberdade de expressão e contraestruturas opressoras da sociedade capitalista, muito embora suas ações possam ser marcadas por ambivalências, tem em comum o engajamento de projetos libertários, mais ou menos individualistas.

Considerando que o campo comunicacional é cenário de lutas pelo poder[1], a disputa pela tecnologia é estratégica para defesa e ampliação da democracia. Nesse sentido, os hackers chamam a atenção para seu potencial político que ainda tem muito a ser explorado.

 

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