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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 9, NÚMERO 1, ANO 2026

 

ARTIGO ORIGINAL

Terapias baseadas em mRNA: estratégias em formulação, sistemas de entrega e desafios translacionais para a aplicação clínica

Valquiria Kopke dos Santos1; Andressa de Oliveira Costa2

 

Como Citar:

DOS SANTOS, Valquiria Kopke; COSTA, Andressa de Oliveira. Terapias baseadas em mRNA: estratégias em formulação, sistemas de entrega e desafios translacionais para a aplicação clínica.  Revista Sociedade Científica, vol. 9, n. 1, p. 1691-1715, 2026. https://doi.org/10.61411/rsc2026136519

 

DOI: 10.61411/rsc2026136519

 

Área do conhecimento:

Ciências da Saúde

Sub-área:

Biotecnologia Farmacêutica

 

Palavras-chaves: Terapias com mRNA; Nanopartículas Lipídicas; Sistemas de Liberação de Fármacos; Formulação Farmacêutica.

 

Publicado: 25 de junho de 2026.

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Resumo

As terapias baseadas em RNA mensageiro (mRNA) emergiram como uma plataforma transformadora na biotecnologia farmacêutica, impulsionada por avanços em engenharia molecular e sistemas de entrega de fármacos. Esta revisão narrativa crítica teve como objetivo discutir as principais estratégias de formulação, sistemas de entrega e aplicações clínicas das terapias baseadas em mRNA, bem como analisar os desafios translacionais para sua consolidação na prática clínica. O estudo foi conduzido com busca em PubMed, Scopus, ScienceDirect e Web of Science, de janeiro de 2018 a dezembro de 2025, incluindo referências clássicas relevantes. Foram utilizados termos como “messenger RNA”, “mRNA therapeutics”, “lipid nanoparticles” e “RNA delivery systems”. Incluíram-se artigos originais, revisões, ensaios clínicos e documentos regulatórios; excluíram-se duplicatas, resumos sem texto completo e estudos fora do escopo. A análise crítica integrou dados experimentais, perspectivas de especialistas e tendências regulatórias. O design do mRNA - incluindo modificações nucleotídicas, otimização de códons e engenharia de regiões não traduzidas - melhora estabilidade, tradução e tolerabilidade imunológica. Sistemas de entrega, como nanopartículas lipídicas (LNPs), polímeros, vesículas extracelulares e nanossistemas híbridos, são cruciais para eficácia terapêutica. Além de vacinas contra doenças infecciosas, o mRNA é aplicado em oncologia, doenças genéticas raras e medicina personalizada, considerando formulação, escalabilidade e aspectos regulatórios. O mRNA é uma plataforma terapêutica versátil, cujo impacto futuro depende de inovação contínua em formulação, controle de qualidade e sistemas de entrega, consolidando seu papel na medicina moderna.

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mRNA-based therapies: formulation strategies, delivery systems, and translational challenges for clinical application

 

Abstract

mRNA-based therapies have emerged as a transformative platform in pharmaceutical biotechnology, driven by advances in molecular engineering and drug delivery systems. This critical narrative review aimed to discuss the main formulation strategies, delivery systems, and clinical applications of mRNA-based therapies, as well as to analyze the translational challenges associated with their consolidation in clinical practice. The study was conducted through searches in PubMed, Scopus, Science Direct, and Web of Science from January 2018 to December 2025, including relevant classical references. Search terms included “messenger RNA,” “mRNA therapeutics,” “lipid nanoparticles,” and “RNA delivery systems.” Original articles, review papers, clinical trials, and regulatory documents were included, while duplicates, abstracts without full-text access, and studies outside the scope were excluded. The critical analysis integrated experimental data, expert perspectives, and regulatory trends. mRNA design including nucleotide modifications, codon optimization, and untranslated region engineering enhances stability, translation efficiency, and immunological tolerability. Delivery systems such as lipid nanoparticles (LNPs), polymers, extracellular vesicles, and hybrid nanosystems are crucial for therapeutic efficacy. Beyond vaccines for infectious diseases, mRNA is being applied in oncology, rare genetic disorders, and personalized medicine, considering formulation, scalability, and regulatory aspects. mRNA represents a versatile therapeutic platform, whose future impact depends on continuous innovation in formulation science, quality control, and delivery technologies, consolidating its role in modern medicine.

Keywords: mRNA Therapeutics; Lipid Nanoparticles; Drug Delivery Systems; Pharmaceutical Formulation.

 

1. Introdução

O RNA mensageiro (mRNA) é uma molécula de ácido ribonucleico de fita simples responsável por mediar a expressão gênica, transportando a informação do DNA para a síntese proteica no citoplasma celular [1].

Embora seu potencial terapêutico seja reconhecido desde a década de 1990, a aplicação clínica do mRNA foi historicamente limitada por desafios farmacotécnicos relevantes, como instabilidade estrutural, rápida degradação por nucleases e ativação indesejada do sistema imune inato [2].

Avanços recentes em bioengenharia molecular e nanotecnologia permitiram superar parte dessas limitações, consolidando o mRNA como uma plataforma terapêutica promissora. Diferentemente do DNA terapêutico e das terapias gênicas clássicas, o mRNA não requer integração ao genoma, o que reduz o risco de mutagênese e possibilita uma expressão proteica transitória, previsível e controlada [3].

Além disso, sua síntese in vitro é rápida, altamente reprodutível e escalonável, características que viabilizaram respostas ágeis a emergências sanitárias, como demonstrado no desenvolvimento das vacinas contra a SARS-CoV-2 [4].

Nesse contexto, o progresso das tecnologias de entrega foi determinante para a viabilidade clínica do mRNA. As nanopartículas lipídicas (lipid nanoparticles - LNPs) emergiram como a principal estratégia, atuando simultaneamente na proteção do material genético, na internalização celular e na liberação citoplasmática do mRNA para tradução proteica eficiente [5].

Paralelamente, outras abordagens, como sistemas poliméricos biodegradáveis, vesículas extracelulares e plataformas híbridas, vêm sendo investigadas com o objetivo de aprimorar biodistribuição, especificidade celular e perfil de segurança [6].

Diante desse avanço acelerado, esta revisão narrativa crítica tem como objetivo discutir as principais formulações e tecnologias de entrega de mRNA, bem como suas aplicações clínicas emergentes. São analisados os progressos recentes, os desafios tecnológicos e as limitações ainda existentes para a consolidação dessa plataforma como ferramenta terapêutica ampla e sustentável.

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2. Metodologia

Esta revisão narrativa crítica foi elaborada a partir de uma busca bibliográfica abrangente nas bases de dados PubMed, Scopus, ScienceDirect e Web of Science. Foram considerados artigos publicados entre janeiro de 2018 e dezembro de 2025, com a inclusão de referências clássicas anteriores quando consideradas fundamentais para a contextualização histórica e conceitual do tema.

A estratégia de busca combinou descritores e termos livres, incluindo “messenger RNA”, “mRNA therapeutics”, “mRNA vaccines”, “lipid nanoparticles”, “RNA delivery systems” e “pharmaceutical biotechnology”, utilizando operadores booleanos para ampliar a sensibilidade e a especificidade da seleção dos estudos.

Foram incluídos artigos originais, artigos de revisão, ensaios clínicos e documentos regulatórios publicados em inglês ou português.

A busca inicial identificou 311 registros nas bases de dados consultadas. Após a remoção de duplicatas e aplicação dos critérios de elegibilidade, 54 estudos foram selecionados para análise qualitativa e composição desta revisão.

Foram excluídos trabalhos duplicados, resumos sem acesso ao texto completo, estudos fora do escopo das ciências farmacêuticas e publicações que não apresentassem relevância direta para terapias baseadas em mRNA ou sistemas de entrega. A triagem dos títulos, resumos e textos completos foi realizada por dois revisores de forma independente, com resolução de eventuais divergências por consenso.

Os estudos selecionados foram submetidos à análise qualitativa descritiva, considerando aspectos relacionados ao desenho experimental, características das formulações, sistemas de entrega empregados, resultados de eficácia e segurança, estágio de desenvolvimento tecnológico e potencial de aplicação clínica.

As evidências identificadas foram organizadas em categorias temáticas previamente definidas, abrangendo: (i) design e modificação do mRNA; (ii) sistemas de entrega e formulação; (iii) desempenho farmacotécnico; (iv) aplicações clínicas emergentes; e (v) desafios translacionais e perspectivas futuras.

A análise crítica integrou dados experimentais, evidências clínicas disponíveis, perspectivas regulatórias e tendências tecnológicas, com o objetivo de identificar avanços, limitações, lacunas de conhecimento e desafios atuais no desenvolvimento de terapias baseadas em mRNA.

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3. Desenvolvimento e discussão

    • 3.1 Fundamentos e evolução do mRNA terapêutico

O uso terapêutico do mRNA remonta à década de 1990, mas só nas últimas duas décadas os avanços tecnológicos tornaram viável sua aplicação clínica em larga escala [7]. Esses avanços incluem melhorias na estabilidade da molécula, redução da imunogenicidade, desenvolvimento de métodos de entrega eficazes e aumento da eficiência de tradução proteica [8].

A revolução no uso terapêutico do mRNA foi catalisada pela pandemia de COVID-19, que acelerou o desenvolvimento e a aprovação de vacinas baseadas em mRNA [1]. No entanto, seu potencial vai além da imunização: inclui terapias contra o câncer, doenças genéticas, infecções virais e condições autoimunes [7].

    • 3.2 Tipos de mRNA utilizados em aplicações terapêuticas

Existem diferentes tipos de mRNA explorados para uso clínico, cada um com características específicas em termos de estabilidade, imunogenicidade e capacidade de expressão [7].

O mRNA convencional, não modificado, reflete diretamente a sequência natural de um gene, porém tende a apresentar maior imunogenicidade e menor estabilidade, sendo empregado principalmente em vacinas básicas e estudos iniciais [8].

Em contraste, o mRNA modificado incorpora substituições nucleotídicas como pseudouridina e 5-metilcitosina que reduzem a ativação da imunidade inata e aumentam a estabilidade da molécula e a expressão, viabilizando seu uso em vacinas contra a COVID-19 e terapias crônicas [4].

Já o mRNA autoamplificante (saRNA), derivado de vírus de RNA, contém não apenas a sequência codificante de interesse, mas também elementos replicativos que promovem a amplificação intracelular, permitindo níveis mais elevados de expressão proteica, alta estabilidade, com imunogenicidade moderada, sendo promissor para vacinas oncológicas e doenças raras, devido à amplificação intracelular do RNA [9].

A escolha do tipo de mRNA a ser utilizado depende da aplicação terapêutica e das características desejadas no perfil farmacológico [2]. A Tabela 1​​ apresenta um comparativo das características (estabilidade, imunogenicidade, nível de expressão e aplicações típicas) dos diversos tipos de mRNA.

 

Tabela 1: Tipos de mRNA terapêutico e características.

Tipo de mRNA

Estabilidade

Imunogenicidade

Nível de expressão

Aplicações típicas

Convencional (não modificado)

Baixa

Alta

Moderado

Vacinas básicas, estudos iniciais

Modificado (pseudouridina, 5-mC)

Alta

Baixa

Alta

Vacinas COVID-19, terapias crônicas

Autoamplificante (saRNA)

Alta

Moderada

Muito alta

Vacinas oncológicas, doenças raras

Fonte: Adaptado de Verbeke et al. [4]; Maugeri et al. [9]; Samsa et al. [10].

 

A comparação entre os diferentes tipos de mRNA evidencia que as modificações estruturais introduzidas ao longo do desenvolvimento dessa tecnologia foram fundamentais para ampliar sua viabilidade terapêutica [10].

Enquanto o mRNA convencional apresenta limitações relacionadas à menor estabilidade e maior imunogenicidade, as versões modificadas e autoamplificantes demonstram desempenho superior em termos de expressão proteica e potencial clínico. Nesse contexto, a incorporação de nucleotídeos modificados e de elementos capazes de promover amplificação intracelular representa um avanço importante para aplicações que exigem maior duração ou intensidade de resposta terapêutica [4].

A escolha do tipo de mRNA deve considerar não apenas o nível de expressão desejado, mas também aspectos relacionados à segurança, à tolerabilidade imunológica e aos requisitos específicos de cada aplicação clínica [10].

    • 3.3 Estabilidade e desafios intrínsecos

Uma das principais limitações iniciais da tecnologia de mRNA terapêutico era a sua instabilidade química e estrutural. A molécula é altamente suscetível à degradação por ribonucleases (RNases) presentes no ambiente extracelular, e sua meia-vida funcional intracelular também é relativamente curta [11]. Essa instabilidade exige cuidados específicos na purificação, formulação e armazenamento do mRNA [12].

Além da instabilidade inerente da molécula, fatores relacionados ao reconhecimento imunológico e ao desempenho translacional representam obstáculos importantes para a eficácia terapêutica do mRNA [8,13].

O reconhecimento por receptores de reconhecimento de padrões (PRRs), como TLR3, TLR7 e RIG-I, pode desencadear respostas inflamatórias que reduzem a expressão proteica, enquanto características estruturais da molécula incluindo conformação secundária, regiões UTR, 5'-cap e cauda poli(A) modulam diretamente a taxa e a duração da tradução [14].

    • 3.4 Nanotecnologia na entrega de mRNA

O sucesso clínico das terapias com mRNA depende, em grande parte, do desenvolvimento de sistemas de entrega eficientes, seguros e direcionáveis. O mRNA é uma molécula instável, suscetível à degradação por nucleases e com baixa capacidade de penetração celular quando administrado isoladamente [15].

Nesse contexto, a nanotecnologia tem desempenhado papel central no desenvolvimento de sistemas capazes de aumentar a biodisponibilidade intracelular do mRNA, favorecendo sua utilização terapêutica em diferentes aplicações clínicas [16].

    • 3.5 LNPs como padrão-ouro

As LNPs representam atualmente o sistema de entrega mais avançado e bem-sucedido para mRNA, sendo utilizadas nas vacinas contra a COVID-19 da Pfizer-BioNTech e Moderna [17].

Essas nanopartículas são compostas, em geral, por quatro componentes principais: lípidos ionizáveis, que promovem o encapsulamento e a liberação do mRNA, fosfolipídios, colesterol, e PEG-lipídeos, que prolongam a meia-vida circulante [18].

A estrutura das LNPs permite a proteção eficiente do mRNA contra degradação, facilita sua endocitose e garante a liberação no citoplasma após fusão com a membrana endossomal [19]. Estudos demonstraram que LNPs apresentam alta eficiência de translação, biocompatibilidade, boa viabilidade em escala industrial e perfil clínico favorável, o que as consolidou como padrão-ouro no campo [20].

Contudo, limitações como a ativação de respostas imunológicas indesejadas, acúmulo hepático, desafios no direcionamento tecidual além do alto custo impulsionaram a busca por novas plataformas de entrega [21]. A Figura 1​​ ilustra o processo de entrega do mRNA terapêutico encapsulado em LNPs.

Figura 1: Representação esquemática da entrega terapêutica de mRNA via LNP. Abreviação: LNP= Lipid Nanoparticle.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).

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    • 3.6 Novas alternativas: polímeros, exossomos e vesículas híbridas

Além das LNPs, plataformas alternativas para a entrega de mRNA vêm sendo exploradas, incluindo polímeros catiônicos, exossomos e vesículas híbridas [22].

Os sistemas poliméricos, como PEI, PLGA e outros biodegradáveis, possuem eficiência moderada e alta viabilidade de produção, além de flexibilidade estrutural. No entanto, sua utilização ainda é restrita majoritariamente a estudos pré-clínicos, uma vez que questões relacionadas à citotoxicidade e à maior imunogenicidade precisam ser melhor controladas e validadas antes da progressão para ensaios clínicos [23].

Os exossomos destacam-se pela elevada biocompatibilidade, tropismo natural e baixa imunogenicidade, embora enfrentem desafios de padronização na produção e no carregamento do mRNA [24,25].

As vesículas híbridas combinam propriedades de nanopartículas sintéticas e componentes de membranas celulares, com alta eficiência e baixo potencial imunogênico, mas a complexidade de produção ainda restringe sua translação clínica, situando-se em fase pré-clínica [26,27].

As plataformas de entrega de mRNA apresentam diferenças relevantes em eficiência, imunogenicidade, maturidade tecnológica e viabilidade industrial [27].

A Tabela 2​​ apresenta um comparativo das plataformas de entrega de mRNA em termos de eficiência de entrega, imunogenicidade, viabilidade de produção em larga escala, estágio de desenvolvimento tecnológico, vantagens e limitações. Cabe ressaltar que os valores de eficiência de entrega apresentados representam intervalos aproximados reportados na literatura, variando conforme modelo experimental, composição do sistema e método de avaliação.

 

 

 

Tabela 2: Comparação entre as plataformas de entrega de mRNA

Plataforma

Eficiência de Entrega

Imunogenicidade

Viabilidade de Produção em Larga Escala

Estágio de Desenvolvimento Tecnológico

Vantagens

Limitações

LNPs

Alta

70-95% de células transfectadas

Moderada

Alta

Aprovada (vacinas COVID-19)

Testado e aprovado

Acúmulo hepático, custo

Polímeros

Moderada 40-70% de células transfectadas

Alta

Alta

Pré-clínico

Flexível, modificado

Citotoxicidade

Exossomos

Alta

>80% de internalização celular

Baixa

Baixa

Exploratória

Biocompatível

Difícil padronização

Vesículas Híbridas

Alta

70-90%

Baixa

Moderada

Pré-clínico

Reconhecimento celular

Complexidade de produção

Fonte: Adaptado de Hou et al. [5]; Cullis e Hope [17]; Lv et al. [22]; El Andaloussi et al. [41] e Kamerkar et al. [42].

 

A comparação entre as diferentes plataformas evidencia que as LNPs permanecem como a tecnologia mais madura para aplicações clínicas, especialmente devido à combinação entre elevada eficiência de entrega, viabilidade de produção em larga escala e histórico regulatório já estabelecido [17].

Em contraste, sistemas poliméricos apresentam vantagens relacionadas à flexibilidade estrutural e ao potencial de funcionalização, porém ainda enfrentam limitações decorrentes de citotoxicidade e imunogenicidade [42].

Os exossomos e as vesículas híbridas destacam-se pela elevada biocompatibilidade e pelo potencial de direcionamento celular mais específico, características particularmente relevantes para aplicações em medicina personalizada [22]. Entretanto, desafios relacionados à padronização produtiva, escalabilidade industrial e controle de qualidade ainda restringem sua translação clínica [5].

Dessa forma, observa-se que o avanço futuro das terapias baseadas em mRNA dependerá do equilíbrio entre eficiência de entrega, segurança biológica e viabilidade industrial [41].

    • 3.7 Avanços na bioengenharia de mRNA

A bioengenharia do mRNA é um dos pilares que possibilitou sua aplicação terapêutica moderna. Modificações estruturais, químicas e funcionais do mRNA têm sido fundamentais para aumentar sua estabilidade, reduzir sua imunogenicidade e melhorar a eficiência da tradução proteica [28]. Os avanços nessa área têm permitido o desenvolvimento de moléculas mais seguras, eficientes e adaptáveis a diferentes contextos clínicos [29].

    • 3.8 Otimização de códons e modificação de nucleotídeos

A otimização de códons consiste na substituição de códons menos frequentes por equivalentes mais comuns na célula-alvo, o que melhora a eficiência da tradução proteica sem alterar a sequência de aminoácidos [30]. Essa estratégia reduz a formação de estruturas secundárias indesejadas e acelera a síntese da proteína codificada [31].

Outra estratégia fundamental no desenvolvimento de mRNA terapêutico é a modificação química de seus nucleotídeos. Substituições como a pseudouridina (Ψ) e a 5-metilcitosina (m5C) têm sido amplamente empregadas para aumentar a estabilidade da molécula, reduzir seu reconhecimento por sensores imunológicos como TLR3, TLR7 e RIG-I e, consequentemente, melhorar a eficiência da tradução proteica [32].

Essas modificações modulam diretamente a interação do mRNA com o sistema imune inato, permitindo sua aplicação terapêutica com menor risco de inflamação ou toxicidade, sem comprometer a funcionalidade biológica da molécula [33].

    • 3.9 Redução da imunogenicidade não desejada

A ativação do sistema imune inato por RNAs exógenos é um obstáculo crítico à terapia com mRNA. Moléculas não modificadas são rapidamente reconhecidas como estranhas e induzem uma resposta inflamatória, muitas vezes prejudicial ao efeito terapêutico pretendido [34].

Além das modificações nucleotídicas, diversas estratégias complementares vêm sendo adotadas para reduzir a imunogenicidade indesejada do mRNA. Entre elas destacam-se a otimização de elementos regulatórios nas regiões 5’ e 3’ UTR, a seleção de estruturas 5’-cap sintéticas que mimetizam os caps naturais, como o CleanCap®, a padronização do comprimento da cauda poli(A) e a purificação rigorosa para remoção de subprodutos gerados durante a transcrição in vitro [35].

Em conjunto, essas abordagens têm viabilizado o desenvolvimento de formulações mais toleráveis e eficientes, com menor risco de efeitos adversos, aspecto particularmente relevante em aplicações repetidas, como doses de reforço vacinal ou terapias de uso crônico [36].

    • 3.10 Aplicações clínicas emergentes

As aplicações clínicas das terapias baseadas em mRNA expandiram-se de forma significativa nos últimos anos, impulsionadas pela validação tecnológica obtida com as vacinas contra a COVID-19 [37].

Esse sucesso clínico consolidou o mRNA como uma plataforma terapêutica viável, demonstrando que desafios históricos relacionados à estabilidade, entrega e segurança podem ser superados quando associados a sistemas de formulação adequados e processos industriais robustos [38].

    • 3.11 Vacinas contra a COVID-19

As vacinas de mRNA contra a COVID-19 (como a BNT162b2 da Pfizer-BioNTech e a mRNA-1273 da Moderna) foram os primeiros produtos terapêuticos dessa classe a obter aprovação para uso humano em larga escala. Elas demonstraram alta eficácia, rapidez de desenvolvimento, bom perfil de segurança e capacidade de adaptação frente a variantes do vírus [39].

A experiência global com essas vacinas acelerou o interesse em consolidar plataformas de desenvolvimento e produção de mRNA. Como exemplo dessa iniciativa temos a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) no Brasil que criou em 2024 a Plataforma Nacional de Vacinas de mRNA da Fiocruz, com o objetivo de desenvolver vacinas de mRNA, com domínio de todas as etapas produtivas, desde a síntese de nucleotídeos até a etapa de formulação final em LNPs [40].

A Plataforma Nacional de Vacinas da Fiocruz tem como foco inicial a produção de vacinas para a COVID-19 e outras doenças infecciosas relevantes para o contexto epidemiológico brasileiro, como dengue, chikungunya e influenza [40].

    • 3.12 Vacinas contra o câncer

As vacinas terapêuticas de mRNA para câncer têm como objetivo ativar o sistema imune do paciente contra antígenos tumorais específicos ou neoantígenos personalizados. Ao codificar proteínas tumorais em mRNA, essas vacinas induzem respostas de células T citotóxicas direcionadas ao tumor [41].

Estudos em melanoma, câncer de pulmão e câncer de próstata mostraram respostas imunes robustas e melhora na sobrevida livre de progressão quando combinadas com imunoterápicos, como inibidores de checkpoint (anti-PD-1/PD-L1) [42].

Apesar do potencial promissor, essas aplicações ainda se encontram majoritariamente em estágios clínicos iniciais, devido à maior complexidade associada à personalização, à necessidade de administração repetida e aos desafios relacionados à biodistribuição seletiva e à toxicidade cumulativa dos sistemas de entrega [43].

    • 3.13 Doenças genéticas raras

O mRNA também está sendo investigado como ferramenta para substituição de proteínas ausentes ou disfuncionais em doenças genéticas raras [44]. Diferente das terapias gênicas que promovem edição permanente do DNA, o mRNA permite expressão transitória, sendo mais seguro em determinadas aplicações [45].

Entre as principais doenças-alvo investigadas para terapias baseadas em mRNA destacam-se a fibrose cística, a deficiência de ornitina transcarbamilase (OTC), a doença de Gaucher e a atrofia muscular espinhal [46].

Estudos pré-clínicos utilizando mRNA encapsulado em LNPs têm demonstrado restauração funcional de proteínas e melhora de marcadores clínicos, indicando que essa abordagem representa uma estratégia promissora para doenças nas quais outras opções terapêuticas falharam ou ainda não estão disponíveis [30].

Assim, a consolidação das terapias com mRNA em indicações além das vacinas dependerá não apenas da inovação biológica, mas do amadurecimento tecnológico das formulações, da integração com requisitos regulatórios e da demonstração de viabilidade industrial sustentável [44].

A Tabela 3​​ mostra um comparativo das aplicações clínicas do mRNA em Vacinas da COVID-19, Oncologia e Doenças Genéticas Raras.

 

Tabela 3: Comparativo das aplicações clínicas do mRNA em Vacinas da COVID-19, Oncologia e Doenças Genéticas Raras.

Área terapêutica

Produto/mRNA

Fase de desenvolvimento

Resultados clínicos

Observações

Vacinas COVID-19

BNT162b2, mRNA-1273

Aprovado

Alta eficácia

Rapidez de produção

Oncologia

Vacinas personalizadas

Fase I-II

Respostas imunes robustas

Necessário sequenciamento genômico

Doenças genéticas raras

mRNA OTC, mRNA CFTR

Pré-clínico

Restauração funcional

Escalonamento complexo

Fonte: Adaptado de Azeem et al. [39]; Kamerkar et al. [42] e Schürmann et al. [46].

Legenda: OTC = ornithinetranscarbamylase; CFTR = Cystic Fibrosis Transmembrane Conductance Regulator; BNT162b2 = Pfizer-BioNTechCOVID-19 vaccine.

 

Os dados apresentados demonstram diferentes níveis de maturidade tecnológica entre as aplicações clínicas do mRNA. Enquanto as vacinas contra a COVID-19 já alcançaram consolidação regulatória e ampla utilização clínica, as aplicações oncológicas permanecem em estágios intermediários de desenvolvimento, principalmente devido à necessidade de personalização baseada no perfil molecular de cada paciente [42,46].

No caso das doenças genéticas raras, embora os resultados pré-clínicos sejam promissores, persistem desafios relacionados à biodistribuição tecidual, à necessidade de administrações repetidas e à viabilidade econômica da produção [39]. Essas diferenças evidenciam que a evolução das terapias baseadas em mRNA não depende exclusivamente da eficácia biológica da molécula, mas também da superação de barreiras farmacotécnicas, regulatórias e produtivas específicas para cada contexto clínico [39,42,26].

    • 3.14 Desafios Translacionais e Perspectivas Futuras

Apesar dos avanços expressivos da tecnologia de mRNA, sua consolidação como uma plataforma terapêutica ampla ainda enfrenta desafios regulatórios, produtivos e translacionais [47]. Esses entraves incluem barreiras à transposição eficiente de resultados pré-clínicos para aplicações clínicas e industriais, além de limitações no escalonamento produtivo e na viabilidade da medicina personalizada baseada em mRNA, aspectos críticos para garantir acesso seguro, escalável e equitativo a essas terapias [48,49].

Do ponto de vista regulatório, produtos baseados em mRNA desafiam modelos tradicionais de avaliação, exigindo a adaptação de parâmetros relacionados à validação dos processos de transcrição in vitro (in vitro transcription, IVT) e purificação, à caracterização e consistência de nanopartículas entre lotes e à avaliação da imunogenicidade não intencional, especialmente em regimes de administração repetida [50].

Embora agências como a EMA e a FDA tenham atualizado suas diretrizes desde 2021, persistem lacunas regulatórias entre jurisdições que podem dificultar a translação clínica e a aprovação global desses produtos [51,52,53].

Em paralelo, o escalonamento da produção de mRNA terapêutico permanece tecnicamente e economicamente desafiador, envolvendo a síntese eficiente por IVT, a remoção de contaminantes, a fabricação sob condições de boas práticas de manufatura (GMP) e o encapsulamento reprodutível em LNPs, além do elevado custo de insumos críticos, como nucleotídeos modificados e lipídios ionizáveis [54].

Adicionalmente, a adaptabilidade do mRNA viabiliza abordagens terapêuticas personalizadas, incluindo vacinas oncológicas sob medida, proteínas terapêuticas customizadas e correções funcionais transitórias de distúrbios genéticos [55].

No entanto, essas estratégias ampliam os desafios translacionais ao demandarem infraestrutura bioinformática integrada, revisão de protocolos clínicos e éticos e enfrentarem custos e prazos superiores aos das terapias padronizadas.

Assim, o avanço sustentável da medicina personalizada baseada em mRNA dependerá da integração efetiva entre pesquisa clínica, indústria biotecnológica e políticas públicas de saúde [56,57].

 

4. Considerações finais

Esta revisão teve como objetivo discutir as principais estratégias de formulação, sistemas de entrega e aplicações clínicas das terapias baseadas em mRNA, bem como analisar os desafios translacionais associados à sua consolidação na prática clínica.

A análise da literatura evidencia que as terapias baseadas em mRNA se consolidaram como uma plataforma estratégica na biotecnologia farmacêutica contemporânea, impulsionadas pela convergência entre engenharia molecular, nanotecnologia e ciências farmacêuticas.

Os avanços observados nas últimas décadas permitiram ampliar significativamente o potencial terapêutico do mRNA, viabilizando aplicações que vão além da imunização contra doenças infecciosas e alcançam áreas como oncologia, doenças genéticas raras e medicina personalizada.

Nesse contexto, as LNPs permanecem como a tecnologia mais consolidada para entrega de mRNA, enquanto plataformas emergentes, como exossomos, polímeros e sistemas híbridos, representam alternativas promissoras para aplicações futuras.

Apesar do progresso acelerado, desafios relacionados à escalabilidade produtiva, harmonização regulatória, direcionamento tecidual e sustentabilidade econômica ainda precisam ser superados para ampliar o acesso e a utilização dessas terapias em diferentes contextos clínicos.

As perspectivas futuras indicam que as tecnologias baseadas em mRNA poderão desempenhar papel central na consolidação da medicina personalizada, permitindo o desenvolvimento de vacinas individualizadas, terapias direcionadas a perfis moleculares específicos e estratégias terapêuticas mais precisas e adaptáveis às necessidades de cada paciente.

Paralelamente, a flexibilidade das plataformas de mRNA tem potencial para transformar os modelos tradicionais de pesquisa, desenvolvimento e produção farmacêutica, reduzindo o tempo de desenvolvimento de novos produtos e ampliando a capacidade de resposta frente a desafios sanitários globais.

Dessa forma, o futuro das terapias baseadas em mRNA dependerá não apenas da inovação científica, mas também da integração entre pesquisa acadêmica, desenvolvimento tecnológico, capacidade produtiva e políticas regulatórias.

A evolução contínua desses elementos deverá consolidar o mRNA como uma das plataformas terapêuticas mais relevantes da medicina moderna e um importante vetor de inovação para o desenvolvimento farmacêutico global.

 

5. Declaração de direitos

As autoras declaram ser detentoras dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declaram que as imagens e textos publicados são de responsabilidade das autoras, e não possuem direitos autorais reservados a terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declaram respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou autoplágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade das autoras.

 

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Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil. Email: ​​ 

2

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. Email: ​​ 


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