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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

Hepatozoon canis em canídeo domesticado: relato de caso

Ana Clara Jacob Barros1; Lara Aparecida Melo Rezende2; Manielly Gonçalves Pimentel3; Alana Gabriela Pereira Lopes4;Natália Cristina de Souza5

 

Como Citar:

BARROS, Ana Clara Jacob; REZENDE, Lara Aparecida Melo; PIMENTEL, Manielly Gonçalves; LOPES, Alana Gabriela Pereira; DE SOUZA, Natália Cristina. Hepatozoon canis em canídeo domesticado: relato de caso. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 2561-2576, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025111818

 

DOI: 10.61411/rsc2025111818

 

Área do conhecimento:

Ciências Agrárias

Sub-área:

Medicina Veterinária

 

Palavras-chaves: Hepatozoon Canis; Cachorro; Protozoário; Esfregaço Sanguíneo

 

Publicado: 27 de novembro de 2025

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Resumo

A hepatozoonose é uma enfermidade parasitária decorrente do protozoário do gênero Hepatozoon, sendo as espécies Hepatozoon canis e Hepatozoon americanum as mais comuns. A H. canis é de maior incidência no Brasil, enquanto a H. americanum é predominante no sul dos Estados Unidos. Essa doença acomete principalmente carnívoros silvestres e domésticos, como cães, e a sua transmissão ocorre pela ingestão do artrópode contaminado, com destaque para o Rhipicephalus sanguineus. Os sinais clínicos variam desde formas assintomáticas até quadros mais severos, como febre, fraqueza dos membros pélvicos e torácicos, secreção ocular, vômito, diarreia, anemia, mialgia, letargia, poliúria, polidipsia, mucosas hipocoradas e emagrecimento progressivo. O diagnóstico é realizado através do esfregaço sanguíneo ou por exames moleculares, como o PCR, principalmente em casos subclínicos, onde a infecção pode passar despercebida. Devido à ocorrência desses casos, a identificação da doença muitas vezes pode acontecer de forma acidental. No relato em questão, o cão foi levado à clínica para uma consulta com a intenção de realizar um tratamento periodontal, mas, após hemograma de rotina pré-cirúrgico, apresentou alterações e foi encaminhado para realizar um esfregaço sanguíneo, no qual foi identificada a presença do Hepatozoon canis e da bactéria Ehrlichia canis, indicando uma coinfecção. O tratamento adotado consistiu na administração de dipropionato de imidocarb em associação com doxiciclina para tratar as duas infecções, e foram prescritos também suplementos vitamínicos para auxiliar no fortalecimento da saúde do animal. Contudo, o tratamento foi inconclusivo, pois o proprietário não realizou o tratamento prescrito pelo médico-veterinário. Após alguns meses do atendimento, o animal foi submetido a novos exames, os quais não evidenciaram a presença de Hepatozoon canis.

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Hepatozoon canis in a domesticated canid: case report

 

Abstract

Hepatozoonosis is a parasitic disease caused by a protozoan of the genus Hepatozoon, with Hepatozoon canis and Hepatozoon americanum being the most common species. H. canis has a higher incidence in Brazil, while H. americanum predominates in the southern United States. This disease mainly affects wild and domestic carnivores, such as dogs, and its transmission occurs through the ingestion of an infected arthropod, particularly Rhipicephalus sanguineus. Clinical signs range from asymptomatic cases to severe conditions such as fever, weakness of the pelvic and thoracic limbs, ocular discharge, vomiting, diarrhea, anemia, myalgia, lethargy, polyuria, polydipsia, pale mucous membranes, and progressive weight loss. Diagnosis is made through blood smear examination or molecular tests such as PCR, mainly in subclinical cases where the infection may go unnoticed. Due to the occurrence of these cases, the identification of the disease often happens accidentally. In the case reported, the dog was taken to the clinic for a consultation with the intention of undergoing periodontal treatment, but after a routine pre-surgical blood test, abnormalities were detected, and a blood smear was performed, which identified the presence of Hepatozoon canis and the bacterium Ehrlichia canis, indicating coinfection. The treatment consisted of the administration of imidocarb dipropionate in association with doxycycline to treat both infections, along with vitamin supplements to support the animal’s overall health. However, the treatment was inconclusive because the owner did not follow the prescribed therapy. A few months after the initial consultation, new tests were performed, which no longer showed the presence of Hepatozoon canis.

Keywords: Hepatozoon Canis; Dog; Protozoa; Blood Smear.

 

    • Introdução

A hepatozoonose é uma doença causada por um protozoário que foi inicialmente identificada em cães na Índia e, posteriormente, registrada em canídeos na Ásia, Europa, África e Américas [13].

A Hepatozoon canis está presente no citoplasma dos neutrófilos, pertence à família Hepatozoidae, à classe Aconoidasida e ao filo Apicomplexa. Há relatos de mais de 300 espécies, sendo as mais comuns a Hepatozoon canis e a Hepatozoon americanum. A Hepatozoon canis parasita o sangue, os rins e o fígado dos cães; vista microscopicamente, possui micromerozoítas alongadas com núcleos definidos que, em corte transversal, têm aparência de “raio de roda”. A Hepatozoon americanum parasita o sangue e os músculos esqueléticos e cardíacos do hospedeiro intermediário; vista ao microscópio, possui uma parte externa de camadas concêntricas de membranas laminares finas e pálidas, que dão ao cisto uma aparência de “casca de cebola”, sendo uma enfermidade presente apenas nos Estados Unidos [11,17].

O principal vetor da Hepatozoon canis é o artrópode Rhipicephalus sanguineus, encontrado em regiões tropicais e subtropicais, com distribuição mundial [4]. O carrapato se contamina ao ingerir sangue contendo neutrófilos e monócitos que albergam os gamontes do protozoário. No intestino delgado ocorre uma multiplicação sexuada, resultando na produção de oocistos e esporozoítas. O hospedeiro intermediário se contamina ao ingerir esses oocistos infectados, espalhando a Hepatozoon canis no organismo do animal [6,10].

Quando o nível de parasitismo é baixo, os cachorros passam por uma infecção branda e silenciosa, sendo diagnosticada através de uma doença concomitante por Parvovírus, Ehrlichia canis, Anaplasma platys, Toxoplasma gondii, Leishmania donovani infantum, pela imunossupressão em cães neonatos jovens ou naqueles com imunodeficiência primária ou induzida. Mas, naqueles em que a concentração é alta, o animal pode vir a óbito [17].

O Hepatozoon não possui nenhuma predileção por raça, sexo ou idade, podendo infectar cães com menos de três meses até cães idosos. A afecção tem maior probabilidade de ocorrer em zona rural, por existir uma maior taxa de exposição ao carrapato [2].

Uma das formas de diagnóstico é o esfregaço sanguíneo, onde, segundo Monteiro [11], deve ser corado com Giemsa. Os gamontes tendem a aparecer dentro de monócitos e neutrófilos, com um citoplasma levemente azulado e um núcleo arroxeado escuro. Entretanto, quando os gamontes estão na corrente sanguínea, podem ser confundidos com as plaquetas, dificultando a identificação deles. A baixa sensibilidade dos exames convencionais pode levar a diagnósticos equivocados, reforçando a necessidade do uso de técnicas moleculares, como a reação em cadeia da polimerase (PCR), para uma identificação mais precisa da infecção [7]. O diagnóstico também pode ser realizado através de biópsia, identificando estruturas semelhantes a cistos nas amostras [8].

Segundo Taylor et al. [17], no tratamento recomenda-se a administração de dipropionato de imidocarb na dose de 5 a 6 mg/kg, com intervalo de 14 dias entre as aplicações, até que não haja mais detecção de gamontes nos esfregaços sanguíneos. A associação de doxiciclina oral na dose de 10 mg/kg, uma vez ao dia (SID), com o imidocarbe, durante 21 dias, também constitui uma alternativa terapêutica. O tratamento pode se estender por até oito semanas para a completa eliminação dos parasitas do sangue periférico, sendo necessária a realização de avaliações hematológicas regulares. É recomendado tratar todos os cães infectados, pois, na ausência de tratamento, pode haver um aumento significativo na carga parasitária, o que compromete o prognóstico. Por outro lado, cães com baixa parasitemia geralmente apresentam prognóstico favorável.

O seguinte relato tem como principal objetivo descrever um caso de hepatozoonose em um cão macho, sem raça definida (SRD), atendido na clínica de Medicina Veterinária da Universidade Evangélica de Goiás, apresentando alterações neurológicas e, inicialmente, havia sido diagnosticado com erliquiose canina. Contudo, por meio do diagnóstico diferencial, confirmou-se a infecção pelo protozoário Hepatozoon canis.

 

    • Referencial teórico

As infecções por protozoários Hepatozoon vêm sendo progressivamente reconhecidas na prática veterinária, especialmente em regiões tropicais. Em cães, a enfermidade conhecida como hepatozoonose representa um desafio no diagnóstico devido à diversidade de manifestações clínicas e à possibilidade de coexistência com outras doenças infecciosas [2].

Seu impacto pode variar desde infecções assintomáticas até quadros clínicos graves, com comprometimento sistêmico. Os agentes do gênero Hepatozoon pertencem ao grupo dos apicomplexos, uma vasta categoria de protozoários intracelulares que inclui importantes patógenos veterinários [6]. Dentre as espécies descritas, duas afetam significativamente os canídeos domésticos: Hepatozoon canis, amplamente distribuída em regiões tropicais e subtropicais, e Hepatozoon americanum, que ocorre principalmente no sul dos Estados Unidos [17].

A forma clínica provocada por Hepatozoon canis geralmente é mais branda, muitas vezes passando despercebida. Já a infecção por Hepatozoon americanum é conhecida por provocar dor intensa, alterações musculares severas e comprometimento locomotor, exigindo diagnóstico rápido e manejo intensivo [11,13].

O ciclo biológico de Hepatozoon canis é heteroxênico, o que indica que o protozoário precisa de dois hospedeiros distintos para completar seu processo. O cão atua como hospedeiro vertebrado, enquanto o carrapato, geralmente Rhipicephalus sanguineus, desempenha a função de vetor e hospedeiro intermediário [4]. Ao ingerir sangue infectado, o carrapato adquire gamontes presentes em leucócitos. No seu trato digestório ocorre a reprodução sexuada do parasita, culminando na produção de oocistos infectantes. O cão se contamina ao engolir o carrapato portador desses oocistos, comportamento comum durante o ato de prurido (coçar-se) ou lambedura. Ao se disseminar pelo corpo, o parasita penetra no epitélio intestinal, estabelecendo-se em tecidos como fígado, baço e medula óssea [8,10].

A distribuição geográfica da hepatozoonose está atrelada à presença do vetor, que prospera em ambientes com temperaturas elevadas e umidade. Embora seja mais frequente em áreas rurais, há registros crescentes em zonas urbanas, favorecida por ambientes com vegetação e múltiplos cães [13].

Não há evidências de predisposição racial ou etária, mas foi comprovado que cães filhotes, idosos ou com sistema imune debilitado tendem a apresentar quadros clínicos mais evidentes. Coinfecções com patógenos como Ehrlichia spp., Anaplasma platys e Leishmania infantum são comuns e dificultam a recuperação dos acometidos [7].

A variabilidade clínica da hepatozoonose é ampla. Muitos cães permanecem sem sinais perceptíveis, enquanto outros desenvolvem febre, indisposição, secreções oculares, distúrbios musculares e perda de massa corpórea [17]. A gravidade do quadro quase sempre está atribuída à carga parasitária e ao status imunológico do animal.

Os exames laboratoriais são essenciais para o diagnóstico. Hemogramas costumam revelar alterações como anemia, trombocitopenia e elevação das proteínas totais. A identificação direta do parasita é possível através da microscopia de esfregaços sanguíneos corados, onde se observam os gamontes em neutrófilos [11]. Contudo, esse método apresenta limitações em casos de baixa carga parasitária. Assim, técnicas moleculares como a PCR destacam-se por sua elevada sensibilidade, sendo indicadas principalmente em pacientes sob suspeita clínica, mesmo quando há confirmação por microscopia [7].

As manifestações clínicas da hepatozoonose se sobrepõem a diversas outras hemoparasitoses, tornando o diagnóstico diferencial imprescindível. Doenças como erliquiose, babesiose, anaplasmose, leishmaniose e toxoplasmose podem produzir sinais semelhantes, o que exige uma avaliação integrada, considerando o histórico clínico, exames laboratoriais e testes específicos [2]. A coinfecção por múltiplos patógenos em um mesmo hospedeiro é comum, especialmente em cães com livre acesso ao ambiente externo. Nesses casos, a correta identificação dos agentes envolvidos é crucial para o sucesso terapêutico [7].

O protocolo terapêutico mais empregado envolve a administração de dipropionato de imidocarb e doxiciclina, combinando ação antiparasitária e antibacteriana. O tratamento, geralmente prolongado, requer acompanhamento constante da resposta hematológica e clínica [17]. O prognóstico costuma ser favorável em pacientes tratados precocemente e sem coinfecções. Em contrapartida, cães com alta carga parasitária ou imunossuprimidos podem apresentar evolução mais lenta ou complicações [6]

A profilaxia está diretamente relacionada ao controle do vetor. Medidas como a aplicação periódica de carrapaticidas, manutenção adequada dos ambientes, limpeza de quintais e inspeções rotineiras dos animais são fundamentais para prevenir novas infecções [10].

Embora não represente risco direto à saúde humana, a hepatozoonose canina é uma enfermidade de grande importância por dificultar o diagnóstico de outras doenças, prolongar o tratamento e comprometer significativamente a qualidade de vida do animal. Seu reconhecimento e controle são indispensáveis para uma prática clínica eficaz e responsável [2].

 

    • Metodologia

Foi atendido na clínica veterinária da UniEvangélica, localizada em Anápolis-GO, um animal da espécie canina, sem raça definida, de aproximadamente 11 anos, pesando 6 quilos e 400 gramas. O tutor relatou que o paciente não é castrado. A queixa principal era a realização do tratamento periodontal, e o tutor relatou que o animal apresentou alterações neurológicas em agosto de 2024, sendo levado a uma clínica não informada, onde passou por tratamento medicamentoso e internação, ambos não informados, apresentando melhora no quadro.

Durante o exame físico geral, o animal apresentou parâmetros fisiológicos dentro da normalidade, revelando somente o aumento reativo do linfonodo submandibular esquerdo. Ao exame físico específico, observou-se atrofia da musculatura facial. Foram solicitados exames complementares, como hemograma completo Tabela 1, perfil bioquímico e teste rápido para Ehrlichia spp.

Tabela 1: Eritrograma

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Resultado

Valor de Referência

Eritrócito

3,74 milhões/mm3

5,5 – 8 milhões/mm3

Hemoglobina

-

12-18g/DL

Hematócrito

36%

37 – 55%

VCM

80,2 fL

60 – 77fL

HCM

31 pg

19,5 – 24,5 pg

CHCM

38,7 g/DL

30 – 36 g/DL

Plaquetas

153.000mm

200.000 – 500.000/ mm

Proteínas

10,9g/DL

5,5 – 8 g?DL

Leucograma

 

Resultado

Valor de Referência

Leucócitos

5.160

6.000 – 17.000/mm3

Basófilos

0.0

raro

Eosinófilos

464.4

100 -1.250

Monócitos

309.6

100 – 1.000

Bastonetes

154.8

0 - 300

Segmentados

3,818.4

3.000 – 11. 500

Linfócitos

412.8

1.000 – 4.800

Fonte: Autores (2025).

 

Na realização do hemograma foi utilizado contador hematológico, além da leitura de hematócrito e diagnóstico diferencial, onde se evidenciou anemia macrocítica, trombocitopenia e aumento de proteína plasmática total (PPT). No leucograma, evidenciou-se leucopenia.

Durante o diagnóstico diferencial, foi identificada a presença de Hepatozoon canis Figura 1. No perfil bioquímico, observou-se ureia abaixo da referência, e o teste rápido, utilizando sangue total, apresentou resultado positivo para Ehrlichia spp.

Figura 1: Esfregaço sanguíneo evidenciando presença do Hepatozoon canis.

Fonte: arquivo pessoal.

 

Devido à idade avançada, o paciente foi encaminhado para realizar um eletrocardiograma a fim de prosseguir com o tratamento periodontal, que acabou não sendo executado.

Como tratamento para a erliquiose e a hepatozoonose, foi administrado Imizol por via intravenosa, e o tutor foi orientado a retornar à clínica veterinária para a reaplicação da segunda dose, 14 dias após a primeira administração. Foi prescrita a medicação que seria administrada pelo tutor, cujos medicamentos foram: Doxifin Tabs 50 mg, ¾ do comprimido por via oral a cada 12 horas (BID), durante 28 dias. Para a anemia relatada no hemograma, foi indicado o suplemento Eritros Dog Tabs 30 tabletes (18 g), 1 comprimido por via oral a cada 24 horas (SID), durante 30 dias; Hepevet comprimidos, 1 comprimido a cada 24 horas (SID), durante 30 dias; e Promun Dog Pó (150 g), 1 dose de 2 gramas por via oral a cada 24 horas (SID), durante 30 dias, podendo ser colocado junto à ração ou preparado em formato de brigadeiro (misturar com um pouco de água natural e oferecer como petisco, sem esquentar ou congelar).

Foi solicitado o retorno do paciente para repetir o teste rápido de Ehrlichia spp., hemograma e diferencial. Dos tratamentos prescritos, foram administrados o Doxifin Tabs de 25 mg e o Promun Dog em pó durante uma semana, porém o cachorro tentava morder. Devido a isso, o tratamento foi suspenso e não houve retorno à clínica para realizar o Imizol, tampouco repetir os exames solicitados.

Meses depois, foi restabelecido o contato com o tutor para repetir os exames, com o intuito de acompanhar a saúde do paciente, visto que o tratamento não foi realizado da forma correta. Ao retornar, o animal foi novamente avaliado e os parâmetros estavam dentro dos prescritos.

Ao realizar o hemograma Tabela 2, evidenciou-se, no eritrograma, que os eritrócitos se apresentavam baixos; porém, o hematócrito apresentava-se dentro das referências para a espécie e, apesar de o teste rápido para erliquiose novamente apresentar-se positivo, as plaquetas estavam dentro do limite de referência. Com relação aos parâmetros leucocitários, o animal apresentou leucopenia.

Ao realizar o diagnóstico diferencial, não se notou a presença do protozoário Hepatozoon canis.

Tabela 2: Eritrograma

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Resultado

Valor de Referência

Eritrócito

4,56 milhões/mm3

5,5 – 8,5 milhões/mm3

Hematócrito

38,3%

37 – 55%

VCM

83,9 fL

60 – 77fL

Hemoglobina

13,6g/dL

12 – 18 g/dL

CHCM

35,5 g/DL

31-36%

Reticulócitos

-

0-1%

Plaquetas

210.000/mm3

200.000/500.00/mm3

Leucograma

​​ 

Resultado

Valor de Referência

Leucócitos

5.000/mm3

6.000 – 17.000/mm3

Bastonetes

0.0

raro

Segmentados

464.4

100 -1.250

Linfócitos

309.6

100 – 1.000

Monócitos

154.8

0 - 300

Eosinófilos

3,818.4

3.000 – 11. 500

Basófilos

0

raros

Proteínas Plasmática

-

7g/dL

Fonte: Autores (2025).

 

Devido à positividade do teste para Ehrlichia canis, foi instituído um novo protocolo terapêutico, orientando-se o tutor a realizar o tratamento completo a fim de evitar recidiva das hemoparasitoses.

 

    • Desenvolvimento e discussão

A hepatozoonose possui vários sinais clínicos que podem ser diferenciados conforme o tipo de espécie de Hepatozoon e a presença de doenças concomitantes associadas. No presente relato, um dos sinais clínicos evidentes no paciente foi a alteração neurológica, cujos sinais podem ser observados tanto na hepatozoonose quanto em quadros de erliquiose. Esses fatos corroboram com alguns autores que citam que a sintomatologia da hepatozoonose é inespecífica, devido ao fato de estar frequentemente associada a outras patologias [14,9].

Esses dados confirmam os resultados apresentados neste estudo, em que o animal atendido apresentou presença de Hepatozoon canis no esfregaço sanguíneo e positividade no teste rápido para Ehrlichia canis. Devido à semelhança dos sinais clínicos apresentados por essas duas afecções, torna-se difícil afirmar a qual delas pertencem os sinais neurológicos observados, ou se estes resultam da associação de ambas. A mesma questão foi relatada por Greene [9], ao citar que o quadro de encefalite apresentado na hepatozoonose é comumente descrito na literatura associado à coinfecção com outros agentes, como Anaplasma, Babesia, Toxoplasma e Ehrlichia. A encefalite leva a quadros neurológicos que podem ser agudos e progressivos, incluindo letargia, depressão, convulsões, ataxia, alteração de comportamento, déficits proprioceptivos, andar em círculos e cegueira [15].

Quanto às alterações hematológicas apresentadas na primeira consulta, os dados evidenciaram anemia macrocítica, trombocitopenia e aumento de proteína plasmática total (PPT), fato também relatado por Cruz et al. [7], em que os exames laboratoriais frequentemente demonstraram anemia normocítica normocrômica, leucocitose e trombocitopenia. Alguns estudos reforçam a ocorrência de anemia e trombocitopenia, como o de Baneth [3], que evidenciou, em seus achados laboratoriais, anemia, leucocitose neutrofílica, linfopenia e monocitose. A trombocitopenia pode estar presente em aproximadamente um terço dos cães infectados por Hepatozoon canis; entretanto, é necessário ressaltar que, em seu estudo, todos os animais apresentavam infecções concomitantes, impossibilitando determinar se as alterações se deviam ao Hepatozoon canis, a outros agentes ou à associação entre ambos.

Com relação aos métodos diagnósticos, na rotina clínica, o diagnóstico da enfermidade em cães baseia-se na identificação de células leucocitárias parasitadas em esfregaços sanguíneos. Estudos recentes têm preconizado o uso da imunofluorescência indireta, western blot e biópsia tecidual como técnicas alternativas de diagnóstico [12,1].

No presente relato, foi possível realizar o diagnóstico de Hepatozoon canis por meio da observação de formas parasitárias em leucócitos, evidenciadas na avaliação de esfregaços sanguíneos por microscopia óptica, empregada como método de diagnóstico diferencial. Esses achados corroboram com Sakuma et al. [16], que evidenciaram neutrófilos aumentados com estruturas semelhantes a cápsulas em seu citoplasma, observadas em esfregaços sanguíneos.

No Brasil, a enfermidade já foi diagnosticada em diversos estados, e a confirmação da hepatozoonose foi realizada por meio da visualização da forma de gamontes do parasito em esfregaços sanguíneos, consolidando as informações citadas acima [5]. Apesar de a verificação de gamontes no citoplasma de leucócitos ser uma das formas de identificação da doença, após a instituição do tratamento medicamentoso é possível realizar novos esfregaços sanguíneos durante o tratamento, a fim de verificar a presença ou ausência do protozoário. Esses achados confirmam as observações deste estudo, visto que, após alguns meses, não se constatou a presença do parasita. Sakuma et al. [16] validam essas informações, pois, em seu estudo, as gamontes tornaram-se indetectáveis poucos dias após o início do tratamento.

Baneth [3] evidenciou, em seus estudos, que de seis esfregaços positivos para Hepatozoon canis, quatro provinham de cães com suspeita clínica de leishmaniose, babesiose ou erliquiose, ressaltando a ocorrência de Hepatozoon canis associada a doenças concomitantes. Segundo o autor, as manifestações clínicas da babesiose, erliquiose e leishmaniose são semelhantes, sendo condições que enfraquecem o sistema imunológico, aumentando a susceptibilidade à contaminação ou permitindo a reativação de infecções já existentes.

De acordo com Baneth e Allen [2], a doença apresenta maior probabilidade de ocorrência em regiões rurais. No entanto, o caso descrito ocorreu em área urbana, onde o quintal da residência era composto por cerâmica e grama. O animal em questão não possuía acesso à rua, mas convivia com outros cães que circulavam fora da residência. Além disso, os vizinhos também criavam animais, o que dificulta rastrear precisamente a forma de contaminação.

O tratamento adotado incluiu a administração de dipropionato de imidocarb em associação com doxiciclina, seguindo a recomendação de Taylor et al. [17]. O animal demonstrou evolução clínica positiva após o início do tratamento, e os gamontes não foram mais observados.

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    • Considerações finais

O estudo permitiu relatar um caso clínico de coinfecção por Hepatozoon canis em um cão, diagnosticado durante avaliação pré-operatória de rotina. A identificação do protozoário por meio de esfregaço sanguíneo reforça a importância da atenção clínica e laboratorial, mesmo em pacientes aparentemente assintomáticos ou com sintomatologia inespecífica.

A hepatozoonose, apesar de subdiagnosticada em diversos casos, apresenta potencial para evoluir com sinais clínicos relevantes, principalmente quando associada a outras hemoparasitoses. Dessa forma, a inclusão desse agente etiológico no diagnóstico diferencial de alterações hematológicas e sintomas neuromusculares em cães é essencial.

Embora tenha ocorrido em curto prazo, o tratamento com dipropionato de imidocarb demonstrou eficácia clínica, destacando-se como uma alternativa viável para o controle da doença. Por fim, este relato enfatiza a importância da adoção de protocolos preventivos contra carrapatos, bem como da utilização de exames complementares para um diagnóstico preciso, evitando falhas terapêuticas e promovendo melhor prognóstico aos pacientes acometidos.

 

    • Declaração de direitos

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