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ISSN: 2595-8402

Journal DOI: 10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO ORIGINAL

Entre vazios e descobertas: O abandono afetivo na construção do sujeito sob a lente fenomenológica existencial

Ana Clara de Oliveira1; Matheus Garcia Coelho2

 

Como Citar:

OLIVEIRA, Ana ​​ Clara; COELHO, Matehus ​​ Garcia. Entre vazios e descobertas: O abandono afetivo na construção do sujeito sob a lente fenomenológica existencial. Revista Sociedade Científica, vol.7, n. 1, p.4700-4715, 2024.

​​ https://doi.org/10.61411/rsc202471917

 

DOI: 10.61411/rsc202471917

 

Área do conhecimento: Psicologia.

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Sub-área: Fenomenológica Existencial.

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Palavras-chaves: Abandono Afetivo. Fenomenologia. Psicologia Jurídica.

 

Publicado: 7 de outubro de 2024.

Resumo

O presente trabalho tem como tema o abandono afetivo na construção do sujeito sob a lente da abordagem fenomenológica existencial. O estudo buscou responder como a ausência dos genitores afeta a construção do sujeito, especialmente em aspectos como formação da identidade, autoestima e habilidades sociais. A pesquisa teve como objetivo principal compreender os impactos da ausência afetiva na construção do sujeito e suas relações, além de apontar as consequências jurídicas do abandono afetivo. Com base em uma pesquisa bibliográfica de cunho exploratório, o estudo indicou que o abandono afetivo pode comprometer significativamente o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, deixando-os vulneráveis a influências negativas e prejudicando suas relações interpessoais. Além disso, observou-se que o sistema jurídico desempenha um papel fundamental na garantia dos direitos dessas crianças, enquanto a Psicologia tem um papel essencial no apoio e no fortalecimento da resiliência emocional. Nas considerações finais, destaca-se que futuras pesquisas devem explorar mais profundamente as implicações de longo prazo do abandono afetivo e promover maior conscientização sobre a responsabilidade parental. O estudo reforça a importância de intervenções psicológicas para promover o bem-estar desses indivíduos e minimizar os impactos negativos do abandono.

 

 

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1.Introdução

O conceito de família sofreu transformações significativas ao longo da história, adaptando-se às mudanças sociais, econômicas e culturais que moldaram o tecido da convivência humana. O modelo familiar contemporâneo, que remonta ao período pós-segunda guerra mundial, emergiu como uma construção dinâmica, acompanhando a progressiva flexibilização das relações interpessoais e o questionamento das estruturas patriarcais. Na década de 1960, com o advento da chamada família pós-moderna, o casamento passou a ser visto como um contrato de natureza mais efêmera, com base no afeto e no amor, cujo vínculo dura enquanto esses sentimentos se mantêm (Benetti; Inada, 2018). ​​ Essa transição provocou mudanças profundas nas interações familiares, culminando, muitas vezes, em arranjos temporários e na fragilização do papel de alguns membros, especialmente da figura paterna, em determinados contextos. [4]

É nesse cenário de transformações que o abandono afetivo emerge como uma realidade pungente, transcendente fronteiras geográficas e culturais. Esse aspecto, que consiste na omissão ou ausência de afeto e cuidado por parte de um dos progenitores, principalmente o pai, impõe desafios que reverberam profundamente na psique humana. De acordo com Custódio et al. (2023), [10] essa ausência deixa marcas de tensão, afetando o desenvolvimento emocional e social dos filhos. A indagação sobre como os filhos enfrentam esse vazio e de que forma ele se reflete nas suas relações interpessoais e na construção de sua identidade é uma questão central que necessita de maior investigação e compreensão.

Diante dessas inquietantes interrogações, a presente pesquisa se propõe a explorar os desdobramentos emocionais, sociais e jurídicos do abandono afetivo, buscando desvelar as consequências desse impacto na vida dos indivíduos e das famílias afetadas. O objetivo central deste estudo é investigar como os filhos podem lidar com a ausência da figura paterna e como essa ausência impacta suas relações, suas construções individuais e, consequentemente, sua identidade. A pesquisa, assim, pretende contribuir para um entendimento mais profundo das implicações emocionais e existenciais desse abandono, oferecendo uma visão multidimensional sobre o tema.

Os objetivos específicos da pesquisa abrangem três dimensões principais. Primeiramente, pretendo-se analisar os efeitos da ausência parental na formação da identidade dos filhos, investigando o vínculo entre o abandono afetivo e o vazio existencial que muitas vezes acompanha esse específico. Em segundo lugar, serão mapeados os aspectos jurídicos que envolvem o abandono afetivo, buscando-se compreender as políticas públicas e as legislações vigentes que visam proteger as famílias nessa situação, conforme disposto por Avelino et al. (2023). [3]

Finalmente, o estudo buscará integrar uma perspectiva clínica, adotando uma abordagem fenomenológica existencial para examinar a construção do sujeito em relação ao outro, conforme descrito por Forghieri (1996), e como as complexidades da existência são moldadas por essas experiências de abandono. Assim, a pesquisa pretende não apenas teorizar sobre as características, mas também oferecer caminhos de compreensão e intervenção que auxiliam na superação desse dilema tão presente na contemporaneidade.

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2. Metodologia

Trata-se de uma pesquisa exploratória de cunho qualitativo, evocando conceitos e informações da literatura científica sobre a temática da ausência da figura parental na construção do sujeito sob a perspectiva da Psicologia Existencial Humanista.

Destaca-se que este estudo adota a abordagem proposta por Minayo (2012), a qual preconiza que “uma análise qualitativa deve ser capaz de apresentar informações precisas, coerentes e, na medida do possível, fiéis à realidade”. Dessa forma, é conduzida uma minuciosa avaliação de diversas fontes científicas, com o propósito de aprofundar os conceitos, categorias e noções que são pertinentes para a pesquisa em questão (Minayo, 2012). [20]

Dessa forma foram explorados materiais em diversas bases de dados acadêmicas e periódicos científicos, como o Google Acadêmico, Plataforma Scielo e PsycINFO, que abordem a temática. As palavras-chave utilizadas para a pesquisa foram abandono afetivo, fenomenologia e psicologia jurídica.

A pesquisa concentrou em artigos científicos, teses, dissertações e outros materiais que discutem os efeitos emocionais, interpessoais e existenciais da falta das figuras parentais, bem como pode se dar a construção dos filhos como sujeitos e suas relações, considerando o contexto existencial, os artigos usados foram dos anos de 2013 à 2024.

Por meio da análise dos estudos selecionados, buscou-se identificar padrões e tendências, contribuindo para uma compreensão mais sólida da ausência afetiva. A revisão de literatura proveu uma base consistente e embasada para as discussões e conclusões propostas no artigo.

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3.O abandono afetivo na construção da identidade das crianças e jovens

A construção da identidade das crianças e jovens abandonados pelos pais é profundamente influenciada pela experiência do abandono, afetando sua autoimagem e autoestima. De acordo com Vieira e Henriques (2013), “o abandono afetivo parental pode gerar uma profunda sensação de exclusão e desamparo, levando a criança ou jovem a questionar seu próprio valor e adequação”. Essa experiência, muitas vezes, resulta na internalização de sentimento de culpa e inadequação, criando um ciclo de baixa autoestima e insegurança, que pode durar por toda a vida adulta. A percepção de exclusão por parte de quem deveria provar amor e proteção afetando diretamente a forma como esses indivíduos se veem e como se relacionam com os outros. [29]

Além disso, a ausência de uma figura parental significativamente pode gerar lacunas emocionais que comprometem a construção de uma identidade saudável. O suporte emocional e a validação que uma criança ou jovem deveria receber dos pais são substituídos por sentimentos de abandono, que minam a autoconfiança e dificultam o desenvolvimento de uma autoestima sólida. Como aponta Saldanha Erthal (2013), “o eu social da criança toma forma durante o processo de interação com as pessoas”, sendo a interação com os adultos fundamental. Quando essa interação é fragilizada ou inexistente, o processo de construção da identidade torna-se mais complexo e desafiador. [24]

Para Timbane e Dos Santos Batista (2020), “a identidade emocional de uma criança ou jovem abandonada pelos pais pode ser moldada pela dor e pelo trauma do abandono”. Essa constatação reforça o impacto de que a falta de um referencial afetivo pode ter na vida emocional desses indivíduos, levando-os a carregar traumas que influenciam diretamente sua percepção de si mesmos e sua capacidade de formar relações futuras saudáveis. [27]

Bezerra (2006) também destaca a busca por pertencimento como um aspecto central na formação da identidade desses jovens. O abandono cria um vazio emocional que os leva a procurar um lugar onde possam se sentir aceitos e valorizados, o que, por vezes, os expõe a influências negativas. Essa busca incessante por sentido e conexão pode levar a comportamentos de risco ou à tentativa de se integrar a grupos que oferecem um pertencimento ilusório. [5]

Oliveira (2022) complementa, afirmando que “a falta de apoio emocional e orientação parental pode tornar essa jornada ainda mais árdua, deixando-os vulneráveis ​​a influências negativas”. Esses jovens se envolvem em ambientes específicos ou desenvolvem comportamentos destrutivos na tentativa de preencher o vazio deixado pelo abandono parental. Nesse contexto, o suporte psicossocial e terapêutico torna-se essencial para oferecer novas formas de enfrentamento e proteção da identidade. [23]

De acordo com Alcântara Mendes, Almeida e Melo (2021), “a construção da identidade das crianças e jovens abandonados pelos pais envolve um processo complexo de autoconhecimento e desenvolvimento da resiliência diante da ausência paterna”. A resiliência, aqui, aparece como um caminho possível para que esses jovens superem as adversidades emocionais do abandono, especialmente quando recebem o apoio adequado. Esse processo de autoconhecimento pode ser desafiador, mas também oferece a oportunidade de desenvolver uma compreensão mais profunda de si mesmos, fortalecendo sua capacidade de enfrentar os desafios da vida. [1]

O desenvolvimento da identidade cultural e social também desempenha um papel importante na formação de jovens abandonados, como apontado por Vieira (2013). A terapia e o apoio psicossocial são fundamentais para ajudá-los a explorar suas raízes culturais e encontrar um sentido de pertencimento que contribua para uma identidade mais coesa. A construção de uma identidade resiliente depende, em grande parte, da rede de suporte oferecida pela comunidade, família contínua, amigos e instituições, que podem atuar como um contraponto à ausência parental. [30]

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4. Influência do abandono afetivo na construção de relações interpessoais

O abandono afetivo, seja paterno ou materno, pode exercer uma influência significativa na capacidade de confiança e intimidação das crianças e jovens afetados. A ausência de uma figura parental presente e afetuosa impacta diretamente a formação de conexões emocionais profundas e relações interpessoais satisfatórias. Segundo Sikora et al. (2014), uma experiência de ser abandonado por um dos pais pode abalar a confiança da criança ou jovem nas pessoas ao seu redor, resultando em uma sensação de desamparo e desconfiança. [25]

Essa desconfiança pode se manifestar de várias maneiras ao longo da vida. Crianças e jovens que enfrentam o abandono desenvolvem uma postura defensiva, mantendo distanciamento emocional para se protegerem de novas decepções. Eles podem ter dificuldade em acreditar nas promessas e compromissos dos outros, ou que comprometem sua capacidade de formar relacionamentos íntimos e duradouros, levando-os ao isolamento emocional (Sikora et al., 2014). [25]

Além disso, o abandono afetivo afeta a habilidade de se abrir emocionalmente. A falta de apoio emocional parental gera uma sensação de desconexão, dificultando o desenvolvimento de habilidades de comunicação e expressão emocional. Como resultado, esses indivíduos podem se sentir inseguros ao compartilhar suas vulnerabilidades, temendo serem rejeitados ou julgados por suas experiências passadas, o que prejudica a formação de laços emocionais profundos e significativos (Godoy; Silva; Santos, 2020). [15]

Fontes (2021) reforçam que o abandono afetivo afeta os padrões de relacionamento e a interação social de crianças e jovens. A ausência de um dos pais cria um vazio emocional que dificulta o estabelecimento de conexões afetivas e relações interpessoais saudáveis. O medo de novos abandonos faz com que esses indivíduos mantenham uma postura de autoproteção, o que pode resultar em relações superficiais e distantes. [13]

O impacto do abandono afetivo também se reflete na autoimagem e autoestima dessas crianças e jovens. A percepção de exclusão pode levá-los a questionar seu próprio valor, o que afeta sua confiança nos relacionamentos interpessoais. De acordo com Vieira (2020), esses indivíduos podem desenvolver compromissos em estabelecer limites elevados e expressar suas necessidades, o que gera conflitos interpessoais e fragilidade nas interações sociais. [30]

As relações de amizade e afetivas também são profundamente influenciadas pelo abandono afetivo. Avelino (2023) argumenta que o medo de abandono e exclusão pode criar insegurança nas amizades e nos relacionamentos românticos, tornando difícil para esses indivíduos confiar plenamente nas pessoas ao seu redor. Como resultado, seus relacionamentos tendem a ser instáveis ​​e superficiais, refletindo o recebimento constante de serem deixados de lado. [3]

Esses padrões de relacionamento disfuncionais também se manifestam nas relações afetivas, como namoro e casamento. Custódio et al. (2023) [10] explicam que o medo de abandono pode levar a dificuldades na criação de vínculos emocionais profundos, resultando em comportamentos como evitação de intimidação ou dependência emocional excessiva. Essas dinâmicas podem comprometer a qualidade e a estabilidade dos relacionamentos românticos.

Vasconcelos (2020) aponta que o abandono afetivo pode tornar esses indivíduos emocionalmente vulneráveis, aumentando as chances de desenvolverem dependência emocional ou de evitarem a intimidação como formas de defesa contra novas rejeições. Isso gera dificuldades de comunicação, relacionamentos superficiais e incapacidade de expressar necessidades e desejos, perpetuando padrões disfuncionais. [28]

A terapia e o apoio psicossocial são fundamentais para ajudar esses indivíduos a superar os efeitos do abandono afetivo. Lorini e Stieven (2023) destacam que, ao oferecer um espaço seguro e acolhedor, os profissionais podem ajudar crianças e jovens a compreender como o abandono afetou suas relações interpessoais e a desenvolver habilidades para construir vínculos mais resilientes e tensos. A terapia também promove o desenvolvimento de habilidades de comunicação, assertividade e resolução de conflitos, fundamentais para melhorar as interações sociais. [18]

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5. Implicações jurídicas

A definição legal de abandono afetivo varia conforme o sistema jurídico de cada país, mas, de maneira geral, envolve o descumprimento dos deveres parentais de cuidado, proteção e afeto. No contexto legal, o abandono afetivo parental é frequentemente considerado uma forma de negligência ou violência psicológica, impactando o desenvolvimento emocional e psicossocial da criança. Moreira e Tonelo (2015) [21] ressaltam que essa definição abrange tanto a ausência física quanto a emocional dos pais, o que compromete o bem-estar da criança.

As leis que tratam do abandono afetivo visam proteger os direitos das crianças e jovens, garantindo-lhes um ambiente familiar seguro e acolhedor. Nascimento Pereira e Consalter (2016) destacam que tais leis podem importar avaliações aos pais negligentes, incluindo a perda da guarda ou responsabilidades parentais, além de preverem medidas de proteção como assistência psicológica e social às vítimas. [22]

Segundo Alcântara Mendes, Almeida e Melo (2021), a harmonização das responsabilidades parentais com os direitos das crianças é fundamental para promover um ambiente familiar saudável. Os pais devem atuar de maneira consciente e diligente, respeitando as necessidades individuais dos filhos, o que inclui não apenas o fornecimento de cuidados básicos, mas também o reconhecimento da importância do afeto e da participação ativa da criança nas decisões familiares. [1]

A eficácia dos processos legais em casos de abandono afetivo depende da colaboração entre profissionais e da cooperação familiar. Soares (2022) argumenta que os processos judiciais podem ser vistos como uma oportunidade de resolução de conflitos, buscando a reconciliação e a garantia de um ambiente familiar afetuoso e seguro. No entanto, desafios como a falta de clareza na aplicação das leis e a morosidade judicial podem comprometer a proteção dos direitos das crianças. [26]

Outro obstáculo na aplicação das leis de proteção à criança é a resistência cultural e social. Cunha (2021) ressalta que as questões levantadas sobre o papel dos pais dificultam a denúncia de casos de abandono afetivo, especialmente em comunidades onde a conscientização sobre os direitos das crianças é limitada. A falta de recursos adequados e a burocracia também agravaram a morosidade judicial, impactando qualidades o bem-estar das crianças afetadas. [9]

Alcântara Mendes, Almeida e Melo (2021) [1] destacam que as disparidades socioeconômicas também influenciam a proteção dos direitos das crianças. Famílias de baixa renda e grupos marginalizados enfrentam maiores obstáculos no acesso a recursos jurídicos e sociais. Nesses casos, a colaboração entre governo, ONGs e comunidades locais é essencial para fortalecer as respostas institucionais e garantir uma abordagem eficaz na proteção infa.

Em suma, a aplicação eficaz das leis de abandono afetivo requer uma integração de esforços entre diversos setores da sociedade. A conscientização pública, a simplificação dos processos judiciais e o fortalecimento das redes de apoio são passos fundamentais para garantir o bem-estar e a proteção das crianças afetadas pelo abandono.

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6.A clínica fenomenológica existencial e o trabalho com pessoas que passaram pelo abandono afetivo

A abordagem fenomenológica existencial na terapia se baseia na compreensão profunda da experiência subjetiva, explorando os significados pessoais que os indivíduos atribuem às suas vivências. Essa perspectiva valoriza a singularidade de cada pessoa, buscando entender sua experiência de vida a partir de sua própria visão, sem julgamentos ou interpretações prévias. Na terapia, o terapeuta cria um espaço seguro para que o cliente explore suas preocupações e conflitos, descobrindo seu próprio sentido e propósito na vida.

Cantalice (2022) destaca que a ênfase na liberdade e responsabilidade pessoal é um dos pilares da terapia fenomenológica existencial. Os terapeutas auxiliam os clientes a reconhecer suas escolhas e ações, promovendo a reflexão sobre suas decisões existenciais. Essa conscientização capacita o cliente a fazer mudanças significativas em sua vida, assumindo uma postura mais ativa em sua construção pessoal. [8]

A relação terapêutica, baseada em empatia e autenticidade, é central na terapia fenomenológica existencial. Conforme Campos e Baquião (2021), a presença autêntica do terapeuta, caracterizada pela aceitação incondicional, facilita o desenvolvimento pessoal e emocional do cliente. Essa abordagem colaborativa e respeitosa permite a exploração profunda das experiências de vida, promovendo o crescimento e o autoconhecimento. [7]

Cunha (2021) reforça que, ao tratar de pessoas que sofreram abandono afetivo, a clínica fenomenológica existencial foca em compreender os significados que os clientes atribuem ao abandono. Cada pessoa vivencia essa experiência de forma única, e o terapeuta oferece um espaço acolhedor para que os clientes processem as emoções intensas de tristeza, raiva, culpa e solidão. Esse processo permite que o indivíduo enfrente as emoções de forma construtiva. [9]

O abandono afetivo pode afetar diretamente a autoestima, a identidade e o valor pessoal do indivíduo. Alcântara Mendes, Almeida e Melo (2021) [1] ressaltam que o trabalho terapêutico envolve desafiar crenças autocríticas e negativas, ajudando o cliente a reconstruir uma autoimagem mais positiva e compassiva. Esse processo fomenta a autoaceitação e fortalece a autoestima, essenciais para o desenvolvimento emocional.

Segundo Saldanha Erthal (2013), [24] é fundamental que o indivíduo seja capaz de se perceber integrado à realidade, mesmo diante de mudanças ameaçadoras. A autora afirma que:

 

"Para encontrarmos o projeto original de um indivíduo, precisamos compreender a imagem que ele assegura de si próprio; a totalidade de significação que ele assegura à sua existência. Examinando historicamente a vida de uma pessoa, não como uma forma de descobrir as causas determinantes do comportamento, mas para entender o processo de valorização que o indivíduo faz de suas alternativas de vida, procura-se entender a formação desse projeto" (Saldanha Erthal, 2013, p. 73).

 

Na clínica fenomenológica existencial, também é relevante explorar o impacto do abandono afetivo nas relações interpessoais. Segundo Mendes, Almeida e Melo (2021), a capacidade de confiar nos outros e estabelecer vínculos afetivos saudáveis pode ser prejudicada pelo abandono. A terapia oferece um espaço seguro para que os clientes compreendam essas dificuldades, promovendo uma maior conscientização das dinâmicas relacionais e ajudando-os a construir relações mais saudáveis. [1]

Godoy (2022) aponta que a clínica fenomenológica busca auxiliar o cliente a encontrar significado e propósito em suas experiências de abandono. O abandono pode abalar crenças fundamentais sobre o sentido da vida e a própria existência, e a terapia ajuda a explorar esses questionamentos existenciais, permitindo que o cliente integre suas experiências em uma narrativa mais coerente. [16]

Forghieri (1996) [14] complementa que é crucial o indivíduo entender suas vivências e as complexidades pré-reflexivas que as envolvem. Essa compreensão é fundamental para promover resiliência e crescimento pessoal. A clínica fenomenológica existencial foca em capacitar os clientes a reconhecer seus recursos internos, enfrentando os desafios do abandono afetivo com coragem e determinação (Godoy, 2022). [16]

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7. Considerações finais

Nos últimos anos, o tema do abandono afetivo tem sido amplamente discutido tanto no âmbito jurídico quanto no psicológico. A ausência da figura dos pais pode exercer influências diversas nas dinâmicas familiares e individuais, afetando principalmente a formação da identidade, autoestima e habilidades sociais dos sujeitos. Este trabalho se propôs a analisar como essa ausência impacta a construção do sujeito, utilizando os princípios da abordagem fenomenológica existencial. Observou-se que o abandono afetivo pode comprometer o desenvolvimento emocional e psicológico de crianças e adolescentes, deixando-os vulneráveis a influências negativas, como o envolvimento com gangues, isolamento social e abuso de substâncias.

O abandono afetivo não afeta apenas o indivíduo de forma subjetiva, mas também suas interações sociais e a forma como constrói relações ao longo da vida, seja no trabalho, na família ou em relacionamentos pessoais. O sistema judiciário tem um papel relevante na garantia dos direitos das crianças e adolescentes, oferecendo proteção legal e apoio às vítimas. Além disso, a Psicologia desempenha um papel crucial ao proporcionar um ambiente seguro para essas vítimas, ajudando-as a desenvolver resiliência emocional e estratégias saudáveis de enfrentamento.

No entanto, ainda há muitos desafios para as futuras pesquisas sobre o tema. É necessário explorar mais profundamente as implicações a longo prazo do abandono afetivo, não apenas no campo psicológico, mas também nas esferas sociais e culturais. Além disso, é fundamental sensibilizar as famílias e a sociedade sobre a importância do afeto e do cuidado no desenvolvimento infantil. Refletir e discutir o abandono afetivo é um passo importante para promover mudanças e ampliar a conscientização sobre a responsabilidade parental, incentivando a busca por apoio profissional especializado, mesmo na vida adulta, para romper com as marcas desse abandono e alcançar uma vida emocional mais equilibrada.

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8. Declaração de direitos

 Os autores declaram ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra Revista/Journal. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declaram respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

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Instituto Universitário Redentor/Afya, Itaperuna-RJ, Brasil.

2

Instituto Universitário Redentor/Afya, Itaperuna-RJ, Brasil.

 

 

 


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