ISSN: 2595-8402
DOI: 10.61411/rsc7185
Publicado em 27 de novembro de 2023
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 6, NÚMERO 1, ANO 2023
TEORIA E EPISTEMOLOGIA DA HISTÓRIA: NEOPOSITIVISMO, COMPREENSÃO HERMENÊUTICA E PÓS-MODERNIDADE
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João Oliveira Ramos Neto¹; Fernando da Rocha Rodrigues²
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1IFG, Valparaíso de Goiás, Brasil
2IF Goiano, Urutaí, Brasil
RESUMO
A epistemologia da História é um campo da filosofia que explora os desafios relacionados à obtenção de conhecimento histórico. Este texto discute várias abordagens para a compreensão do passado e os obstáculos inerentes a essa busca. Em conclusão, o conhecimento histórico não busca alcançar uma verdade absoluta, mas é um processo contínuo de questionamento e interpretação. A compreensão do passado é complexa e exige um diálogo constante entre o historiador e seu objeto de estudo.
Palavras-chave: História, Teoria da História, Epistemologia, Conhecimento Histórico.
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ABSTRACT
The epistemology of History is a field of Philosophy that explores the challenges related to obtaining historical knowledge. This text discusses various approaches to understanding the past and the inherent obstacles in this pursuit. In conclusion, the historical knowledge does not seek to achieve absolute truth but is a continuous process of questioning and interpretation. Understanding the past is complex and requires constant dialogue between the historian and the object of study.
Key-words: History, Theory of History, Epistemology, Historical Knowlegde.
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1 INTRODUÇÃO
Epistemologia é um campo da Filosofia que abarca as questões sobre as possibilidades do conhecimento, isto é, o modo pelo qual o sujeito se apropria intelectualmente de seu objeto de pesquisa. A primeira problematização que ela faz é sobre a diferença entre o conhecimento pela intuição - conhecimento imediato, a priori, e impossível de ser demonstrado - e conhecimento discursivo - organizado em conceitos e articulados pela razão, a posteriori, possível de ser demonstrado. Por isso, ao contrário da intuição, o conhecimento discursivo recebe este nome porque precisa da palavra, da linguagem para abstrair o objeto por meio das categorias de pensamento que generalizam.
A História é uma das disciplinas que se interessam pelo debate sobre a possibilidade do conhecimento nas Ciências Humanas. Nascida na Grécia como alternativa à explicação mítica, tornando-se eclesiástica na Idade Média, chegou à Modernidade com as preocupações acima. Se, até o século 19, era um gênero literário, com Ranke ela se viu no meio da discussão da possibilidade das Ciências Humanas. Assim, os fundamentos epistemológicos da História são os questionamentos a respeito da possibilidade do conhecimento histórico. A História é possível? A tarefa do historiador é realizável? Considerando que, na História, sujeito e objeto se confundem, e o sujeito é um ser complexo, que vive no tempo, como estabelecer um método que permita o conhecimento do passado?
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2 DISCUSSÃO
O modelo neopositivista considera a História uma ciência, tanto como a Física, e não uma compreensão, ou narrativa. Assim, o estudo do evento histórico permite generalizações por meio da explicação causal, pois todo fato, para eles, está submetido a leis e, por isso, permite antecipar o que vai acontecer. Deterministas, sustentam a objetividade da verdade histórica por meio do teste das provas e das hipóteses demonstráveis. Do contrário, a História deixaria de ser científica para ser metafísica, o que lhe causaria seu descrédito no meio acadêmico, pois não é possível demonstrar tal explicação. Destaca-se, neste grupo, a obra A função das leis gerais em História, de Carl Hempel [1], que esclarece que a explicação histórica consiste em indicar suas causas e os seus fatores determinantes de eventos típicos, pois a História deveria ater-se exclusivamente em tais eventos, e não nas especificidades de cada um.
Paul Veyne, em Como se escreve a História [2], acredita que esse modelo é confuso, pois não se chega a nenhuma conclusão do que entendem como sendo leis explicativas e a relação delas nas ciências naturais com as Ciências Humanas. Veyne então conclui que leis são sempre explicações que permitem a repetição, e que em História isso não é possível. A História será sempre uma tentativa de compreensão ao descrever um evento.
O modelo compreensivo, por sua vez, é o modelo dos historicistas alemães dos séculos 19 e 20, para os quais a História é ciência, mas o conceito de ciência para eles é diferente do que era defendido pelos neopositivistas. Para os historicistas, apesar de heterogêneos, estavam de acordo em defender que não há unidade no método da ciência, mas dualidade, pois não se pode tratar natureza (ciências nomotéticas) e humanidade (ciências ideográficas, que chamam de ciências do espírito) com os mesmos métodos. A História, assim, teria como especificidade epistemológica ser uma compreensão empática.
Um dos seus grandes expoentes, se não o principal, foi Wilhelm Dilthey [3], com sua perspectiva de que a compreensão e a interpretação (Hermenêutica) constituem o método específico das ciências do espírito. Assim, o que o historiador deve fazer é compreender as manifestações de vida das pessoas do passado. O resultado da pesquisa histórica é o diálogo entre o historiador, em seu presente, e seu objeto, no passado. Diálogo que se estabelece por meio da “observação”, pois ele é um sujeito, e não uma coisa e, por isso mesmo, se dá a conhecer. O mundo histórico é um mundo de expressões, de sinais, símbolos, mensagens, gestos, ações, criações, artes, cores, formas, posturas produzidas por sujeitos vivos e agentes. Os homens dizem o que pensam, o que sentem e o que querem uns aos outros, e até sem querer expressá-lo conscientemente, como revelou Freud.
Dilthey distingue entre compreensão elementar e compreensão superior. Na primeira, não é preciso refletir para compreender a ação do outro. Seu sentido é compartilhado automaticamente, pois o que quer compreender também já passou pela mesma situação. Já na superior, o indivíduo se destaca do seu universo cultural, e age diferente da ação que se podia esperar. Elas não concorrem, mas se complementam: Na base da compreensão superior está a compreensão elementar. Partindo das manifestações particulares, a compreensão superior utiliza a indução para compreender a estrutura do todo. Ao contrário do que Francis Bacon sugeria para a natureza, na compreensão não se quer dominar, controlar ou transformar o outro, mas reconhecê-lo em sua humanidade. O individual pode ser compreendido graças ao que há de comum entre os indivíduos.
O modelo compreensivo é uma retrospecção: somente após terem acontecido é que o historiador pode estudar os eventos. O intérprete busca o sentido do evento ocorrido indo dele às circunstâncias e aos eventos anteriores à sua ocorrência. Constata-se então que em toda compreensão há irracionalidades, pois a vida é antagônica e o homem é um ser naturalmente paradoxal. Por isso, a compreensão empática ultrapassa a lógica.
Ao lado de Dilthey, temos Weber [4], que não ficou satisfeito com a empatia e propôs uma compreensão mais racionalista, pois, para ele, a compreensão científica precisa ser uma operação lógica. Assim, a Sociologia Compreensiva tem como meta a compreensão interpretativa da ação social, para conhecer suas causas, cursos e efeitos. A ação social – objeto da compreensão – é toda conduta com orientação subjetivamente inteligível, toda conduta humana cujos sujeitos realizam um sentido subjetivo pretendido. Portanto, não é preciso ter uma experiência. É produzir um discurso sobre o outro.
Como a Sociologia compreensiva busca a interpretação da conduta humana inteligível, ela deve ir além do sentido pretendido, formulado, declarado pelo agente, e descobrir sua motivação mais profunda, inconsciente. Como ações mais ou menos semelhantes podem ter motivações distintas, raramente podemos estar seguros de nossas interpretações. Estas são apenas hipóteses plausíveis e, não, uma apreensão do real tal como ocorrido. O curso real dos eventos só é explicável se comparável a uma construção ideal. Então verificam-se os desvios e seus fatores.
Por fim, o modelo pós-moderno. A forma do discurso histórico sempre foi a narrativa, ainda que a escola dos Annales tenha passado da simples descrição para a história problema. Mas Paul Ricoeur (Op. Cit) vai além da narrativa e defende o caráter literário do conhecimento histórico. Assim, a História, enquanto narrativa, jamais representará o que de fato aconteceu. Será sempre uma representação construída pelo sujeito. Se aproxima muito da ficção, daí seu caráter pós-moderno da subjetividade e da verdade relativa.
Roger Chartier [6], com Foucault [7], também acompanha essa concepção pós-moderna da História: Não há o real, mas representações discursivas que o constituem. Os saberes que emergem das relações de poder não são uns mais verdadeiros ou falsos do que outros, mas apenas discursos que dão forma transitória ao conhecimento. A arte é superior à ciência, porque não opõe verdade e ilusão, mas afirma a vida. A ciência precisa ser dominada pela arte. A ciência deve perceber que há limites para o conhecimento.
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3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, o conhecimento histórico é naturalmente problemático, ressaltando os desafios inerentes à sua obtenção, como a dependência de intermediários, a influência da linguagem e a singularidade dos eventos históricos. No entanto, a busca pelo conhecimento histórico não deve ser encarada como uma tentativa de alcançar a verdade absoluta, mas como um exercício contínuo de questionamento e interpretação. Nesse sentido, a epistemologia da História é uma jornada de constante diálogo entre o historiador e seu objeto de estudo, refletindo a complexidade da compreensão do passado.
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Hempel, Carl. A função das leis gerais em história. In: Gardiner, P. Teorias da história. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1984.
Veyne, Paul. Como se escreve a história. Lisboa: Edições 70, 1983.
Dilthey, Wilhelm. A compreensão dos outros e de suas manifestações de vida. In: Gardiner, P. Teorias da história. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1984.
Weber, Max. Sobre a teoria das ciências sociais. Lisboa: Presença, 1979.
Chartier, R. História cultural, entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand, 1990.
Foucault, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

