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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade em adultos: comorbidades, impactos funcionais e abordagens terapêuticas em revisão integrativa

Ana Paula de Andrade Paim1

 

Como Citar:

PAIM, Ana Paula de Andrade. Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade em adultos: Comorbidades, Impactos Funcionais e Abordagens terapêuticas em revisão Integrativa. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 1802-1816, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025111618

 

DOI: 10.61411/rsc2025111618

 

Área do conhecimento:

Ciências da Saúde

Sub-área:

Neurociências, Psicologia, Neuropsicologia Clínica, Psicopatologia

 

Palavras-chaves: TDAH em adultos; Comorbidades; Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC); Transtorno por Uso de Substâncias; Saúde mental.

 

Publicado: 20 de setembro de 2025

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Resumo

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é reconhecido como uma condição do neurodesenvolvimento que frequentemente persiste na vida adulta e apresenta elevadas taxas de comorbidades. O presente trabalho tem como objetivo investigar, a partir de uma revisão integrativa de literatura, os principais impactos do TDAH em adultos, considerando diagnósticos, comorbidades e abordagens terapêuticas. Foram analisados sete artigos publicados entre 2021 e 2025, incluindo revisões narrativas, revisões sistemáticas e meta-análises. Os resultados indicam que adultos com TDAH apresentam maior risco para obesidade, transtorno por uso de substâncias, depressão, agressividade e envolvimento em comportamentos criminais. Além disso, evidências sugerem que a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das intervenções não farmacológicas mais eficazes para redução dos sintomas centrais do transtorno e das comorbidades emocionais. O consenso internacional destaca que o TDAH deve ser entendido como condição de base genética e neurobiológica, com importantes implicações clínicas e sociais, exigindo tratamento multimodal. A análise comparativa revelou que, embora existam avanços no campo, ainda persistem lacunas, como a ausência de critérios diagnósticos mais claros em adultos, a necessidade de intervenções multiprofissionais integradas e a escassez de estudos longitudinais. Conclui-se que o TDAH em adultos é um problema de saúde pública global, com repercussões significativas para a vida pessoal, acadêmica, ocupacional e social. A identificação precoce e a adoção de tratamentos combinados são fundamentais para reduzir riscos e melhorar prognósticos. Sugere-se que futuras pesquisas ampliem a qualidade metodológica dos ensaios clínicos, com especial atenção às populações forenses e aos fatores de proteção psicossociais.

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Attention Deficit Hyperactivity Disorder in Adults: Comorbidities, Functional Impacts, ans Therapeutic Apporaches in an Integrative

 

Abstract

Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) is increasingly recognized as a neurodevelopmental condition that persists into adulthood and is strongly associated with psychiatric and medical comorbidities. This study aims to investigate, through an integrative literature review, the main impacts of ADHD in adults, focusing on diagnosis, comorbidities, and therapeutic approaches. A total of seven articles published between 2021 and 2025 were analyzed, including narrative reviews, systematic reviews, and meta-analyses. The findings indicate that adults with ADHD are at increased risk for obesity, substance use disorders, depression, aggressiveness, and involvement in criminal behaviors. Moreover, evidence shows that Cognitive Behavioral Therapy (CBT) is one of the most effective non-pharmacological interventions, with significant results not only in reducing core ADHD symptoms but also in managing comorbid emotional conditions such as depression and anxiety. The international consensus (Faraone et al. [2.]) reinforces the understanding of ADHD as a disorder with genetic and neurobiological bases, emphasizing its severe functional and social consequences, and recommending multimodal treatment. Comparative analysis among the reviewed studies revealed consistent challenges: the lack of clear diagnostic criteria for adults, the necessity of multiprofessional and integrated interventions, and the limited number of longitudinal studies. These findings highlight ADHD in adulthood as a relevant global public health issue with substantial impact on academic, occupational, interpersonal, and social functioning. Early identification and combined interventions appear to be essential strategies to mitigate risks and improve long-term outcomes. Future research should prioritize high-quality randomized controlled trials, with special attention to forensic populations and psychosocial protective factors.

Keywords: Adult ADHD; Comorbidities; Cognitive Behavioral Therapy (CBT); Substance Use Disorders; Mental Health.

 

 

  • Introdução

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um quadro do neurodesenvolvimento que persiste ao longo da vida e se manifesta por sintomas de desatenção, impulsividade e hiperatividade. Embora historicamente associado à infância, evidências mostram que uma proporção considerável de indivíduos mantém sintomas significativos na vida adulta, acompanhados de prejuízos acadêmicos, profissionais e sociais [1.]. As evidências apontam que o transtorno resulta da interação entre múltiplos fatores genéticos e ambientais, sem um único fator causal predominante. Pessoas com TDAH apresentam risco aumentado para diversas condições médicas e psiquiátricas. O reconhecimento dessa persistência tornou-se um marco importante, pois rompe com a visão reducionista de que o TDAH seria um transtorno com prejuízos somente limitado à infância.

O diagnóstico em adultos, entretanto, é um desafio clínico, especialmente porque os sintomas podem se confundir com transtornos de humor, de ansiedade ou de personalidade. Como destacam Sapkale e Sawal [1.], homens tendem a apresentar mais impulsividade e hiperatividade, enquanto mulheres frequentemente se manifestam por quadros de desatenção e instabilidade emocional. Essa diversidade clínica demanda instrumentos diagnósticos sensíveis e entrevistas abrangentes, capazes de captar não apenas os sintomas, mas também os prejuízos funcionais.

O consenso internacional da World Federation of ADHD consolidou 208 conclusões sobre o transtorno, reconhecendo-o como uma condição de base genética e neurobiológica, com forte impacto funcional [2.]. Entre os riscos associados estão obesidade, diabetes, transtornos por uso de substâncias, acidentes, delinquência e suicídio. Esse panorama revela a amplitude das repercussões do TDAH, que ultrapassam o campo da saúde mental e alcançam dimensões sociais e de saúde pública.

No campo das comorbidades, estudos recentes têm enfatizado a relação bidirecional entre TDAH e obesidade, indicando que impulsividade e compulsão alimentar favorecem o ganho de peso, ao mesmo tempo em que a obesidade pode acentuar sintomas do transtorno [3.]. Além da obesidade, são apontados do mesmo modo, a associação entre TDAH e transtorno por uso de substâncias (TUS) é notável, sendo explicada tanto por vulnerabilidades neurobiológicas quanto pela automedicação com drogas lícitas e ilícitas [4.]. Outros dados apontam para comportamentos de agressividade e envolvimento em comportamentos com condutas criminais também têm sido descritos como riscos acrescidos, sustentados pelo déficit de controle inibitório e pelas dificuldades de regulação emocional [5.].

 Além da depressão, que frequentemente se manifesta em episódios recorrentes de tristeza profunda, desânimo e perda de interesse em atividades cotidianas, adultos com TDAH apresentam maior tendência à instabilidade emocional e a oscilações de humor. Esses indivíduos podem enfrentar sentimentos intensos de frustração diante de pequenos contratempos, dificuldade de lidar com rejeições e problemas de autoimagem, fatores que contribuem para o agravamento do sofrimento psíquico.

 A vulnerabilidade emocional, por sua vez, está relacionada à baixa tolerância ao estresse e à dificuldade de regular impulsos, o que pode levar a reações desproporcionais em situações desafiadoras. Essa labilidade emocional interfere diretamente nas relações interpessoais, dificultando o estabelecimento e a manutenção de vínculos saudáveis, tanto no ambiente familiar quanto no contexto profissional.

 Estudos apontam ainda que a presença dessas comorbidades pode mascarar os sintomas centrais do TDAH, retardando o diagnóstico e limitando o acesso a intervenções adequadas. Por isso, a avaliação clínica precisa levar em conta não apenas a presença dos sintomas clássicos do transtorno, mas também a investigação criteriosa de quadros depressivos e outros transtornos emocionais associados.

 Portanto, compreender o impacto da depressão e da vulnerabilidade emocional em adultos com TDAH é essencial para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas efetivas, que considerem não só o manejo dos sintomas nucleares, mas também promovam o fortalecimento das habilidades de autorregulação emocional e resiliência psíquica.

 Estima-se que mais da metade dos adultos com TDAH apresente sintomas depressivos, condição que agrava o funcionamento global e aumenta o risco de ideação suicida [6.]. Esses achados reforçam a necessidade de que o TDAH seja abordado em sua complexidade, reconhecendo a interação com outros transtornos e seus efeitos multiplicadores sobre a qualidade de vida.

 Em relação às possibilidades terapêuticas, os dados confirmam que medicações estimulantes e não estimulantes são seguras e eficazes para a redução dos sintomas principais, sendo os estimulantes mais potentes, embora apresentem maior risco de desvio ou abuso. A farmacoterapia está associada à diminuição de acidentes, uso de drogas, depressão, suicídio e até criminalidade. Intervenções não medicamentosas, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, também apresentam efeito positivo, funcionando melhor como estratégias complementares ao tratamento farmacológico. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, demonstrou resultados expressivos tanto na redução dos sintomas centrais do TDAH quanto no manejo da depressão e da ansiedade associadas [7.]. Essa constatação indica que intervenções multiprofissionais e integradas podem oferecer respostas mais consistentes, atuando de forma ampla sobre os prejuízos funcionais e emocionais.

 Assim, ao abordar o TDAH em adultos, não se trata apenas de reconhecer sua prevalência, mas de compreender os múltiplos desdobramentos do transtorno e a importância de estratégias terapêuticas que contemplem suas comorbidades. A literatura revisada reforça que o TDAH deve ser entendido como um fenômeno complexo, multidimensional e de grande relevância para a saúde pública contemporânea.

  • Metodologia

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa de literatura, cuja finalidade é reunir, analisar e sintetizar evidências disponíveis em produções científicas recentes a respeito do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em adultos e suas comorbidades. Esse tipo de abordagem permite integrar resultados de diferentes desenhos de pesquisa, como revisões narrativas, consensos internacionais e metanálises, oferecendo uma compreensão ampliada do fenômeno investigado.

Para a composição do corpus de análise, foram considerados sete artigos publicados entre os anos de 2021 e 2025, todos previamente selecionados e disponibilizados em formato digital. Os critérios de inclusão foram: (1) publicações em periódicos científicos revisados por pares; (2) estudos com foco exclusivo ou principal em TDAH em adultos; (3) presença de discussão sobre comorbidades relevantes, tais como obesidade, transtorno por uso de substâncias, depressão, agressividade/criminalidade, bem como intervenções terapêuticas farmacológicas ou não farmacológicas. Foram excluídos materiais não relacionados diretamente ao tema central ou que não apresentassem discussão teórica ou empírica sobre adultos com TDAH.

A coleta de dados consistiu na leitura analítica dos artigos completos, com extração de informações em categorias previamente definidas: autor, ano, título, periódico, palavras-chave, objetivo do estudo, metodologia, população/amostra (quando aplicável), instrumentos utilizados, principais resultados, limitações, aportes dos autores, bem como indicações de linhas futuras de pesquisa. Esse processo foi conduzido de forma sistemática, garantindo a uniformidade na análise e possibilitando a comparação entre os achados.

No que se refere ao tratamento dos dados, as informações foram organizadas em fichas e posteriormente dispostas em tabelas comparativas. Esse procedimento favoreceu a identificação de convergências e divergências entre os estudos, permitindo um olhar crítico e integrativo. Como parte desse processo, buscou-se ainda preservar a fidelidade dos achados originais, mantendo a citação direta de trechos centrais de cada artigo, quando pertinente, para dar robustez à interpretação.

Em termos de natureza da investigação, trata-se de um estudo qualitativo e exploratório, visto que não se realizou manipulação de variáveis ou aplicação de instrumentos originais, mas sim a sistematização e análise crítica de informações previamente publicadas. A revisão integrativa, nesse sentido, possibilita a construção de uma visão panorâmica sobre o estado atual do conhecimento acerca do TDAH em adultos, suas comorbidades mais prevalentes e as evidências terapêuticas disponíveis.

Assim, a metodologia adotada permite responder à questão norteadora da pesquisa: quais os impactos das comorbidades no TDAH em adultos e quais intervenções multiprofissionais são mais eficazes para reduzir esses efeitos?

 

  • Desenvolvimento e discussão

O TDAH em adultos representa um dos maiores desafios contemporâneos na saúde mental, pois combina sintomas persistentes com múltiplas comorbidades que se entrelaçam e ampliam seus impactos clínicos e sociais. Entre os principais achados dos sete artigos analisados, destacam-se a alta prevalência de comorbidades psiquiátricas, dificuldades no diagnóstico diferencial e desafios na adesão ao tratamento. A análise conjunta dos artigos permite traçar algumas convergências importantes: (a) o TDAH em adultos é frequentemente subdiagnosticado; (b) as comorbidades potencializam os prejuízos funcionais e sociais; (c) o tratamento farmacológico isolado não é suficiente; (d) intervenções multiprofissionais, especialmente a TCC, apresentam resultados mais consistentes; (e) persistem lacunas metodológicas, como ausência de estudos longitudinais e ensaios clínicos robustos.

Essas observações permitem compreender o TDAH em adultos como um fenômeno que exige não apenas avanços clínicos, mas também medidas de política pública. A integração entre serviços de saúde mental, programas de prevenção em contextos escolares, estratégias de acompanhamento em unidades prisionais e programas de saúde ocupacional é necessária para reduzir o impacto dessa condição em diferentes esferas da vida social.

 

Tabela 1: Comparação entre artigos analisados

Número

Autor/Ano

Tema central

Tipo de estudo

Principais achados

1

Sapkale & Sawal [1.]

Diagnóstico em adultos

Revisão narrativa

Diferenças de gênero; complexidade diagnóstica em adultos.

2

Faraone et al. [2.]

Consenso internacional

Consenso

208 conclusões; TDAH como problema de saúde pública global.

3

Rocha et al. [3.]

Obesidade e TDAH

Revisão narrativa

Relação bidirecional TDAH ↔ obesidade; necessidade de intervenção multiprofissional.

4

Rocha et al. [4.]

TUS e TDAH

Revisão narrativa

Risco elevado de TUS; automedicação; necessidade de abordagem integrada.

5

Rocha et al. [5.]

Agressividade e criminalidade

Revisão narrativa

Até 24% dos encarcerados têm histórico de TDAH; risco social ampliado.

6

Rocha et al. [6.]

Depressão e TDAH

Revisão narrativa

Prevalência de depressão em até 64,7%; risco aumentado de ideação suicida.

7

Yang et al. [7.]

Terapias não farmacológicas

Meta-análise

TCC mais eficaz em curto e longo prazo; redução de sintomas, depressão e ansiedade.

Fonte: Elaboração própria, com base nos artigos [1.,2.,3.,4.,5.,6.,7.] (2025).

Esses aspectos revelam não apenas a complexidade do transtorno, mas também a necessidade de abordagens integradas e articuladas entre diferentes profissionais.

Além de afetar o bem-estar emocional, o TDAH em adultos repercute diretamente na esfera social: dificuldades de concentração e impulsividade podem comprometer o desempenho no ambiente de trabalho, provocando instabilidade profissional e rotatividade de empregos. No âmbito dos relacionamentos interpessoais, a desatenção e a dificuldade de regulação emocional frequentemente resultam em conflitos familiares e desgaste nas amizades, impactando a qualidade das interações e o suporte social disponível. Dessa maneira, compreender o TDAH como fenômeno multifatorial e multidimensional é fundamental para ampliar o olhar sobre suas repercussões e construir estratégias que promovam inclusão, autonomia e qualidade de vida.

 No que diz respeito ao diagnóstico, há consenso de que ele é mais complexo na idade adulta do que na infância. Sapkale e Sawal [1.] destacam que a distinção entre TDAH e outras condições, como transtornos de humor ou de personalidade, exige uma avaliação criteriosa, baseada em entrevistas clínicas e instrumentos específicos. Essa dificuldade é acentuada pela variação de manifestações segundo o gênero: enquanto homens tendem a expressar sintomas de impulsividade e hiperatividade, as mulheres frequentemente apresentam quadros de desatenção acompanhados de instabilidade emocional [1.]. Esses resultados destacam a importância de estabelecer protocolos diagnósticos específicos para a população adulta e que considerem as particularidades associadas ao sexo.

 Outro aspecto relevante é o reconhecimento internacional do TDAH como um transtorno de base genética e neurobiológica. O consenso elaborado por Faraone et al. [2.], que sintetizou 208 conclusões, evidenciou a ampla gama de riscos associados, achados que, não só ampliam a compreensão do TDAH não apenas como uma condição clínica, mas também como um problema de saúde pública com repercussões sociais significativas. Por exemplo, adultos com TDAH podem enfrentar dificuldades de permanência no emprego, maior probabilidade de envolvimento em situações de conflito familiar e exclusão social. No ambiente educacional, a falta de políticas específicas pode resultar em evasão escolar ou baixo desempenho acadêmico.

Neste sentido, pensar o TDAH no adulto envolve questões como interação social, identidade profissional, dificuldades nas atividades de vida diária, relacionamentos familiares e sociais, além de lidar com responsabilidades e buscar sucesso acadêmico.

Diante desse cenário, políticas públicas são essenciais para ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento multiprofissional. Iniciativas como campanhas de conscientização, capacitação de equipes de saúde e inclusão de protocolos específicos para adultos com TDAH nos sistemas de saúde podem contribuir para a redução do impacto do transtorno na sociedade.

 As comorbidades associadas reforçam a gravidade do quadro. Rocha et al. [3.] apontam para a relação bidirecional entre TDAH e obesidade: a impulsividade e a compulsão alimentar favorecem o ganho de peso, enquanto a obesidade pode exacerbar os sintomas do TDAH, criando um ciclo de retroalimentação. Essa interação sugere que estratégias terapêuticas voltadas apenas para um dos transtornos têm eficácia limitada. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) exerce influência direta sobre os circuitos de recompensa do cérebro, favorecendo padrões de impulsividade mais intensos na vida adulta. Essa impulsividade tende a se manifestar em condutas como a alimentação compulsiva e a busca frequente por gratificação imediata. As alterações dopaminérgicas envolvidas reduzem a sensação de prazer e motivação, o que dificulta a regulação emocional e o controle dos impulsos.

Evidências de neuroimagem corroboram essa compreensão. Faraone et al. [2.] demonstram que indivíduos com TDAH apresentam menor ativação em áreas cerebrais associadas à recompensa e ao autocontrole, condição que amplia a vulnerabilidade a comportamentos compulsivos e ao surgimento de comorbidades, como obesidade e transtornos alimentares. Essa busca por recompensas rápidas não se restringe ao campo da alimentação: pode também estar presente no uso de substâncias psicoativas, em jogos de azar ou em compras impulsivas, revelando um padrão mais amplo de dificuldade em adiar gratificações.

 Da mesma forma, a associação entre TDAH e transtorno por uso de substâncias (TUS) merece destaque. Rocha et al. [4.] descrevem que indivíduos com TDAH apresentam maior risco de desenvolver TUS devido a vulnerabilidades neurobiológicas e psicossociais, entre elas o uso de drogas como forma de automedicação. A identificação precoce de TDAH em indivíduos com dependência química, assim como o rastreamento de uso problemático de substâncias em pacientes com TDAH, constitui uma medida essencial para otimizar os desfechos clínicos. No entanto, essa prática ainda não se encontra plenamente incorporada à rotina de muitos serviços de saúde, o que limita a eficácia das intervenções.

 A literatura também confirma a associação entre TDAH e envolvimento em comportamentos agressivos e criminais. Rocha et al. [5.] relatam incidência de TDAH em até 24% dos adultos encarcerados, com prevalência ainda maior em adolescentes em medidas socioeducativas. Essa correlação é explicada, sobretudo, pela impulsividade e pelo déficit de regulação emocional característicos do transtorno. Tais evidências sugerem que o TDAH deve ser incluído em programas de triagem no sistema prisional, tanto para prevenção quanto para reabilitação.

No campo afetivo, a depressão se configura como uma das comorbidades mais prevalentes e mais impactantes associadas ao TDAH em adultos. Sua presença não apenas intensifica os sintomas centrais do transtorno, como desatenção, impulsividade e desorganização, mas também compromete dimensões cruciais da vida cotidiana, como o desempenho acadêmico, a estabilidade profissional e a qualidade das relações interpessoais. A coexistência entre os dois quadros costuma gerar um ciclo de retroalimentação negativa: as dificuldades funcionais decorrentes do TDAH favorecem sentimento de frustração e baixa autoestima, enquanto os sintomas depressivos reduzem ainda mais a capacidade de enfrentamento e adaptação às demandas externas.

Além disso, a sobreposição sintomatológica pode dificultar o diagnóstico diferencial. Sintomas como apatia, falta de motivação, dificuldades de concentração e fadiga são comuns a ambos os transtornos, levando muitas vezes ao subdiagnóstico de um deles. Essa complexidade clínica reforça a necessidade de avaliações abrangentes e de equipes multiprofissionais, capazes de considerar a interação dinâmica entre os quadros.

 A gravidade dessa comorbidade se expressa também no risco aumentado de ideação e comportamento suicida, descritos em taxas mais elevadas em indivíduos com TDAH e depressão concomitantes quando comparados àqueles que apresentam apenas um dos transtornos. Esse dado destaca a importância do monitoramento contínuo e de intervenções terapêuticas integradas, que combinem farmacoterapia, psicoterapia e estratégias de apoio psicossocial para mitigar riscos e favorecer a recuperação funcional. Rocha et al. [6.] observaram que até 64,7% dos adultos com TDAH apresentam sintomas depressivos, o que agrava o funcionamento acadêmico, ocupacional e interpessoal, além de elevar o risco de ideação suicida. Esses achados reforçam a importância da abordagem multidisciplinar e do monitoramento contínuo do risco suicida em pacientes com TDAH.

 Do ponto de vista terapêutico, Yang et al. [7.] identificaram a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) como a intervenção não farmacológica mais eficaz, tanto no curto quanto no longo prazo. A TCC demonstrou resultados consistentes não apenas na redução dos sintomas centrais do TDAH, mas também, se mostra efetiva no enfrentamento das comorbidades mais prevalentes, como depressão e ansiedade. Ao oferecer estratégias de reestruturação cognitiva, treinamento de habilidades de enfrentamento e técnicas de autorregulação emocional, essa abordagem amplia a capacidade do indivíduo de manejar situações cotidianas, reduzindo a sensação de descontrole e vulnerabilidade emocional.

Esses resultados reforçam a necessidade de compreender o tratamento do TDAH a partir de um modelo multiprofissional. A farmacoterapia desempenha papel crucial na estabilização neurobiológica e na redução rápida dos sintomas centrais, enquanto a psicoterapia contribui para mudanças mais duradouras, favorecendo a aquisição de habilidades práticas e a prevenção de recaídas. Assim, quando combinadas, essas modalidades não apenas reduzem a intensidade dos sintomas, mas também promovem ganhos funcionais em diferentes áreas da vida do paciente, como desempenho acadêmico, relações interpessoais e produtividade no trabalho.

Mais do que uma intervenção isolada, a TCC deve ser entendida como parte de um cuidado contínuo e integrado, em que o acompanhamento psicológico, psiquiátrico e, quando necessário, nutricional e educacional, se articulem de forma complementar. Essa visão integrada possibilita que o tratamento vá além do alívio sintomático, oferecendo suporte para que o indivíduo desenvolva autonomia, resiliência e qualidade de vida sustentada ao longo do tempo.

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  • Considerações finais

Este estudo analisou evidências recentes sobre TDAH em adultos para identificar impactos, comorbidades e estratégias terapêuticas. A revisão de sete artigos (2021-2025) confirma que TDAH é uma condição crônica, multifatorial, e afeta tanto o indivíduo quanto a sociedade e a saúde pública.

Sob a perspectiva diagnóstica, o reconhecimento do TDAH em adultos ainda representa um desafio, em grande parte pela semelhança de seus sintomas com aqueles observados em outros transtornos psiquiátricos, como depressão, transtornos de ansiedade e transtornos de personalidade. Essa sobreposição dificulta a delimitação clara do quadro e pode atrasar a definição de condutas terapêuticas adequadas. Além disso, há diferenças importantes no modo como o transtorno se manifesta entre os sexos. A diversidade de perfis clínicos amplia a heterogeneidade do transtorno e reforça a necessidade de protocolos diagnósticos mais precisos e adaptados. Nesse sentido, torna-se imprescindível o uso de instrumentos validados, entrevistas clínicas estruturadas e critérios específicos que contemplem a realidade do adulto, garantindo maior acurácia na avaliação e redução dos possíveis riscos de sub ou superdiagnóstico.

A análise conjunta dos artigos possibilitou identificar convergências relevantes. Primeiro, o TDAH em adultos continua sendo subdiagnosticado, em especial devido à ausência de critérios diagnósticos adaptados. Segundo, as comorbidades potencializam o impacto funcional e social, tornando o transtorno ainda mais incapacitante. Terceiro, o tratamento farmacológico isolado não é suficiente, reforçando a necessidade de intervenções multiprofissionais. Por fim, há lacunas metodológicas importantes, como a escassez de estudos longitudinais e de ensaios clínicos com maior robustez metodológica.

Dessa forma, pode-se concluir que o TDAH em adultos constitui um problema de saúde pública global, com custos elevados para os indivíduos, suas famílias e a sociedade. A ausência de diagnóstico precoce e de intervenções integradas favorece a perpetuação de ciclos de adoecimento, exclusão social e vulnerabilidade. Nesse cenário, políticas públicas voltadas à detecção precoce, ao tratamento multiprofissional e à inclusão social são fundamentais para mitigar os riscos associados.

 Em síntese, as evidências aqui reunidas permitem afirmar que o TDAH em adultos deve ser compreendido como uma condição complexa, interligada a múltiplos fatores clínicos e sociais, e que o enfrentamento adequado requer ações articuladas entre ciência, prática clínica e políticas públicas. O desafio permanece em transformar esse conhecimento em estratégias efetivas de cuidado, capazes de promover não apenas alívio sintomático, mas também qualidade de vida e dignidade para os indivíduos afetados.

 

  • Biografia

 

ANA PAULA DE ANDRADE PAIM

Psicóloga, Esp. em Neuropsicologia e Avaliação Psicológica, Pós-graduanda em Intervenção ABA aplicada ao TEA e DI. Doutoranda em Psicologia pela UBA, atuação no âmbito clinico em Psicoterapia (orientada pela Terapia Cognitivo Comportamental) e Avaliação Neuropsicológica.

http://lattes.cnpq.br/9737758456019328

 

     

  • Declaração de direitos ​​ 

A autora declara ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do autor, e não possuem direitos autorais reservados a terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara não cometer plágio ou autoplágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

 

  • Referências

  • Sapkale, B., & Sawal, A. (2023). Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) causes and diagnosis in adults: A review. Cureus, 15(11), e49144. https://doi.org/10.7759/cureus.49144

  • Faraone, S. V., et al. (2021). The World Federation of ADHD international consensus statement: 208 evidence-based conclusions about the disorder. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 128, 789–818. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2021.01.022

  • Rocha, P. A., et al. (2024a). Obesidade e TDAH em adultos. Revista Foco, 17(5), 1–12. https://doi.org/10.54751/revistafoco.v17n5-013

  • Rocha, P. A., et al. (2024b). A relação entre o TDAH e Transtorno por Uso de Substâncias em adultos. Lumen et Virtus, 15(39), 2252–2260. https://doi.org/10.56238/levv15n39-052

  • Rocha, P. A., et al. (2024c). Agressividade e criminalidade em adultos com TDAH. Lumen et Virtus, 15(40), 4810–4817. https://doi.org/10.56238/levv15n40-062

  • Rocha, P. A., et al. (2025). Depressão em adultos com TDAH. Lumen et Virtus, 16(46), 1973–1986. https://doi.org/10.56238/levv16n46-028

  • Yang, X., Zhang, L., Yu, J., & Wang, M. (2025). Short-term and long-term effect of non-pharmacotherapy for adults with ADHD: A systematic review and network meta-analysis. Frontiers in Psychiatry, 16, 1516878. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2025.1516878

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​​ Villas Psi - Clínica de Psicologia e Neuropsicologia LTDA., ​​ Lauro de Freitas - BA, Brasil. Email: ​​ 


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