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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

As marcas invisíveis: os impactos emocionais do abuso psicológico e os fatores que mantêm mulheres em relacionamentos violentos

Júlia de Moura Ramos1; Júlia da Rocha Areal Monteiro2; Matheus Garcia Coelho3

 

Como Citar:

RAMOS, Júlia de Moura; MONTEIRO, Júlia da Rocha Areal; COELHO, Matheus Garcia. ​​ As marcas invisíveis: os impactos emocionais do abuso psicológico e os fatores que mantêm mulheres em relacionamentos violentos. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 2039-2063, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025114318

 

DOI: 10.61411/rsc2025114318

 

Área do conhecimento:

Ciências Humanas

Sub-área:

Psicologia

 

Palavras-chaves: Violência Psicológica; Mulheres; Relacionamento Abusivo; Saúde Mental; Permanência.

 

Publicado: 27 de outubro de 2025

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Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar os impactos do abuso psicológico em mulheres que permanecem em relacionamentos violentos, com foco nos fatores emocionais, simbólicos, sociais e culturais que sustentam essa permanência. A violência psicológica, por não deixar marcas físicas, manifesta-se de forma silenciosa e frequentemente não é reconhecida como agressão, o que favorece sua naturalização tanto pela vítima quanto pelo meio social. Os principais danos psíquicos identificados incluem ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, baixa autoestima e ideação suicida. Esses efeitos surgem gradualmente, a partir de humilhações, manipulações emocionais, isolamento e estratégias de controle que fragilizam a identidade feminina. Entre os fatores que dificultam a ruptura, destacam-se a dependência emocional, o medo da solidão, a culpa, a esperança de mudança do parceiro e as crenças culturais que associam o amor ao sacrifício. A dinâmica do ciclo abusivo, marcada pela alternância entre agressões e reconciliações, intensifica o vínculo e gera laços traumáticos que aprisionam a mulher. Assim, a permanência em relacionamentos abusivos não pode ser atribuída à passividade, mas a mecanismos psíquicos complexos articulados a pressões socioculturais. Refletir sobre o abuso psicológico é fundamental para compreender sua gravidade e para ampliar estratégias de enfrentamento e proteção às mulheres.

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The Invisible Scars of Abuse: The Emotional Impacts of Psychological Abuse and the Factors That Keep Women in Violent Relationships

 

Abstract

This article aims to analyze the impacts of psychological abuse on women who remain in violent relationships, focusing on the emotional, symbolic, social, and cultural factors that sustain this persistence. Because psychological violence leaves no physical scars, it manifests silently and is often not recognized as aggression, which favors its naturalization by both the victim and the social environment. The main psychological damages identified include anxiety, depression, post-traumatic stress disorder, low self-esteem, and suicidal ideation. These effects emerge gradually, stemming from humiliation, emotional manipulation, isolation, and control strategies that weaken the female identity. Among the factors that hinder breakup are emotional dependence, fearof loneliness, guilt, hope for change in the partner, and cultural beliefs that associate love with sacrifice. The dynamics of the abusive cycle, marked by alternating aggression and reconciliation, intensifies the bond and creates traumatic bonds that imprison the woman. Thus, staying in abusive relationships cannot be attributed to passivity, but rather to complex psychological mechanisms linked to sociocultural pressures. Reflecting on psychological abuse is essential to understanding its severity and to developing coping and protection strategies for women.

Keywords: ​​ Psychological Violence; Women; Abusive Relationship; Mental Health; Permanenc

     

  • Introdução

A violência psicológica configura-se como uma das formas mais comuns e devastadoras de agressão contra a mulher, especialmente no contexto das relações afetivo-conjugais. Caracterizada por práticas como humilhação, intimidação, chantagem, manipulação emocional e isolamento, essa modalidade de violência atua de maneira silenciosa, minando a saúde mental e a identidade subjetiva da vítima [13.]. Por não deixar marcas visíveis, muitas vezes é desconsiderada por quem sofre e por quem assiste, perpetuando-se sob a forma de controle simbólico e emocional.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública [9.] revelam que, em 2022, cerca de 48,6% das mulheres brasileiras relataram já ter sofrido violência psicológica por parte de parceiros íntimos. No mesmo ano, mais de 34 mil registros de violência moral e psicológica foram feitos com base na Lei Maria da Penha, representando um aumento expressivo em relação aos anos anteriores. Esses números apontam para a alta prevalência e subnotificação dessa forma de violência, que muitas vezes é normalizada no imaginário social por discursos que romantizam os ciúmes, o controle e a dominação como expressões de afeto.

A permanência da mulher em relacionamentos marcados por abuso psicológico não se reduz à falta de iniciativa ou coragem, mas resulta de fatores complexos, entrelaçados entre si. Aspectos emocionais como dependência afetiva, culpa, medo e esperança de mudança coexistem com elementos socioculturais que reforçam papéis tradicionais de gênero e dificultam a ruptura [5.,3.]. Muitas mulheres, inclusive, não reconhecem a violência que vivenciam como tal, justamente por ela não se apresentar em formas físicas explícitas, mas como constantes invalidações, desqualificações e manipulações que corroem lentamente sua autoestima [16.].

Diante disso, este artigo tem como objetivo revisar a literatura científica sobre os efeitos psíquicos do abuso psicológico em mulheres que permanecem em relacionamentos violentos, analisando os fatores emocionais, simbólicos, sociais e culturais que sustentam essa permanência. A proposta é investigar o abuso psicológico em relacionamentos violentos mostra-se essencial porque essa modalidade de violência, apesar de sua alta incidência, ainda é pouco reconhecida e muitas vezes naturalizada pela sociedade. Ao contrário da violência física, suas marcas não são visíveis, o que dificulta que seja percebido pela própria vítima e validado pelas instituições de apoio. Além disso, compreender os mecanismos emocionais e simbólicos que sustentam a permanência nesses vínculos é fundamental para desconstruir crenças enraizadas sobre amor, sacrifício e papéis de gênero. Assim, pesquisar sobre essa temática torna-se relevante não apenas para o campo científico, mas também para a construção de práticas sociais, clínicas e políticas que assegurem o reconhecimento da violência psicológica como um problema de saúde pública e de direitos humanos.

  • Metodologia

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de revisão bibliográfica de natureza qualitativa, com abordagem exploratória e analítica. O objetivo foi reunir, interpretar e discutir produções científicas recentes sobre os impactos do abuso psicológico em mulheres que permanecem em relacionamentos violentos, considerando os fatores emocionais, simbólicos, sociais e culturais que sustentam essa permanência. A opção pela revisão qualitativa fundamenta-se na necessidade de aprofundar a compreensão de fenômenos subjetivos e complexos, os quais não podem ser apreendidos por meio de métodos quantitativos ou experimentais [10.].

A seleção das fontes foi realizada a partir de um levantamento sistematizado em bases de dados nacionais e internacionais relevantes para a área de Psicologia, como SciELO (Scientific Electronic Library Online), LILACS (Literatura Latino-Americana em Ciências da Saúde), PePSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia) e Google Scholar. A busca foi realizada em maio a agosto de 2025, utilizando os seguintes descritores combinados por operadores booleanos: “abuso psicológico”, “violência contra a mulher”, “relacionamentos abusivos”, “dependência emocional”, “saúde mental” e “permanência em relações violentas”.

Foram incluídos artigos publicados entre 2020 e 2025, com acesso integral disponível online, escritos em português, inglês ou espanhol, que abordassem de forma direta a temática do abuso psicológico em contextos conjugais e seus efeitos na saúde mental de mulheres. Trabalhos que tratavam exclusivamente da violência física, sexual ou patrimonial, sem análise dos aspectos emocionais ou simbólicos do abuso, foram excluídos da amostra. Também foram consideradas dissertações, capítulos de livros e publicações institucionais que contribuíssem com fundamentação teórica ou discussão crítica sobre o tema. Ao todo, foram selecionadas 17 fontes, entre artigos científicos, livros e documentos acadêmicos, cujas contribuições foram analisadas de forma crítica e comparativa.

A análise dos conteúdos seguiu os princípios da análise temática, conforme ​​ Braun e Clarke [2.], sendo as informações organizadas em quatro categorias principais que estruturam a discussão: (1) naturalização da violência psicológica e construção simbólica da submissão feminina; (2) permanência da mulher em relacionamentos abusivos e dependência emocional; (3) impactos psíquicos do abuso contínuo; e (4) caminhos para o enfrentamento e o papel das redes de apoio. Esta categorização permitiu aprofundar a discussão, interligando os achados da literatura com o objetivo proposto.

 

  • Desenvolvimento e discussão

O processo de revisão bibliográfica, conforme detalhado na seção Metodologia, resultou na seleção de 22 fontes, entre artigos científicos, livros e documentos acadêmicos. Os principais achados sobre a temática foram organizados em quatro eixos principais, cujas discussões aprofundadas constam na próxima seção. Para fins de transparência metodológica e síntese do corpus analisado, o Quadro 1​​ a seguir lista os materiais selecionados, seus autores e os anos de publicação incluídos no período de 2020 a 2025.

 

Quadro 1: Materiais Selecionados na Revisão Bibliográfica

Autor(es)

Ano

Título

Gomes et al. [13.]

2022

Permanência de mulheres em relacionamentos violentos: desvelando o cotidiano conjugal.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) [9.]

2023

Anuário Brasileiro De Segurança Pública 2023.

Silva e Silva [5.]

2020

Violência contra as mulheres nos relacionamentos conjugais e a dependência emocional: fator que influência a permanência na relação.

Jesus e Alves [3.]

2025

Dependência emocional: permanência de mulheres em relacionamentos abusivos.

Rodrigues et al. [16.]

2021

Relacionamentos abusivos e manifestações de violência contra a mulher.

Gil [10.]

2019

Métodos e técnicas de pesquisa social.

Braun e Clarke [2.]

2006

Using thematic analysis in psychology. ​​ 

Aoyama et al. [1.]

2022

As diferentes formas de violência nas relações: a (in)visibilidade da violência psicológica.

Portela [15.]

2021

Violência psicológica: dificuldade em romper o vínculo afetivo em uma relação conjugal violenta.

Farias e Barreto [8.]

2025

Relações violentas e a manutenção dos vínculos.

Lima et al. [14.]

2023

Fenômeno da permanência da vítima dentro de um caso de violência contra mulher.

Gomes e Assunção [12.]

2021

Relacionamentos amorosos abusivos.

Paiva et al. [17.]

2022

Abuso psicológico, autoestima e dependência emocional de mulheres durante a pandemia de COVID-19.

Zappellini Sassi [20.

2023

Relação fixada e dependência afetiva: a síndrome de Estocolmo como fator de risco à agressão psicológica de mulheres em relacionamentos de afeto.

Luz et al. [4.]

2024

Impactos psicológicos ocasionados pela dependência emocional em mulheres nos relacionamentos abusivos.

Gomes et al. [10.

2024

Elaboração e validação da escala de atitudes para mulheres sobre permanência em relacionamentos abusivos.

Santos e Souza [7.]

2023

Trauma bonding: os fatores psicossociais ligados aos vínculos amorosos abusivos.

Silva et al. [6.]

2023

Danos psicológicos causados pela violência doméstica contra a mulher.

Xavier [19.]

2022

De olhos abertos: uma história não contada sobre relacionamento abusivo.

Silva e Pagnard [18.]

2025

Relacionamentos abusivos a um passo do feminicídio no Brasil.

Fonte: Os autores (2025).

Os resultados da revisão bibliográfica foram organizados, a partir da análise temática, em quatro categorias centrais que norteiam a discussão deste artigo: 1) naturalização da violência psicológica e construção simbólica da submissão feminina; 2) permanência da mulher em relacionamentos abusivos e dependência emocional; 3) impactos psíquicos do abuso contínuo; e 4) caminhos para o enfrentamento e o papel das redes de apoio.

A discussão a seguir detalha os achados para cada uma dessas categorias:

    • A naturalização da violência psicológica e a construção simbólica da submissão feminina

A violência psicológica, por não deixar marcas físicas evidentes, é frequentemente desconsiderada como forma legítima de agressão, sendo interpretada como problemas cotidianos da convivência conjugal. Essa banalização decorre da construção histórica de papéis sociais rígidos, que definem a mulher como responsável pela manutenção da harmonia afetiva e da vida doméstica, mesmo que isso implique suportar situações abusivas. Conforme Gomes et al. [13.] a mulher é socialmente condicionada a interpretar o sofrimento como parte do amor, sendo a tolerância à dor transformada em virtude feminina. Essa construção simbólica favorece a invisibilização da violência psicológica, dificultando sua identificação e o rompimento do ciclo abusivo.

A estrutura patriarcal da sociedade brasileira sustenta essas dinâmicas, promovendo uma divisão desigual de poder nas relações afetivas e relegando à mulher uma posição de passividade e submissão. De acordo com Aoyama et al. [1.], a cultura patriarcal cria um ambiente em que a dominação emocional é naturalizada, sendo o comportamento controlador do parceiro frequentemente entendido como cuidado, zelo ou demonstração de amor. A romantização de práticas abusivas reforça a ideia de que a mulher deve sacrificar-se pela relação, internalizando a noção de que seu valor está atrelado à sua capacidade de suportar o sofrimento.

Essa normalização da violência psicológica é reforçada por discursos midiáticos, religiosos e familiares que reiteram a ideia da mulher como cuidadora, compreensiva e conciliadora. Em muitos contextos, os conselhos transmitidos de geração em geração incentivam a permanência em relações marcadas por abuso, sob a justificativa de preservar a família ou evitar a separação. Como discutem Rodrigues et al. [16.], narrativas tradicionais mantêm uma teia simbólica que legitima a permanência da mulher em relações abusivas, atribuindo-lhe a culpa diante de qualquer tentativa de rompimento. Assim, a violência se prolonga de maneira silenciosa, apoiada em significados culturais profundamente arraigados.

Outro fator central na naturalização do abuso psicológico é o mito do amor romântico, que idealiza relações baseadas em entrega total, fusão emocional e incondicionalidade afetiva. Esse modelo, disseminado desde a infância por meio da literatura, do cinema e da cultura popular, induz as mulheres a acreditarem que o amor verdadeiro exige sacrifício e resistência. Portela [15.], destaca que esse imaginário contribui para que muitas vítimas minimizem os comportamentos abusivos do parceiro, interpretando-os como falhas pontuais ou expressões distorcidas de afeto. Essa crença alimenta a esperança de mudança e reforça a tendência à autopunição diante do sofrimento, dificultando o reconhecimento do abuso como violência.

A simbologia religiosa também tem um papel relevante na manutenção da submissão feminina em contextos abusivos. Em diversas doutrinas, prega-se a indissolubilidade do casamento e a resignação diante das dificuldades conjugais como sinais de fé e obediência divina. Jesus e Alves [3.] observam que, para muitas mulheres, especialmente em contextos conservadores, romper o vínculo conjugal é visto como pecado, desobediência ou fracasso pessoal. Essa associação entre religiosidade e sacrifício perpetua o entendimento de que suportar a dor é virtude, e não opressão.

Do ponto de vista simbólico, a construção da identidade feminina está historicamente associada à abnegação e à tolerância. Segundo Silva e Silva [5.] a mulher é socializada para o cuidado do outro, sendo ensinada desde cedo a colocar as necessidades alheias acima das suas, o que gera uma predisposição psíquica à manutenção de vínculos disfuncionais. Essa internalização da submissão não é apenas socialmente induzida, mas emocionalmente estruturante, criando barreiras internas que dificultam a percepção do abuso e a busca por ajuda.

Além disso, o medo do julgamento social é um fator que atua como barreira simbólica ao rompimento. Farias e Barreto [8.] afirmam que muitas mulheres permanecem nos relacionamentos abusivos não apenas por medo do agressor, mas por receio da estigmatização comunitária, da vergonha pública e da sensação de fracasso. A mulher que rompe com a relação é muitas vezes culpabilizada, responsabilizada pelo fim do casamento e pela desestruturação familiar, o que reforça a ideia de que suportar a dor é uma obrigação moral.

Um elemento importante a ser considerado é o isolamento progressivo ao qual a mulher é submetida no relacionamento abusivo, promovido pelo próprio agressor como estratégia de dominação. Lima et al. [14.] explicam que o abusador tende a afastar a mulher de sua rede de apoio – amigos, familiares, colegas – enfraquecendo seus vínculos externos e aumentando sua dependência emocional. Essa ruptura simbólica com o mundo social favorece a construção de uma realidade distorcida, na qual a mulher passa a duvidar de sua própria percepção sobre o que é abuso. O isolamento não é apenas físico, mas também subjetivo, instaurando um universo psíquico fechado e controlado pelo agressor.

Ainda dentro dessa lógica, é importante destacar o fenômeno do gaslighting, ou iluminação a gás, no qual o agressor manipula a realidade de forma a fazer a vítima duvidar de sua sanidade, memória e percepção. Gomes e Assunção [12.] analisam que o gaslighting é uma ferramenta comum nas relações abusivas, pois desestabiliza a autonomia cognitiva da mulher, promovendo um estado constante de confusão, dúvida e insegurança. Tal mecanismo aprofunda a dependência da vítima em relação ao agressor e reforça a submissão psíquica, dificultando a identificação da violência como tal.

Nesse contexto de manipulação simbólica e emocional, surge um ciclo no qual a violência psicológica não é apenas tolerada, mas reinterpretada como normal, inevitável ou até necessária para a manutenção da relação. Paiva et al. [17.] apontam que muitas mulheres desenvolvem racionalizações para justificar os comportamentos do parceiro, atribuindo a si mesmas a responsabilidade pelas explosões emocionais ou agressões verbais. Esse deslocamento da culpa é uma das estratégias mais eficazes de naturalização da violência, pois bloqueia a reação e legitima a continuidade do vínculo.

A citação retirada do estudo de Zappellini Sassi [20.] ilustra com clareza esse enraizamento simbólico da submissão feminina:

A mulher em situação de violência psicológica frequentemente constrói uma narrativa interna de que sua dor é um preço justo a pagar por manter a relação, por preservar a família ou por não ser ‘mais uma’ a fracassar no amor. Essa narrativa é alimentada não apenas pelas ações do agressor, mas por um conjunto de mensagens culturais que reforçam a culpa feminina, a idealização da maternidade e a exaltação da paciência como virtude. Dessa forma, mesmo em meio ao sofrimento extremo, muitas mulheres mantêm o vínculo por acreditarem que seu papel é o de sustentar a relação a qualquer custo, mesmo que o custo seja a própria saúde mental. [20., p. 399]

Essa fala evidencia como a submissão feminina é mantida por forças que vão além da violência direta, envolvendo construções simbólicas que reforçam a ideia de sacrifício e culpabilidade. Com o passar dos anos, padrões simbólicos acabam influenciando a forma como a mulher enxerga o que pode ser aceito, o que parece habitual e até aquilo que se acredita precisar ser suportado em um vínculo afetivo. É importante destacar ainda que a banalização da violência emocional não se limita ao espaço privado, alcançando também as instâncias institucionais.

Luz et al. [4.] denunciam que muitas mulheres, ao procurarem ajuda em delegacias ou serviços de saúde, encontram profissionais despreparados, que minimizam seu relato por não haver sinais físicos visíveis. Essa ausência de acolhimento contribui para a revitimização e reforça a crença de que a dor psíquica não é legítima. A invisibilidade institucional do sofrimento psicológico reforça, portanto, a invisibilidade simbólica da violência.

    • A permanência da mulher em relacionamentos abusivos: dependência emocional e mecanismos psíquicos

A continuidade de mulheres em laços marcados pela violência é um dos maiores desafios para a Psicologia, já que não se explica apenas por aspectos concretos, como dependência econômica ou carência de suporte social. Trata-se de uma realidade intricada, sustentada por ligações afetivas desadaptativas, recursos psíquicos de autopreservação e um desgaste interno que vai se agravando ao longo da convivência. Segundo Jesus e Alves [3.], a dependência emocional configura-se como um dos principais fatores responsáveis pela manutenção desses vínculos, pois compromete a capacidade da mulher de avaliar a situação com clareza e de tomar decisões baseadas em sua própria proteção e bem-estar.

Esse tipo de vínculo afetivo não é constituído apenas por apego, mas por uma relação de desequilíbrio, marcada por ciclos de tensão, explosão e reconciliação. Farias e Barreto [8.], afirmam que esses ciclos mantêm a mulher emocionalmente vinculada ao agressor, pois, após momentos de agressão psicológica, frequentemente surgem períodos de aparente arrependimento e afeto por parte do parceiro, criando a expectativa de mudança e alimentando a esperança de recuperação da relação. Essa oscilação entre dor e recompensa emocional gera confusão psíquica e reforça a dependência.

A manipulação afetiva é uma das estratégias mais eficazes utilizadas por quem pratica a violência, a fim de manter sua influência sobre a vítima. Em muitos casos, o parceiro alterna comportamentos afetuosos com ações abusivas, criando um ambiente instável e imprevisível que desorganiza a percepção da vítima sobre o que é amor e o que é violência. Segundo Luz et al. [4.] essa dinâmica leva a mulher a acreditar que o problema reside em si mesma, reforçando sentimento de culpa, inadequação e fracasso. Esse processo gradativo de desvalorização fragiliza sua autoestima e contribui para a internalização da ideia de que ela não merece outra forma de afeto.

A dependência emocional pode ser compreendida como uma forma de ligação patológica, na qual o sujeito abdica de seus próprios desejos, limites e necessidades em nome da manutenção da relação. Rodrigues et al. [16.] apontam que, nas relações abusivas, essa dependência é construída a partir da vulnerabilidade psíquica da mulher, muitas vezes marcada por experiências anteriores de abandono, negligência ou baixa validação emocional na infância. Assim, o parceiro abusivo torna-se uma figura ambivalente, ao mesmo tempo fonte de dor e de significado, dificultando a ruptura.

Esse quadro é agravado quando há traços de apego inseguro, um padrão de vinculação que, segundo a teoria do apego de Bowlby, está associado à busca constante por validação, medo de rejeição e idealização do outro. Gomes et al. [10.] identificam que mulheres com esse perfil de apego tendem a se prender mais intensamente ao agressor, acreditando que não conseguirão sobreviver emocionalmente sem ele. Esse medo de abandono, combinado com a baixa autoestima e o sentimento de impotência, torna-se um dos principais obstáculos à separação.

Outro fenômeno relevante é o chamado trauma bonding, ou vínculo traumático, que acontece quando, em meio a experiências repetidas de dor, medo e reconciliação, a vítima acaba criando um laço emocional profundo com o agressor. Como explicam Santos e Souza [7.], esse vínculo traumático ou trauma bonding é marcado por uma contradição difícil de romper: quanto mais sofrimento é vivido, maior pode ser o apego à relação. Isso acontece porque, em muitos casos, o agressor mesmo sendo a fonte do trauma, também é percebido como o único porto seguro, oferecendo momentos de alívio e afeto que confundem e fragilizam ainda mais a percepção da vítima sobre o que está vivendo. Baseando-se na alternância entre punição e recompensa, o que ativa mecanismos psíquicos similares aos observados em situações de vício ou dependência química. Lima et al. [14.] observam que, nesses casos, a vítima constrói uma narrativa interna que justifica o comportamento do agressor como fruto de estresse, ciúme ou problemas do passado, desviando o foco de sua responsabilidade. Essa racionalização permite à mulher preservar a relação, ainda que à custa de seu equilíbrio psíquico.

Além disso, a violência psicológica provoca um processo de fragmentação da identidade. Paiva et al. [17.] explicam que a constante desvalorização, os insultos, as críticas e o gaslighting comprometem a percepção que a mulher tem de si mesma, de sua autonomia e de suas capacidades. Ela passa a duvidar de seus próprios sentimentos, pensamentos e decisões, tornando-se mais suscetível ao controle do agressor. Essa instabilidade subjetiva fragiliza os recursos internos necessários para a ruptura e fortalece o vínculo com o agressor, visto como a única referência de afeto e estabilidade.

Gomes e Assunção [12.] ressaltam que muitas mulheres não identificam o relacionamento como abusivo, especialmente quando a violência é exclusivamente psicológica. O agressor costuma adotar estratégias sutis, como críticas veladas, manipulações emocionais, chantagens afetivas e isolamento progressivo, dificultando a percepção clara do abuso. Nessas situações, a dependência emocional não é apenas um resultado, mas também um instrumento de manutenção do ciclo violento.

Silva e Silva [5.] sintetizam com precisão a complexidade da permanência feminina em contextos de abuso psicológico:

A situação de dependência emocional vivencia um estado de ambivalência constante: sente-se aprisionada, mas ao mesmo tempo tem medo de ficar só; deseja romper, mas teme não ser amada novamente; reconhece o sofrimento, mas acredita que ele é merecido ou passageiro. Esses sentimentos contraditórios são alimentados por uma construção afetiva profundamente enraizada, na qual o amor é confundido com posse, controle e dor. A permanência, portanto, não é uma escolha livre, mas um resultado psíquico de anos de manipulação, insegurança e desconstrução da identidade. [5., p. 334]

Outro aspecto a ser considerado é a ausência de experiências prévias de relações saudáveis. Muitas mulheres relatam nunca terem vivido uma relação afetiva baseada em respeito mútuo e empatia, o que dificulta a identificação do abuso. Xavier [19.] ressalta que, em contextos de violência, o agressor muitas vezes se apresenta como protetor ou cuidador, oferecendo uma falsa sensação de segurança que impede a vítima de reconhecer o padrão abusivo.

Esse cenário é agravado pela vergonha, pela culpa e pela autocensura. Silva e Pagnard [18.] apontam que, ao permanecerem no relacionamento, muitas mulheres sentem-se responsáveis pela própria situação, internalizando discursos sociais que culpabilizam a vítima. Esse sentimento de culpa paralisa a ação e reforça o isolamento, levando a vítima a silenciar sua dor e esconder sua realidade até mesmo de pessoas próximas.

Portela [15.] destaca que o medo do futuro é um dos fatores que mais dificultam a ruptura. Muitas mulheres, mesmo conscientes do sofrimento que vivenciam, não conseguem imaginar uma vida fora daquela relação. O agressor, por sua vez, alimenta esse medo ao reforçar a ideia de que a mulher não será amada por mais ninguém, que não conseguirá sustentar-se sozinha ou que será punida caso o abandone. Esse controle simbólico e emocional promove a imobilização da vítima, que permanece paralisada diante da possibilidade de mudança.

    • Impactos psíquicos do abuso psicológico contínuo: o sofrimento invisível

A violência psicológica, apesar de sua gravidade, continua sendo uma das formas de agressão mais ignoradas pela sociedade. Isso se deve, em grande parte, à sua natureza silenciosa, que opera sobre os alicerces emocionais da vítima, sem deixar vestígios físicos evidentes. Essa invisibilidade contribui para a minimização da dor vivenciada pelas mulheres em relações abusivas e para a negligência institucional diante de suas queixas. Conforme destacam Silva et al. [6.], o abuso psicológico contínuo provoca impactos psíquicos tão profundos quanto a violência física, alterando o funcionamento mental, o comportamento e a forma como a vítima se percebe e percebe o mundo ao seu redor. O estudo complementa que esse tipo de abuso corroi gradualmente a mulher, por meio de humilhações constantes, manipulações sutis e ameaças veladas, fazendo com que ela se veja como inferior.

Segundo Gomes et al. [13.], a continuidade dessas agressões compromete a saúde mental da vítima, levando ao desenvolvimento de quadros clínicos como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), distúrbios de sono, alterações alimentares e comportamentos autodestrutivos. Esses sintomas, embora comuns, são frequentemente desconsiderados, tanto pela mulher quanto pelos profissionais de saúde, o que contribui para sua cronificação.

A fragmentação da identidade feminina é um dos efeitos mais danosos desse tipo de violência. A vítima, ao ser constantemente desacreditada, desvalorizada e desumanizada, passa a duvidar de sua própria percepção da realidade, de sua capacidade de julgamento e até mesmo de seu valor como pessoa. Rodrigues et al. [16.] destacam que a violência psicológica mina a autoconfiança da mulher, desconectando-a de seus desejos, de suas decisões e de sua própria história.

A constante exposição a esse tipo de violência leva à internalização de sentimentos de culpa e vergonha. Muitas mulheres atribuem a si mesmas a responsabilidade pela violência sofrida, acreditando que falharam como parceiras, esposas ou mães. Paiva et al. [17.] explicam que essa culpabilização é reforçada por normas sociais que ainda esperam da mulher uma postura conciliadora e resiliente diante das dificuldades conjugais. A culpabilização não apenas imobiliza a vítima como também a impede de buscar ajuda, pois ela teme ser julgada ou não levada a sério ao relatar sua experiência.

Esse processo subjetivo é acompanhado de um intenso isolamento afetivo. À medida que o agressor mina os vínculos sociais da vítima, esta vai se afastando de familiares, amigos e redes de apoio. Lima et al. [14.] apontam que o isolamento funciona como uma estratégia de controle, pois reduz as possibilidades da mulher de entrar em contato com realidades alternativas e com discursos que poderiam confrontar a narrativa imposta pelo agressor. Isolada e emocionalmente dependente, a vítima passa a acreditar que sua única fonte de referência e segurança está no próprio agressor, mesmo que este seja a causa de seu sofrimento.

Com o tempo, instala-se um estado de vulnerabilidade crônica, caracterizado por uma sensação de impotência diante da vida e uma desesperança persistente em relação ao futuro. Esse estado psíquico é terreno fértil para o surgimento de sintomas depressivos graves. Jesus e Alves [3.] destacam que o abuso psicológico reiterado leva à perda do senso de propósito, à dificuldade de sentir prazer e à incapacidade de projetar-se em novas experiências ou relações. A vítima entra em um ciclo de sofrimento silencioso, em que a dor se torna parte de sua rotina e o medo de romper o vínculo se sobrepõe à urgência de preservação.

O impacto na autoestima da mulher é outro aspecto fundamental a ser discutido. Desde o início da relação abusiva, o agressor tende a minar as qualidades da parceira, colocando em dúvida sua inteligência, beleza, capacidade profissional ou habilidades maternas. Farias e Barreto [8.] ressaltam que a repetição dessas mensagens faz com que a mulher passe a ver-se como alguém insuficiente, indigna de amor ou de reconhecimento. Esse sentimento de inadequação é internalizado de forma tão profunda que compromete todos os aspectos de sua vida psíquica e social.

É nesse ponto que o abuso psicológico se revela não apenas como uma forma de violência relacional, mas como um atentado à subjetividade. A mulher deixa de confiar em si mesma e passa a viver sob a lógica do controle externo. A construção de sua identidade, de sua autonomia e de sua autoestima são desmanteladas, sendo substituídas por sentimentos de confusão, dependência e medo. Segundo Zappellini Sassi [20.], muitas mulheres relatam sentir-se "mortas em vida", como se não houvesse mais qualquer resquício de si mesmas na relação.

A gravidade dessa situação pode ser ilustrada pelo estudo de Silva et al. [6.], que sintetiza o sofrimento psíquico enfrentado por mulheres em situação de abuso psicológico:

O trauma gerado pela violência psicológica se inscreve de modo silencioso e contínuo no psiquismo da vítima, moldando sua forma de sentir, perceber e existir. Esse sofrimento não cessa com o fim da relação abusiva; ele se prolonga no corpo e na mente, nos afetos e nos vínculos futuros, comprometendo a capacidade de confiar, de desejar e de projetar-se no mundo. A mulher violentada psicologicamente carrega cicatrizes invisíveis, que demandam tempo, apoio e reconhecimento para que possam ser elaboradas e ressignificadas. [6., p. 343]

A citação acima evidencia a complexidade dos danos psíquicos provocados pela violência emocional. A continuidade da exposição à dor emocional transforma a experiência afetiva da mulher, que passa a relacionar o amor ao sofrimento, à renúncia e à anulação de si. Gomes et al. [10.] ressaltam que esse processo compromete inclusive as possibilidades de reconstrução, pois a vítima tende a repetir padrões disfuncionais em relações futuras, muitas vezes sem perceber.

Adicionalmente, o abuso psicológico tem efeitos intersubjetivos, afetando a forma como a mulher se posiciona no mundo. Com frequência, ela desenvolve comportamentos de evitação, hipervigilância, retraimento e desconfiança generalizada. Silva e Pagnard [18.] observam que tais manifestações são típicas de estados pós-traumáticos e exigem acompanhamento psicoterapêutico específico, sensível às marcas da violência vivida. Não se trata, portanto, de fragilidade pessoal, mas de um trauma sustentado por estruturas de poder e dominação que se reproduzem nas relações afetivas.

Outro ponto que merece atenção diz respeito às alterações cognitivas e neurológicas decorrentes da violência crônica. Estudos indicam que situações de estresse prolongado, como as vividas em contextos de abuso emocional, podem afetar o funcionamento de áreas cerebrais ligadas à memória, ao julgamento e à regulação emocional. Rodrigues et al. [16.] explicam que o corpo da vítima também adoece: alterações hormonais, cardiovasculares e imunológicas são frequentes em mulheres expostas a relações abusivas, o que reforça a natureza sistêmica do dano.

A ausência de reconhecimento institucional desse tipo de sofrimento agrava ainda mais a condição das mulheres. Muitas relatam experiências de invalidação ao procurar ajuda, como quando são desacreditadas por profissionais de saúde, agentes de segurança ou até mesmo familiares. Lima et al. [14.] alertam que esse processo de revitimização é extremamente danoso, pois reforça a sensação de abandono e desamparo, afastando ainda mais a vítima de possíveis redes de apoio e cuidado.

É fundamental, portanto, que os profissionais da saúde mental estejam preparados para reconhecer os sinais sutis da violência psicológica, acolher o sofrimento invisível das mulheres e construir estratégias de intervenção que respeitem seus tempos e suas histórias. Gomes e Assunção [12.] defendem uma escuta sensível, capaz de validar a experiência da vítima sem julgamentos, promovendo sua autonomia e fortalecendo sua identidade fragilizada. A clínica do trauma relacional exige, antes de tudo, o reconhecimento da dor que não deixa marcas visíveis, mas que compromete a vida subjetiva de forma profunda e persistente.

    • Caminhos para o enfrentamento: o papel dos profissionais e das redes de apoio

O enfrentamento da violência psicológica contra a mulher, especialmente em relações conjugais abusivas, demanda uma abordagem integrada que contemple não apenas o acolhimento da vítima, mas também a transformação das estruturas simbólicas, sociais e institucionais que perpetuam o sofrimento silencioso. A complexidade dos fatores que sustentam essa forma de violência exige intervenções multissetoriais, com ações articuladas entre as esferas da saúde, assistência social, educação, justiça e sociedade civil [13.].

No campo da saúde mental, o papel dos profissionais da Psicologia é essencial para identificar e acolher o sofrimento psíquico das mulheres vítimas de abuso emocional. O reconhecimento dos sinais da violência psicológica exige sensibilidade clínica, uma vez que os sintomas nem sempre são verbalizados diretamente. Mulheres que vivenciam esse tipo de agressão geralmente apresentam quadros de ansiedade, depressão, insônia, desânimo, sensação de inutilidade, entre outros sintomas que podem ser erroneamente compreendidos como experiências isoladas ou transtornos intrínsecos, e não como respostas subjetivas a contextos de violência relacional [12.].

A escuta clínica, portanto, deve ser ética, empática e não julgadora. É imprescindível que o profissional compreenda os mecanismos emocionais envolvidos na manutenção da relação abusiva, como o trauma bonding, a dependência afetiva e o gaslighting, oferecendo à mulher condições para elaborar sua vivência e reconstruir sua autonomia subjetiva. Luz et al. [4.] defendem que o atendimento psicológico deve ser contínuo e sensível às ambivalências da vítima, respeitando seu tempo e suas possibilidades, ao invés de pressioná-la a tomar decisões abruptas, que podem gerar retraumatização ou abandono do processo terapêutico.

Além do acolhimento individual, a formação dos profissionais que atuam na rede de proteção deve ser repensada à luz das categorias de gênero, poder e violência simbólica. A ausência de uma compreensão crítica desses temas favorece a reprodução de discursos que culpabilizam a mulher ou minimizam o impacto da violência psicológica. Jesus e Alves [3.] alertam que a responsabilização da vítima, ainda presente em muitos atendimentos institucionais, constitui uma forma de revitimização que amplia o sofrimento e afasta a mulher dos espaços de cuidado. A formação continuada, interdisciplinar e comprometida com a equidade de gênero é condição indispensável para a eficácia da rede.

Nesse contexto, a articulação entre os serviços torna-se fundamental. O enfrentamento da violência psicológica deve ser conduzido por uma rede intersetorial coesa, em que saúde, justiça, assistência social e educação atuem de forma coordenada e comunicativa. Farias e Barreto [8.] reforçam que o trabalho isolado de cada setor é insuficiente diante da complexidade dos casos, sendo necessário construir fluxos de atendimento claros, com protocolos que orientem a escuta, o encaminhamento e o acompanhamento das mulheres em situação de violência. A rede precisa funcionar de forma integrada, respeitando os direitos da vítima e promovendo sua proteção integral.

Os planos e diretrizes públicas para a proteção feminina contra a violência também precisam considerar a violência psicológica como prioridade. Embora a Lei Maria da Penha reconheça essa modalidade de agressão, sua aplicação prática ainda encontra entraves devido à dificuldade de comprovação e à desvalorização institucional dos danos subjetivos. Lima et al. [14.] defendem o fortalecimento de serviços especializados, como os Centros de Referência de Atendimento à Mulher, com equipes multidisciplinares qualificadas, atendimento humanizado e acompanhamento contínuo, além da ampliação da rede de casas-abrigo para situações de risco iminente.

Outro campo estratégico é a educação para as relações saudáveis. A prevenção da violência psicológica começa na infância e na adolescência, por meio da construção de valores baseados no respeito, na empatia, no reconhecimento das emoções e na desconstrução de estereótipos de gênero. Paiva et al. [17.], o ambiente escolar tem relevância essencial na formação subjetiva de crianças e adolescentes e na crítica a práticas de violência que, em muitos contextos, são vistas como comuns ou até enaltecidas socialmente. A inclusão de tópicos como dominação simbólica, relações emocionais, reconhecimento do limite do outro e valorização da independência nos planos de ensino favorece a criação de jovens mais conscientes de seus direitos e de sua própria integridade. Do mesmo modo, programas educativos voltados ao público em geral configuram estratégias importantes na prevenção da violência psicológica.

A invisibilidade dessa forma de abuso faz com que muitas mulheres não se reconheçam como vítimas, ou considerem natural a dor emocional que vivenciam. Rodrigues et al. [16.] afirmam que a informação acessível e clara sobre os tipos de violência previstos em lei, os sinais de alerta e os canais de denúncia pode ser o primeiro passo para a ruptura do ciclo abusivo. Além disso, campanhas educativas têm o potencial de sensibilizar familiares, vizinhos e colegas de trabalho para que possam agir como rede de apoio e estímulo à busca por ajuda.

A atuação da sociedade civil organizada é outra dimensão imprescindível nesse processo. Grupos de apoio, coletivos feministas, associações comunitárias e ONGs vêm desempenhando papel relevante tanto no acolhimento das vítimas quanto na produção de saberes e políticas sobre o tema. Xavier [19.] observa que espaços de escuta coletiva e de partilha de experiências são fundamentais para a legitimação da dor e para o fortalecimento da identidade das mulheres. Esses grupos também atuam como instâncias de denúncia pública, mobilização política e pressão por direitos, ampliando o alcance das estratégias institucionais de enfrentamento.

Um ponto que não pode ser negligenciado é a responsabilização dos agressores. A impunidade reforça a continuidade da violência e transmite à vítima a mensagem de que seu sofrimento não é reconhecido pelo Estado. Silva e Pagnard [18.] apontam que as políticas públicas devem investir não apenas no acolhimento da mulher, mas também na reeducação e responsabilização dos homens autores de violência. Isso inclui o cumprimento das medidas protetivas, a aplicação efetiva das penalidades previstas em lei e a criação de programas de intervenção voltados aos agressores, com base em metodologias que abordem as masculinidades, o poder e a cultura da dominação.

Por fim, é fundamental compreender que o enfrentamento da violência psicológica não se resume à ruptura da relação abusiva. A saída desse contexto é apenas o início de um processo profundo de reconstrução subjetiva e social. Gomes et al. [10.] argumentam que, para além da proteção física, a mulher precisa de espaços de escuta, pertencimento e reconstrução simbólica de sua identidade. Isso implica promover sua autonomia econômica, favorecer seu acesso à educação e ao trabalho, fortalecer sua autoestima e garantir condições para que possa reconstruir sua vida em liberdade.

 

  • Considerações finais

As reflexões desenvolvidas neste estudo, ancoradas na literatura eleita e organizada nas categorias temáticas de naturalização, dependência emocional, impactos psíquicos e enfrentamento, permitem constatar que o abuso psicológico é uma forma devastadora de violência e que a permanência em relacionamentos abusivos é um fenômeno multifatorial e complexo. O objetivo de analisar os impactos do abuso psicológico e os fatores que mantêm essa permanência foi plenamente alcançado pela revisão bibliográfica.

O sofrimento silencioso, evidenciado pelos artigos analisados, vai muito além do que os olhos podem ver. A revisão demonstrou, em consonância com as constatações de Silva e Silva [5.], de Jesus e Alves [3.] e Santos e Souza [7.], que a manutenção do vínculo abusivo não é resultado de passividade ou fraqueza. É um processo intrincado, sustentado pela dependência emocional e pelo vínculo traumático (Trauma Bonding), mecanismos que corroem a autonomia e a autoestima da mulher. Os impactos desse abuso, evidenciados por Silva et al. [6.] e Gomes et al. [13.], reforçam a necessidade de considerar a violência psicológica como um grave problema de saúde pública, visto que gera quadros de depressão, ansiedade e Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

A superação desse ciclo, conforme discutido na última categoria, exige uma abordagem multissetorial e humanizada, que vá além da proteção física, focando na reconstrução simbólica da identidade da vítima e na ampliação de suas redes de apoio, conforme sugerido por Lima et al. [14.] e Xavier [19.].

Portanto, romper com a violência é, acima de tudo, recuperar a própria voz, reafirmar a liberdade de existir e reconquistar o direito de ser inteiramente quem se é. Essa realidade não deve se limitar apenas a políticas públicas, mas exige uma revolução cultural e social que desnaturalize a violência e responsabilize o agressor.

Como limitação do estudo, é importante destacar que esta revisão se restringiu a artigos publicados entre 2020 e 2025. Sugere-se que futuras pesquisas ampliem o período de busca ou realizem estudos empíricos para validar o sofrimento psíquico vivenciado por essas mulheres em contextos clínicos.

 

  • Declaração de direitos

 Os autores declaram ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declaram que as imagens e textos publicados são de responsabilidade dos autores, e não possuem direitos autorais reservados a terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declaram respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou autoplágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

 

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