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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

Saúde e Sustentabilidade Cultural Na Aldeia Córrego Grande: Desafios e Perspectivas na Terra Indígena Teresa Cristina da Etnia Boe-Bororo

Juliana de Oliveira Padilha1; Edilaine Siqueira Pereira Resende2; Silvério Teixeira dos Santos 3; Edlaine Ronconi de Abreu Dias 4; Tatiane Amorim de Matos 5; Antônio Francisco Malheiros 6

 

Como Citar:

PADILHA, Juliana de Oliveira; RESENDE, Edilaine Siqueira Pereira; SANTOS, Silvério Teireixa dos; DIAS, Edlaine Ronconi de Abreu; MATOS, Tatiane Amorim de; MALHEIROS, Antônio Francisco.. Saúde e Sustentabilidade Cultural Na Aldeia Córrego Grande: Desafios e Perspectivas na Terra Indígena Teresa Cristina da Etnia Boe-Bororo. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 1035-1058, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc202596818

 

DOI: 10.61411/rsc202596818

 

Área do conhecimento:

Interdisciplinar

 

Palavras-chaves: Interações ambientais; Cultura Boe-Bororo; Sustentabilidade comunitária

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Publicado: 15 de maio de 2025.


Resumo

Este estudo se caracteriza como uma pesquisa empírica de natureza qualitativa que objetivou investigar as interações entre saúde, cultura e meio ambiente na comunidade da etnia Boe-Bororo, localizada na aldeia Córrego Grande, na Terra Indígena Teresa Cristina, no município de Santo Antônio de Leverger, MT. Aconteceu entre os dias 28 e 29 de novembro de 2024 no contexto da disciplina “Saúde e Interações Ambientais”, inserida no Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Ciências Ambientais da Universidade do Mato Grosso – UNEMAT. A metodologia envolveu três entrevistas semiestruturadas com lideranças locais, anciãos e profissionais de saúde indígena, além de observação participante. A primeira foi com o Cacique Benedito, que discutiu os desafios relacionados à preservação da medicina tradicional e à integração com os serviços de saúde convencionais; a segunda com casal de anciãos, Senhora Valdomira e o Senhor Sebastião, que compartilharam suas experiências sobre práticas de cuidados no parto e pós-parto, uso de ervas medicinais e as crenças relacionadas ao nascimento e à alimentação; e a terceira com o Agente de Saúde Indígena, que relatou as dificuldades do sistema de saúde, como a alta rotatividade das equipes e a baixa adesão aos programas de saúde. A problemática centrou-se centrado na compreensão dos efeitos da integração entre a medicina tradicional e alopática na saúde da comunidade, além dos impactos ambientais que afetam os modos de vida e os cuidados com a saúde. Os principais achados apontam que, apesar das dificuldades estruturais e ambientais, existe uma forte resistência cultural para preservar os saberes tradicionais. A escassez de recursos naturais e as mudanças climáticas impactam diretamente a subsistência local, gerando desafios para o bem-estar da comunidade. Este contexto reforça a necessidade de políticas públicas integrando saberes tradicionais e modernos e respeitando as especificidades culturais e ambientais da população indígena.

  • Introdução

O presente estudo aborda as interações entre saúde, cultura e meio ambiente em uma aldeia indígena na comunidade da etnia Boe-Bororo, localizada na aldeia Córrego Grande, na Terra Indígena Teresa Cristina, no município de Santo Antônio de Leverger, MT. É válido ressaltar que o contexto de povos originários apresenta desafios específicos em relação à preservação de suas práticas culturais e à integração com os serviços de saúde convencionais e os impactos ambientais que comprometem a subsistência e o bem-estar dessas populações.

Neste sentido, a necessidade de valorizar os saberes tradicionais e integrá-los com os serviços modernos de saúde torna-se essencial para garantir políticas públicas inclusivas e efetivas, conforme estabelecido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela legislação do Sistema Único de Saúde (SUS).  
Além disso, o estudo ganha relevância ao documentar e analisar a forma como os Boe-Bororo lidam com os desafios contemporâneos preservando suas tradições além de contribuir para o fortalecimento da identidade cultural dos Bororo. Diante deste contexto, a problemática central do estudo reside na compreensão dos efeitos da integração entre a medicina tradicional e alopática na saúde da comunidade, bem como nos impactos ambientais que afetam os modos de vida e os cuidados com a saúde.  
A pesquisa realizada adotou uma abordagem qualitativa e desenvolvida no mês de novembro de 2024, no âmbito da disciplina “Saúde e Interações Ambientais”, como parte do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Ciências Ambientais (PPGCA/ UNEMAT). Na ocasião foram realizadas entrevistas semiestruturadas com lideranças locais, anciãos e profissionais de saúde indígena, além de observação participante para complementar a análise.

Este artigo foi organizado em quatro seções principais.
Logo após esta introdução, a seção de Referencial Teórico apresentou os principais conceitos relacionados à saúde indígena, interculturalidade e sustentabilidade cultural.

Em seguida, a seção de Metodologia descreveu os procedimentos adotados para a coleta e análise dos dados, incluindo entrevistas e observação participante.

A seção de Desenvolvimento e Discussão trouxe os resultados obtidos a partir das entrevistas e observações, contextualizando os desafios enfrentados pela comunidade Boe-Bororo.  

Por fim, as Considerações Finais sintetizam as reflexões do estudo, destacando a importância de políticas públicas que respeitem a especificidade cultural e ambiental da população indígena e a necessidade de integração entre saberes tradicionais e práticas de saúde modernas.

 

  • Referencial teórico

A população indígena é considerada, globalmente, um dos grupos mais vulneráveis. Assim como em outras nações, o Brasil também busca garantir serviços de saúde pública que sejam universais, integrados, apropriados e compreensivos, além de ações de cuidado culturalmente apropriadas que respeitem as especificidades e direitos socioculturais, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) [1.].

Essas ações e serviços devem ser baseados na articulação com os saberes e práticas tradicionais indígenas em saúde, por meio da introdução de novos conceitos nas políticas públicas, da transformação dos modelos de atenção e da definição de novas práticas de cuidado [12.]. Os autores complementam que, dessa forma, se espera que a análise apresentada contribua como um instrumento valioso para a implementação de novas estratégias que promovam a reestruturação e a indigenização da interculturalidade nas práticas de atenção à saúde, especialmente no contexto do subsistema público voltado às populações indígenas brasileiras.

No Brasil, tem se intensificado o surgimento de iniciativas voltadas para fortalecer e valorizar os conhecimentos, práticas e saberes tradicionais, inseridos em contextos socioculturais específicos. Enquanto o Estado desenvolve políticas públicas que incorporam o conceito de “tradicional” para caracterizar seus objetivos, os próprios povos e comunidades indígenas promovem ações de revitalização cultural em diversos contextos locais [10.].

Os aspectos sociais, econômicos e culturais exercem influência sobre o desenvolvimento, as transformações e as relações de hegemonia ou subalternidade entre as diversas formas de atenção à saúde (como as práticas tradicionais, biomédicas e alternativas contemporâneas), tornando necessária uma análise específica e contextualizada desses modelos de cuidado [17.].

Pontes [13.] destaca que indivíduos e/ou grupos sociais podem recorrer a diferentes modalidades de atenção, que não se excluem nem são incompatíveis entre si. Essas modalidades incluem: Biomedicina ou medicina científica; Práticas populares e tradicionais, como as realizadas por curandeiros, especialistas em ervas, xamãs, benzedeiros e grupos religiosos; Abordagens alternativas, complementares ou do movimento new age, incluindo novas religiões de caráter comunitários voltados para a cura; outras tradições médicas de base acadêmica; e práticas centradas na autoajuda, como associações ou grupos de apoio para portadores de doenças.

De acordo com Ferreira [7.], a medicina tradicional indígena é um dos temas destacados tanto nas políticas públicas quanto nas reivindicações dos povos indígenas pela garantia de seus direitos diferenciados. No entanto, no Brasil, há uma escassez de estudos antropológicos que aprofundem essa questão. Um dos primeiros livros a explorar as interações entre as medicinas tradicionais indígenas e os sistemas de saúde oficiais foi considerado pioneiro nesse campo [3.].

Em suma, Ferreira [7.] destaca que a medicina tradicional indígena emerge como tema central nas políticas públicas, com múltiplas vozes contribuindo para sua definição. Como categoria discursiva, assume um caráter simbólico e polissêmico, recebendo significados variados. Esses sentidos são continuamente reinterpretados em cada contexto em que o tema é abordado, resultando em novas compreensões que variam conforme a localidade.

Pedrana et al [12.] destacam que a função de Agente Indígena de Saúde (AIS) é destinada a uma categoria profissional, com uma abordagem assimilacionista e integracionista, visando à incorporação de conhecimentos da medicina ocidental pelos povos indígenas. Os autores observam que essa dinâmica revela a hierarquização nas Equipes Multiprofissionais de Saúde Indígena (EMSI), com o predomínio da biomedicina e do conhecimento especializado sobre patologias. Além disso, não há reciprocidade, pois os profissionais das EMSI não incorporam saberes tradicionais em saúde [1.].

Em 1999, foi incluído um capítulo específico sobre os povos indígenas na legislação do Sistema Único de saúde – SUS, determinando que a atenção à saúde leve em conta as particularidades culturais e a realidade desses povos. O texto estabelece uma abordagem integral e diferenciada, abrangendo aspectos como assistência à saúde, saneamento básico, nutrição, habitação, meio ambiente, demarcação de terras, educação sanitária e integração institucional [9.].

Nesse contexto, diante dos riscos e impactos socioambientais atuais, as investigações sobre as tradições e conhecimentos indígenas relativos à natureza têm atraído o interesse da sociedade não indígena, assim como de pesquisadores preocupados com as questões ambientais contemporânea, destacam que, as relações socioambientais desse povo revelam que as aldeias investigadas ainda mantêm a tradição de cultivar pequenas hortas ao redor das casas e realizar podas em sistemas agroflorestais, com o objetivo de produzir e colher frutos de plantas nativas [4.]. ​​ 

O uso dos recursos naturais e a conservação da biodiversidade são fundamentais para os indígenas, mas eles dependem da disponibilidade de terras suficientes e recursos naturais para garantir suas práticas, a sustentabilidade para esse povo está diretamente ligada à sua sobrevivência [16.].

As comunidades indígenas, além de buscarem fontes de renda por meio de práticas sustentáveis, como o artesanato, também transmite aos seus descendentes valores sobre sustentabilidade e a preservação de seu habitat [20.]. Ao perceberem que sua sobrevivência, assim como a de seus descendentes, depende da preservação dos recursos no mesmo local, essas comunidades podem ter incentivos intrínsecos para utilizar os recursos naturais de forma sustentável [19.].

Neste contexto, levando em conta a sustentabilidade ambiental das florestas, a perda de habitat, aliada à exploração e ao extrativismo intensivo sem técnicas adequadas, voltado para a comercialização, representa ameaças que podem levar à destruição e até a extinção de espécies que são fontes de recursos alimentícios e medicinais [11.]. Diante disso, é notório que o uso do solo afeta o equilíbrio dinâmico e complexo entre o solo e a água, comprometendo a sustentabilidade dos ecossistemas e a disponibilidade desses recursos naturais essenciais [8.].

A partir dessas reflexões, é fundamental reconhecer a importância do conhecimento tradicional para a ciência moderna, por meio do resgate, valorização e adoção de métodos e técnicas sustentáveis de interação dos indígenas com a natureza. Isso inclui também a forma como manejam os recursos naturais em suas terras, utilizando saberes passados por seus ancestrais, que abrangem conhecimentos sobre sementes, solos, florestas e outros aspectos ecológicos [2.].

Os Boe-Bororo possuem uma história marcada por desafios e resistência à colonização. Essa sociedade indígena está organizada em diversos territórios do Estado do Mato Grosso e, como grupo étnico distinto, mantém relações contínuas com os não indígenas que passaram a ocupar suas terras desde 1716 [5.]. Nesse contexto de disputa por território e garantia de sobrevivência, os Bororo conseguem, gradualmente, preservar uma sociedade com uma estrutura social complexa para as futuras gerações [8.].

O povo Boe-Bororo possui uma rica história e presença marcante na região Centro-Oeste do Brasil. Descendentes da etnia Bororo deram origem aos mato-grossenses nas regiões que hoje abrangem Rondonópolis, Cuiabá, Barra do Garças e Cáceres. A maior nação indígena do centro da América do Sul dominou o Pantanal e o Cerrado, estendendo-se até a divisa com a Bolívia [15.].

A preservação das tradições culturais é essencial para a identidade e a continuidade dos povos indígenas. s tradições desses povos indígenas são transmitidas oralmente, por meio do cotidiano e das manifestações culturais [12.]. Assim sendo, o território Boe-Bororo é rico em tradições que valorizam os costumes e práticas culturais, sendo os rituais essenciais para a continuidade da identidade e a conexão com os ancestrais.

Na cultura dos Boe, a história e os costumes são transmitidos por meio da oralidade e dos rituais, com destaque para o funeral, o mais importante, que preserva a memória e o conhecimento do povo [15.]. Considerado um dos ritos fúnebres mais elaborados, o funeral celebra tanto a morte quanto a vida, sendo um dos momentos mais significativos no ciclo de vida indígena [11.].

Embora uma cultura seja resistente, o dinamismo da sociedade ao redor faz com que o método de transmissão de saberes se enfraqueça. Para evitar que esses conhecimentos culturais se percam, é fundamental reforçar o registro das memórias, por meio da transmissão oral, que é vital para a sociedade indígena, assim como por meio do registro escrito [21.]. Dessa forma, se faz importante equilibrar as práticas tradicionais e as novas formas de registro para garantir a preservação e a valorização dos saberes ancestrais.

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  • Metodologia

​​  O presente estudo é caracterizado como uma pesquisa empírica de natureza qualitativa e fins descritivos, tendo como objetivo compreender, descrever e analisar as práticas de saúde, a sustentabilidade cultural e os impactos ambientais na comunidade indígena Boe-bororo, especificamente na aldeia Córrego Grande na Terra Indígena Teresa Cristina entre os dias 28 e 29 de novembro de 2024 durante a disciplina de Saúde e Interações Ambientais (PPGCA), ministrada pelo professor Dr. Antônio Francisco Malheiros.

A abordagem utilizada focou em entender as percepções, experiências e saberes tradicionais da comunidade, dando voz às lideranças locais, anciãos e profissionais de saúde indígena através de procedimentos e instrumentos de, Visita à aldeia, Entrevistas semiestruturadas, Observação participante e Registro de observação.

As entrevistas foram organizadas em contextos temáticos e categorias semiestruturadas e tiveram o objetivo de compreender as interações entre saúde, cultura e meio ambiente na comunidade conforme ilustra o quadro 1 a seguir:

Quadro 1- Contextos das entrevistas junto à comunidade Boe-Bororo

Entrevista

Local na aldeia

Entrevistado (as)

Contexto temático

Categorias semiestruturadas

1

Escola Estadual Indígena Korogedo Paru

Cacique: Sr. Benedito Bororo e sua esposa Sra. Rosilene Bororo

Visão geral sobre os desafios enfrentados pela comunidade, a preservação da medicina tradicional e a integração com os serviços de saúde convencionais.

  • Conflitos com Fazendeiros

  • Saúde e Medicina Tradicional

  • Covid-19 e Doenças Comuns

  • Impacto Ambiental

  • Cultura e Tradições

  • Reflexões sobre o Passado

2

Residência

Anciãos da Comunidade: Senhor Sebastião Boe-Bororo e a Senhora Valdomira ​​ Bororo

Abordou práticas tradicionais de saúde, como cuidados no parto e pós-parto, uso de ervas medicinais e crenças relacionadas ao nascimento e ao cuidado com as crianças, além de discutir os impactos das mudanças ambientais e a escassez de recursos naturais.

  • Experiência de parto e cuidados pós-nascimento

  • Práticas tradicionais no nascimento

  • Práticas alimentares e de saúde

  • Mudanças nos partos

  • Práticas alimentares e cuidados pós-parto

  • Tradições de nascimento e batizado

  • Práticas de controle de natalidade

  • Alimentação e Sustento

  • Impactos ambientais e de recursos

  • Economia e apoio governamental

3

Posto de Saúde

Agente de Saúde Indígena: Eugênio Bororo

Focou na realidade do atendimento médico na aldeia, os desafios da alta rotatividade das equipes de saúde, a adesão da comunidade aos programas de saúde e a interação entre a medicina tradicional e alopática.

  • Funcionamento da Unidade de Saúde

  • Principais Queixas e Problemas de Saúde

  • Desafios no Atendimento

  • Saúde Tradicional e Medicina Alopática

  • Trabalho em Conjunto e Perspectivas

Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.

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Todas as entrevistas foram realizadas com perguntas abertas que permitiram aos entrevistados compartilhar suas experiências, percepções e conhecimentos sobre saúde e meio ambiente.

Já a observação participante se deu com análise e contextualização do ambiente, modos de vida e práticas tradicionais para complementar os dados obtidos. Assim os, Registros de observação procuram demonstras a contextualização com os tópicos presentes no quadro 2 a seguir:

 

Quadro 2 – Contextos das entrevistas junto à comunidade Boe-Bororo

Contexto socioambiental, cultural e de saúde

Identidade e Cultura

  • Cerimônias e rituais

  • Educação cultural

  • Desafios com influências externas

Saúde e Medicina Tradicional

  • Exames

  • Adesão ao atendimento

  • Doenças prevalentes

Reflexões e Perspectivas

​​ Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.

 

É importante evidenciar que, o referido estudo faz parte do projeto de pesquisa com os Boe-Bororo aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) sob o parecer n. 6.591.241, garantindo que todos os procedimentos seguissem as diretrizes éticas, com o devido consentimento informado dos participantes, respeitando seus direitos e dignidade.

Ressaltamos ainda que, a ponte de apoio logístico para a realização da visita foi a Escola Estadual Indígena Korogedo Paru, que ofereceu suporte organizacional e facilitou o deslocamento e a integração dos participantes durante as atividades de campo.

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  • Desenvolvimento e discussão

Abrigando aproximadamente 400 (quatrocentas) pessoas distribuídas em 99 (noventa e nove) famílias em uma área de 37 mil há, a aldeia Córrego Grande está localizada na baixada do vale do Rio São Lourenço, próxima à divisa com o município de Rondonópolis e faz parte da Terra Indígena Tereza Cristina que ​​ possui uma extensão de aproximadamente 120 km e pertence ao município de Santo Antônio do Leverger-MT. O deslocamento até a sede do município é de cerca de 380 km.

A aldeia Córrego Grande possui uma construção tradicional, em sua maioria as residências são feitas de palha e pau-a-pique, um modelo ancestral do povo. Cada família escolhe o local de sua residência, conforme sua preferência, necessidades de moradia e clãs (descendências tradicionais definidas pela figura feminina) [5.].

De acordo com Fernando Kudoro Bororo [5.], a organização social da aldeia segue as memórias e estruturas tradicionais, sendo dividida em metades exogâmicas: de um lado estão as famílias Tugarege e, do outro, as famílias Ecerae. Bororo [5.] explica ainda que, no centro da aldeia, destaca-se uma casa grande principal, chamada de Aroe ewai ou Bai Managajejeu, que serve como ponto central para a organização social e cultural.

Atualmente, a mobilidade é uma característica marcante do povo. Os membros da comunidade têm total liberdade para migrar e se estabelecer em outras aldeias da mesma etnia, conforme suas decisões pessoais, sem necessidade de permissões formais [5.].

A infraestrutura local conta com a escola estadual Escola Estadual Indígena Korogedo Paru construída em alvenaria, que oferece ensino básico e médio. Além disso, há também o Posto de Saúde Indígena Aldeia Córrego Grande, fruto de uma iniciativa do Plano do Distrito Sanitário Indígena (DSI), que fornece atendimento médico à população [18.].

Com o avanço de programas governamentais, novas iniciativas vêm sendo desenvolvidas para abordar questões locais. A escola da aldeia desempenha um papel essencial nesse contexto, abordando temas relacionados à conservação e preservação ambiental [5.]. Dessa forma, a escola, em parceria com a comunidade, trabalha para promover ações que respeitem as legalidades ambientais, incentivando a sustentabilidade e a valorização do território indígena.

 

4.1Entrevista com lideranças

Esta secção apresenta o testemunho do Cacique Sr. Benedito Bororo e de sua esposa, a Sra. Rosilene Bororo, lideranças da comunidade indígena. Por meio de seu olhar de experiência, o casal compartilha as dinâmicas complexas que envolvem seu povo, incluindo conflitos fundiários com fazendeiros, dificuldades na manutenção e valorização da medicina tradicional, bem como o desafio de integrar esses saberes ancestrais às práticas de saúde convencionais. Além de, reflexões sobre os impactos da pandemia de Covid-19 e de outras doenças comuns, comprovadas sob a ótica dos costumes locais.

Conflitos com Fazendeiros: O Cacique Benedito compartilhou uma visão ampla e profunda sobre a realidade de sua aldeia, que há mais de 100 anos está localizada na mesma região, atualmente, ocupando um território demarcado de 37 mil hectares (ha), sendo antes uma área de 120 mil ha.

Com pesar, sr. Benedito revela que, grande parte do território foi perdido para fazendeiros. Apesar dessa história de resistência, os desafios enfrentados pela comunidade são muitos, desde conflitos com fazendeiros até problemas de saúde, preservação cultural e ambiental.

​​ Relatou ainda que, ao longo do tempo, os indígenas precisaram recuar devido à violência de fazendeiros, que os ameaçavam com castigos, tiros e outras formas de sofrimento. A presença de placas do poder judiciário indicando loteamentos e assentamentos gerou conflitos judiciais, enquanto os fazendeiros continuam plantando e produzindo na região.

Saúde e Medicina Tradicional: a aldeia possui conhecimentos sobre ervas medicinais, com registros de como preparar e usar os remédios. Contudo, a população está se afastando da medicina indígena, optando por remédios industrializados como a dipirona. O pajé ainda compra medicamentos para a comunidade, mas lamenta a perda de práticas antigas. ​​ 

O cacique observou que a saúde geral piorou com o tempo. Ele acredita que antigamente as pessoas eram mais altas, fortes e saudáveis, enquanto hoje há aumento de doenças como diabetes e hipertensão. Embora a comunidade tenha acompanhamento médico quinzenal de agentes de saúde vindos de Rondonópolis, há atrasos em resultados de exames e atendimento inadequado pela troca de equipes médicas.

Covid-19 e Doenças Comuns: durante a pandemia de Covid-19, a aldeia enfrentou perdas, mas utilizou ervas medicinais para se proteger. Apesar de dois óbitos, a maioria dos infectados se recuperou graças aos tratamentos tradicionais. Atualmente, a gripe e os resfriados são as doenças mais comuns, conforme o relato do Cacique, que expressou arrependimento por ter permitido que dois membros da aldeia fossem levados para a cidade na época do Covid-19, pois foram os únicos a falecer, enquanto todos os que receberam tratamento caseiro se curaram.

Impacto Ambiental: as mudanças ambientais também preocupam o Cacique. O córrego que abastece a aldeia está secando devido ao desmatamento e uso de agrotóxicos nas fazendas próximas. O fluxo de água, que antes era abundante e cheio de peixes, diminuiu drasticamente nos últimos dez anos e pode secar completamente em cinco anos, lamenta o Cacique.

A Sra. Rosilene Bororo informou que toda a comunidade depende do córrego (Córrego Grande), que passa pelas margens da aldeia, o que justifica o nome da localidade. Ela mencionou que, em algumas ocasiões, a comunidade fica sem abastecimento de energia elétrica por até 15 dias, e todos dependem da água do córrego para atividades essenciais, como cozinhar, lavar louça, roupas, beber e tomar banho.

A Sra. Rosilene destacou ​​ ainda que essa situação é ainda mais preocupante, pois 2024 foi o ano em que o nível da água do córrego abaixou mais, o que agrava ainda mais a dependência da comunidade em relação a esse recurso essencial.

Cultura e Tradições: a preservação cultural é um dos maiores desafios relatados pelo Cacique. Muitos rituais estão se perdendo, e apenas uma pessoa na aldeia conhece todos os detalhes das cerimônias. Entre os eventos mais importantes, destacam-se as festas da onça, festas infantis, funerais e rituais com ervas medicinais. ​​ 

A comunidade possui clãs com regras específicas, como pinturas faciais e restrições para casamentos dentro do mesmo subclã. No entanto, essas tradições têm sido menos respeitadas ao longo do tempo. Outro aspecto abordado foi, a chegada da internet que trouxe benefícios, mas também questões desafiadoras, como a dificuldade em manter a disciplina cultural. O cacique destaca que a educação para preservar a língua e os costumes deve começar dentro de casa, advinda dos pais para os filhos. ​​ 

Reflexões sobre o Passado: foi perguntado ao Cacique, se ele pudesse idealizar uma aldeia, o Cacique Benedito disse que voltaria há 50 anos, quando a cultura era mais forte e os anciãos eram mais respeitados pelos demais membros das comunidades, quando o mesmo relata que todos se silenciavam para ouvir os ensinamentos dos anciãos. Hoje, ele lamenta a falta de atenção dos jovens e a perda da língua materna, que só é falada pelos mais velhos.

Em contraste, ele menciona uma aldeia próxima onde a língua e os costumes são mais preservados, inclusive entre as crianças. Para ele, a preservação depende da educação transmitida dentro das famílias.

O cacique finalizou com uma tristeza evidente pela perda de valores culturais e pela interferência externa, como de igrejas que prometem melhorias de vida, mas acabam prejudicando a tradição. Apesar disso, ele expressa esperança de que o respeito e a valorização da cultura possam ser resgatados com união e compromisso da comunidade.

 

    • Relatos do casal de anciãos

Nesta seção apresentamos o depoimento dos anciãos da comunidade, o Senhor Sebastião Bororo e a Senhora Valdomira Bororo, cujo conhecimento e sabedoria oferecem um olhar privilegiado sobre as práticas tradicionais de saúde e cuidados ligados ao nascimento e à primeira infância. À medida que relatam experiências de parto e pós-nascimento, eles descrevem o papel fundamental das ervas medicinais, das crenças e dos rituais que envolvem o cuidado materno-infantil, bem como a importância das práticas alimentares

Além de abordar as transformações ao longo do tempo, incluindo alterações nos hábitos alimentares, nas dinâmicas de controle de natalidade e nas formas de assistência ao parto, o depoimento dos anciãos destaca os efeitos das mudanças ambientais, a crescente escassez de recursos naturais e seu impacto sem sustento da comunidade. Ao articular tradições de nascimento e batizado, práticas de saúde e alimentação, e refletir sobre a influência econômica e o apoio governamental.

Experiência de parto e cuidados pós-nascimento: A Senhora Valdomira compartilhou sua experiência de ter realizado sete partos, todos acompanhados por ela mesma na aldeia. Ela relata que alguns ocorreram em hospitais devido à preocupação das gestantes perante as possíveis dificuldades.

Ao ser perguntada sobre a idade das gestantes em que ela realizou os partos, a mesma respondeu ser entre 19 e 25 anos. Ela relatou medo durante o parto hospitalar, destacando os desafios enfrentados relatados pelas mães que tiveram seus bebes em hospitais e voltaram a aldeia. Ela afirma que, apesar de todas as dificuldades, desde 1994 não há mais partos em casa.

Enquanto a Sra. Valdomira compartilhou sobre os partos, o Sr. Sebastião nos contou sobre sua experiência com a lavoura. Ele relatou que, embora tenha trabalhado muito no passado, hoje, devido a problemas de saúde, só planta para o consumo próprio (subsistência). Antigamente, utilizava a roça de toco, com trabalho manual, usando machado, foice e outras ferramentas agrícolas. Hoje, a roça é mecanizada, onde tudo é retirado, deixando o solo exposto ao sol e sofrendo grandes impactos climáticos.

Práticas tradicionais no nascimento: no preparo dos partos, ela diz usar uma pratica comum da comunidade que é passar urucum no bebê, removendo assim a pele fina que o bebê carrega ao nascer. O umbigo era cortado com uma “taboquinha”, ferramenta semelhante a uma faca ou tesoura, e uma pomada feita de cera de marimbondo e ervas era aplicada para cicatrizar o umbigo em dois dias. Além disso, ela mencionou o uso de ervas coletadas no mato para dar banho na mulher após o parto e nas crianças para tirar o mal-olhado.

Práticas alimentares e de saúde: caso o leite não descesse, utilizava-se o leite da planta “cansancão”. Ela também afirmou que a virada da lua, especialmente a lua cheia, tem mais força no processo de nascimento.

Mudanças nos partos: hoje, a prática de parto na aldeia diminuiu, com a maioria das mulheres indo para o hospital para dar à luz. Contudo, já ocorreram casos de bebês nascerem na aldeia quando não houve tempo para o deslocamento até a cidade.

Práticas alimentares e cuidados pós-parto: a mulher não deve consumir certos alimentos após o parto, como peixe botoado e cágado. Também é necessário um período de 1 ano sem atividade sexual após o nascimento para evitar doenças no bebê e preservar a sua saúde.

Tradições de nascimento e batizado: a alegria do nascimento é celebrada pela comunidade, e o bebê é enfeitado logo após o nascimento com penugens. O nome do bebê é escolhido pelos padrinhos, que também têm o papel de cantar na "casa grande". O bebê recebe dois nomes: um civil, registrado pelo pai, e um indígena, escolhido pelos padrinhos.

Práticas de controle de natalidade: antigamente, existiam remédios indígenas para evitar a gestação, e as crianças eram amamentadas até o nascimento de um novo bebê, podendo mamar até 2, 3 ou 5 anos de idade.

Alimentação e sustento: perguntado sobre a base da alimentação na aldeia, a senhora Valdomira diz ser composta por produtos como arroz e outros itens trazidos das cidades próximas. Em volta de sua casa, ela mostra a sua produção que abrange alimentos como abóbora, melancia, abacaxi, milho, manga, pequi, banana, mandioca e arroz. No entanto, a redução das chuvas nos últimos anos tem impactado negativamente a agricultura, tornando necessário o uso de adubo para garantir a produtividade das plantações.

A senhora Valdomira diz que a pesca, que antes era abundante no Rio São Lourenço, perdeu sua riqueza com a construção de hidrelétricas que barraram o rio, dificultando a captura de peixes. A falta de chuva também afetou a produção e a pesca, sendo mais difícil encontrar caça ou peixe, com os fazendeiros não permitindo o acesso à suas terras.

Impactos ambientais e de recursos: segundo a senhora Valdomira o Rio São Lourenço, que antes abastecia a comunidade com diversos tipos de peixe (como pintado, pacu, piranha e piraputanga), perdeu sua abundância, com a água do rio já não subindo como antes e a pesca se tornando mais escassa.

Economia e apoio governamental: a senhora Valdomira destacou a importância de programas sociais, como a aposentadoria rural e o Bolsa Família, além de mencionar que alguns membros da comunidade possuem empregos formais que contribuem com renda. O intercâmbio de alimentos entre as casas é uma estratégia relevante para suprir as necessidades locais.

Ela expressou gratidão pelo apoio externo, incluindo a FUNAI, que auxilia na aposentadoria rural, e manifestou esperança de que as condições da comunidade melhorem no futuro, demonstrando otimismo e resiliência diante das adversidades.

Emocionada pela visita dos estudantes à aldeia, a Sra. Valdomira expressou sua gratidão pela presença deles, destacando o quanto aquele momento era significativo para a comunidade. Com palavras calorosas, agradeceu a Deus pela oportunidade de receber os visitantes e enfatizou a importância de iniciativas como essa, que trazem atenção e valorização aos saberes e vivências da comunidade indígena. Seu agradecimento foi marcado por um sentimento genuíno de acolhimento e esperança.

 

    • Entrevista com Agente de Saúde Indígena

O depoimento do Sr. Eugênio Bororo, agente de saúde indígena que atua no posto de saúde local e vivencia, em primeira mão, as particularidades do atendimento médico na aldeia. Eugênio trabalha como técnico de enfermagem e está cursando enfermagem, demonstrando dedicação e compromisso com a saúde de sua comunidade. Ele lidera iniciativas na unidade de saúde e sonha em expandir os recursos disponíveis para oferecer melhores condições de atendimento.

Suas observações destacam não apenas os aspectos operacionais do funcionamento da unidade, como também as principais queixas e problemas de saúde enfrentados pela comunidade. Por meio de seu olhar, compreendemos a complexidade de lidar com a alta rotatividade das equipes de profissionais da saúde, a necessidade de conquistar e manter a adesão dos moradores aos programas preventivos e a importância de conciliar saberes e práticas da medicina tradicional com a abordagem alopática.

Funcionamento da Unidade de Saúde: a unidade atende às seis aldeias da Terra Indígena Teresa Cristina e conta com visitas regulares de uma equipe multidisciplinar composta por enfermeira, dentista, psicólogo e médica. Os médicos permanecem no local por 4 a 5 dias, enquanto exames realizados levam cerca de um mês para retornar com os resultados. Todos os tipos de atendimento são realizados na unidade, com encaminhamento de casos graves, como traumas físicos, para o hospital por meio de caminhonete.

Principais Queixas e Problemas de Saúde: as reclamações mais frequentes na unidade incluem: dores de barriga; gripes; e dores nas articulações.

Desafios no Atendimento: nas Campanhas de vacinação: Baixa adesão da comunidade dificulta a continuidade de programas como o Dia da Hipertensão. Há incidência de gravidez na adolescência: jovens grávidas, algumas com apenas 14 anos, realizam acompanhamento pré-natal, mas frequentemente comparecem sem a presença de responsáveis. A Troca de equipes traz rotatividade de profissionais de saúde prejudica a continuidade de programas importantes e o vínculo com a comunidade.

Saúde Tradicional e Medicina Alopática: a comunidade tem grande interesse em aprender e preservar os conhecimentos de medicina tradicional. Contudo, há cautela na transmissão dos saberes sobre remédios tradicionais, respeitando a cultura e a ancestralidade.

Em iniciativas recentes foi realizado um curso para promover a troca de saberes entre a medicina tradicional e alopática. Além disso, projetos futuros estão sendo iniciadas conversas para retomar o uso de ervas medicinais como parte do cuidado integrado.

Trabalho em Conjunto e Perspectivas: a unidade de saúde opera sob o princípio de trabalho colaborativo, com todos buscando oferecer o melhor atendimento possível. Apesar dos desafios, há um esforço contínuo para integrar a medicina tradicional e moderna, fortalecer a adesão a programas de saúde e criar um ambiente de acolhimento para a comunidade.

 

4.4Observação participante: contexto socioambiental e cultural

A Terra Indígena Teresa Cristina tem 100 anos de existência e apesar da demarcação, a comunidade enfrentou violências históricas, como recuos forçados diante de fazendeiros violentos, castigos físicos e até disparos de armas de fogo. Atualmente, questões de regularização fundiária permanecem, com problemas envolvendo loteamentos e disputas judiciais.

A comunidade se sustenta com a agricultura em pequena escala, produção local e preservação ambiental. Porém, o fluxo de água no córrego que abastece a região diminuiu drasticamente devido à destruição de cabeceiras pelos fazendeiros. Em uma década, a biodiversidade foi severamente afetada: os peixes desapareceram, e estima-se que o córrego possa secar completamente em cinco anos.

Cultura e Identidade: a cultura tradicional enfrenta desafios significativos. A língua materna é falada principalmente pelos mais velhos, e rituais importantes, como casamentos entre clãs e cerimônias culturais, estão em declínio. Mesmo assim, esforços são feitos para preservar tradições:

  • Cerimônias e rituais: A festa das crianças e funerais são marcados por símbolos e práticas ancestrais, como pinturas feitas com ervas e resinas para proteção espiritual.

  • Educação cultural: Grupos de jovens são levados para aprender danças e rituais em aldeias vizinhas.

Desafios com influências externas: Igrejas têm interferido na cultura local, prometendo melhorias materiais, enquanto a chegada da internet trouxe novos hábitos que preocupam os anciãos.

Saúde e Medicina Tradicional: a unidade de saúde local é referência para a população, com médicos que vêm quinzenalmente de Rondonópolis. Casos graves são encaminhados para a Casa de Saúde Indígena (CASAI) em Cuiabá ou Rondonópolis. No entanto, há desafios como:

  • Demora no retorno de exames: Algumas mortes ocorrem antes do resultado ser conhecido.

  • Baixa adesão masculina aos programas de saúde.

  • Doenças prevalentes: gripe, diabetes e hipertensão têm aumentado, contudo em raras antigamente.

A medicina tradicional tem perdido espaço, com muitos optando por medicamentos alopáticos como dipirona. Ainda assim, os saberes tradicionais estão registrados, incluindo como preparar e administrar remédios. Durante a pandemia de Covid-19, as ervas medicinais desempenharam um papel crucial, ajudando a salvar vidas e controlando a doença, mesmo diante de duas mortes na comunidade.

Reflexões e Perspectivas: os mais velhos lamentam a perda de aspectos culturais e a diminuição do respeito às hierarquias e ensinamentos ancestrais. A relação com o ambiente também mudou: antes, o córrego era abundante e repleto de peixes, e a população era mais saudável, alta e forte.

A visão de uma aldeia ideal resgata o modo de vida de 50 anos atrás, com maior valorização da cultura, união entre os clãs e respeito pela natureza. E, apesar dos desafios, a comunidade demonstra resiliência, buscando preservar o que resta de sua cultura enquanto enfrentam as mudanças impostas pela modernidade e pelas pressões externas.

 

  • Considerações finais

A pesquisa realizada na Aldeia Córrego Grande, localizada na Terra Indígena Teresa Cristina, revelou a complexidade das interações entre saúde, cultura e meio ambiente na comunidade Boe-Bororo. As entrevistas com o Cacique Benedito e sua esposa Rosilene, os anciãos Senhora Valdomira e Senhor Sebastião, e o Agente de Saúde Indígena Senhor Eugênio evidenciaram a coexistência entre saberes tradicionais e práticas de saúde modernas, destacando tanto os desafios quanto as potencialidades dessa integração.

A experiência trouxe à tona a importância da medicina tradicional, especialmente nas questões relacionadas ao parto e ao cuidado pós-nascimento, com práticas como o uso de ervas medicinais e a crença na influência da lua nos processos naturais. No entanto, observou-se também a crescente transição para os atendimentos médicos convencionais, evidenciando as mudanças nos padrões de saúde da comunidade e a busca por serviços hospitalares, especialmente devido às dificuldades enfrentadas na falta de recursos e na alta rotatividade das equipes de saúde.

Além disso, os impactos ambientais, como a escassez de chuvas e a degradação dos recursos naturais, como o Rio São Lourenço, afetaram diretamente a alimentação e o sustento da comunidade, trazendo desafios adicionais para o bem-estar da população indígena. A diminuição de recursos pesqueiros e a dificuldade na produção agrícola são indicativos de uma crise ambiental que compromete a sustentabilidade das práticas tradicionais de subsistência.

Por fim, o estudo reafirma a necessidade urgente de políticas públicas que respeitem as particularidades culturais e ambientais das comunidades indígenas, promovendo um atendimento de saúde integrado que combine práticas tradicionais e científicas, e que considere os impactos ambientais e as especificidades regionais. O fortalecimento da identidade cultural indígena, a preservação do meio ambiente e a promoção de uma saúde mais acessível e contínua são fundamentais para garantir a qualidade de vida dessas populações e assegurar um futuro mais sustentável.

 

  • Declaração de direitos

 O(s)/A(s) autor(s)/autora(s) declara(m) ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara(m) que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do(s) autor(s), e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara(m) respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara(m) não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

 

 

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Universidade Estadual do Mato Grosso – UNEMAT, Cáceres, Brasil.

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