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ISSN: 2595-8402

DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025

 

ARTIGO ORIGINAL

Influência Epigenética e Ambiental na Interconexão Transgeracional do Trauma

Ellen Caroline Oliveira Santos1; Francielle Bonet Ferraz2

 

Como Citar:

SANTOS, Ellen Caroline Oliveira; FERRAZ, Francielle Bonet. Influência Epigenética e ambiental na interconexão transgeracional do trauma. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 930-942, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025102418

 

DOI: 10.61411/rsc2025102418

 

Área do conhecimento:

Ciências Humanas

Sub-área:

Psicologia

 

Palavras-chaves: herança psíquica; trauma transgeracional; epigenética; fatores ambientais; saúde mental.

 

Publicado: 7 de maio de 2025.

 


 

 

RESUMO

Com base em uma revisão narrativa, este artigo explora como experiências traumáticas afetam não apenas os indivíduos diretamente envolvidos, mas também gerações futuras, por meio de mecanismos epigenéticos e fatores ambientais. A epigenética revela alterações na expressão gênica — sem modificações no DNA — que podem resultar em hipersensibilidade ao estresse e vulnerabilidade a transtornos psiquiátricos. Simultaneamente, ambientes adversos amplificam os impactos do trauma, perpetuando padrões disfuncionais em contextos familiares e sociais. Além de destacar os efeitos psíquicos, esses processos não são irreversíveis. Intervenções terapêuticas, como psicoterapia e terapias focadas em traumas, aliadas a ambientes acolhedores, podem romper o ciclo intergeracional, promovendo resiliência e saúde emocional. A análise ressalta a importância de compreender os fatores biológicos e ambientais que moldam a transmissão do trauma, bem como de desenvolver estratégias eficazes para mitigar seus impactos, assegurando um futuro mais saudável para as próximas gerações.

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Epigenetic and Environmental Influence on the Transgenerational Interconnection of Trauma

 

ABSTRACT

Based on a narrative review, this article explores how traumatic experiences affect not only the individuals directly involved, but also future generations, through epigenetic mechanisms and environmental factors. Epigenetics reveals changes in gene expression — without DNA modifications — that can lead to hypersensitivity to stress and vulnerability to psychiatric disorders. Simultaneously, adverse environments amplify trauma impacts, perpetuating dysfunctional patterns in family and social contexts. Psychic effects are not irreversible. Therapeutic interventions, such as psychotherapy and trauma-focused therapies, combined with nurturing environments, can disrupt the intergenerational cycle, fostering resilience and emotional health. This analysis underscores the importance of understanding the biological and environmental factors shaping trauma transmission and developing effective strategies to mitigate its impacts, ensuring a healthier future for subsequent generations.

KEYWORDS: transgenerational trauma, epigenetics, environmental factors, mental health, psychological inheritance.

 

    • INTRODUÇÃO

Em uma análise crítica, observa-se que uma parcela significativa da sociedade passa por experiências traumáticas ao longo da vida. Segundo Americano e Ferraz [2], uma proporção significativa da população já vivenciou eventos profundamente traumáticos. Nesse contexto, diversos estudos têm se voltado à análise do trauma, abordando não apenas os efeitos diretos sobre o indivíduo afetado, mas também as consequências transgeracionais do trauma psíquico.

Conforme destacado por Saramago et al. [10], a família desempenha um papel fundamental como agente e espaço de transmissão psíquica. A família age como uma ponte pela qual traumas, medos e experiências emocionais profundas são transmitidos de uma geração para outra, inconsciente ou não. Isso ocorre porque o ambiente e a herança genética familiar influenciam não só a formação da identidade individual, mas também a maneira como os indivíduos interpretam e reagem a experiências adversas [10].

Dentro dessa perspectiva, avanços nos estudos na epigenética têm revelado como experiências traumáticas podem deixar "marcas" biológicas que são transmitidas transgeracionalmente sem alterar diretamente a sequência de DNA, mas influenciando a expressão dos genes [10].

Dessa forma, o presente artigo se propõe a realizar uma pesquisa narrativa abrangente, cujo objetivo é revisitar, analisar e apontar as contribuições de diferentes autores sobre o tema, com ênfase nas influências epigenéticas e nos fatores ambientais que moldam o indivíduo e facilitam a transmissão intergeracional de traumas. Esta análise se fundamenta na necessidade de compreender os mecanismos biológicos e ambientais que influenciam essa transmissão, destacando como o ambiente familiar e social influencia a perpetuação de padrões traumáticos. O estudo busca, portanto, esclarecer os processos envolvidos na transmissão do trauma, bem como identificar estratégias e intervenções que possam contribuir para mitigar ou até mesmo interromper esse ciclo, reduzindo a probabilidade de que traumas sejam perpetuados ao longo das gerações.

 

    • METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de natureza narrativa, cujo objetivo é explorar, descrever e integrar diferentes perspectivas teóricas sobre a influência epigenética e ambiental na transmissão transgeracional do trauma. Essa revisão permite reunir e sintetizar o conhecimento existente sobre o tema, oferecendo uma visão abrangente, sem seguir protocolos rígidos de análise. De acordo com Rother [9], a revisão narrativa é um recurso valioso para proporcionar ao leitor uma ampla compreensão sobre determinado tema por meio da integração e interpretação de achados oriundos de diferentes estudos. Assim, o estudo adota uma abordagem crítica e interpretativa, permitindo a contextualização dos fenômenos em análise.

Para a realização da pesquisa, foi conduzido um levantamento em fontes alternativas e plataformas online de acesso público e acadêmico, como Google Acadêmico e SciELO. O processo de busca foi guiado por palavras-chave relevantes, incluindo: traumas, traumas transgeracionais, epigenética, herança psíquica e esquizofrenia. Apenas publicações em língua portuguesa disponíveis nessas plataformas foram consideradas.

Após o levantamento inicial dos dados, foi realizada a seleção final dos artigos utilizados na confecção deste estudo. A escolha dos materiais baseou-se na análise criteriosa dos resumos dos estudos encontrados, com o objetivo de identificar aqueles cujas temáticas convergissem com os objetivos da presente pesquisa, nas quais abordassem a relação entre traumas psicológicos e a transgeracionalidade psíquica desses traumas, considerando, de forma integrada, as influências epigenéticas e ambientais.

 

    • DESENVOLVIMENTO E DISCUSSÃO

      • TRAUMA E A SUA TRANSGERACIONALIDADE PSÍQUICA

Historicamente, o conceito de trauma passou por uma significativa transformação em sua definição e abordagem científica. Segundo Reis e Ortega [8], o trauma inicialmente era associado a lesões físicas observáveis, limitadas ao dano tecidual e foi progressivamente reinterpretado para englobar aspectos psicológicos e emocionais que transcendem as fronteiras da materialidade corporal. Esse deslocamento conceitual refletiu uma ampliação no escopo das investigações sobre o trauma, que passou a ser compreendido também como um fenômeno ligado à subjetividade humana. Como afirmam Reis e Ortega [8], “O trauma, então, transpõe suas referências imediatas à lesão tecidual e ressurge aplicado à superfície incerta e desconhecida da subjetividade”. Assim, o trauma deixou de ser exclusivamente uma questão de dano físico visível e passou a incorporar as complexas dimensões internas do sofrimento humano, caracterizando-se como uma experiência multifacetada e desafiadora para as ciências da saúde.

As experiências traumáticas possuem uma relação complexa com estímulos emocionais e sensoriais. Segundo Reis e Ortega [8], esses registros não apenas moldam esquemas cognitivos que serão mobilizados em situações futuras, mas também podem ser reativados por estímulos aparentemente neutros, capazes de evocar sensações e reações alinhadas ao momento do trauma. Tal dinâmica ressalta a intricada interação entre memória, emoção e percepção sensorial, demonstrando a persistência dos efeitos traumáticos ao longo do tempo [8].

Os traumas consolidam-se em memórias traumáticas, as quais se caracterizam por serem intensamente vívidas e emocionalmente carregadas, em nítido contraste com a fluidez característica das memórias cotidianas. Essas memórias apresentam três propriedades fundamentais: elevada precisão, persistência intrusiva e recorrência notável, aspectos essenciais a serem considerados na análise de sua dinâmica e impacto [8].

Nesse contexto, Saramago et al. [10] ressaltam que compreender a transmissão psíquica geracional exige um olhar atento às memórias que constituem essa cadeia genealógica, sendo esse processo um ponto central para o início de uma trajetória de transformação e recuperação.

A transmissão do trauma geracional pode ocorrer por diferentes vias, sendo uma delas a ausência de reconhecimento do trauma psíquico pelo indivíduo em sua percepção do “eu”. A falta de reconhecimento do trauma interfere diretamente na disposição do indivíduo em buscar tratamento, perpetuando seu estado atual sem intervenção e, consequentemente, sem perspectivas de melhora significativa no indivíduo e aumentando a probabilidade de transmissão. Conforme argumentam Saramago et al. [10]:

 

“A transgeracionalidade psíquica do trauma remete-nos para o irrepresentável de uma história familiar impensada. Trauma vergonhoso ou secreto que insere o sujeito numa cadeia genealógica e o faz transportar um sofrimento que não é somente o seu” [10].

 

Considerando os estudos citados sobre o trauma e sua transgeracionalidade psíquica, serão exploradas, a partir disso, as influências epigenéticas e ambientais que contribuem para esse fenômeno.

 

      • INFLUÊNCIAS EPIGENÉTICAS NA TRANSGERACIONALIDADE DO TRAUMA

A epigenética, entendida como o estudo de modificações funcionais no DNA que não envolvem alterações em sua sequência nucleotídica, desempenha um papel crucial na transmissão intergeracional de traumas [4]. Essas modificações são reguladas por mecanismos epigenéticos, como a metilação do DNA, que modulam a expressão gênica sem alterar a estrutura básica do genoma. Nesse contexto, experiências traumáticas vivenciadas por uma geração podem induzir alterações epigenéticas que afetam o funcionamento do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), essencial na regulação da resposta ao estresse. Tais modificações alteram a sensibilidade dos receptores de glicocorticoides, contribuindo para a desregulação do eixo HPA e resultando em maior reatividade ao cortisol [4].

Os primeiros estudos que identificaram evidências de herança epigenética associada a traumas concentraram-se em populações expostas a eventos de extrema adversidade, como sobreviventes de guerras, genocídios e outras catástrofes de impacto coletivo. Esses estudos revelaram alterações epigenéticas específicas, como padrões de metilação em genes relacionados à regulação do estresse, que estavam presentes tanto nos indivíduos expostos diretamente ao trauma quanto em seus descendentes. Tais achados sugerem que os efeitos de eventos traumáticos ultrapassam as experiências individuais, criando marcas biológicas que podem ser transmitidas entre gerações [4]. Essa herança epigenética não apenas reforça a relevância do fenômeno na transmissão transgeracional do trauma, mas também fornece uma base científica para compreender como fatores ambientais e históricos moldam a saúde física e mental de gerações futuras.

Além disso, as modificações epigenéticas associadas a traumas podem afetar sistemas biológicos essenciais. No sistema nervoso central, essas modificações afetam a expressão de genes relacionados à neuroplasticidade, regulação do humor e resposta ao estresse, contribuindo para o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos. Conforme afirmado por Silva [11], “os fatores epigenéticos interagem com predisposições genéticas, contribuindo para respostas neuroendócrinas anormais e alterações na plasticidade neuronal, o que pode amplificar vulnerabilidades psíquicas”, ocasionando em grandes implicações para a saúde mental e física.

Por fim, as alterações epigenéticas também podem ser revertidas, apontando para a possibilidade de intervenções terapêuticas direcionadas. Como afirma Silva [11], “as marcas epigenéticas são duradouras, mas não irreversíveis, oferecendo perspectivas para tratamentos que promovam mudanças benéficas em gerações futuras”. Assim, a compreensão aprofundada desses mecanismos é essencial para romper o ciclo de transmissão transgeracional de traumas.

 

      • INFLUÊNCIAS AMBIENTAIS NA TRANSGERACIONALIDADE DO TRAUMA

A transmissão epigenética transgeracional não se limita à dimensão genética; ela é fortemente influenciada pelo ambiente, especialmente em contextos marcados por negligência ou exposição a situações hostis durante a infância. Ambientes adversos podem amplificar os efeitos de traumas precoces, deixando marcas duradouras no DNA e na estrutura cerebral. Essas alterações epigenéticas não apenas afetam o indivíduo, mas também podem ser transmitidas às gerações subsequentes, contribuindo para a perpetuação de padrões de vulnerabilidade emocional e sofrimento psíquico [4]. Assim, o ambiente atua como um mediador crítico no processo de transmissão, enfatizando a necessidade de intervenções que promovam condições de vida saudáveis e seguras para romper esse ciclo intergeracional.

A literatura frequentemente oferece analogias poderosas para explorar temas complexos, como a transmissão de traumas entre gerações. O livro infantojuvenil "A Cidade dos Carregadores de Pedras" [3], oferece uma poderosa analogia para compreender como traumas e padrões emocionais são transmitidos entre gerações, destacando o papel do ambiente na formação e perpetuação dessas dinâmicas. Na história, o ato de carregar pedras desde o nascimento representa os fardos emocionais, sociais e culturais herdados sem questionamento, evidenciando como o ambiente familiar e comunitário condiciona a maneira como os indivíduos enfrentam suas realidades.

O ambiente desempenha um papel crucial na manutenção desses ciclos, pois é através das relações interpessoais e das normas sociais que os "pesos" simbólicos se perpetuam. A decisão de Pedrinho, o protagonista, de questionar a necessidade de carregar pedras, aponta para a possibilidade de intervenção ambiental e crítica reflexiva como ferramentas para romper padrões intergeracionais [3]. Nesse sentido, o livro destaca que o ambiente não é apenas um cenário passivo, mas um agente ativo na formação e transformação das heranças emocionais.

Ao abordar o impacto do ambiente, a metáfora literária de Sandra Branco [3] reforça a ideia de que as cargas emocionais herdadas não se limitam à genética, mas também são moldadas pelas experiências individuais e coletivas vividas no meio em que se está inserido. Essa perspectiva é fundamental para a compreensão do trauma transgeracional, pois evidencia como os aspectos emocionais e culturais influenciam a perpetuação de padrões e reforça a importância de intervenções ambientais para mitigar os efeitos nocivos desses traumas.

Além disso, um ambiente hostil, caracterizado por violência, instabilidade ou privação, desempenha um papel significativo na formação de traumas psicológicos. Nesse contexto, a exposição contínua a situações adversas pode impactar profundamente a constituição subjetiva do indivíduo, criando marcas que afetam o desenvolvimento psicológico, emocional e comportamental. A violência, em particular, não apenas ameaça a integridade física, mas também desafia a capacidade de resiliência e adaptação psíquica, frequentemente resultando em danos que repercutem ao longo da vida. Nesse sentido, a citação de Reis e Ortega [8] oferece uma perspectiva essencial:

 

"A possibilidade de conversão da violência em dano traumático marca a inauguração do compromisso fenômeno-sintoma no domínio da causalidade traumática, porém ainda mais especialmente determina a própria liberação da racionalidade ocidental para a admissão da capacidade de um evento ser o provocador de uma modificação vindoura na montagem subjetiva de um indivíduo" [8].

 

Essa análise ressalta que a violência, ao ser convertida em trauma, não se limita a uma experiência pontual, mas atua como um agente transformador da subjetividade. Em ambientes hostis, a frequência de eventos traumáticos aumenta a probabilidade de que essas modificações interfiram na estrutura psicológica do indivíduo, resultando em sintomas que podem variar de reações imediatas de luta ou fuga a transtornos persistentes.

 

      • IMPACTOS DO TRAUMA: TRANSTORNOS MENTAIS

Entre os fatores associados aos transtornos mentais, destacam-se o abuso sexual infantil e o abuso por intimidação, que impactam tanto o bem-estar psicológico imediato quanto a expressão epigenética de genes relacionados ao estresse e à vulnerabilidade, perpetuando o ciclo de sofrimento entre gerações. Esse impacto é agravado pela alta prevalência de incapacidade funcional e pela redução da expectativa de vida em indivíduos com transtornos mentais graves, frequentemente associados a condições socioeconômicas desfavoráveis. De acordo com a Organização Mundial da Saúde [6], em 2019, aproximadamente um bilhão de pessoas, incluindo 14% dos adolescentes globalmente, conviviam com algum transtorno mental. Nesse contexto, o suicídio representou mais de 1% das mortes registradas, sendo que 58% dos casos ocorreram em indivíduos com menos de 50 anos. Além disso, os transtornos mentais configuram-se como a principal causa de incapacidade, correspondendo a um sexto dos anos vividos com limitação, e indivíduos com condições graves de saúde mental apresentam uma expectativa de vida reduzida em 10 a 20 anos em comparação à população geral, principalmente devido a doenças físicas evitáveis [6].

 Traumas precoces estão relacionados ao aumento de marcadores inflamatórios, como citocinas pró-inflamatórias, e à desregulação epigenética de genes ligados à neuroplasticidade, comprometendo a funcionalidade sináptica em regiões corticais afetadas por traumas psicóticos, incluindo aqueles associados à esquizofrenia [5]. Eventos traumáticos na adolescência, como violência urbana e discriminação, podem amplificar essas alterações, elevando o risco e a gravidade dos transtornos em indivíduos geneticamente predispostos.

 A esquizofrenia, um transtorno mental multifatorial, possui etiologia influenciada por predisposições genéticas, modificações epigenéticas e fatores ambientais, com o trauma infantil desempenhando um papel central. Experiências traumáticas precoces, como abuso e negligência, alteram mecanismos epigenéticos, como a metilação do DNA e modificações de histonas, resultando em hipersensibilidade ao estresse e predispondo ao desenvolvimento de transtornos psicóticos [7].

 Tais evidências destacam a importância de uma abordagem biopsicossocial no manejo da esquizofrenia, considerando o trauma como um elemento central na interação entre fatores epigenéticos e ambientais que moldam sua expressão fenotípica. Experiências adversas, como abuso sexual infantil e violência por intimidação, impactam tanto o bem-estar psicológico imediato quanto a expressão epigenética de genes relacionados ao estresse e à vulnerabilidade, perpetuando o sofrimento entre gerações. Esse ciclo é agravado pela alta prevalência de incapacidade funcional, pela redução da expectativa de vida em indivíduos com transtornos mentais graves e por condições socioeconômicas desfavoráveis, reforçando a necessidade de intervenções que interrompam a transmissão transgeracional de traumas.

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    • CONSIDERAÇÕES FINAIS

A interconexão transgeracional do trauma é um fenômeno complexo que combina influências epigenéticas e ambientais, ultrapassando a vivência individual e impactando gerações. Este estudo evidenciou que traumas psíquicos vão além de experiências isoladas, envolvendo mudanças biológicas e padrões comportamentais que se perpetuam em contextos familiares e sociais. Essas experiências carregam um sofrimento coletivo e multifacetado, muitas vezes silenciado ou ignorado.

Os mecanismos epigenéticos ajudam a compreender como os traumas podem provocar alterações na expressão gênica sem alterar o DNA, enquanto os fatores ambientais, como ambientes adversos marcados por violência ou negligência, reforçam padrões emocionais e culturais disfuncionais. Essas dinâmicas contribuem para a predisposição e agravamento de transtornos psicopatológicos, prejudicando tanto o indivíduo quanto a sociedade.

No entanto, essas alterações, apesar de profundas e capazes de moldar comportamentos e predisposições ao longo do tempo, não são definitivas. Avanços no campo da saúde mental demonstram que é possível intervir de maneira eficaz, promovendo mudanças positivas na forma como os indivíduos e suas famílias lidam com essas marcas. Intervenções terapêuticas, como a psicoterapia individual, que trabalha diretamente as emoções e memórias traumáticas, e a terapia familiar, que busca restaurar dinâmicas saudáveis no núcleo doméstico, oferecem caminhos valiosos para a ressignificação dessas experiências.

Além disso, abordagens específicas, como terapias focadas em traumas, ajudam a reduzir a carga emocional associada a esses eventos, permitindo que os indivíduos reconstruam narrativas pessoais mais resilientes. Quando combinadas com a criação de ambientes acolhedores e estáveis — seja no âmbito doméstico, comunitário ou institucional —, essas práticas podem interromper ciclos intergeracionais de sofrimento e oferecer novas oportunidades para o desenvolvimento emocional e social.

Por fim, o entendimento gerado por estudos nessa área é essencial para inspirar ações que transformem um legado de dor em superação, promovendo o fortalecimento de famílias e comunidades e assegurando um futuro mais saudável para as próximas gerações.

 

    • DECLARAÇÃO DE DIREITOS

As autoras/declaram ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declaram que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do(s) autor(s), e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declaram respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declaram não cometer plágio ou autoplágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.

 

    • REFERÊNCIAS

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

  • AMERICANO, L. T.; FERRAZ, T. C. P. Além da experiência do trauma: uma revisão narrativa sobre o transtorno do estresse traumático secundário. Cadernos de Psicologia, Juiz de Fora, v. 5, n. 9, p. 243–267, jan./jun. 2023. Disponível em: https://www.researchgate.net. Acesso em: 17 jan. 2025.

  • BRANCO, S. A cidade dos carregadores de pedras. São Paulo: Cortez, 2010

  • JEFFERSON, J. Conexão cíclica entre traumas transgeracionais, ambiente hostil, mecanismos epigenéticos e o hormônio cortisol. Revista Conexão Cíclica, v. 3, n. 4, p. 225-232, 2023.

  • O'DONOHUE, W.; FOWLER, K. A.; LILIENFELD, S. O. (Org.). Transtornos de personalidade: em direção ao DSM-V. São Paulo: Roca, 2010.

  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. OMS divulga Informe Mundial de Saúde Mental: transformar a saúde mental para todos. ​​ OMS, 2022. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/oms-divulga-informe-mundial-de-saude-mental-transformar-a-saude-mental-para-todos/. Acesso em: 2 dez. 2024.

  • PLOMIN, R.; DEFRIES, J. C.; KNOPIK, V. S.; NEIDERHISER, J. M. Genética do comportamento. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.

  • REIS, R.; ORTEGA, F. As raízes do trauma: uma revisão sobre a história do psicotraumatismo. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 30, e2023039, 2023. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702023000100039. Acesso em: 2 dez. 2024.

  • ROTHER, E. T. Revisão narrativa x revisão sistemática. Revista Brasileira de Medicina, São Paulo, v. 64, n. 1, p. 84-88, 2007.

  • SARAMAGO, F. M.; ABRANTES, M. J.; MADUREIRA, I. L.; ALEXANDRE, A.; LENCASTRE, M. P. A. Mantendo vivo o que já está morto: A transgeracionalidade psíquica do trauma. Revista Portuguesa de Psicanálise, [S. l.], v. 40, n. 2, 2020. DOI: 10.51356/rpp.402a4. Disponível em: https://www.rppsicanalise.org/index.php/rpp/article/view/38. Acesso em: 2 dez. 2024.

  • ​​ SILVA, A. P. . Epigenética, transtornos mentais e psicoterapia. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 5, p. 2164-2182, 2024. DOI: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2024v6n5p2164-2182.

1

​​ Discente do curso de Psicologia na Faculdade Carajás, Marabá, Brasil.

2

​​ Docente Faculdade Carajás e UEPA, Marabá, Brasil.

 

 

 

 


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