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ISSN: 2595-8402

Journal DOI: 10.61411/rsc31879

REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 7, NÚMERO 1, ANO 2024
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ARTIGO ORIGINAL

Redução dos sentimentos ansiosos e depressivos no ambiente de trabalho: uma intervenção por meio do mindfulness

Annibal Gouvêa Franco1; Melissa Marcílio Batista2; Ronaldo Guimarães Gouvêa3

 

Como Citar:

FRANCO; Annibal Gouvêa, BATISTA; Melissa Marcílio, GOUVÊA; Ronaldo Guimarães. Redução dos sentimentos ansiosos e depressivos no ambiente de trabalho: uma intervenção por meio do mindfulness. Revista Sociedade Científica, vol. 7, n. 1, p.191-212, 2024.
https://doi.org/10.61411/rsc202413817

 

DOI:10.61411/rsc202413817

 

Área do conhecimento: Ciências Sociais Aplicada.

Sub-área: Administração de Recursos Humanos.

 

Palavras-chaves: Mindfulness, Ansiedade. Depressão, Ambiente Corporativo.

 

Publicado: 09 de janeiro de 2024

Resumo

O presente artigo relata um projeto de extensão curricular sobre o mindfulness, realizado com o apoio da Universidade Santa Cecília em 2022. O objetivo foi estudar a aplicação do mindfulness no ambiente corporativo para reduzir a ansiedade e a depressão dos colaboradores. O projeto se baseou em uma abordagem transdisciplinar, alinhada aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente o de promover a saúde e o bem-estar. A motivação deste estudo foi a preocupação com a saúde mental no trabalho, evidenciada pela Síndrome de Burnout. A metodologia incluiu a revisão teórica e a aplicação de inventários de ansiedade e depressão, com resultados que mostraram a eficácia do mindfulness na redução desses sintomas. O estudo conclui que o mindfulness no ambiente corporativo pode trazer benefícios para a saúde emocional dos colaboradores, e recomenda futuros estudos e intervenções nessa área. O artigo contribui para a compreensão dos impactos positivos do mindfulness no ambiente de trabalho, e fornece subsídios para a implementação de programas de bem-estar emocional e saúde mental no contexto empresarial.

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1.Introdução

O presente artigo apresenta um referencial teórico sobre o mindfulness, acompanhado de um relatório com os resultados de um projeto experimental de extensão curricular, realizado voluntariamente em 2022, com o apoio e registro da [19] ​​ e apresentado ao curso de Processos Gerenciais. A extensão curricular passou a configurar-se como necessária para suplementar a formação profissional superior, compreendendo caráter educativo, cultural, social, político e científico e, com perfil transdisciplinar, visa articular o ensino e a pesquisa de forma indissociável. Intenciona-se através desse componente curricular aproximar as discussões em sala de aula dos problemas e questões da comunidade externa, estimulando o compartilhamento de saberes para muito além do domínio físico da Universidade e tornando o conhecimento verdadeiramente inclusivo. Conforme a [17], as atividades de extensão curricular devem, a partir de 2022, configurar 10 % (dez por cento) do total da carga horária na matriz curricular dos cursos de graduação.

Este projeto foi elaborado com foco na aplicação do mindfulness no ambiente corporativo. Ele tem como eixo um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS – da Organização das Nações Unidas para 2030, sendo eleito o terceiro: “Objetivo 3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades”, vide [2].

[6] Apresenta um estudo associando a meditação à melhoria da qualidade de vida no ambiente de trabalho. A referida autora conclui que: “...a aplicação do treinamento mindfulness em ambiente empresarial traz outros benefícios imensuráveis gerais, além da melhoria da qualidade de vida de seus funcionários. Mais estudos controlados e com maior tempo de follow up se fazem necessários.” Como principal justificativa da importância deste presente projeto, desde 01 de janeiro de 2022, entrou em vigor a [20], ​​ CID 11, a nova classificação que oficializa a Síndrome de Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional, como “estresse crônico de trabalho que não foi administrado com sucesso”.

Ainda em relação à Síndrome de Burnout, [1] ​​ afirma que esta temática: “...tem sido objeto de pesquisas em diversos países e é considerado um problema global. Portanto, a frequência e distribuição da Síndrome de Burnout tornaram-se algo de preocupação global, razão pela qual tem sido objeto de pesquisa.”

No Brasil, segundo pesquisas da [12], 32% dos trabalhadores sofrem da Síndrome de Burnout (nível devastador de estresse), com proporções semelhantes às do Reino Unido. Ressalta-se ainda que na Alemanha, mesmo com carga horária reduzida entre os países desenvolvidos, 8% da força de trabalho apresenta sinais de burnout. Nesse contexto, as doenças mentais associadas ao trabalho ocupam o terceiro lugar entre as razões pelas quais os trabalhadores brasileiros recebem seguro de invalidez do INSS, segundo dados obtidos por [15].

Ainda segundo [15], a queda na produtividade, principalmente quando a doença atinge a população economicamente ativa, impõe um custo enorme ao país devido à queda indireta no crescimento econômico. Os autores também afirmam que o fardo da exclusão social pode agravar ainda mais o sofrimento prolongado do paciente, contribuindo para o ciclo de exaustão. Logo, esta condição não faz nada para melhorar seu estado físico e mental. Sendo assim, minimizar o desenvolvimento ou deterioração de condições que gerem novos pagamentos de benefícios é fundamental para o equilíbrio fiscal da previdência pública.

Sabe-se que grandes empresas aplicam o mindfulness em seus funcionários visando o bem-estar dos mesmos. Segundo [8], dentre várias empresas, cita a Google, que possui um programa nomeado “Search Inside Yourself”, que introduziu a atenção plena para mais de 1.000 funcionários.

Como hipótese, uma possível alternativa para a redução do stress e/ou sintomas depressivos no trabalho se dá pela prática do mindfulness, metodologia utilizada no desenvolvimento deste presente programa. Em contrapartida, cabe inicialmente apresentar [13], o fundador do MBSR (Mindfulness-Based Stress Reduction) e os autores [3], que apresentaram um estudo com o objetivo identificar os efeitos da meditação mindfulness guiada sobre ansiedade e estresse em estudantes universitários “pré-med”, ou seja, que tem interesse de se tornarem médicos.

Para a realização do presente artigo, será utilizada uma abordagem metodológica fundamentada na revisão teórica, para embasar a construção do arcabouço conceitual e, uma metodologia explicativa, por meio de métodos experimentais. A pesquisa experimental tem como objetivo comprovar a hipótese apresentada, envolvendo a eficácia da utilização do mindfulness na redução do stress e/ou sintomas depressivos no trabalho.

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2.Referencial teórico

[13] situa as origens do mindfulness no contexto religioso budista, sendo praticado há milhares de anos nos mosteiros e templos. No entanto, nos últimos anos, a prática se expandiu para além do contexto religioso e se tornou secular. Com a popularização do mindfulness no Ocidente, muitas pessoas têm procurado essa prática como uma forma de lidar com o estresse e os desafios da vida moderna. O Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR) foi uma das primeiras intervenções em saúde mental que incorporou mindfulness em sua estrutura e, é um exemplo de como essa prática foi adaptada ao contexto ocidental e secular.

Ainda segundo [13], a intervenção por meio do MBSR foi desenvolvida por ele em 1979, como uma forma de reduzir o estresse e melhorar a qualidade de vida de pacientes com dor crônica, e inclui várias práticas formais de mindfulness, como a meditação sentada, a meditação caminhando e as práticas de yoga. Além disso, práticas informais de mindfulness, como prestar atenção plena durante as atividades diárias, são incorporadas ao programa por meio de tarefas de casa e exercícios diários. Com o tempo, muitos outros grupos passaram a adotar o MBSR como uma intervenção eficaz para tratar uma variedade de problemas de saúde mental. Portanto, embora o mindfulness tenha raízes religiosas, sua adaptação ao contexto secular a tornou acessível a um público muito mais amplo.

[13] situa as origens do mindfulness no contexto religioso budista, sendo praticado há milhares de anos nos mosteiros e templos. No entanto, nos últimos anos, a prática se expandiu para além do contexto religioso e se tornou secular. Com a popularização do mindfulness no Ocidente, muitas pessoas têm procurado essa prática como uma forma de lidar com o estresse e os desafios da vida moderna. O Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR) foi uma das primeiras intervenções em saúde mental que incorporou mindfulness em sua estrutura e, é um exemplo de como essa prática foi adaptada ao contexto ocidental e secular.

[3] afirmam que os estudantes universitários “pré-med” passam por muito estresse e associam isso, dentre outras consequências negativas, níveis de ansiedade e depressão aumentados. No artigo dos supracitados autores [3], os alunos voluntários completaram de 5 a 12 minutos de meditação, 6 dias por semana, durante 8 semanas. Após o experimento, conclui-se que a prática da meditação mindfulness diária, dentro da duração, frequência e período supracitados, está associada à diminuição do estresse e da ansiedade e, maiores mudanças no aumento da atenção plena foram observadas nos estudantes que praticaram meditação por mais minutos.

Anteriormente, [4] apresentaram uma revisão sistemática e meta-análise sobre a eficácia da Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT) no tratamento de transtornos psiquiátricos. Os referidos autores encontraram evidências positivas da eficácia da MBCT na redução de sintomas de depressão e ansiedade, bem como na prevenção de recaídas em pacientes com histórico de depressão recorrente.

[5] exploram os efeitos da prática de mindfulness na regulação emocional e no processamento do estresse, com foco nas alterações observadas no cérebro e no sistema imunológico. Os autores destacam a capacidade do mindfulness em ajudar as pessoas a lidar melhor com suas emoções e a reduzir a reatividade emocional e discutem como a atenção plena pode aumentar a atividade no córtex pré-frontal, a região do cérebro associada ao controle emocional, enquanto diminui a atividade na amígdala, uma estrutura relacionada ao processamento de emoções negativas.

Os referidos autores apresentam estudos de neuroimagem que mostram mudanças estruturais no cérebro associadas a esta prática. Essas mudanças incluem um aumento na densidade de matéria cinzenta em áreas relacionadas à atenção, autopercepção e regulação emocional. [5] concluem que a prática de mindfulness pode produzir alterações significativas no cérebro e no sistema imunológico, o que pode contribuir para a melhoria da regulação emocional e do enfrentamento do estresse.

Ainda em relação às mudanças estruturais no cérebro associadas à prática de mindfulness, os autores [7], [9] e [11] exploram a relação entre a prática de mindfulness e as alterações na estrutura cerebral. O estudo de [11] é um dos primeiros a investigar as mudanças específicas na densidade da matéria cinzenta associadas ao mindfulness. Seus resultados mostram um aumento na densidade de matéria cinzenta em regiões cerebrais importantes para a regulação emocional, como o córtex pré-frontal, sugerindo que a prática de mindfulness pode induzir mudanças positivas na arquitetura cerebral relacionada à autorregulação emocional.

O estudo de [7] destaca-se por sua abordagem abrangente na forma de uma revisão sistemática e meta-análise. Ao analisar dados de múltiplos estudos, os autores conseguiram fornecer uma visão geral mais ampla dos efeitos da meditação na estrutura cerebral. Eles relatam evidências consistentes de alterações em várias áreas do cérebro, incluindo aquelas envolvidas no processamento de emoções e autopercepção, corroborando as descobertas de [11] e reforçando o papel do mindfulness na neuroplasticidade cerebral.

Por sua vez, o estudo de [9] acrescentam outra perspectiva importante à relação entre mindfulness e cérebro, ao investigar especificamente o volume da amígdala. Seus resultados sugerem que a prática de meditação e yoga pode estar associada a um menor volume da amígdala direita, uma região relacionada ao processamento de emoções negativas e ao estresse. Essa descoberta destaca uma possível via através da qual o mindfulness pode exercer seus efeitos na regulação emocional e no processamento do estresse.

[18] fornecem uma visão abrangente dos estudos envolvendo as neurociências e a sua relação com a meditação mindfulness. Os referidos autores revisam um amplo espectro de pesquisas e literatura científica, abordando múltiplos aspectos do cérebro e sistemas neurais envolvidos na prática de meditação mindfulness e destacam a importância da prática regular de meditação mindfulness para induzir mudanças na plasticidade cerebral, ou seja, a capacidade do cérebro de se adaptar e mudar em resposta à experiência. Essas mudanças estruturais podem estar associadas a benefícios para a saúde mental, bem como para a melhoria da regulação emocional e da atenção plena

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3.Metodologia

Para a execução deste presente trabalho, como supracitado, inicialmente foi utilizada uma abordagem metodológica fundamentada na revisão teórica, para embasar a construção do arcabouço conceitual. A partir deste ponto, para a realização de um experimento envolvendo o mindfulness e a obtenção e análise dos seus resultados, foi utilizada uma metodologia explicativa, por meio de métodos experimentais. Logo, como procedimento, foi adotada a pesquisa experimental com o objetivo de comprovar a eficácia da utilização do mindfulness na redução do stress e/ou sintomas depressivos no trabalho. Os resultados foram obtidos por meio de uma pesquisa quali-quanti onde, por meio da divulgação deste projeto nas redes sociais do autores, foi selecionado um pequeno grupo de voluntários. Após a explicação do projeto, 30 interessados se candidataram. Entretanto, somente 9 pessoas se comprometeram a submeterem-se à participação no experimento onde, por 30 dias (diariamente) e por 12 minutos, foram feitas sessões virtuais de meditação mindfulness em grupo, lideradas pelos autores deste projeto.

Foi recomendado aos voluntários que participassem todos os dias, ou na impossibilidade, na maioria dos dias da semana, lembrando que os autores [3] recomendavam a prática por seis dias na semana; a escolha do tempo de 12 minutos, propiciando maiores resultados, também foi embasada nos referidos autores. No caso da impossibilidade de algum voluntário participar de uma ou mesmo todas as sessões em grupo, foram enviados áudios de meditação mindfulness guiada para que pudessem continuar praticando, preferencialmente, diariamente.

O experimento, oficialmente, teve a duração de 30 dias, recomendando que os participantes tivessem uma prática frequente por um período mínimo de 4 semanas (28 dias). A escolha deste período foi embasada em [16]. Ela apresenta a “Redução de Estresse Baseada em Mindfulness”, que é comumente estabelecida por 8 semanas, mas que há relato de resultados em períodos menores, como em [14] apud [16], que obteve benefícios em 4 semanas, apesar de ser recomendada uma prática vitalícia para a manutenção dos resultados.

Os nove candidatos que concluíram este presente projeto responderam aos formulários “Questionário Inicial” e “Questionário Final”. Em ambos os questionários, os voluntários foram instruídos a preencherem os seguintes inventários: “Inventário de Ansiedade de A Mente Vencendo o Humor” e “Inventário de Depressão de A Mente Vencendo o Humor”, ambos baseados em [10].

Observe abaixo as figuras 1 e 2, compostas pelos dois inventários que foram utilizados neste experimento:

Figura 1 - “Inventário de Ansiedade de A Mente Vencendo o Humor”

 

Figura 2 - “Inventário de Depressão de A Mente Vencendo o Humor”

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4.Desenvolvimento e discussão

Após o término do projeto, a fim de verificar a assiduidade dos participantes, foi perguntado: “Durante os 30 ou mais dias de Mindfulness, em média quantos dias na semana você praticou as meditações? - Considerando sozinho(a) e/ou em grupo” (Figura 3). A verificação de assiduidade nas práticas meditativas teve como objetivo a compreensão dos resultados obtidos.

 

Figura 3 – Resultados

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Após a aferição da assiduidade, como supracitado, foi aplicado o “Inventário de Ansiedade de A Mente Vencendo o Humor”, baseado em ​​ [10]. Os seguintes resultados (antes e depois) obtidos a partir deste, dispostos em conjunto: antes – figura 4 e depois – figura 5.