Scientific Society Journal
ISSN: 2595-8402
DOI: https://doi.org/10.61411/rsc31879
REVISTA SOCIEDADE CIENTÍFICA, VOLUME 8, NÚMERO 1, ANO 2025
ARTIGO CURTO ORIGINAL
Ensino de Geografia e a Construção da Cidadania Crítica no Século XXI
Silvana Afonso Costa1; Fernando de Matos e Silva Silva2; Rogério da Silva de Aguiar Sato3
Como Citar:
COSTA, Silvana Afonso; SILVA, Fernando de Matos e Silva; SATO, Rogério da Silva de Aguiar. Ensino de Geografia e a Construção da Cidadania Crítica no Século XXI. Revista Sociedade Científica, vol. 8, n. 1, p. 1381-1386, 2025. https://doi.org/10.61411/rsc2025107118
DOI: 10.61411/rsc2025107118
Área do conhecimento:
Educação
Sub-área:
Geografia
Palavras-chaves: Geografia Crítica; Cidadania; Ensino de Geografia; Educação Emancipadora.
Publicado: 30 de julho de 2025.
.
.
.
.
..
.
.
.
Resumo
O artigo discute o papel do ensino de Geografia na formação de uma cidadania crítica no século XXI, destacando sua relevância diante dos desafios contemporâneos, como a crise ambiental, a intensificação das desigualdades e a disseminação da desinformação. A partir de uma abordagem fundamentada na Geografia Crítica, argumenta-se que o espaço geográfico deve ser compreendido como uma construção social, marcada por disputas de poder, contradições e múltiplas escalas de significado. Longe da memorização de conteúdos descritivos, o ensino de Geografia é concebido como um instrumento para desnaturalizar injustiças, compreender relações sociais e estimular a intervenção consciente na realidade. A reflexão teórica é ancorada em autores como Pontuschka, Lencione e Vesentini, que evidenciam a centralidade da análise do espaço para o desenvolvimento da consciência cidadã. O texto também explora estratégias pedagógicas que promovem o protagonismo discente, como o uso do espaço vivido como ponto de partida para a compreensão de fenômenos globais, a aplicação de geotecnologias (SIG, GPS, sensoriamento remoto) e a promoção de projetos de pesquisa-ação. Enfatiza-se ainda a importância do debate e da argumentação crítica em sala de aula como práticas fundamentais para a formação de jovens capazes de atuar em uma sociedade plural e complexa. O artigo conclui que o ensino de Geografia, ao incorporar uma perspectiva crítica e emancipadora, contribui significativamente para a formação de sujeitos conscientes, analíticos e engajados na transformação de suas realidades, reforçando a educação como ferramenta de emancipação social.
Teaching Geography and the Construction of Critical Citizenship in the 21st Century
Abstract
The article discusses the role of Geography education in fostering critical citizenship in the 21st century, emphasizing its relevance in the face of contemporary challenges such as the environmental crisis, growing inequalities, and the spread of misinformation. Grounded in Critical Geography, the argument posits that geographic space should be understood as a social construct shaped by power struggles, contradictions, and multiple scales of meaning. Rather than focusing on rote memorization of descriptive content, Geography education is conceived as a tool to denaturalize injustices, understand social relations, and encourage conscious intervention in reality. The theoretical reflection draws on scholars such as Pontuschka, Lencione, and Vesentini, who highlight the centrality of spatial analysis in developing civic awareness. The text also explores pedagogical strategies that promote student agency, including using lived experiences as a starting point for understanding global phenomena, applying geotechnologies (GIS, GPS, remote sensing), and implementing action-research projects. Additionally, it emphasizes the importance of classroom debates and critical argumentation as essential practices for nurturing young people capable of engaging with a plural and complex society. The article concludes that Geography education, when incorporating a critical and emancipatory perspective, significantly contributes to forming conscious, analytical, and engaged individuals who actively participate in transforming their realities. In doing so, it reinforces education as a tool for social emancipation.
Keywords: Critical Geography; Citizenship; Teaching Geography; Emancipatory Education
.
Introdução
O mundo parece acelerar, e com ele os conflitos, os deslocamentos, as transformações ambientais, os fluxos de informação que atravessam fronteiras em segundos. Há quem diga que a educação nunca teve um papel tão delicado — e talvez tão estratégico — como agora. Não basta mais formar indivíduos que saibam nomes de rios, capitais de países ou delimitações cartográficas. O desafio é outro: formar sujeitos capazes de ler o mundo, de decifrar as camadas invisíveis que compõem o espaço onde vivem.
É nesse intervalo entre o que é visto e o que é vivido que o Ensino de Geografia se reposiciona. A disciplina, tantas vezes reduzida à memorização de listas e mapas, ganha outra espessura quando pensada como ferramenta de leitura crítica da realidade. A Geografia passa a ser um campo de investigação sobre as relações entre sociedade e natureza, sobre os modos de produção e apropriação do espaço, sobre as desigualdades que se escondem nas paisagens mais banais.
Essa não é uma virada recente. Desde a década de 1970, principalmente com a força dos movimentos de renovação pedagógica no Brasil, a Geografia Crítica vem desestabilizando velhas formas de ensinar. Pontuschka, Paganelli e Cecete [4.] lembram que o espaço não é neutro. Pelo contrário: é tecido por interesses, disputas, exclusões e resistências. Perguntar onde algo acontece é só o começo. O que importa, de fato, é perguntar por que acontece ali, a quem interessa, com que efeitos. É uma pedagogia que incomoda, que tensiona, que convida ao deslocamento — inclusive o intelectual.
E o século XXI só tornou essa urgência mais evidente. Globalização, migrações, conflitos geopolíticos, emergência climática. O território, como bem discute Vesentini [5.], deixa de ser apenas uma delimitação física para se revelar como espaço de poder, disputa e identidade. Entender isso é mais do que localizar pontos no mapa. É perceber que cada lugar carrega histórias, conflitos e resistências, em escalas que vão do local ao global. Um ensino que se limita à superfície do mapa não dá conta. É preciso ensinar a ver as camadas.
Desenvolvimento e discussão
Geografia Crítica e a Urgência da Cidadania no Século XXI
Há algo que se torna inevitável quando nos aproximamos do século XXI: a constatação de que a Geografia, quando pensada criticamente, deixa de ser um exercício de localização para se transformar numa chave de leitura do mundo. Não se trata mais de descrever o espaço como quem anota o cenário de um teatro. O espaço, na perspectiva da Geografia Crítica, é movimento, é disputa, é produção social. Ele carrega as marcas dos interesses que o atravessam, das tensões que o moldam, das contradições que o sustentam.
Sandra Lencione [3.] é direta ao dizer: a Geografia Crítica “busca desvelar as contradições do espaço, as formas como ele é produzido e as relações de poder que se estabelecem em sua materialidade”. Não há neutralidade. O espaço é sempre resultado de escolhas, de forças, de exclusões e resistências.
E talvez seja justamente por isso que o ensino de Geografia, hoje, ganha um lugar de urgência. Porque vivemos um tempo de desafios que parecem se sobrepor: a crise climática que redefine territórios, a desinformação que distorce percepções de mundo, o abismo social que se amplia e os fluxos migratórios que redesenham fronteiras humanas e políticas.
O estudante que passa por um ensino geográfico pautado pela crítica aprende a ler o território não só em suas linhas visíveis, mas também em suas camadas profundas. Aprende a identificar onde estão os conflitos, as desigualdades, as resistências. Aprende, sobretudo, que o mapa nunca é apenas um desenho: é um documento político.
Marcelo Moraes Caixeta [1.] reforça essa ideia quando afirma que a leitura geográfica do mundo é condição para a construção de uma cidadania ativa, capaz de questionar estruturas e imaginar outras possibilidades de organização do espaço. Em outras palavras, aprender Geografia, nesse contexto, é aprender a perguntar — e a não aceitar as respostas fáceis.
Há um incômodo inevitável quando se olha para o espaço com os olhos da Geografia Crítica. Porque o que antes parecia dado, natural, imutável — a pobreza que se repete nos mesmos bairros, a violência que marca certas periferias, a degradação ambiental que avança em territórios já vulnerabilizados — passa a ser lido como o que realmente é: fruto de escolhas, de processos históricos, de relações de poder.
A escola, nesse contexto, não pode se limitar a informar. A Geografia não cabe mais em um conjunto de conceitos soltos ou em mapas silenciosos. Como lembra Ferreira [2.], trata-se de uma "educação para a emancipação", uma proposta que convida à pergunta incômoda: quem ganha e quem perde quando o espaço é organizado dessa maneira?
O aluno que se forma sob essa perspectiva aprende a desconfiar das explicações fáceis. Entende que os fenômenos socioespaciais são construídos, que a distribuição dos recursos, das oportunidades — e até dos riscos — não acontece ao acaso. E, talvez mais importante, percebe que pode agir. Que conhecer o mundo é também um primeiro passo para transformá-lo.
A sala de aula, então, se torna outro espaço de disputa. Não de forma hostil, mas como um território de diálogo real, de confronto de ideias, de construção coletiva de sentido. O debate sobre o uso da terra, a gestão da água, os impactos da urbanização deixa de ser apenas conteúdo e vira exercício de cidadania. Expressar opiniões, ouvir o outro, sustentar argumentos com base em dados — tudo isso passa a fazer parte do processo formativo.
Formar uma cidadania ativa, nesse cenário, é preparar os estudantes para a complexidade e para o dissenso. É ensinar que as soluções não virão prontas, mas serão fruto de análise, reflexão e, muitas vezes, de posicionamento ético e político diante do espaço que habitam.
Declaração de direitos
O(s)/A(s) autor(s)/autora(s) declara(m) ser detentores dos direitos autorais da presente obra, que o artigo não foi publicado anteriormente e que não está sendo considerado por outra(o) Revista/Journal. Declara(m) que as imagens e textos publicados são de responsabilidade do(s) autor(s), e não possuem direitos autorais reservados à terceiros. Textos e/ou imagens de terceiros são devidamente citados ou devidamente autorizados com concessão de direitos para publicação quando necessário. Declara(m) respeitar os direitos de terceiros e de Instituições públicas e privadas. Declara(m) não cometer plágio ou auto plágio e não ter considerado/gerado conteúdos falsos e que a obra é original e de responsabilidade dos autores.
Referências
CAIXETA, Marcelo Moraes. O ensino de geografia e a formação da cidadania crítica. Revista de Geografia da PUC Minas, v. 10, n. 2, p. 51-64, 2013.
FERREIRA, João Carlos. Geografia e cidadania: o espaço como categoria de análise na formação do cidadão. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
LENCIONE, Sandra. A questão do espaço no ensino de geografia. São Paulo: Contexto, 2000.
PONTUSCHKA, Nídia N.; PAGANELLI, Tomoko I.; CECETE, Núria H. Para ensinar e aprender Geografia. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
VESENTINI, José William. Geografia e ensino: a prática do espaço. Campinas, SP: Papirus, 2004.
Universidade Federal do Amapá, Vilhena, Brasil. Email:
Fundação Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho, Brasil. Email:
Instituto Federal de Rondônia, Cerejeiras, Brasil. Email:

