ISSN: 2595-8402
DOI: 10.5281/zenodo.4127338
VOLUME 3, NÚMERO 7, JULHO DE 2020
O SIGNIFICADO DA VIDA PARA AS CORRENTES SOTERIOLÓGICAS CALVINISTA, ARMINIANA E MOLINISTA E SUA RELAÇÃO COM O PLANO DIVINO
Marcelo Victor Rodrigues Nascimento1
Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades (IALTH) - Recife, Brasil
RESUMO
Este trabalho teve por objetivo apresentar as visões acerca do significado da vida, professadas pelas correntes soteriológicas calvinista, arminiana e molinista, comparando-as com os registros bíblicos, de forma a definir qual delas mais aproxima-se daquilo que as Escrituras Sagradas retratam sobre o plano da criação. Para tanto, foram definidas as principais características de cada corrente soteriológica, bem como, o significado da vida humana que cada uma delas professa; foram apresentados os argumentos bíblicos a respeito do assunto; e, por fim, foram comparados os dizeres bíblicos relacionados com o plano de Yahweh com os argumentos teológicos das correntes soteriológicas. Após análise de tais informações, concluiu-se que o Molinismo é a corrente soteriológica que mais se aproxima do que a Bíblia Sagrada retrata sobre o plano da criação.
Palavras-chave: soteriologia, calvinismo, arminianismo, molinismo.
.
1 INTRODUÇÃO
O homem é chamado, por muitos teólogos, como a “coroa da criação” de Yahweh, o Deus de Israel, pois, além de ter sido formado conforme a imagem e a semelhança da divindade, sua criação foi a última das obras de Yahweh, depois que os mundos material e espiritual haviam sido acabados, dando-nos a perfeita noção de que tudo fora preparado para recebê-lo e dar-lhe a primazia sobre as demais coisas criadas (Pearlman, 2006, p. 21; Gênesis 1:26-31; Hebreus 11:3).
A expressão “coroa” diz respeito a um símbolo que confere honra a um rei e que dignifica seu reino, exaltando a sua glória, o seu domínio, o seu poder e a sua majestade. Dessa forma, tal figura parece conferir à existência humana uma importância que está muito acima daquilo que a mente humana pode imaginar, semelhantemente à preciosidade da “coroa que está na cabeça de Yahweh”, única e inigualável (Sales, 2016, p. 68).
Um fato que parece traduzir, à altura, o valor que a vida humana possui para o Criador é a forma como Ele, por amor, escolheu para resgatá-la da condenação eterna, vindo a esvaziar-Se da Sua glória, assumir a forma humana com toda as suas limitações, deixar-se tentar de todas as formas, sofrer terríveis humilhações e morrer de forma cruel e vexatória (1 João 3:16; Filipenses 2:7; Hebreus 4:15; Isaías 53:3-10).
Contudo, apesar da força dos argumentos, ora citados, referentes à importância da vida humana para Yahweh, as correntes soteriológicas (que tratam da doutrina da salvação) apresentam significados totalmente distintos pelos quais Ele teria decidido criá-la. Isto é, ainda que o homem seja considerado a “coroa da criação” e Yahweh tenha dado Sua própria vida para salvá-lo da morte eterna, os teólogos entendem que há razões distintas pelas quais a divindade decidiu criar a humanidade (Coords, 2019).
Assim sendo, através de uma revisão sistemática da literatura, este artigo tem por objetivo apresentar as visões acerca do significado da vida, professadas pelas correntes soteriológicas calvinista, arminiana e molinista, comparando-as com os registros bíblicos, de forma a definir qual delas aproxima-se mais daquilo que as Escrituras Sagradas retratam sobre o plano da criação.
.
2 METODOLOGIA
A metodologia empregada neste trabalho científico é a revisão sistemática da literatura, nos moldes preconizados por Cordeiro et al. (2007), adotando, como fonte primária de dados, as argumentações e refutações ao sistema soteriológico molinista, apresentadas por Furtado e Bezerra (2007), no artigo “Uma introdução ao Molinismo”.
3 DESENVOLVIMENTO E DISCUSSÃO
3.1 AS CORRENTES SOTERIOLÓGICAS
3.1.1 CALVINISMO
Corrente soteriológica monergista, isto é, que tem, em Yahweh, a figura central da salvação, o qual é responsável por toda a obra salvífica, tendo decretado, desde a eternidade, quem iria salvar-se e quem iria perder-se (dupla predestinação) por razões que Lhe pertencem, segundo os soberanos conselhos da Sua vontade, de tal forma que o homem apenas obedece aos decretos divinos, possuindo tão somente livre agência (capacidade de agir livremente), mas não, livre-arbítrio libertário (autonomia) (Olson, 2013, p. 68,69).
3.1.2 ARMINIANISMO
Corrente soteriológica sinergista, isto é, que confere ao homem um certo grau de participação no processo salvífico (sinergia, cooperação), pois possui livre-arbítrio libertário (autonomia para manifestar a sua vontade), ainda que parcialmente depravado pelo pecado, sendo, portanto, capaz de responder, livremente, ao convite feito pelo Evangelho de Jesus Cristo, escolhendo salvar-se ou perder-se (Olson, 2006, p. 41);
.
3.1.3 MOLINISMO
Corrente soteriológica que procura harmonizar os conceitos calvinista e arminiano, assegurando que, por conhecer exaustivamente as decisões que cada agente livre tomaria em todas as circunstâncias possíveis, Yahweh escolheu criar, desde a eternidade, o mundo que melhor cumpriria Seu plano (o mundo atual), sem que a vontade humana fosse violada (Olson, 2006, p. 253).
3.2 O SIGNIFICADO DA VIDA PARA O CALVINISMO
O teólogo calvinista Jonathan Edwards, em seu livro “O fim para o qual Deus criou o mundo”, assevera que, ao referir-se a Yahweh como o primeiro e o último, como princípio e fim, as Escrituras Sagradas estão declarando que, além de ser a causa e a fonte primeira, de onde todas as coisas que existem originam-se, Yahweh é também a causa final para o qual elas tendem, como resultado último (Edwards, 2019, p. 39).
Para Edwards (2019, p. 46), as promessas futuras de extrema felicidade para a igreja, descritas na Bíblia Sagrada, mostram, de forma clara, que a glória de Yahweh é o fim último da criação, como menciona a seguinte passagem do Livro de Isaías:
“Nunca mais se ouvirá de violência na tua terra, desolação nem destruição nos teus termos; mas aos teus muros chamarás Salvação, e às tuas portas Louvor. Nunca mais te servirá o sol para luz do dia nem com o seu resplendor a lua te iluminará; mas o Senhor será a tua luz perpétua, e o teu Deus a tua glória. Nunca mais se porá o teu sol, nem a tua lua minguará; porque o Senhor será a tua luz perpétua, e os dias do teu luto findarão. E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado” (Isaías 60:18-21).
Por ser completo e não ter necessidade de coisa alguma externa à Sua pessoa, a criação é apenas a expressão externa da glória interna e da plenitude de Yahweh, sendo um reflexo que emana da Sua divindade, cuja glória é comunicada através da criação dos homens e da natureza como um todo (Edwards, 2019, p. 84).
Tais pensamentos, são reverberados nas seguintes palavras do pastor batista e escritor norte americano John Piper, para quem Yahweh criou o mundo para Sua glória (glória do Seu nome, glória da Sua graça):
“Portanto, nós perguntamos ao concluir: "Por que Deus criou o mundo?" E nós respondemos com as Escrituras: Deus criou o mundo para Sua glória. Deus não criou o mundo por causa de necessidade. Ele não criou o mundo a partir de uma deficiência que precisava ser compensada. Ele não estava solitário. Ele estava extremamente feliz na comunhão da Trindade — Pai, Filho, e Espírito Santo. Ele criou o mundo para por sua glória em exibição, para que Seu povo pudesse conhecê-lo, e amá-lo, e demonstrá-lo. E por que Ele criou um mundo que se tornaria como este mundo? Um mundo que caiu em pecado. Um mundo que trocou a glória de Deus pela a glória de imagens? Por que Ele permitiria e guiaria e sustentaria tal mundo? E nós respondemos: para o louvor da glória da graça de Deus demonstrada em supremacia na morte de Jesus” (Piper, 2012).
Fica claro, portanto, que os calvinistas entendem que Yahweh teria criado o mundo tão somente para tornar o Seu poder conhecido de toda a Sua criação e para demonstrar os Seus vários atributos, tais como: a ira, o amor, a misericórdia, a graça, etc.; não desejando, portanto, salvar o máximo de pessoas possíveis de um mundo caído (no pecado), o qual, diga-se de passagem, tornou-se assim, na visão calvinista, em consequência de um decreto proveniente do próprio Criador (Coords, 2019).
Logo, é possível depreender que o significado da vida para a corrente soteriológica calvinista está totalmente centrado na pessoa de Yahweh, a fim de que Ele seja glorificado por meio das vidas humanas que criou, como instrumentos destinados a exibir Seus vários atributos. O ápice dessa exaltação encontra-se na figura de Jesus Cristo, o qual, com Sua morte, trará uma glória eterna nas alegrias de louvor a Yahweh por parte dos redimidos (Coords, 2019; Piper, 2012).
Outrossim, segundo a doutrina calvinista, não só as pessoas foram escolhidas para serem o que são, como todos os acontecimentos, bons e maus, foram meticulosamente planejados por Yahweh para Sua glória, antes mesmo da fundação do mundo, como parte dos soberanos conselhos da Sua vontade (Hipona, 2019, p.62).
3.3 O SIGNIFICADO DA VIDA PARA O ARMINIANISMO
Segundo os presbíteros Roger Foster e Tom Robinson, no livro “Por que você nasceu?”, Yahweh tem, por objetivo, o desejo de reproduzir-Se através da criação (de perpetuar-se), moldando e formando filhos espirituais, imbuídos de Sua autêntica natureza e caráter: “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” (Gálatas 3:26-28) (Foster e Robinson, 2017, p. 10).
Em outras palavras, tais autores entendem que Yahweh está criando uma família de seres do mesmo gênero que Ele (deuses), sujeitos, voluntariamente, à Sua amorosa autoridade e liderança, numa espécie de “endeusamento” ou “divinização”, conforme criam alguns teólogos do período pós-apostólico, tais como Justino Mártir, Teófilo de Antioquia, Irineu, Clemente de Alexandria e Orígenes:
“Justino Mártir (cerca de 100-165): ‘[Pelo Salmo 82] está demonstrado que todos os homens são considerados merecedores de se tornar deuses, e de ter o poder de se tornarem filhos do Altíssimo’ (Diálogo com Trifo, capítulo 124). Teófilo de Antioquia (cerca de 163-182): ‘Se ele [o homem] inclinar-se para as coisas da imortalidade, guardando os mandamentos de Deus, então receberia d’Ele a imortalidade, e se tornaria Deus’ (Livro 2, Para Autólico, capítulo 27). Irineu (cerca de 130-200): ‘Nós O culpamos [a Deus], por não termos sido feitos deuses desde o princípio, mas primeiro meramente homens, então, por fim, deuses; não obstante Deus adotou este curso por Sua própria benevolência…Ele declara, ‘Eu disse: Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Altíssimo Deus’ (Salmos 82:6 BLH)’ (Livro 4, Contra Heresias, capítulo 38). Clemente de Alexandria (cerca de 150-215): ‘Sim, digo, pela Palavra de Deus [Cristo] fez-se o homem, para que aprendais do homem como o homem pode tornar-se Deus’ (Exortação aos Gentios, capítulo 1). Orígenes (cerca de 185-255): ‘O primogênito de toda a criação [Cristo], que foi o primeiro a estar com Deus, e a atrair para Si a divindade, é um ser de mais excelso status que os outros deuses além de Ele, de quem Deus é Deus, como está escrito: ‘Fala o Senhor, o Deus dos deuses, Ele convoca a terra’ [Salmos 50:1, Bíblia CNBB]” (Foster e Robinson, 2017, p. 24-27).
Nesse processo, que envolve sofrimentos e aflições, os filhos e filhas de Yahweh, ao alcançar a completa semelhança da divindade, serão capazes de cumprir a maravilhosa responsabilidade de exercer domínio sobre a vasta criação divina na eternidade: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; se sofrermos, também com ele reinaremos” (2 Timóteo 2:11,12).
Contudo, não se trata de um processo incondicional e não possui o fim último de salvar o máximo de vidas (embora seja universal), isto porque, a salvação está condicionada à aceitação do plano salvífico, atingindo somente aqueles que vierem a crer, o que não significa, é claro, que o sacrifício de Cristo não tenha sido suficiente para salvar toda a humanidade.
Logo, no sentido estrito, para o arminianismo, o homem é a causa de suas próprias decisões, de tal forma que, aqueles que disserem “sim” ao plano salvífico, serão levados à glória eterna, possuindo o maravilhoso caráter justo do próprio Deus, independentemente de quantos sejam (Olson, 2006, p. 22; Daniel, 2018, p. 416; Foster e Robinson, 2017, p. 37).
Resumindo, os arminianos também entendem que a criação destina-se à glória de Yahweh, assim como os calvinistas, porém, para os tais, a glória divina não está dissociada do amor, o qual integra a mesma. Assim sendo, na visão arminiana, nem salvação nem condenação eterna foram decretadas por Yahweh, mas entregues nas mãos das criaturas, as quais possuem a responsabilidade por salvarem-se ou perderem-se, independentemente do número de um ou de outro (Olson, 2006, p. 67).
.
3.4 O SIGNIFICADO DA VIDA PARA O MOLINISMO
Conforme reporta o filósofo e teólogo Willian Lane Craig, em seu livro “O único Deus sábio”, o magnífico Deus de Israel, por ocasião da criação, certamente, desejou criar um mundo em que todas as Suas criaturas livres escolhessem amá-Lo de todo coração, por possuir um caráter perfeitamente amoroso e imparcial (1 Timóteo 2:4).
Contudo, tal mundo mostrou-se impraticável, visto que não foi o mundo criado por Yahweh, sugerindo-nos que, em todos os mundos possíveis, invariavelmente, haveria pessoas que rejeitariam o plano de salvação, ainda que recebessem todas as oportunidades para se salvarem. Claro que, se Yahweh quisesse, não Lhe faltaria poder para salvar a todos, obrigando-os a crer, porém, a liberdade é condição precípua para que haja um amor sincero, desejado originalmente por Ele (Craig, 2016, p. 140).
Dessa forma, segundo o referido autor, Yahweh, em Seu infinito amor, optou por um mundo em que haveria o maior número de salvos possível e o menor número de perdidos, mostrando-nos que, para a divindade, tanto a liberdade quanto a vida humana possuem valores incalculáveis (Craig, 2016, p. 141).
A seguinte ilustração, apresentada pelo teólogo Richard Coords, na matéria “Molinismo – É uma alternativa teológica aceitável para os arminianos e tradicionalistas?”, proporciona uma ideia exata da soteriologia molinista:
“Antes da invasão da Normandia, o general Dwight Eisenhower foi informado, por muitos de seus assessores, que as vítimas poderiam exceder 70%. O verdadeiro número de vítimas humanas foi terrível, mas felizmente não tão alto. Eisenhower deu a ordem para a invasão prosseguir, mas ele teria sido rápido em dizer que, genuinamente, desejava que nenhum de seus homens morresse” (Coords, 2019).
3.5 POSIÇÕES BÍBLICAS ACERCA DO SIGNIFICADO DA VIDA HUMANA
Há uma passagem no Livro do Profeta Malaquias em que Yahweh, pelo Espírito Santo, repreende o povo de Israel por causa do divórcio, dizendo que o abomina, pois, quando um homem une-se em matrimônio com uma mulher, eles formam uma só pessoa, capaz de gerar vida humana: “E não fez ele somente um, sobejando-lhe espírito? E por que somente um? Ele buscava uma semente de piedosos... ‘Eu odeio o divórcio’, diz o Senhor, o Deus de Israel” (Malaquias 2:15-16).
Em tal passagem, além da lição moral, o Espírito Santo revela-nos o plano original de Yahweh com a criação, qual seja, formar “uma semente de piedosos”. Assim sendo, segundo o profeta Malaquias, a partir do primeiro casal, feito à imagem e semelhança de Yahweh, nasceriam “sementes piedosas”, que, por serem perfeitas em amor, como os pais, escolheriam amá-Lo de todo o coração e amar-se-iam da mesma forma (Gênesis 1:26-27; Malaquias 2:15).
A menção de tal projeto divino ecoa por diversas passagens, tanto do Velho Testamento como do Novo, nas quais os crentes genuínos (descendentes de Abraão segundo a fé) são chamados, por Yahweh, de filhos e filhas, numa referência clara e cristalina ao desejo original de formar uma família santa e abençoada, tais como:
“E a sua posteridade será conhecida entre os gentios, e os seus descendentes no meio dos povos; todos quantos os virem os conhecerão, como descendência bendita do Senhor” (Isaías 61:9). "Porque os que [Deus Pai] dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Romanos 8:29). "Disse-lhe Jesus [a Maria Madalena]: 'Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus'" (João 20-17). "Porque convinha que aquele [Jesus], para quem são todas as coisas e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse, pelas aflições, o Príncipe da salvação deles" (Hebreus 2:10). “Eu serei para vós Pai, e vós sereis para Mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-poderoso.” (2 Coríntios 6:18).
.
3.6 COMPARAÇÃO ENTRE OS DIZERES BÍBLICOS E OS CONCEITOS DE CADA CORRENTES SOTERIOLÓGICAS
Harmonizando as palavras do profeta Malaquias, a respeito da “semente de piedosos”, com o relato da criação no Livro de Gênesis, no qual Yahweh determina ao primeiro casal que frutificasse e enchesse toda a terra, percebe-se que o plano divino era constituir uma família numerosa de pessoas, regidas pelo amor: “E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra” (Gênesis 1:28).
Assim sendo, quando os calvinistas esposam a ideia de que milhões de vidas teriam sido criadas para a perdição e que a expiação, feita pelo sangue de Cristo, é limitada a um grupo seleto de indivíduos, há uma demonstração clara de que, na concepção calvinista, Yahweh não possui o intento de salvar o máximo de pessoas, mas, unicamente, de ser glorificado, independentemente do que isso venha a custar para as vidas alheias (glorificado a qualquer preço) (Furtado e Bezerra, 2017, p. 100).
Logo, para o calvinismo, ainda que uma única pessoa venha a se salvar, o que importa não são as vidas humanas em si, mas o resultado glorioso que isso supostamente traria para o nome de Yahweh.
Quanto aos arminianos, embora possa parecer o contrário, suas concepções, em termos numéricos de salvos, parecem caminhar lado-a-lado com as concepções calvinistas, pois, no arminianismo, Yahweh é glorificado em razão da qualidade do relacionamento entre criatura e Criador, e não, especificamente, pelo número de pessoas salvas. Em outras palavras, não importa o número de filhos piedosos que Yahweh venha a possuir, o que importa, realmente, é que Seus filhos tragam a Sua imagem, ainda que seja apenas uma única pessoa.
Já, no Molinismo, a maior preocupação consiste exatamente no número de salvos, pois, segundo argumentam os molinistas, Yahweh teria optado por criar um mundo em que o máximo de pessoas seriam salvas, demonstrando, com isso, que cada vida humana tem seu real valor para Yahweh.
Dessa forma, olhando pelo prisma do significado da vida, o sistema molinista é o que mais corresponde ao plano divino original, qual seja, de formar uma numerosa família de pessoas piedosas.
.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Assim como as obras de uma pessoa representam quem ela é, da mesma forma, não é possível dissociar as obras de Yahweh da Sua maravilhosa pessoa e do Seu caráter.
Segundo o pastor batista Paul Washer, em seu livro “O único Deus verdadeiro”, Yahweh possui os seguintes atributos e caráter:
É perfeito em cada aspecto do Seu ser e em tudo que faz (palavras, obras, sentimentos e pensamentos), o que faz com que as Suas obras, por serem uma extensão do Seu ser e reflexo da Sua pessoa, sejam todas igualmente perfeitas (Washer, 2009, p. 34; Salmos 18:30; Salmo 19:7).
Ainda que seja um Deus auto-existente, infinito e muitíssimo superior aos seres criados, Ele busca, constantemente, relacionar-se, de forma pessoal, com Suas criaturas, por meio de um relacionamento familiar, de pai para filho (Washer, 2009, p. 26-27,31).
Sua vontade necessariamente é perfeita, pois está fundamentada sobre o Seu perfeito e mais santo caráter, tornando Seu plano algo da mais absoluta confiança e não havendo, em Seu ser, qualquer possibilidade de mudança ou sombra de variação (Washer, 2009, p. 36; Tiago 1:17).
Por causa da justiça, retidão ou excelência moral, Suas obras, decretos e juízos são consistentes com Sua pessoa, tratando-se de uma virtude que faz parte da Sua essência e não de algo que Ele tenha decidido ser ou fazer; para que Ele realizasse algo moralmente incorreto, seria necessário negar a Sua própria natureza, o que é impossível, pois Yahweh não pode negar-se a Si mesmo (Washer, 2009, p. 70; Salmos 7:9,11; 2 Timóteo 2:13).
O Seu amor é algo incompreensível para a mente humana, muito mais do que uma atitude, uma emoção ou uma obra; consiste em um atributo que faz parte da Sua essência, pois a Bíblia diz que Yahweh é amor e a fonte principal de todo o bem que existe no universo (Washer, 2009, p. 113; 1 João 4:8).
Ele não quer só o próprio bem, mas busca a benção e o amparo de todas as Suas criaturas, tanto boas quanto más, não sendo um Deus volúvel ou rancoroso, que deseja o fracasso e o infortúnio de quem quer que seja; Ele trata as Suas criaturas não segundo seus méritos ou valores, mas com generosidade, paciência e misericórdia (Salmo 145:9, 15-15; Washer, 2009, p. 114,116; 2 Coríntios 1:3).
Por ser o Deus de toda plenitude, Ele é autoexistente, autossuficiente, independente e livre, de tal forma que a criação não foi um resultado de alguma necessidade que existia na Sua pessoa, mas, fruto do transbordar da Sua plenitude (Washer, 2009, p. 133; Salmos 36:9; Atos 17:24-25).
Diante de tais argumentos e da declaração de que o homem foi criado para a glória de Deus (Isaías 47:3; Efésios 1:11-12), como entender o significado da vida do ponto de vista divino? O que seria essa glória?
A resposta parece ter sido dada pelo profeta Malaquias, quando relatou, em seu livro, o plano original de Yahweh, nos seguintes termos: “E não fez ele somente um, sobejando-lhe espírito? E por que somente um? Ele buscava uma semente de piedosos” (Malaquias 2:15).
Mediante tais palavras, é possível presumir que: formar uma família de pessoas piedosas, que amam a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmas, é a verdadeira glória para Yahweh. Isso está de acordo, por exemplo, com a resposta dada, por Ele, ao pedido de Moisés, que queria contemplar a Sua glória: “Mostra-me a tua glória. Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti” (Êxodo 33:18,19).
Mas, como explicar as milhares de vidas que se perdem e que acabam por não se constituir em uma “semente piedosa”?
Basta considerar que o amor sincero e verdadeiro, desejado por Yahweh originalmente, só é possível onde há liberdade. Sem liberdade, qualquer sentimento pode ser tudo, menos sincero. Portanto, ao formular Seu plano, Yahweh obrigou-se a suportar a possibilidade de que alguma de Suas criaturas livres viesse a não corresponder a esse amor, o que de fato ocorreu.
Contudo, em virtude da Sua capacidade de conhecer as coisas que são, as que serão e as que poderiam ser (caso as circunstâncias fossem distintas), Yahweh não foi surpreendido pela queda humana, provendo uma saída honrosa e justa, tanto para Si (para o Seu plano) quanto para todas as Suas criaturas (Apocalipse 13:8).
Como Yahweh ama incondicionalmente cada uma de Suas criaturas e morreu por todas elas, o significado da vida tem importância precípua para Ele, o qual deseja, realmente, que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade, tendo permitido que todos viessem a estar debaixo do pecado, para com todos usar de misericórdia (1 João 4:8; 1 Timóteo 2:4; Romanos 11:32).
No que se refere ao desejo de salvação universal, o pensamento calvinista caminha no sentido oposto, pois, para os calvinistas, Yahweh teria desejado criar seres para a destruição, como parte de Seu plano. Salvo melhor juízo, tal desejo, não só diminui o valor da vida humana, como não está de acordo com o que as Escrituras Sagradas dizem acerca do caráter divino.
No arminianismo, por sua vez, embora não se defenda que Yahweh tenha desejado condenar vidas à perdição eterna, a salvação foi depositada totalmente nas mãos das criaturas, estando condicionada às suas respostas. De sorte que tal sistema não se preocupa essencialmente com a quantidade de pessoas que serão salvas.
Portanto, o Molinismo é a corrente soteriológica que melhor coaduna com o caráter divino, à medida que define Yahweh como aquele que, usando Sua capacidade de conhecer todos os mundos possíveis, escolheu, soberanamente, criar o mundo em que mais pessoas salvar-se-iam e menos pessoas seriam condenadas por suas próprias decisões.
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA
BÍBLIA SAGRADA. Velho e Novo Testamentos. Bíblia On-line, Versões Almeida Corrigida e Fiel/Nova Versão Internacional/Nova Almeida Atualizada. Disponíveis em: https://www.bibliaonline.com.br/. Acesso em: 12 set. 2020.
COORDS, Richard. Molinismo – É uma alternativa teológica aceitável para os Arminianos e Tradicionalistas? Website Paleo-Ortodoxo, 5 jan. 2019. Disponível em: https://paleoortodoxo.wordpress.com/2019/01/05/molinismo-e-uma-alternativa-teologica-aceitavel-para-os-arminianos-e-tradicionalistas/. Acesso em: 13 set. 2020.
CORDEIRO, A.M.; OLIVEIRA, G.M.; RENTERIA, J.M.; GUIMARÃES, C.A. (2007). Revisão sistemática: uma revisão narrativa. Rev. Col. Bras. Cir., Rio de Janeiro, v. 34, n. 6, p. 428-431, dez. 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-69912007000600012. Acesso em: 10 jul.2020.
DANIEL, Silas. Arminianismo, a mecânica da salvação. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
FOSTER, R.; RONBINSON.T. Por que você nasceu? Igreja de Deus Unida, 2017.
FURTADO, F.C.; BEZERRA, C.A. Uma introdução ao molinismo. Revista Ensaios Teológicos, Faculdade Batista Pioneira, v. 3, n. 1, jun. 2017.
HIPONA, Agostinho. A predestinação dos santos. Joinville: Clube de Autores, 2019.
OLSON, Roger. Teologia Arminiana, mitos e realidades. Londrina: Reflexão, 2006.
OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Londrina: Reflexão, 2013.
PEARLMAN, Myer. Através da Bíblia, livro por livro. São Paulo: Vida, 2006.
PIPER, John. Por que Deus criou o mundo? Website Desiring God, 22 set.2012. Disponível em: https://www.desiringgod.org/messages/why-did-god-create-the-world?lang=pt. Acesso em: 13 set. 2020.
SALES, J.C. Coroas, toucados e ceptros na coleção egípcia, do Museu Calouste Gulbenkian (Lisboa). Revista Mundo Antigo, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, v.5, n.11, dez. 2016.
WASHER, P. D. O único Deus verdadeiro. Hannibal, Missouri - EUA: Imprensa do Grande Ministério, 2009.
Doutor e Mestre em Teologia, pela Universidade da Bíblia - São Paulo. Bacharel em Ciências Militares, pela Academia da Força Aérea Brasileira (AFA) - Pirassununga - SP. Licenciado em Educação Física, pela Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) - Rio de Janeiro. Bacharel em Administração de Empresas, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - São Paulo. Especialização em Fisiologia do Exercício, pela Escola Paulista de Medicina. Especialização em Atividade Física na Saúde, na Doença e no Envelhecimento, pela Faculdade de Medicina da USP. Acadêmico do Curso de Licenciatura em Filosofia, pelo Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades (IALTH) – Recife – PE. Acadêmico do Curso de Pós-graduação em Ciências da Religião, pelo Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades (IALTH) – Recife – PE.
