VOLUME 2, NÚMERO 6, JUNHO DE 2019

ISSN: 2595-8402

DOI:​​ 10.5281/zenodo.3268915

 

 

MINHAS MÃOS, MEUS OLHOS: UMA ANÁLISE SOBRE MATERIAIS DIDÁTICOS NO ENSINO DE BIOLOGIA PARA UM ALUNO COM BAIXA VISÃO

 

Neli Pitanga Faria1, Drª. Desirée​​ Gonçalves Raggi2

 

1,2FaculdadeVale do Cricaré-São Mateus E.S

pitangaftc@hotmail.com

desireeraggi@yahoo.com.br

 

RESUMO

Esta pesquisa tem como objetivos analisar as contribuições dos materiais didáticos confeccionados para o ensino de Biologia de um aluno com baixa visão com o intuito de colaborar para a compreensão dos conteúdos especificamente relacionados aos vírus, utilizando um modelo de um bacteriófago e um vírus da AIDS, com predicados que reverenciam as necessidades de um aluno com deficiência visual. Para tal estudo utilizamos a metodologia com abordagem qualitativa da pesquisa documental, entrevista e observação, o​​ que possibilitou a reflexão sobre a inclusão, no que tange às pessoas com necessidades educacionais especiais nas salas de aulas regulares,​​ cujo direito deve ser garantido pela escola ao proporcionaras condições adequadas para sua aprendizagem. Os fundamentos teóricos se baseiam,principalmente, em Carvalho (2000), Klein (2005) e Souza (2007), Ferrel (1996) e Cunha e Enumo (2003), Jorge (2010) e Santos (2010). . O material foi analisado a partir das percepções da professora de Educação Especial, do aluno sujeito desta pesquisa e dos 26 alunos normovisuais que constituem a turma. Os modelos didáticos foram considerados adaptados na avaliação de todos os participantes, podendo-se averiguar que o mesmo apresenta atributos que podem auxiliar na disciplina de Biologia. Sendo assim, pode- se afirmar que, ao incorporar esses materiais no ensino, é possível promover a aprendizagem significativa de conceitos, bem como elevar os níveis de interesse dos alunos normovisuais.

Palavras-chave:​​ Educação inclusiva; Baixa visão; material didático; ensino de Biologia.

 

1INTRODUÇÃO

Este estudo tem por objetivoanalisaras contribuições dos materiais didáticos confeccionados para o ensino de Biologia de um aluno de baixa visão, especificamente relacionados ao conteúdovírus da AIDS e Bacteriófagos. Tais materiais visam facilitar a aprendizagem de um aluno com deficiência visual(baixa visão), que aqui recebeu o nome fictício de Pietro.

Cabe ressaltar que os termos: “deficiência visual” e “baixa visão” são utilizados para conotações diferentes. O primeiro termo mencionado, usado para a cegueira, é definido pelo “Idea”3como a deficiência, que mesmo com correção, afeta adversamente o desempenho educacional, podendo ser caracterizada pela perda parcial da visão ou cegueira total (HALLAHAN & KAUFFMAN, 2000). A baixa visão ou visão subnormal é considerada como sendo “uma condição em que há um comprometimento do funcionamento visual mesmo após tratamento e correção dos erros refracionais comuns”, com acuidade visual inferior a 20/60 ou campo visual inferior a dez graus do ponto de fixação, utiliza a visão para o planejamento ou desempenho de uma função (SOCIEDADE BRASILEIRA DE VISÃO SUBNORMAL,2012). Nesse estudo é de nossa preferência utilizar o termo baixa visão, pois compreende o público pesquisado, sendo o alvo de nosso interesse.

O sistema educacional brasileiro, por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional4, às resoluções do CNE/CEB5, bem como a Declaração de Salamanca6, que oportunizou a inserção da educação especial a partir de uma estrutura de “educação para todos” firmada em 1990 “(…) promoveu uma plataforma que afirma o princípio e a discussão da prática de garantia da inclusão das crianças com deficiência nestas iniciativas e a tomada de seus lugares de direito numa sociedade de aprendizagem” (MENEZES, 2002, p. 34). Desta forma, esta pesquisa buscou aprofundar a compreensão sobre o tema para atender as especificidades de aprendizagem de um aluno com baixa visão, mais especificamente no ensino de Biologia.

Com as normas das Nações Unidas em 1993sobre a igualdade de oportunidades para pessoas com Deficiências das Nações Unidas. “Não só a igualdade de direitos para todas as crianças, jovens e adultos com deficiência à Educação, mas também determina que a Educação deve ser ​​​​ garantida em estruturas educativas e em escolas regulares” (UNESCO, 2005).

A deficiência visual se configura como um comprometimento total ou parcial da visão. Pode ocorrer independente da idade, sexo, grupo étnico, raça, educação, cultura e posição​​ social. Ela pode ser congênita ou adquirida. Pode ocorrer desde o nascimento (cegueira congênita) por má formação ou doença, como por exemplo, toxoplasmose, glaucoma, sífilis,​​ meningite, e outras como a oncocercose7, ou posteriormente (cegueira adquirida)​​ em decorrência de causas orgânicas ou acidentais (JORGE, 2010).

Conforme assevera Silva (2008), “os recursos de imagem são essenciais para proporcionar a visualização e compreensão desse conteúdo para o aluno normovisual8” e, ainda assim, em alguns casos os alunos apresentam grandes dificuldades em assimilação deconteúdos escolares, que resulta em grande percentual de alunos com deficiências. ​​​​ Santos (2007) ainda lembra que no caso da cegueira, esta traz uma limitação importante ao processo de ensino, exigindo que as práticas educativas junto às pessoas com deficiência visual sejam pensadas de forma a contemplar suas peculiaridades, por meio das vias alternativas.

O paradigma da “inclusão” tem gerado inúmeras discussões e controversas, pois Educação Inclusiva não é somente um paradigma ou ideologia no cenário educacional brasileiro, mas sim uma realidade, cujos desafios, lacunas e dificuldades precisam ser superados. Nesse sentido, torna-se imprescindível que se desenvolvam estudos que contribuem para a compreensão desse fenômeno e do público que tem a educação como direito.Zabala (1998) aprecia que todos os meios que o professor utiliza para ensinar são designados por ‘recursos didáticos’, ou seja, todas as soluções que sejam criadas, produzidas e aplicadas na ação educativa e que ocasionem o desenvolvimento do processo cognitivo são recursos que servem de apoio ao professor enquanto instrui. Esse pressuposto motivou a confecção de materiais para esse fim. ​​​​ 

Os materiais produzidos nesta investigação buscam atender às necessidades de um aluno em especial. Contudo, poderão ser utilizados por todos os alunos inseridos na escola, respeitando assim o ideal da educação inclusiva que é prescrita pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2004)​​ como:​​ 

[...] uma ação política, cultural, social e pedagógica, desencadeada em defesa do direito de todos os alunos de estarem juntos, aprendendo e participando sem nenhum tipo de discriminação. A educação inclusiva constitui um paradigma educacional fundamentado na concepção de direitos humanos, que conjuga igualdade e diferença como valores indissociáveis, e que avança em relação à ideia de equidade formal ao contextualizar as circunstâncias históricas da produção da exclusão dentro e fora da escola (BRASIL, 2004, p. 23).

A importância dos materiais didáticos também pode ser constatada no Decreto 7.611 de 17 de novembro de 2011, que dispõe sobre pontos importantes da Educação Inclusiva no país. Em seu artigo 5º o documento propõe que a União prestará apoio técnico e financeiro aos estados, municípios e instituições especializadas entre outras questões para:

A produção e a distribuição de recursos educacionais para a acessibilidade e aprendizagem incluem materiais didáticos e paradidáticos em Braille, áudio e Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS, laptops com sintetizador de voz, softwares para comunicação alternativa e outras ajudas técnicas que possibilitam o acesso ao currículo (BRASIL, 2011, p. 74).

Além de estarem prescritos pela legislação pertinente e pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), existe uma insuficiência de estudos que englobem as práticas inclusivas para o ensino de Ciências e Biologia. Esse fato justifica a escolha de elaborar e​​ investigar cientificamente os materiais didáticos adaptados para uso no ensino de Biologia, principalmente, para alunos com baixa visão.(ANTÃO,2016).

Ao longo de minha trajetória como professora de Ciências e Biologia nas salas regulares de escolas de Ensino Fundamental II e Médio do município de São Mateus/ESpercebo que nós, os professores não fomos capacitados especificamente a receber alunos com deficiências e queportanto, necessitam de uma atenção especial. Tenho constatado nossa insegurança para ofertar um ensino de qualidade, uma vez que esse público possui exigências e especificidades.

Minha maior dificuldade em trabalhar com o Pietro 9foi pelo fato de eu não ter uma capacitação nemtreinamento adequado, trabalhar com ​​​​ aluno com esse tipo de deficiência foi um desafio desde o primeiro momento, no primeiro dia de aula, esse me lembro ​​​​ bem, uma mistura de sentimentos como, pena, medo. segundo falou mais alto, medo de não conseguir ​​​​ acertar, como iniciar um conteúdo para uma pessoa ​​​​ que não enxergaem meio a 26 que além de enxergar, eram extremamente agitados Com o passar dos dias fui descobrindo com ele e com a turmade que forma e quais estratégias usar para ​​​​ que esse aluno tivesse participação nas aulasAlgumas dessas estratégias foram: descrição do quadro em ​​​​ tom de voz elevado, posicionamento de Pietro ao lado de um colega para que houvesse maior interação....No segundo trimestre com o conteúdo de microbiologia a ser trabalhado veio a ideia de confeccionar um material que correspondesse nossas expectativas e fosse possível atingir nossos objetivo. ​​​​ digo nosso, porque realmente trabalhamos ​​​​ em conjunto.

Visto isso, esta pesquisatem como objetivoelaborar e investigar os de materiais didáticos para ensino de Biologia, mais especificamente um modelo de um bacteriófago10​​ e um vírus HIV, que​​ possuísse características inclusivas, ou seja, que facilitassem a aprendizagem de alunos​​ com baixa visão.​​ Tais materiais se concretizam em estratégias pedagógicas alternativas que favorecem a interação entre os alunos com deficiência e os seuscolegas e, assim, suprem as lacunas da aparente desigualdade, alcançando assim o aprendizado pleno.

Corroborando nesse sentido, Góes (2002, p. 21), assegura:

Anecessidade de se favorecer a aprendizagem destes alunos é fundamental o uso​​ de recursos especiais e caminhos alternativos, que possibilitem o desenvolvimento​​ de sua​​ potencialidade. O material didático adaptado pode ser considerado como um recurso especial que auxilia o processo de aprendizagem de alunos com deficiência (GÓES, 2002, p. 21).

Os modelos elaborados podem ser considerados como recursos significativos para o ensino de Biologia, devido à possibilidade de o aluno se apropriar de um conceito concreto das estruturas assim como sua dinâmica de interação. Além disso, as adaptações realizadas nos materiaisdidáticosostornaramvantajosos, não somente para os alunos com deficiência visual, mas também para os normovisuais.

Nesse sentido, este estudo concorrerá para atender o que determina a LDB 9394∕96, no âmbito da Educação Especial, em seu Art. 58, que normatiza os direitos dos alunos com deficiência da rede regular de ensino, na medida em que oferece apoio especializado através de recursos adequados. .

[...] A inclusão escolar é uma realidade e, como tal, merece ser encarada de forma contextualizada no cotidiano escolar. A proposta de uma educação inclusiva é muito maior do que somente matricular o indivíduo na escola comum, implica dar outra lógica à escola, transformando suas práticas, suas relações interpessoais, sua formação, seus conceitos, pois a inclusão é um conceito que emerge da complexidade, e como tal, exige o reconhecimento e valorização de todas as diferenças que contribuiriam para um novo modo de organização do sistema educacional(DRAGO; RODRIGUES, 2008, p. 66)

Bueno (2008), ao fazer uma análise da interpretação dada à Declaração de Salamanca na legislação brasileira, chama atenção ao fato de que ao se estabelecer como ideal para a escola e a sociedade, a construção de uma escola/sociedade inclusiva, parte-se da pressuposição de que sempre existirá a exclusão ou inclusão marginal. Sendo assim, este autor discute que para a construção de sociedade e escola justas, com igualdade de oportunidades para todos os indivíduos, independente de suas condições, é preciso que se busque a construção de uma escola/sociedade democrática, na qual os sujeitos são respeitados em suas diferenças e a inclusão seja um ponto de discussão importante, no processo social e educativo, não precisando mais ser um ideal.

A partir deste pressuposto, a busca pela construção de recursos que atendam às diferentes características do alunado é essencial para a transformação do ambiente escolar, que no formato como está constituído hoje, é essencialmente excludente, em um cenário no qual os indivíduos com e sem deficiência tenham suas especificidades de aprendizagem contempladas, visando assim ao estabelecimento de uma escola democrática que contribua para a formação de cidadãos críticos, participativos e cientes de seus direitos e deveres. É por meio da construção e do acesso ao conhecimento produzido e valorizado em uma sociedade que os indivíduos deixam de ser figurantes passivos e passam a ser atores sociais conscientes.

É neste contexto que esta pesquisa apresenta como problema: Como a utilização dos materiais didáticos para o ensino de Vírus da AIDS pode influenciar na aprendizagem dos alunos com baixa visão da Escola Estadual do Município de São Mateus? ​​​​ 

A metodologia delineada para dar resposta ao problema trata-se de​​ uma pesquisa​​ qualitativa, sob pontos de vista de autores, quanto à possibilidade do uso dos materiais didáticos nas aulas como estratégia de ensino para o aluno com baixa visão. ​​​​ 

É notório que o currículo e as técnicas de ensino, bem como os recursos utilizados no processo ensino aprendizagem deveriam atender às demandas dos educandos. No que concerne aos alunos com deficiências visuais, não há, por exemplo, a implantação normatizada de recursos táteis para a apreensão do conhecimento, como maquetes e modelos tridimensionais, o que facilitaria em larga escala a compreensão dos conteúdos de Biologia, já que diminuiriam o nível de abstração dos assuntos tratados, trazendo ao alcance das mãos a aproximação entre a teoria e a apropriação facilitada do conhecimento.

Em se tratando da Metodologia, lançaremos mão da pesquisa bibliográfica com abordagem qualitativa. A pesquisa bibliográfica é realizada a partir do levantamento de referenciais teóricos como livros, artigos, teses e dissertações. Fonseca (2002) afirma que o trabalho científico começa com a pesquisa bibliográfica, pois anuncia ao pesquisador informações sobre o tema em questão. Em se tratando da abordagem da pesquisa qualitativa, ela pode ser estabelecida como uma metodologia que fornece dados a partir das observações feitas a partir de pessoas, lugares quais, o investigador estabelece uma interação direta a fim de compreender o processo em estudo.

As discussões deste estudo assentam-se em seis capítulos. No primeiro, temos a introdução e abordagem do tema, objetivo geral e específicos e justificativa. O segundo capítulo é de abordagem teórica sobre o tema, em seus tópicos é feita uma explanação a respeito da inclusão no sistema educacional, legislação, deficiência visual e formação de professores na Educação Especial. O capítulo seguinte é o capítulo três, em que o aprendizado de alunos com baixa visão é o tema central, contendo ainda, no capítulo quatro, um breve histórico a respeito do aluno alvo da pesquisa. Em seguida, temos o capítulo cinco, em que é descrito todo o procedimento metodológico do trabalho, o campo de pesquisa, sujeito e também o produto educacional aplicado. Por fim, o capítulo seis reúne os resultados da pesquisa, tendo como capítulo seguinte as considerações finais.

 

 

 

2PROCEDIMENTOS​​ METODOLÓGICOS

Esta pesquisa se fundamenta em uma abordagem qualitativa de caráter descritivo. Buscou-se identificar se os materiais didáticos contribuíram para a aprendizagem de conteúdos de Biologia de um aluno de baixa visão. Para conhecer essa realidade especifica foram usados os métodos da análise documental, observação e entrevistas com a professora de Educação Especial e o aluno com baixa visão pesquisado,como instrumentos de coleta das informações, além da aplicação de questionários aos alunos normovisuais.

A coleta de dados foi feita através de observação, entrevistas semiestruturadas, na qual utilizou-se um roteiro norteador com questões para a compreensão do estudo. Roesch (2006), diz que para ser aplicados roteiros semi-estruturados, o pesquisador deve manter-se preocupado com a coleta das informações com diferentes perspectivas, mantendo-se imparcial às respostas. O autor ainda informa que, no entanto, os dados precisam tornarem-se únicos através de textos estruturados por meio do método de análise de conteúdo.

  • Análise documental: a fim de se verificar quais a metodologias são empregadas pelos professores no processo ensino/aprendizagem do Pietro, foram utilizados os arquivos elaborados pela professora de Educação Especial, os quais consistem em​​ relatórios obtidos a partir de observações realizadas pela mesma das aulas regulares ministradas ao Pietro, a fim de observar como se dão as aulas de cada disciplina, em relação a interação do aluno com os professores e com a os colegas de turma. Após a produção dos relatórios, os arquivos são encaminhados à Coordenadora Pedagógica de Educação Especial da Superintendência Regional de São Mateus, sendo armazenados na Superintendência.

  • Entrevista semi-estruturada com a professora de Educação Especial: Foi apresentado o roteiro de entrevista (APÊNDICE A) para a professora. As respostas foram devolvidas à pesquisadora por escrito algumas horas após a apresentação do roteiro. A partir dessas respostas foram discutidos alguns pontos para que a professora expressasse oralmente seu ponto de vista. A entrevista foi de grande importância para a sistematização dos dados obtidos, bem como a discussão desses dados com a própria professora.

  • Entrevista estruturada com Pietro: para entrevistar o aluno, foi utilizado um roteiro de entrevista, o Apêndice B que permitiu conhecer sua percepção sobre a as aulas com o uso do material adaptado.

  • Questionário com 26 alunos normovisuais: para conhecer as percepções dos alunos colegas de Pietro, foi utilizado um questionário (APÊNDICE C) cujos dados foram coletados a partir de duas aulas expositivas que permitiram aos alunos um conhecimento prévio do conteúdo e o manuseio dos materiais adaptados. Após essas aulas, foi realizada a aplicação do questionário individual aos 26 alunos normovisuais, com o objetivo de se coletar as percepções dos mesmos sobre as aulas e induzi-los a estabelecer um comparativo entre as aulas com e sem o material adaptado.

  • Observações do comportamento do Pietro: as observações foram realizadas pela pesquisadora, a fim de se perceber como o aluno reagiria à aula com os materiais didáticos adequados para o aprendizado dele. Essa etapa da pesquisa foi realizada durante as duas aulas aplicadas a toda a turma. Verificou-secomo os materiais utilizados na disciplina de Biologia estão contribuindo para a aprendizagem do aluno por meio de observações do comportamento e por meio de uma avaliação em forma de questionário, após aula com oralidade e explanação dos conteúdos.

  • Experiência pedagógica: Realizou-se um experimento utilizando os materiais confeccionados para o ensino de Biologia, com aluno Pietro para testar se houve melhoria no interesse pelo conteúdo aplicado.

 

2.1 ​​​​ CAMPO DA PESQUISA

Para investigar e descrever o campo da pesquisa foram investigados os documentos na Superintendência Regional de Educação São Mateus ES, e que foram tabulados e organizados em gráficos. Essas informações foram importantes na análise deste estudo, pois a partir delas foi possível identificar a estrutura e o contexto da pesquisa.

O campo da pesquisa foi uma Escola Estadual do Município de são Mateus, cidade localizada no extremo norte do estado do Espírito Santo, à aproximadamente 220 km da capital Vitória. A escola é​​ uma instituição pública​​ localizada no Distrito Nestor Gomes constituído por cerca de 8.400 habitantes. Atualmente, a unidade escolar possui 934 estudantes, nas três modalidades ofertadas, que são provenientes de regiões circunvizinhas. Tem como missão “Promover educação de qualidade para construção de uma​​ sociedade democrática, justa e sustentável” as modalidades ali inseridas, como Ensino Fundamental, Médio e Educação profissional (Técnico em Fruticultura).​​ 

 

2.2SUJEITOS E COLETAS DE DADOS

 

Tabela 1​​ - Síntese das técnicas utilizadas como coleta de dados

Técnica

Sujeitos participantes/fonte

Objetivo

Análise documental

  • Registros elaborados pela Professora de Educação Especial

 

 

  • Compreender como se dá a interação do aluno com a disciplina de cada professor.

 

  • Construir os gráficos que caracterizam o campo da pesquisa

 

 

Entrevista

  • Professora de Educação Especial

 

  • Aluno alvo da pesquisa

  • Investigar sua percepção a respeito do material didático

  • Investigar sua percepção a respeito do material didático

Questionário

  • 26 alunos normovisuiais

  • Investigar sua percepção a respeito do material didático

Observação

  • Aulas sobre ovírus da AIDS e Bacteriófagos (vírus) ministradas aos alunos normovisuais e Pietro.

  • Perceber como esses alunos interagem com o conteúdo a partir dos materiais didáticos utilizados.

Experiência pedagógica com o Material Didático

  • Turma de 26 alunos do 3º ano do ensino médio e Pietro.

  • Testar o material didático

Fonte: acervo pessoal da própria pesquisadora

 

O presente trabalho trata-se de uma pesquisa qualitativaque busca compreender um fenômeno em sua profundidade. Existem diversas formas de conceituar esta abordagem, conforme aponta André (1995, p.23):

Para alguns, a “pesquisa qualitativa” é a pesquisa fenomenológica (Martins e Bicudo, 1989). Para outros, o qualitativo é sinônimo de etnográfico (Trivinos, 1987). Para outros ainda, é um termo do tipo guarda-chuva que pode muito bem incluir os estudos clínicos (Bogdam e Biklen, 1982). E, no outro extremo, há um sentido bem popularizado de pesquisa qualitativa, identificando-a como aquela que não envolve números, isto é, na qual qualitativo é sinônimo de não-quantitativo. ​​​​ 

Liebscher (1998) propõe que a metodologia qualitativa é apropriada para o estudo de fenômenos complexos, sendo necessária a observação, o registro e a análise do fenômeno estudado visando ao entendimento de sua complexidade,​​ ajustando-se assim aos objetivos da presente pesquisa.​​ 

Optou-se por questionários, pois segundo Parasuraman (1991), o questionário é muito importante na pesquisa científica. Parasuramanacrescenta que construir questionários não é uma tarefa fácil e que aplicar tempo e esforço adequado para a construção do questionário é uma necessidade, um fator de diferenciação favorável. Não existe metodologia padrão para o projeto de questionários, porém existem​​ recomendações de diversos autores com relação a essa importante tarefa no processo de pesquisa científica.

Para análise e interpretação das perguntas realizadas com o questionário foram adotados os pressupostos metodológicos da análise de conteúdo, uma vez que, através de mensagens faladas ou escritas, é possível identificar múltiplos fatores por trás do discurso do emissor da mensagem (FRANCO, 2008).

Seu objetivo é aprofundar o conhecimento acerca de um problema não suficientemente definido (MATTAR, 1996), visando estimular a compreensão, sugerir hipóteses e questões ou desenvolver a teoria.

No presente estudo, o problema consiste em compreender como os materiais didáticos podem contribuir como incentivo à aprendizagem de Pietro, um aluno deficiente visual, cuja descrição aparece no tópico abaixo.

 

2.3 ​​ ​​​​ CARACTERÍSTICAS COMPORTAMENTAIS DE PIETRO

O aluno Pietro, cujo nome é fictício, é o sujeito alvo da pesquisa. Pertence à uma família humilde, filho de pai lavrador aposentado e mãe dona de casa, possui um irmão e uma irmã. Sua mãe também é portadora de baixa visão. A relação do adolescente com sua família é harmônica, bem como com os colegas de classe e professores.

Podemos descrever o comportamento do Pietro como parcialmente desanimado, com exceção das​​ aulas práticas, quando a sua participação é com vigor e entusiasmo. Mas, em forma de respeito aos colegas e professores, sempre que questionado sobre seu comportamento silencioso o aluno reage alegando que o seu silêncio não tem nada haver com a turma ou​​ com os professores e ​​​​ que é o seu jeito de ser.O problema na visão do aluno pesquisado foi descoberto no período em que o mesmo cursava o 6º ano do ensino​​ fundamental, em detrimento das dificuldades que Pietro enfrentava no seu processo de aprendizagem. O aumento e a constância das dificuldades fizeram com que os professores de Pietro começassem a perceber que poderia ser algo relacionado à sua visão. Desse período em diante a visão do aluno ficou cada vez mais comprometida. Atualmente, Pietro está com 18 anos, cursa o último ano do ensino médio e enxerga apenas vultos – baixa visão.

A consulta ao oftalmologista revelou um diagnóstico de distrofia do nervo óptico, doença que progride a partir da pressão anormal no olho ou glaucoma.

 

2.4EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM USO DO MATERIAL DIDÁTICO

Sabe-se que o recurso manipulativo é importante para a inclusão e para o processo de aprendizagem de pessoas com deficiência. No caso de alunos com deficiência visual, o recurso manipulativo é um meio de se repensar as aulas e torná-las mais dinâmicas e atraentes, a fim de atenderem às respectivas deficiências. Ao fazer uso do recurso manipulativo é necessário se pensar as particularidades de cada aluno, que podem ser fatores comuns ou específicos de cada sujeito, para que haja eficácia na aplicação desses materiais.

Adaptar o ambiente e os materiais utilizados significa estimular o aluno com baixa visão, proporcionar ao mesmo experiências sensoriais, motoras, cognitivas e sociais, fazendo com que seu desenvolvimento seja normal. A falta de estímulo pode causar o silêncio e o desinteresse dessas crianças ou adolescentes, por isso, percebe-se a importância do recurso manipulativo e da adaptação no processo de contato do aluno com a escola.

Compete avultar que os materiais desenvolvidos buscaram atender as especificidades perceptuais de um aluno com baixa visão, mas também podem ser utilizados com alunos normovisuais, visando assim respeitar o propósito da inclusão escolar que tem por objetivo a igualdade de oportunidades educacionais independentemente das necessidades educacionais dos alunos.

É válido ressaltarque esta pesquisa, ao pautar-se em abordagem qualitativa, não pressupõe generalizações, mas sim a avaliação de dois materiais didáticos para o ensino de Biologia, visando à adequabilidade dos mesmos para o referencial perceptual do aluno com baixavisão.

Tais materiais foram elaborados a partir das necessidades observadas no processo de ensino de um aluno com baixa visão, ao perceber que no decorrer das aulas o mesmo não manifestava interesse, permanecendo sempre debruçado sobre a mesa com picos de atenção quando era chamado. Tais comportamentos serviram de estímulo para a necessidade de criação de algo que o tirasse de seu estado apático e despertasse seu interesse e o mantive mais motivado para aprender, aumentando também a sua permanência em sala de aula, visto que Pietro sempre saía do ambiente da sala.

Uma investigação rápida com outros professores revelou que esse tipo de comportamento era constante em outras disciplinas além da lecionada pela pesquisadora, com exceção das aulas de Educação Física ou aulas práticas em geral. No entanto, a apresentação dos materiais adaptados gerou justamente o interesse que se desejava, porparte do aluno, pois foi estimulado, tocando e questionando os recursos manipulativos utilizados junto aos demais alunos, conforme ilustrado nas figuras 1, 2 e 3.

 ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​ ​​​​ Figura 1​​ - Alunos tocando o material (Fonte: Acervo da pesquisadora)